“Tudo é rio é uma obra-prima, e não há exagero no que afirmo. É daqueles livros que, ao ser terminado, dá vontade de começar de novo, no mesmo instante, desta vez para se demorar em cada linha, saborear cada frase, deixar-se abraçar pela poesia da prosa. Na primeira leitura, essa entrega mais lenta é quase impossível, pois a correnteza dos acontecimentos nos leva até a última página sem nos dar chance para respirar. É preciso manter-se à tona ou a gente se afoga.”
Martha Medeiros
Eis que, logo no primeiro capítulo, a gente se espanta! Que história é essa, minha gente? É uma mistura de sensações. Como bem ressalta a sinopse, a narrativa é precisa, delicada e poética. Não dá para parar de ler, ao entrar no rio você é levado pela correnteza. Assim como na vida. Independente da dor ou da importância do que nos acontece, a vida não para, ela segue seu fluxo e cabe a nós nos recuperarmos enquanto seguimos em frente.
“A vida dá um jeito de manter a gente vivo mesmo quando a gente morre de dor”.
Um casal jovem vivendo o auge de sua paixão, cheios de sonhos e planos, que vão se materializando com o apoio da família e amigos. De longe, tudo ia bem, era como um conto de fadas, foram feitos um para o outro, era o que todos pensavam.
Entretanto, por baixo de tanto amor, nas camadas mais profundas, surge a obsessão e o ciúme. No início, tudo era compreensível, a combinação da imaturidade com a paixão, às vezes, resultava em atitudes exageradas. O amor e a lembrança dos dias bons sempre falavam mais alto.
“A loucura começa como a doença, miúda. Vai se alastrando célula a célula, ocupando tudo, destruindo a saúde, acabando com a vida de quem não encontra recurso para deter os pensamentos ruins, fazedores dos mais profundos infernos”.
Até que um dia, como uma tromba d'água que chega sem avisar, tudo muda. O que parecia impossível acontece e, um dia normal, vira total escuridão. Desnorteados, o casal vê crescer um abismo entre eles e, nessa solidão compartilhada, cada um vai em busca de um refúgio.
Tudo é Rio incomoda. A grande questão que a autora apresenta é: seria possível perdoar o imperdoável? Até que ponto conseguimos superar algumas situações e seguir adiante?
O final do livro perturba, gera desconforto, é difícil de engolir. Mas literatura é isso. Tem muita realidade nas páginas de Tudo é Rio e isso dói.
Humanizando comportamentos questionáveis, compreendemos que, às vezes, fazemos só o que podemos. E, como um rio — querendo ou não — vamos continuar fluindo, a vida continua, porque tudo passa, tudo muda... tudo, Tudo é Rio.
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"Os lábios dele tocaram de leve nos lábios dela, como o pouso de mil borboletas. Tomaram uma distância miúda, quase invisível, e se encontraram de novo, um vai e vem sereno embalou os dois aumentando aos poucos a vontade de demorar ali. As línguas se tocaram macias, se afastaram tímidas, se entregaram a uma brincadeira de dançar juntas, exploraram o desenho da boca, tocaram nos dentes perolados, venceram todas as distâncias, reconheceram texturas, tomaram gosto. Um molhando o outro com suas águas boas, um dentro do outro naquele primeiro beijo de parar o mundo. Os olhos fechados num escuro quente. As mãos tocando os cabelos desalinhados, agradando as faces avermelhadas pelo calor de dentro. É para coisas assim que nascemos. Quem para o tempo nesse sentir sai diferente. Muda. Conhece a força de existir."
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"Os lábios dele tocaram de leve nos lábios dela, como o pouso de mil borboletas. Tomaram uma distância miúda, quase invisível, e se encontraram de novo, um vai e vem sereno embalou os dois aumentando aos poucos a vontade de demorar ali. As línguas se tocaram macias, se afastaram tímidas, se entregaram a uma brincadeira de dançar juntas, exploraram o desenho da boca, tocaram nos dentes perolados, venceram todas as distâncias, reconheceram texturas, tomaram gosto. Um molhando o outro com suas águas boas, um dentro do outro naquele primeiro beijo de parar o mundo. Os olhos fechados num escuro quente. As mãos tocando os cabelos desalinhados, agradando as faces avermelhadas pelo calor de dentro. É para coisas assim que nascemos. Quem para o tempo nesse sentir sai diferente. Muda. Conhece a força de existir."


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