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Eterno

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O que há com a lua hoje. Não sei dizer, talvez seja seu formato, sua circunferência imperfeita, suas manchas negras, seus segredos. Quanto mistério deve existir neste espaço infinito, o que será que você sabe sobre nós, oh! Rainha da Escuridão. Nós que a vossa face observa complacente, que invadimos seu palco para interpretar nosso curto teatro da vida. Pergunto-me por que estas questões se passam pela minha cabeça. Porque logo esta noite passei a admirar aquela que encantou o céu noturno por toda minha vida, e só agora pude perceber sua formosura. Talvez seja uma espécie de solidão. Talvez eu esteja procurando no céu algo que preencha o vazio dentro de mim. Espere! Mas não há vazio dentro de mim. Ou há? Não importa, pois a hora corre solta quando o pensamento divaga. Já é tarde e amanhã preciso acordar cedo. Deito-me na cama, fazendo o possível para esquecer minha repentina admiração pelos corpos celestes. Porém minha preocupação logo se dissipa, pois um sonho começa a tomar o lugar d...

Sangue Pt. 5

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Ok. Aqui estou, no meio do nada, cercado por um monte de evangélicos egocêntricos que pensam ser superiores ao restante da humanidade, com um pastor maluco que diz ser meu pai e ter dois mil e quinhentos anos de idade. Fico imaginando se quando acordar vou conseguir lembrar deste sonho, e porque diabos eu não acordo logo. O homem que se diz meu pai continua a olhar fixamente para mim, mas agora eu vejo nitidamente o brilho vermelho em seus olhos e sua expressão já não é mais tão tranqüila e amigável como antes. – “Mais uma vez a história se repete, e a cria se volta contra o criador. Infelizmente ‘filho’, meu tempo é curto e não posso desperdiçar o trabalho que venho realizando por quase cinco gerações.” – Os ajudantes, que antes estavam boquiabertos, retomam a compostura e assumem posições distintas ao meu redor. – “Parece que herdou a mediocridade de sua mãe. Se você quer agir como um inferior deve ser tratado como um. Segurem-no!”. Cercado por todos os lados, observo os ajudantes ap...

Sangue Pt. 4

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Entro em uma sala grande, a parede do fundo está totalmente coberta por uma cortina, um pouco a frente da cortina há uma mesa grande de madeira e, sentado em uma poltrona, atrás da mesa o “pastor” olha para mim com um sorriso no rosto. Ao seu lado, seus jovens ajudantes assumem postura militar, dois de cada lado. “Finalmente você chegou, meu filho, a muito aguardo esse momento, por favor sente-se.” - diz o pastor com sua voz melodiosa apontando para uma cadeira do lado oposto da mesa. Sento-me lentamente na cadeira, olhando nos olhos do pastor. “Ducar, sirva um pouco de água para o nosso garoto.” - olho para traz e vejo o homem com sobretudo da biblioteca. Desta vez ele está sem chapéu e eu posso ver que seu rosto está coberto de cicatrizes de queimaduras, um de seus olhos é quase fechado, horrível. Ele pega uma jarra que está em cima de uma mesinha do lado direito da porta, e enche um copo com água. Ele me entrega o copo e eu não consigo desviar os olhos de seu rosto. “Exposição exces...

Sangue Pt. 3

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Confesso que, na hora, não dei muita atenção ao ocorrido, continuei com minha vida normalmente, até a morte de meu pai. Meu pai tinha 75 anos, foi numa segunda-feira de madrugada que eu recebi seu telefonema. Estava com muita dificuldade para falar, em meio a gemidos roucos me disse para pegar o diário na escrivaninha do quarto e o telefone ficou mudo. Assim ele morreu, ataque cardíaco fulminante. Desliguei o telefone e corri para casa onde ele morava e lá estava seu corpo sem vida, ainda com o telefone na mão. Após o enterro, fui até seu quarto e peguei o diário, sentei em sua cadeira de leitura e comecei a folheá-lo. O diário começa no dia 13 de dezembro de 1974, dia de meu nascimento e da morte de minha mãe. Meu pai sustentou durante minha vida inteira que minha mão havia morrido de complicações no parto, eu nunca tive razões para duvidar disso. Vou reproduzir alguns trechos do diário assim como foi escrito por meu pai: “Conheci Madalena grávida. Ela nunca quis falar sobre o pai da ...

Sangue Pt. 2

Sempre fui apaixonado pela leitura, talvez devido a minha doença ou a morte prematura de minha mãe, meu pai sempre foi superprotetor, impedindo, sempre que possível, que eu saísse de casa o que me levou aos livros. Dias e noites de leitura, imerso em todos os assuntos possíveis, absorvia conhecimento como uma esponja. O que me deu base suficiente para arrumar emprego na redação de um jornal de grande tiragem. Depois de um ano já trabalhava em casa, no segundo já tinha comprado a Harley, apesar de nunca usa-la, talvez o simples fato de olhar para ela me dava a sensação de liberdade que nunca tive. Era uma tarde quente e eu resolvi sair um pouco do apartamento e aproveitar o ar condicionado da biblioteca. Estava olhando a parte sobre ocultismo, que conhecia como a palma de minha mão, quando percebi um livro diferente. Como todo fã de literatura, qualquer livro que tenha uma encadernação antiga, daquelas com lombada redonda e costuras expostas, chamam logo minha atenção. Aquele livro em e...

Sangue Pt. 1

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"... Seja, pois, o motivo de tuas ações e dos teus pensamentos sempre o cumprimento do dever, e fazer as tuas obras sem procurares recompensa, sem te preocupares com o teu sucesso ou insucesso, com teu ganho ou o teu prejuízo pessoal. Não caias, porém, em ociosidade e inação , como acontece facilmente aos que perderam a ilusão de esperar uma recompensa das suas ações . ..." ( Baghavad - Gita ) Finalmente encontrei a cidade. Cinco dias comendo poeira, quase sem dormir, me alimentando pouco e com este sol insuportável fritando meus miolos. Não sei se aguentaria mais um dia. Vejo a cidade no vale abaixo de ponta a ponta, é pequena e isolada, praticamente no meio do nada, pergunto-me como as pessoas conseguem viver em um lugar assim. Dou partida novamente em minha Harley , meus braços estão dormentes, quase não consigo acelerar. Preciso arrumar um lugar para descansar. Sinto novamente o gosto de terra na boca, reparo que quanto mais próximo fico da cidade mais inóspito e sem v...

Um Conto de Natal

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Era uma vez um anjo chamado Jeremias. Ao contrário dos outros anjos do Céu, Jeremias tinha um sonho: ele queria tornar-se humano e viver na Terra. Todos no Céu achavam-no estranho, não conseguiam compreender por que alguém deixaria o Paraíso para viver junto com os homens. Imaginem só, diziam em sua ausência, conviver no meio de tanta violência e miséria, sentir fome e frio, ter que lutar constantemente contra os pecados capitais. Também tinham medo da reação de Deus, afinal ser anjo é uma dádiva concedida por Ele. Não que Jeremias não gostasse de seu trabalho, ele adorava ajudar os humanos, e era justamente por isso que queria tornar-se um deles. Acreditava que desta maneira poderia entender melhor a humanidade e ajudá-los com maior eficiência. Além disso, queria sentir o que os humanos sentiam, sentir a grama molhada pelo orvalho em seus pés, sentir o vento em seu rosto, o calor do sol, o gosto salgado da água do mar, e todas as coisas simples que os humanos geralmente nem percebem....