26 de junho de 2011

O Labirinto e o Minotauro

Havia um labirinto na antiga Grécia, na ilha de Creta. Esse labirinto foi criado com o intuito de abrigar umas das feras do mundo antigo chamada Minotauro: uma criatura que tem corpo de homem, cabeça de touro e dentes de leão, os quais usa para devorar todos que se aproximam.

Conta-se que o rei de Atenas, Egeu, fez um acordo com o rei Minos para que não invadissem sua amada cidade; de sete em sete anos o rei Egeu deveria enviar à ilha de Creta sete rapazes e sete moças para que a cidade de Atenas permanecesse intacta, pois a frota marítima de Minos era numerosa e terrível.

Mas aconteceu que Teseu, filho do rei, se apresentou para embarcar junto às 14 pessoas oferecidas em sacrifício, porém, com o intuito de matar o Minotauro. O rei Egeu insistiu para que seu filho não embarcasse em tão desesperada missão, mas Teseu estava irredutível; por fim, seu pai concordou com seus planos; Teseu faz a viagem até a ilha de Creta, e consegue convencer o rei Minos a aceitar o acordo de libertar Atenas dessa obrigação caso ele conseguisse matar o Minotauro.

Na noite anterior, Ariadne, filha de Minos, vai até o quarto de Teseu e lhe dá de presente um punhal e um carretel de fio de ouro, dizendo-lhe “Ainda que você tenha força para matar o monstro, precisará achar o caminho para fora do Labirinto. São tantas curvas e desvios escuros, tantas passagens falsas e vias sem saídas, nem mesmo meu pai conhece todos os segredos. Se está determinado a levar adiante esse plano, leve isso.”

- Logo que entrar no Labirinto – ela disse -, amarre a ponta do fio numa pedra e segure com firmeza o carretel todo o tempo. Quando quiser sair, o fio será seu guia.
- Por que está fazendo isso ? Estará em grande perigo, se seu pai descobrir.
- Sim – Ariadne respondeu lentamente – Mas se eu nada fizer, você e seus amigos estarão em perigo ainda maior.

E Teseu descobriu que a amava.

Na manhã seguinte, Teseu foi levado ao labirinto. Tão logo os guardas o deixaram, atou a ponta do fio a uma pedra aguçada e se pôs a andar devagar, segurando firmemente o precioso carretel. Avançou pelo corredor mais largo, do qual saíam outros à esquerda e à direita, até chegar a uma parede. Voltou sobre seus passos e tentou outra passagem, e mais outra, parando a cada passo para tentar ouvir o monstro. Atravessou muitas passagens escuras e tortuosas, voltando às vezes a lugares por onde já passara, mas adentrando cada vez mais o Labirinto. Finalmente chegou a um salão cheio de pilhas de ossos. O monstro estava próximo.

Sentou-se, quieto, e ouviu ao longe um ruído abafado, como o eco de um rugido. Levantou-se e prestou atenção. O som estava mais perto e mais alto, não rouco como o bufar de um touro; era um ruído mais estridente, mais fino. Teseu abaixou-se rapidamente e apanhou um punhado de terra do chão do Labirinto, empunhando com a outra mão o punhal.

O bufar do Minotauro se aproximava cada vez mais. Já se ouvia o barulho dos pés, ecoando pesados no chão. Um rugido, uma bufada e silêncio. Teseu recuou para o canto mais escuro de uma via estreita e se agachou. Seu coração batia forte. Veio o Minotauro. Percebendo a figura agachada, deu um rugido alto e avançou diretamente para ele. Teseu pulou e, desviando para o lado, atirou um punhado de terra nos olhos da besta.

O Minotauro urrou de dor. Com as mãos monstruosas esfregou os olhos, bramindo em confusão. Sacudiu fortemente a cabeçorra, rodopiou, estendendo as mãos para encontrar a parede. Estava totalmente cego. Teseu agarrou o punhal, esgueirou-se por trás do monstro e desfechou-lhe um golpe rápido nas pernas. O Minotauro veio ao chão com um urro e um estrondo, mordendo o chão com os dentes de leão, debatendo-se, as mãos dilacerando o ar. Teseu esperou a chance e, quando as mãos em garra pararam de se agitar, enfiou três vezes a lâmina afiado do punhal no coração do Minotauro. O corpo se contorceu no ar e caiu, quieto.

Teseu ajoelhou-se para agradecer aos deuses e, ao terminar a prece, pegou o punhal e cortou fora a cabeça do Minotauro. Segurando a cabeça degolada, pôs-se a seguir o fio para fora do Labirinto. Parecia que nunca mais conseguiria sair daquelas passagens escuras e sinistras. Teria o cordão se partido em algum lugar e ele, afinal, estava perdido ? Seguiu ansiosamente até chegar à entrada, onde deixou-se cair exaurido pela luta e caminhada.

- Não sei que milagre o fez sair vivo do Labirinto – disse Minos, ao ver a cabeça do monstro. – Manterei minha palavra. você e seus companheiros estão livres. Agora haverá paz entre seu povo e o meu. Boa viagem.

Teseu sabia que devia a vida e a libertação de sua terra à coragem de Ariadne, e sabia que não partiria sem ela. Alguns dizem que pediu sua mão ao rei, que concedeu com prazer. Outros afirmam que ela escapuliu para o navio no último minuto antes da partida sem o conhecimento do pai. Seja como for, os amantes estavam juntos quando a âncora foi levantada e o navio partiu de Creta.

Mas esse final feliz se mistura à tragédia, como acontece em muitas histórias. Pois o capitão do barco não sabia que deveria içar velas brancas para anunciar a vitória de Teseu e o rei Egeu que, do alto de um penhasco perscrutava aflito as águas, viu as velas negras surgirem no horizonte. Seu coração se partiu e ele despencou do alto do penhasco em pleno mar, que hoje se chama mar Egeu.

Adaptado de Andrew Lang. Retirado de “O Livro das Virtudes” – William J. Bennett
fonte: www.labirintodamente.com.br

22 de junho de 2011

A Relação entre uma Cadeira e a Criação do Universo

(Hermes) Vê aquela cadeira, Benedito?

(Benedito) Claro, um belo exemplar talhado em madeira nobre.

(H.) Você sabe quem a talhou?

(B.) Certamente algum carpinteiro, mas não o conheci...

(H.) Do que necessitou para fazer esta obra?

(B.) Bem, além da madeira, provavelmente as ferramentas para o entalhe.

(H.) Ignoremos as ferramentas, você concordaria comigo em que o material principal foi à própria madeira, certo? Pois bem, imaginemos este nobre carpinteiro prestes a executar o entalhe, o que diria se no seu ateliê não existisse nenhuma madeira?

(B.) Bem, que ele certamente precisaria ir a alguma madeireira para comprar mais madeira...

(H.) Mas e se não existissem madeireiras?

(B.) Como assim? Nesse caso teria ele mesmo que ir derrubar árvores e extrair a madeira.

(H.) E se não existissem árvores? E se não existisse nenhuma madeira no mundo?

(B.) Porque suas conversas sempre ficam tão estranhas?

(H.) Isso não importa agora, o que importa é que você pense no que lhe falei...

(B.) Bem, supondo que não existissem árvores, nós tampouco existiríamos, e esse carpinteiro subitamente se torna alguma espécie de deus, ao meu entender.

(H.) Mas pensemos na cadeira: mesmo que não houvesse madeira nenhuma, ainda assim ela já estaria pronta, concorda?

(B.) Pronta aonde?

(H.) Na mente do carpinteiro. Ou você acredita que um carpinteiro possa dar sequer o primeiro entalhe nalgum bloco de madeira antes de ter a cadeira pronta em sua mente?

(B.) Compreendo. De fato: mesmo que não existisse madeira nenhuma no ateliê, o carpinteiro já poderia ter a cadeira pronta na própria mente, apenas esperando a madeira para construí-la.

(H.) Mas se não existisse madeira nenhuma, ela antes teria de ser inventada...

(B.) Aonde quer chegar?

(H.) Ora, e não é óbvio? Para se construir uma cadeira à partir do nada, antes é necessário inventar todo o Cosmos!

fonte: textosparareflexao.blogspot.com

13 de junho de 2011

A Clockwork Orange

Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971)
por Anthony Burgess

1. Aspectos mais significativos do filme.

A capa do filme já avisa: “Trazendo as aventuras de um jovem rapaz cujos principais interesses são o estrupo, ultra-violência e Beethoven” – partindo dessa premissa, somos levados ao futuro, no caso o ano de 1995, como indica o nome do carro pilotado em uma das cenas (Durango 95), da maneira como era imaginado em 1965. Tendo assistido ao filme anteriormente, assistir novamente em 2007 é quase um paradoxo ontológico: o diretor, Stanley Kubrick, nos leva por cenários que por vezes nos fazem imaginar que se trata de um futuro distópico, e por vezes nos trazem uma sensação estranhamente familiar – na segunda vez parece que estamos olhando para o passado, e não para o futuro.

Lembrando da primeira vez que assisti a esse filme, por volta de 1994, a sensação era de que ele não se passava no futuro, apenas se tratava de uma realidade onde as pessoas usavam roupas e cortes de cabelo realmente esquisitos, e falavam de maneira pitoresca... Ora, essa realidade não difere muito daquilo que sempre foi e ainda é a Inglaterra. Naquele tempo eu usava fitas-cassete para gravar músicas, que eram escutadas em um toca-fitas portátil. Bom, já havia discos compactos, mas utilizávamos muito mais as fitas-cassetes. No filme Alex usava fitas-cassete compactas, como aquelas que são utilizadas em gravadores de voz.

Agora, em 2007, o filme parece incrivelmente atrasado. Problema? Mais parece um acerto, uma vez que a projeção prevista pelo diretor era 1995. Como muitos filmes futuristas, o futuro apresentado tornou-se passado, mas diferente da maioria dos filmes que fazem especulações sobre o futuro, este encontrou um lugar muito próximo no presente.

Outro aspecto interessante do filme é a preferência musical do protagonista/narrador; quando eu estava passando pelo processo de divórcio e fui questionar a guarda da minha filha, uma assistente social me perguntou: “Que tipo de filme e que tipo de música você mais gosta?” – a mesma pergunta foi repetida por uma psicóloga quase um ano depois, e em ambas ocasiões eu sabia que era uma pergunta repleta de preconceitos, sendo que escolhi uma resposta vaga, apelando para a generalidade e ecleticismo. Não adiantou muito pois aquelas pessoas já possuíam uma idéia formada a meu respeito antes mesmo de me entrevistar, mas teria sido pior se eu tivesse simplesmente respondido que adoro assistir filmes de terror trash, com muito sangue de molho de tomate e gosma de massinha de modelar, e ouvir punk rock. A questão é que os gostos subjetivos de uma pessoa não a tornam melhor ou pior.

Em 1999 culminava uma onda de violência nas escolas americanas, que vinha crescendo ao longo da década, com o massacre de Columbine. Na época, muito mais do que questionar o bullying, a prescrição indiscriminada de psicotrópicos, e o fácil acesso às armas de fogo nos EUA, apontaram para as músicas que os atiradores escutavam, para as roupas que eles vestiam, e para os jogos presentes em seus computadores.

Em uma das edições do programa Fantástico da Rede Globo, os repórteres acusavam o movimento punk e o movimento skinhead de promover a violência em São Paulo. O problema não está no grupo ou nos gostos de um grupo: alguns anos atrás alguns garotos de classe média alta do Distrito Federal puseram fogo em um índio; e outros, da mesma classe, amarram uma cadela prenha a um carro e a arrastaram pelas ruas da cidade de Pelotas. Dirão então que os playboys são um problema?

O filme mostra um jovem psicopata carismático e bem articulado – apesar das gírias, que escuta Beethoven e se veste de branco para roubar, espancar, estuprar e matar pessoas sem motivo algum. Como suas preferências encaixariam-se nos esteriótipos que nossa sociedade tanto recorre quando precisa espiar suas próprias faltas?

Também me marcou muito a cena onde o protagonista é agredido de forma teatral e degradante em frente à duas platéias, uma na tela e outra na sala de aula, provocando reações iniciais de riso, que foram diminuindo à medida que a violência persistia e aumentava. Uma vez que o protagonista estava enquadrado como um criminoso, um pária, ele se torna alvo de toda violência reprimida do restante da sociedade, que espera que as autoridades expressem essa violência de forma física, moral e psicológica. As fantasias destrutivas que todos temos guardadas encontram sua gratificação na negação do aspecto reintegrador, no esquecimento do aspecto reparativo, e no uso desmedido do aspecto punitivo da pena – a base tríplice do direito penal. Em busca desse tipo de gratificação, a sociedade ignora que muitos desses indivíduos irão voltar para as ruas, mais violentos, mais experientes e mais doentes do que quando foram institucionalizados.

Em um documentário exibido no Discovery Channel, foi abordada uma lei aprovada no estado da Califórnia, durante um período de comoção pública em decorrência a um crime violento, que prevê uma pena de 25 anos à prisão perpétua para qualquer criminoso que fosse condenado pela terceira vez, independente do crime que tenha cometido: não importa se o indivíduo foi condenado pela terceira vez por furtar uma garrafa de uísque levado pelo alcoolismo, ele será condenado à uma pena que o tornará um fardo para os cofres públicos, e um fantasma em vida, sem esperança de recuperação. A realidade no Brasil, embora no papel não seja tão absurda, não é muito diferente. As instituições rotulam os indivíduos, e ignoram séculos de teorias que vem sendo elaboradas desde o direito romano, passando pelos textos de Beccaria e Ihering, até o burocrático movimento legislativo brasileiro, que não possui velocidade para acompanhar as transformações sociais, e nem mesmo se importa em cumprir com seus pressupostos de eqüidade, humanismo, reparação e recuperação. Basta fazer a vontade do povão, basta empregar a punição.

Reflexo disso está no sucesso do filme Tropa de Elite, visto como divertido e como violência justificada. Embora não tenha visto o filme, ouvi comentários que diziam: “Então o policial começou a bater no guri de 14 anos, depois botou o ‘saco’ na cara dele... Não, mas a violência foi justificada, o policial queria saber onde morava o traficante.” Não sei se compreendi direito a lógica desse pensamento, mas não vejo justificativa, primeiro porque o policial estava agredindo um adolescente e não o traficante, segundo porque a legitimidade do poder do policial emana das leis, que por sua vez não endossam a tortura em caso algum. Mas entendo o prazer obtido pelo público, ao ver o policial espancando o garoto, o marginal, eles se colocam na pele do policial, e estão espancando aquele chefe que não sai do pé, aquele flanelinha que riscou o carro, o político corrupto... Acontece que o chefe continuará sendo chefe, o flanelinha vai continuar nas sinaleiras, e o político continuará sendo corrupto; e talvez algum garoto, de alguma favela, que foi de fato espancado por um policial, pegue uma arma e resolva descontar sua raiva, buscar uma gratificação para esse sentimento destrutivo, coincidentemente num dos espectadores do filme que vibraram com a violência policial.

2. Críticas e posicionamentos do argumento do filme.

O filme questiona conceitos de justiça, moralidade, bondade e liberdade. Um momento bastante ilustrativo disso foi o pensamento do protagonista ao sair da prisão: “Agora estou livre.” Como foi levantado pelo padre, após a terapia de aversão Alex se comportaria como um cidadão exemplar, mas não por livre escolha, ele simplesmente não conseguiria agir de maneira diferente. É a mecanização do ser humano que dá origem ao título do filme, “uma laranja mecânica” - assim se comportaria o indivíduo condicionado.

Também, como comentado anteriormente, o filme discute sobre como a sociedade tende a responder violência com violência, por meios que utilizam-se de seus dotes intelectuais para fins não racionais – uma vez que os resultados tendem a voltar-se contra a sociedade: o final do filme dá a entender que, após superar sua terapia de aversão, Alex aceita um cargo no governo, já imaginando como irá resumir de maneira mais dissimulada sua agressividade.

No filme, Alex está condicionado a um comportamento agressivo e cruel, cuja causa se encontra numa psicopatologia de personalidade anti-social, psicopata. Seriam seus amigos também psicopatas? Todos os jovens que agem de maneira irresponsável, destrutiva e agressiva são psicopatas? Acredito que não; sem recorrer às hipóteses estereotipantes já descartadas na primeira questão, defendo que parte da crueldade infantil se deve a um córtex pré-frontal ainda em formação, e parte da agressividade e impulsividade adolescente se devem a uma maior atividade do sistema límbico. Ao atingir a maturidade, a atividade desse sistema, relacionado justamente aos impulsos agressivos, à sexualidade, à emoção, diminui, e uma atividade maior no lobo frontal, relacionado ao juízo e ao controle das emoções, pode ser notada. A maturação biológica do sistema nervoso não é desculpa para atos de vandalismo, o ser humano vive em sociedade, e na sociedade desenvolve-se de maneira civilizada... Ou não?

Seriam os jovens que, desprovidos de deficiências mentais, cometem atos reprováveis, vítimas do corpo social que o cerca, seu núcleo familiar, sua escola, amigos e exemplos adultos, uma mídia que glamoriza a violência e a impunidade? Se são as regras da sociedade que são quebradas, e se tais regras devem ser introjetadas no jovem pelo corpo social que o cerca, então considero justo atribuir à sociedade parte da falha no desenvolvimento do caráter daquele que é taxado de delinqüente. Ao invés de, por dentro, nos regozijarmos com a violência sofrida por esses indivíduos quando são punidos, deveríamos sofrer junto com eles por nossa falta.

3. Associação das idéias apresentadas às Teorias Comportamentais.

Vejo o filme como uma crítica à psicologia behaviorista como proposta por Watson e Skinner. O aparato utilizado para manter o protagonista imóvel e de olhos abertos lembra o gosto behaviorista pelas máquinas e uma questão que muitos estudantes se fazem ao ouvir, por exemplo, a história de Pavlov e seus cães: como Pavlov poderia considerar que, um cachorro que teve seu aparelho bucal perfurado para a implantação de um medidor de salivação feito de metal, estaria demonstrando um comportamento normal, “num ambiente controlado e livre de influências externas?”

Mais que isso, a utilização da segregação de ratos, pombas e outros animais para a realização de experiências num ambiente que não é em nada natural ao animal, também deve influir sobre seu comportamento, da mesma maneira que já foi comprovado que ao serem observados por pesquisadores, grupos de seres humanos se comportam de maneira diferente do usual – em geral procurando responder de maneira positiva à espectativa manifesta consciente ou inconscientemente pelo pesquisador. Técnicas como a double-blind já foram elaboradas para minimizar esses e outros vicariantes, mas a crítica do filme é dirigida ao behaviorismo clássico. Ao ver o protagonista na cadeira, que procura exercer algum nível de domínio sobre sua atenção, não pude deixar de me lembrar imediatamente da foto da cadeira projetada por Skinner para seu uso pessoal, cuja a finalidade era a mesma: controlar sua atenção.

O tipo de comportamento modelado na cena dos filmes é o comportamento operante, pois procurava modificar as ações violentas voluntárias do protagonista. Ao definir o que é e o que não é sua ciência de modificação do comportamento, Skinner alega que seu objetivo é “aliviar os problemas humanos.” Em resposta a isso, o filme levanta a questão: quem decide o que é um problema e o que não é um problema? Um indivíduo completamente violento certamente é um problema, mas um indivíduo incapaz de se defender está fadado à morrer de maneira horrível.

Fazendo uma comparação, recentemente fiquei surpreso na aula de Psicofisiologia ao saber que as deformidades apresentadas pelos portadores da doença de Hansen (vulgarmente conhecidos como leprosos) não são causadas pela doença, mas pela incapacidade desses indivíduos de sentir dor, dessa maneira, quando sofrem algum ferimento, ou quando da infecção por fungos ou bactérias, não buscam tratamento até que seja tarde demais, além de sofrerem ferimentos por não serem capazes de sentir o aviso de dano tissular durante suas atividades cotidianas; de maneira semelhante a um indivíduo que não é capaz de se defender, porém, a diferença crucial é que tal indivíduo sente a dor, seja ela moral ou física.

O grande problema da terapia aversiva vista no filme foi a completa eliminação do impulso agressivo, ao invés de um moderamento do mesmo, e a situação incapacitante em que o reflexo condicionado à agressão deixava o indivíduo, impedindo que esse recorresse à fuga de tal situação, quando a esquiva não fosse possível. A técnica Ludovico aleijou psicologicamente o protagonista.
O abuso da punição por diferentes indivíduos, quando a modalidade de punição negativa é usada recorrentemente, também está presente no decorrer filme. O protagonista já havia cumprido um certo tempo de prisão, e teria sua capacidade defensiva maculada, quando implorou para que não prejudicassem seu gosto por música clássica, ao que o cientista respondeu “que este poderia ser o elemento punitivo.” Mais adiante, na demonstração para políticos e para administradores institucionais, o protagonista é novamente punido, vindo a ser punido outra vez ao chegar em casa, e mais uma vez quando é capturado por uma de suas vítimas.

Não sou um defensor dos malfeitores, assim como os defensores dos direitos humanos também não são. Quero um mundo seguro e melhor para todos, uma sociedade justa e harmoniosa; e é justamente por isso que quero mecanismos legais que não piorem aqueles que cometeram delitos mas, tendo consciência da realidade legal do país, de que esses indivíduos voltarão às ruas mais cedo ou mais tarde, que eles pelo menos tenham a chance de uma recuperação, ou que recebam os cuidados cabíveis quando tal recuperação não for possível. Se eu tivesse que responder à pergunta clássica daqueles que defendem penas cada vez mais duras, do “e se fosse com um ente amado, com alguém da tua família?”, eu admitira desconhecer a minha reação, mas caso eu não tivesse a coragem de fazer justiça com as minhas próprias mãos e depois arcar com as conseqüências legais das minhas ações – que fossem consqüências justas ou injustas, eu estaria sendo duplamente covarde se esperasse que o instrumento coercitivo do governo agisse com iniqüidade ou me sentisse vingado com isso.

Ironicamente, foi uma das vítimas do protagonista que promoveu sua recuperação instantânea durante um procedimento de punição negativa, ao fazer com que ele tentasse suicídio.

“Seres humanos e sociedades fazem parte de um processo cíclico que se move pra frente e para trás no tempo, entre a bondade e a maldade, o totalitarismo e a liberdade.”

fonte: psicologiarg.blogspot.com

1 de junho de 2011

Alexandre o Grande e o Período Helenístico - parte 2 de 2

O Período Helenístico

O Período helenístico normalmente é entendido como um momento de transição entre o esplendor da cultura grega e o desenvolvimento da cultura romana. Tal concepção está associada a uma visão eurocêntrica de cultura e portanto torna secundários os elementos de origem oriental, persa e egípcia, apesar de ter esses elementos como formadores da cultura helenística

Antecedentes

A Grécia viveu seu momento de maior esplendor cultural no século V a.C., particularmente a cidade de Atenas. Foi o Século de Ouro ou Século de Péricles. Época de apogeu da democracia, a cidade combinou guerra e desenvolvimento. Contraditoriamente esse século foi marcado por inúmeras guerras, que viram nascer e ruir o imperialismo de Atenas, Esparta e Tebas sucessivamente, esse último já no século IV a.C.

As constantes guerras que envolveram as cidades gregas foram responsáveis por grande mortalidade, gastos e destruição, enfraquecendo o "mundo grego" e conseqüentemente, facilitando as invasões estrangeiras. A conquista do território grego pelos macedônios combinou a decadência grega e a ascensão do Reino de Felipe II.

A história não dá importância para o Reino da Macedônia. Formado a partir do século VIII a.C. ocupou principalmente as regiões de planícies ao norte da Grécia, vivendo principalmente da agricultura e pastoreio, uma vez que o controle ateniense das regiões costeiras forçou os governantes macedônios a se concentrarem na unificação dos planaltos e planícies da Macedônia, tarefa completada por Amintas III, que reinou de 389 a 369 a.C. os dez anos seguintes foram marcados por crises internas, com a rebelião da nobreza territorial contra o poder central.

Em 359 a.C., Filipe II sucedeu a Perdicas III no trono macedônio. Depois de restabelecer e até ampliar as fronteiras do país, consolidou-as mediante o estabelecimento de colônias e apoderou-se da região mineira de Pangeu, onde conseguiu o ouro necessário para cunhar sua própria moeda. Dessa maneira atraiu a nobreza e ao mesmo tempo organizou uma poderosa estrutura militar, responsável pela conquista dos territórios gregos, com a vitória na Batalha de Queronéia em 338 a.C. Felipe II foi assassinado no ano seguinte e o sucedeu seu filho, Alexandre III.

Aspectos da Cultura Helenística

Da enciclopédia Barsa

Alexandria, no Egito, com 500.000 habitantes, tornou-se a metrópole da civilização helenística. Foi um importante centro das artes e das letras, e a própria literatura grega tem uma fase chamada "alexandrina". Lá existiram as mais importantes instituições culturais da civilização helenística: o Museu, espécie de universidade de sábios, dotado de jardim botânico, zoológico e observatório astronômico; e a biblioteca, com 200.000 volumes, salas de copistas e oficinas para preparo do papiro.

Do ponto de vista cultural, o período compreendido entre 280 e 160 a.C. foi excepcional. Tiveram grande desenvolvimento a história, com Políbio; a matemática e a física, com Euclides, Eratóstenes e Arquimedes; a astronomia, com Aristarco, Hiparco, Seleuco e Heráclides; a geografia, com Posidônio; a medicina, com Herófilo e Erasístrato; e a gramática, com Dionísio Trácio. Na literatura, surgiu um poeta extraordinário, Teócrito, cujas poesias idílicas e bucólicas exerceram grande influência. O pensamento filosófico evoluiu para o individualismo moralista de epicuristas e estóicos, e as artes legaram à posteridade algumas das obras-primas da antigüidade, como a Vênus de Milo, a Vitória de Samotrácia e o grupo do Laoconte. À medida que o cristianismo avançava, a civilização helenística passou a representar o espírito pagão que resistia à nova religião. O espírito grego não desapareceu com a vitória dos valores cristãos; seria, doze séculos depois, uma das linhas de força do Renascimento.

fonte: www.historianet.com.br