26 de outubro de 2012

O Gato de Schrodinger


O “princípio da incerteza” é um dos conceitos mais discutidos da discutidíssima Física do século 20, e diz respeito à nossa dificuldade em observar e medir o comportamento das partículas sub-atômicas. Para ilustrá-lo, o físico Erwin Schrodinger concebeu um experimento. Certas substâncias radioativas têm exatamente 50% de probabilidade de emitir radiação no período de uma hora. O estado dessa substância depois de uma hora de iniciada a medição pode ser descrito através de uma equação matemática que expressa essa possibilidade dupla, este ser-ou-não-ser, este haver-ou-não-haver radiação.

Schrodinger sugeriu que puséssemos um gato vivo numa caixa fechada, e que a emissão radioativa desencadeasse um mecanismo que mataria o gato. Uma hora depois do gato posto ali, a equação matemática que descreve o experimento nos diz que o que há dentro da caixa é um gato metade morto, metade vivo. As duas possibilidades se equivalem, e só ao abrirmos a caixa, e constatarmos o que aconteceu, faremos com que uma delas se concretize e a outra se evapore. Enquanto a caixa não for aberta (enquanto o observador não interferir com o fenômeno observado) é preciso ficar lidando com o conceito de um gato meio-morto, meio-vivo.

A parábola do “Gato de Schrodinger” (porque pra mim isto é uma parábola equivalente às do Novo Testamento) é um exemplo do curioso mundo da Física Quântica, onde não existem realidades, e sim probabilidades, e é nossa interferência quem faz essas probabilidades se inclinarem numa ou noutra direção. Eu posso sugerir outras parábolas igualmente eficazes (corrijam-me os físicos, caso eu esteja errado).

Por exemplo, a parábola do Pênalte Decisivo. Na decisão do Campeonato, o time A joga pelo empate para ser campeão; o time B, pela vitória. O jogo está 0×0 e no último minuto (já incluídos os descontos) é marcado um pênalte a favor do time B. Ou seja: se o pênalte for convertido, B é campeão; se for desperdiçado, A é campeão. Talvez as probabilidades não sejam rigorosamente iguais. É mais fácil converter um pênalte do que perder; mas imaginemos também o nervosismo do cobrador… Enfim: a equação matemática desse momento do jogo proclama a existência sólida, palpável, com 50% de chances para cada lado, de dois Universos contraditórios e mutuamente excludentes (ou seja, um não pode existir ao mesmo tempo que o outro): A campeão, B campeão. A bola foi colocada na marca, o goleiro retesa o corpo e abre os braços, o atacante começa sua corridinha rumo à bola…

É um momento quântico. Duas probabilidades inconciliáveis são, naquele instante, absolutamente possíveis, e estão coexistindo no mesmo espaço físico. Dentro de alguns segundos, uma delas será real, a outra desaparecerá para sempre. É assim o mundo da matéria. Cada vez que observamos algo, fazemos com que uma coisa “tenha acontecido”, e todas as outras probabilidades “tenham deixado de acontecer”.

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1 de outubro de 2012

Pensar Dói

A juventude é sempre prisioneira da falta de experiência. O garoto chega à universidade, vindo de um ensino médio destruído, e então é solicitado a construir narrativas. No entanto, não viveu o suficiente para que as narrativas tenham frases impregnadas pelo que aconteceu com ele. Ou então, até viveu, mas não domina os instrumentos da linguagem para que as frases possam dar às vivências o caráter efetivo de vivências.  Nessa hora, é vítima das fórmulas e esquemas abstratos que, enfim, decora rapidamente de modo a poder conversar com os professores, virar “peixinho”, ganhar uma bolsa ou simplesmente “tirar a nota para passar”. Fica revoltado com aquele professor que insiste em fazê-lo pensar, que o empurra para refletir sobre suas vivências. Pois para quem não tem a linguagem, pensar dói.

É difícil fazer um garoto assim entender que frases do tipo “o capitalismo é injusto” não podem significar nada para ele e, vindo da boca dele, não ter valor algum. Outro professor disse que é tal frase que significa! Como ele está vazio, ele absorve esse “saber” abstrato e, então, tendo êxito nas conversas e provas, imagina que está com a chave do sucesso escolar nas mãos. Um garoto assim fica revoltado com o filósofo. Quando ele aparece para mim, eu quero que ele narre experiências vividas, e não as não vividas ou impossíveis de serem vividas.

É impossível viver a realidade da frase “o capitalismo é injusto”. É uma frase filosófica, quase que teórica. De teoria filosófica, é claro. Não é uma frase empírica. Nem o mais pobre dos trabalhadores pode sentir “a injustiça do capitalismo”. O que pode talvez sentir é o enfiar a mão no bolso e não tirar nada mesmo tendo trabalhado o mês todo. Assim, a frase “trabalhei o mês todo, ganhei e, enfim, o que ganhei não deu para comprar o pão de hoje cedo” espelha uma experiência. É uma vivência. Ao narrar isso o pensamento começa a funcionar. Mas quem começa pelo “o capitalismo é injusto”, mesmo que tenha vivido a pobreza, não terá narrado absolutamente nada de válido. Não começando pelo vivido, nunca conseguirá dizer com propriedade a frase teórica de modo a fazer o interlocutor compreender que há também vida na frase abstrata.

A frase “o capitalismo é injusto” é abstrata e filosófico-teórica e, então, não é da experiência individual. Cada um de nós não vive no âmbito da universalidade do campo filosófico teórico, mas no campo da individualidade concreta dos relatos históricos. Por isso é a história e não a filosofia a matéria pela qual se pode começar a filosofar. Mas se a própria história, antes de ser história, já é teoria da história, então fica ainda pior. Desse modo, também estudantes de história – até de história! – se revoltam ao ter de conversar comigo, filósofo. Para eles, também, pensar dói!

A revolta é maior ainda quando eu os forço a escrever e falar e pensar. Eles querem fazer isso, mas sem esforço. Fogem da reflexão. Pensar dói. Eles querem viver de fórmulas prontas, jargões, que descansam a mente. Funcionam como aquele que vê o pai morto e, então, para fugir da dor diz para si mesmo “ele estava velho, viveu a vida e, enfim, todos morrem”. Todos morrem? Ora, vá dar os pêsames a alguém cujo pai morreu e diga isso! Caso o filho seja inteligente, mas sem paciência com a sua grosseria e burrice, você levará um tapa na cara. E bem merecido.

Não estou dizendo que não podemos generalizar. Generalizar nós não só podemos como devemos. Quem diz “não vale generalizar” é, em geral, completamente ignorante ou quase um retardado mental. Tudo que temos é a indução e a dedução, vamos do particular para o geral e do geral para o particular a todo o momento. Além disso, uma das figuras de linguagem que mais usamos é a sinédoque (o carioca é malandro, o são paulino é bambi, etc.). Não é a respeito disso que falo. Refiro-me à situação de vida que nos faz não conseguir pensar e escrever. Essa situação tem um correspondente num drama filosófico medieval, o conflito entre universais e particulares.

Não vivemos no âmbito do mundo das palavras universais. Janela é universal. Não encontramos com janela e, sim, com esta janela que está aqui no meu escritório neste momento ou com a janela da sala de aula em que estarei amanhã etc. Minha vivência não é da janela, mas de cada janela em particular que, aliás, são bem diferentes umas das outras. Não posso ter vivência do que é universal, só do particular. No entanto, sem pestanejar não posso dizer que o universal não existe – se ele não existe então como podem existir seus exemplares, as janelas? Em parte, esse drama da filosofia medieval é, mutatis mutandis, o drama do jovem que não consegue pensar. Ele quer escrever sobre janelas, mas como não tem experiência delas, e não pode ter, teria de começar a escrever sobre a janela do seu quarto, que realmente representa algo para ele. No entanto, não aprendeu a escrever sobre isso. Ele foi sequestrado no ensino básico, levado para uma terra da ignorância, e ali onde ele teria de ter vivido a experiência de relatar experiências ele viveu um nada. Então, ele se matricula na universidade e capta um discurso abstrato que fala da teoria das janelas, que fala da janela universal.  Ele começa a relatar o mundo da abstração e da universalidade sem ter chegado a ele pelos caminhos normais, a passagem da vivência à teorização, e eis que sua fala soa artificial ou então maluca. Sabe falar da janela e, no entanto, tem uma dificuldade imensa de reconhecer a janela da sala em que está como janela! Alguns percebem isso. Percebem que esse tipo de coisa os torna esquisitos e tolos. Mas muitos estudantes não percebem essa situação por que são premiados pelos seus professores quando repetem a conversa em nível teórico, como papagaios ou até mesmo como quem entendeu o básico da teoria das janelas, mas nunca escreveu sobre o caso de ter de pular uma janela na infância.

Como hoje em dia a sala de aula nos serve pouco, dado que, na maioria das universidades, a pressão para não ensinar – vinda de colegas e de alunos – é muito forte, os estudantes que querem aprender procuram na internet os intelectuais que ganharam algum renome. Às vezes os encontram. Muitos recorrem a mim, na internet, para ter um professor – não raro o único que vão ter durante toda uma vida escolar. Os mais corajosos querem ouvir de mim um diagnóstico que lhes dê condições de avançar. Ora, sem a pressão da escola, eles e eu somos livres. Posso dizer-lhes abertamente: você está sendo burro, pare com frases do tipo “o capitalismo é injusto” e comece a ver as frases que fazem sentido na sua carne, na sua mente como um todo, e não somente na sua memória ou nos esquemas que você absorveu. Ou seja, eu digo: pense! Mas, pensar dói.

Uns nem sabem mais o que é que eu quero dizer quando digo “pensem”. Eles acreditam que “pensar” é falar o que têm na cabeça. Mas não é. Pensar é refletir. Pensar é ter a linguagem para falar das experiências que tem a ver antes com o sentido que com a verdade. Lembro a eles que Sócrates, segundo o filósofo positivista Schlick buscava o significado, não a verdade. A verdade tem a ver com a ciência, o significado tem a ver com a filosofia. Então, digo para o jovem: pense, mas pense como filósofo, ou seja, busque o sentido e o significado, veja se antes de tudo a coisa que pensa “bate em você”, isto é, lhe causa o “sentimento” de fazer sentido. Peço que escreva sobre o namoro, imaginando que então terão um bom começo. Mas aí descubro que o namoro é vazio, que não há planos, não há conversa, não há sonhos, não há esmero recíproco (a relação erótica de Platão, no Fedro) e nem mesmo o sexo é bem feito. Não há namoro. Nem mesmo a vivência do namoro ele possui.

Isso se agrega à experiência ou, melhor, à falta de experiência que é não terem podido escrever e usar da linguagem para que esta pudesse desenvolver o pensamento. E pior, se são religiosos, adeptos dessas novas religiões de hoje no Brasil, a própria linguagem é castrada, porque muitas palavras são malignas, são “palavrões”, são pecados, e ao ficarem sem palavras ficam impedidos de fazer o próprio cérebro funcionar. Não tendo linguagem não há pensamento, não havendo pensamento não há propriamente atividade mental digna. O cérebro torna-se um órgão que perde para o cerebelo. Muitos ficam adultos assim. Terminam a universidade assim. Serão os burros, os idiotizados, os imbecilizados. Para estes, não haverá mais cura. Poderão viver bem até, uma vez que, no Brasil, é proibido chamar o burro de burro e o imbecil de imbecil. Oficialmente somos um país de gênios. No entanto, para uma boa parte desses gênios, pensar dói.

© 2012 Paulo Ghiraldelli Jr, 55, filósofo, escritor e professor da UFRRJ
fonte: http://ghiraldelli.pro.br