1 de fevereiro de 2013

John Malkovich


POR TULLIO DIAS

A MAIORIA DAS PESSOAS JÁ SE SENTIU INSATISFEITA COM O RUMO DE SUAS VIDAS. Seja no emprego ou num relacionamento familiar/amoroso, é comum fantasiar como seria viver uma vida completamente diferente. Ser uma pessoa rica, bonita, bem sucedida. Ou pelo menos se sentir reconhecido e amado por pelo menos 15 minutos. O roteirista Charlie Kaufman explorou esse conceito de uma maneira muito original em Quero Ser John Malkovich, longa-metragem de estreia de Spike Jonze.

No filme lançado em 1999, e estrelado por John Cusack, Cameron Diaz, Catherine Keener, e pelo próprio John Malkovich, os personagens descobrem um portal que leva a pessoa diretamente para o inconsciente de Malkovich. Toda a experiência dura no máximo 15 minutos, mas é o suficiente para cada um sentir como é ser alguém com um propósito definido, com uma profissão consolidada, alguém que já encontrou o seu lugar no mundo. E isso mexe demais com a cabeça do trio principal, especialmente Cusack e Diaz, que ficam apaixonados pela provocante personagem de Keener.

A personificação dos personagens é brilhante. Craig (Cusack) é o retrato perfeito de um homem fracassado. Seus cabelos compridos e bagunçados, sua barba mal feita, as roupas amassadas, e a expressão de que o mundo nunca lhe deu chance alguma de ser feliz. Só isso explicaria o fato dele ser casado com Lotte (Diaz, que está quase irreconhecível), uma baranga maluca que transformou a casa em um zoológico. Lotte é a versão feminina do desleixo de Craig: seus cabelos selvagens deixariam a menina da animação Valente (2012), feliz de saber que não está sozinha. Todo o lar do casal é deprimente, deixando a dúvida de como é que essas duas pessoas ficaram tão acomodadas ao ponto de serem incapazes de dar um basta na relação. Já Maxine (Keener) surge como uma inescrupulosa mulher que faz questão de pisar em cima de Craig e despertar o calor sexual adormecido de Lotte. Sabem aquela coisa da teoria Pedestáltica? O bobão sempre se apaixona pela pessoa errada. Maxine é a pessoa que está acima de Lotte e Craig. Ela mexe com a cabeça do casal (com direito a uma cena muito engraçada, quando os dois tentam ataca-la ao mesmo tempo), mas por boa parte do filme deixa de pensar especialmente no seu próprio bem estar. Malkovich é o títere de carne (Podcast Cinema em Cena feelings) que deixa o roteiro redondinho.

O script de Kaufman não se preocupa em explicar de verdade a origem do portal. Em determinado momento um dos personagens secundários revela algumas informações, mas nada conclusivo. Uma decisão acertada, pois deixa no ar o mistério non-sense e ainda dá a pista para explicar o destino de Craig (uma eterna vítima do amor não correspondido). Pouco importa a origem real do andar 7/2 ou de como é possível existir um portal capaz de levar uma pessoa para dentro da cabeça de outra: Quero Ser John Malkovich é uma história sobre pessoas infelizes e perdidas em suas vidas, sem saber quem são. A viagem para o insconsciente do ator é apenas um mero detalhe para algo maior.

A bela introdução com o show dos títeres de Craig deixa evidente a vontade do personagem em ter uma vida diferente e usufruir de carinho e reconhecimento na carreira. Ele imagina os aplausos, a atenção, a chance de ser desejado. O próprio título dá pistas sobre o enredo, mas Jonze faz questão de deixar o espectador ciente disso desde o começo. Infelizmente, momentos depois o roteiro repete a ideia de uma maneira pouco sutil, praticamente jogando na cara do público sobre o que é o filme.

Quero Ser John Malkovich marcou o belo começo da carreira de Jonze no cinema, cujo nome era mais conhecido no universo dos videoclipes. Ele dirigiu “Praise You” e “Wheapon of Choice”, do Fatboy Slim; “Oh, It`s So Quiet”, da Bjork; vários vídeos do Beastie Boys; e mais recentemente trabalhou com os canadenses do Arcade Fire no curta-metragem The Suburbs. Ao lado de Kaufman, o cineasta criou uma obra única e que evolui a cada revisitação e convida o espectador a refletir sobre a sua própria identidade. Sem dúvida, um dos filmes indispensáveis da década de 90.

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