27 de janeiro de 2012

Os Gunas

Texto extraído do livro
O SEGREDO DA SAÚDE E DA LONGEVIDADE
Dr. Krishan Chopra

Os três Gunas - Sattva, Rajas e Tamas - são considerados como as qualidades fundamentais da natureza, ou Prakriti. Para podermos compreender isso plenamente, temos de examinar a interpretação hindu da criação e da dissolução do universo.

Diz-se que de tempos em tempos o universo se dissolve e depois é recriado. Quando ele está em sua fase não-definida, não manifestada, ele permanece em um estado latente no decorrer de um certo período. Durante este tempo, os Gunas encontram-se em um estado de absoluto equilíbrio, e Prakriti ou a natureza material, não se manifesta. Enquanto os Gunas permanecem não-definidos, Prakriti continua indefinido e o universo existe apenas em um estado potencial. Tudo que existe é consciência, o Ser Puro ilimitado (Purusha) e não-manifestado, Brahma, o Absoluto Imutável, que não tem começo nem fim.

Logo que o equilíbrio é perturbado, tem início a recriação do universo. A partir da consciência imutável, o universo, em constante transformação, é mais uma vez criado. Os Gunas participam de uma enorme variedade de combinações e permutações, em que um ou outro predomina sobre os restantes. Isso dá origem à interminável variedade de fenômenos físicos e mentais que formam o mundo que vivenciamos.

Os Gunas são às vezes descritos como energias, outras vezes como qualidades ou forças. Eles representam um triângulo de forças simultaneamente opostas e complementares que governam tanto o universo físico quanto nossa personalidade e padrões de pensamento na vida do dia-a-dia, dando origem às nossas realizações ou fracassos, alegrias ou infelicidade, saúde ou doença. A qualidade de nossas ações dependem das Gunas.

No que diz respeito à ação, Sattva é a força criativa, a essência da forma que precisa se concretizar. Tamas é a inércia, o obstáculo a esta concretização. Rajas é a energia ou o poder por meio do qual o obstáculo é removido e a forma toma-se manifesta.

Examinemos o exemplo oferecido por Swami Prabhavananda e Christo-pher Isherwood em How to Know God (Como Conhecer Deus) (o Yogasutras, de Patanjali). Suponhamos que um escultor deseje criar na pedra uma estátua do Senhor Krishna. A idéia da estátua, a forma que o artista vê em sua imaginação, o impulso criativo e a imagem são inspirados por Sattva. O mármore representa Tamas, a solidez sem forma, o obstáculo que precisa ser superado.

Prabhavananda diz que o próprio escultor também pode encerrar um elemento de Tamas. Ele pode pensar: "Estou cansado; por que eu deveria trabalhar tanto? Isto é difícil demais! Acho que vou fazer algo mais fácil." Mas aqui a força de Rajas vem em sua ajuda. O Rajas se manifesta na energia e na vontade do escultor, por meio das quais ele vence na sua mente a letargia Tamásica e a inércia sólida da pedra. Rajas também inspira o esforço físico e muscular que ele aplica ao trabalho.

Swami Prabhavananda afirma que se uma quantidade suficiente de rajas for gerada, o obstáculo de Tamas será superado e a forma ideal concebida por Sattva será criada no bloco de granito. Este exemplo demonstra que os três Gunas são necessários para qualquer ação criativa. "Sattva, sozinho", ele diz, "seria apenas uma idéia não concretizada, Rajas sem Sattva seria uma mera energia não direcionada; Rajas sem Ta-mas seria como uma alavanca sem um fulcro; e Tamas sozinho seria a inércia."

Sattva é freqüentemente considerado como representando a pureza e a tranqüilidade; Rajas se refere à ação, ao movimento e à violência; Tamas é o princípio da solidez, da imobilidade, da resistência e da inércia. Os três Gunas estão presentes em tudo, mas um deles sempre predomina. Sattva prevalece à luz do sol, Rajas num vulcão em erupção e Tamas num bloco de pedra.

Na nossa mente, os Gunas se apresentam num relacionamento que muda com rapidez. Deste modo, experimentamos disposições de ânimo diferentes durante o dia.

Se Sattva predomina, podemos ter momentos de inspiração, de afeto desinteressado, de alegria tranqüila ou calma meditativa. Sattva representa a pureza, a luz, a inteligência, o conhecimento, a satisfação, a clareza mental, a bondade, a compaixão e a cooperação. A calma e a paz prevalecem numa pessoa ou numa disposição de ânimo Sattvica. As qualidades da pessoa na qual Sattva predomina incluem a coragem, a integridade, a pureza, a capacidade de perdoar e a ausência da paixão, da raiva e do ciúme. Esta pessoa é calma e feliz. Quando Sattva domina, a mente torna-se firme como a chama de uma lamparina num local onde não há vento. A mente equilibrada ajuda tanto a atividade quanto a meditação, e aquele que é predominantemente Sattvico pode meditar com eficácia e é capaz de ter uma verdadeira concentração.

A pessoa com Rajas dominante nunca fica em paz. Rajas provoca explosões de raiva e gera um desejo intenso. Ele toma a pessoa inquieta e descontente, e dá origem a uma contínua atividade. A pessoa com Rajas dominante não consegue permanecer sentada, quieta; ela precisa ter sempre algo para fazer. A grande paixão é Rajas, assim como a agressividade, a ganância e a raiva também o são. Ao mesmo tempo, Rajas na sua expressão mais positiva, especialmente quando combinado com Sattva, é responsável por uma atividade construtiva e criativa, pois gera energia, entusiasmo e coragem física.

A pessoa Rajásica adora o poder e os objetos dos sentidos. Ela se apresenta em constante atividade e anseia sempre por mais poder para ser capaz de dominar os outros; ela também é muito apegada às coisas materiais. A manifestação direta do Rajas dominante é a chama insaciável do desejo. Os desejos precisam ser satisfeitos, caso contrário a vida da pessoa toma-se deplorável! Quanto mais ela consegue satisfazer os desejos, mais ela quer. Ela sempre quer mais - um pouco mais, um pouco mais, um pouco mais... Ela conquista riqueza, poder, reputação e fama, mas nunca é suficiente.

Quando Rajas é intenso, ele encobre o conhecimento e torna-se inimigo da sabedoria. Sob a pressão de Rajas, o homem alimenta ganância, luxúria e raiva. Rajas ataca a pessoa através dos sentidos, da mente e do entendimento, iludindo a alma encarnada. Para que a pessoa tenha uma vida proveitosa e paz de espírito, Rajas precisa ser apaziguado e equilibrado com Sattva.

"Tamas", diz Swami Prabhavananda, "é atoleiro mental no qual afundamos sempre que Sattva e Rajas deixam de prevalecer." Quando Tamas prevalece na nossa mente há pouco ânimo, externamos algumas das nossas piores características: preguiça, burrice, obstinação e um desespero forte e profundo. Tamas é freqüentemente descrito como a escuridão e a inércia. O desamparo, o embotamento, a confusão, a resistência e a ignorância também são características de Tamas. Quando ele domina, a mente pode ficar esquecida, sonolenta, apática e incapaz de qualquer ação ou pensamento proveitoso.

A pessoa dominada por Tamas pode se parecer mais com um animal do que com um ser humano; sem poder fazer um julgamento claro, ela pode deixar de distinguir entre o certo e o errado. Como um animal, ela viverá para si mesma e poderá ferir os outros para satisfazer seus desejos. Na sua ignorância e cegueira, ela poderá praticar ações perversas.

”Sattva adere à felicidade, Rajas à ação, enquanto Tamas, verdadeiramente encobrindo o conhecimento, adere à negligência.”
BHAGAVAD-GITA (14:9).

fonte: yogalotus.com.br

6 de janeiro de 2012

Psicologia do Sono

Atualmente a comunidade científica discute cada vez mais a importância do sono e de sua qualidade, já que sua alteração pode trazer diversas repercussões clínicas e comportamentais. O sono, fonte de interesse científico, é para alguns pesquisadores uma incógnita. A palavra sono nos vem do latim somnus; em grego é Hipnos. De acordo com a mitologia, Hipnos é irmão gêmeo de Tânatos (que significa morte), nascido de Nix (noite) por partenogênese (desenvolvimento a partir de um óvulo não fecundado). Em grego, Yrvos (Hýpnos) vem da raiz indo-européia swep (dormir, aquietar-se) e a palavra urvos (Hýpnos) deu origem ao swebban (fazer adormecer, matar, no inglês antigo).

Assim, o sono é algo que causa o interesse de estudiosos e historiadores desde a origem dos tempos. É vital.

As horas que são entregues ao sono afetam de modo geral a saúde humana. Porém, mais relevante que a quantidade é a qualidade do sono. De acordo com Reimão (2000) o indivíduo pode chegar a passar cerca de um terço da sua existência em sono. Entretanto, o número de horas de sono para adultos pode variar muito, para mais ou para menos, e a diferença entre a sensação de sono adequado ou insuficiente é a qualidade, essência fundamental que irá definir a conseqüência no dia posterior, a ausência de sono no decorrer do dia e o fato de sentir-se refeito.

A medicina ao envolver-se com a problemática do sono, concentrou-se na compreensão deste estado fisiológico complexo e de sua arquitetura, regulação, função e fisiologia, utilizando-se de um suporte de aparelhos eletrofisiológicos com capacidade para registrar a atividade elétrica cerebral nos seres humanos, visando uma perspectiva cientifica para as variáveis levantadas.


Em 1929, com o desenvolvimento do eletroencefalograma (EEG) por Hans Berger, o sono era considerado como um fenômeno passivo. Acreditou-se também que o sono se desse por deficiência, pois o cérebro não receberia mais os impulsos nervosos provenientes dos órgãos dos sentidos; o sono era considerado como uma simples diminuição do estado desperto. Em 1953, com a descoberta do sono paradoxal ou sono REM (rapid eyes movement – movimento rápido dos olhos), chegou-se ao ponto de que o sono é um fenômeno ativo. (SOUZA; GUIMARÃES, 1999).

Além da identificação do sono com movimentos oculares rápidos (REM), em 1953, outro fato que despertou o entendimento do sono foi o redimensionamento do hipotálamo no controle do sono-vigília em 1998, antes atribuído apenas a estruturas localizadas no tronco cerebral e tálamo. (ALOE; AZEVEDO; HASAN, 2005).

Com a descoberta do sono REM veio à confirmação de que o sono não é um estado tranqüilo, onde o corpo funciona em marcha lenta. Das pessoas que são acordadas durante o sono REM, 80% se lembram com nitidez de estar sonhando naquele momento. (USHER, 1991).

A este estado fisiológico, comum a todos os vertebrados e a quase todos os animais, o sono, apesar de cercado por mistério e fascinação tem seu estudo científico iniciado recentemente em meados do século XX. Por ser um tema amplamente estudado, mas ao mesmo tempo ainda obscuro, o conceito de sono é algo que apresenta algumas divergências de autor para autor.

Este estado fisiológico complexo, o sono, não deve ser considerado somente como um estado de desligamento da rotina diária, tampouco como perda de tempo, ou extensão do dia como para muitos, a real importância do sono deve ser descoberta pela sociedade em geral. Estudantes, trabalhadores, pais e mestres precisam reconhecer que durante o sono nosso organismo desempenha diversas funções essenciais para nosso equilíbrio físico e mental.

Os distúrbios do sono acarretam em um grande número de acidentes de trânsito e ocupacionais. Os custos e as conseqüências relacionadas aos distúrbios do sono podem ser direta e indiretamente significante a toda sociedade. Desde acidentes domésticos, ocupacionais, de trânsito, entre outros, os distúrbios do sono podem produzir seqüelas maiores. Indivíduos com distúrbio do sono, não expõem apenas a sua saúde, mas compromete toda sociedade em um risco de acidente de transito ou de trabalho/industrial.

De acordo com Martinez (1999) dominar o sono deveria ser uma meta de qualquer governo sábio. Continua-se, entretanto, ignorando a cadeia do sono e considerando-os inevitáveis. O sono é algo que foge do nosso controle, e ainda que se tente encurtar o tempo desta condenação, nos enganamos, já que apenas parcelamos a sentença em cochilos esporádicos. A insônia é uma vitória sobre a prepotência do sono, mas pagamos por ela com olheiras e a mente embotada do dia seguinte, pois o sono é vingativo.

Segundo Madalena (1979), a maioria dos autores divide a patologia do sono em distúrbios para menos (hipossônia) e distúrbios para mais (hipersônia). A hipossônia, ou seja, a falta de sono pode estar relacionada com a faixa etária, de modo que o sujeito não se sente diretamente atingido, conseguindo ter estabilidade para a realização da sua rotina, entretanto, quando decorre de uma desordem funcional, doença orgânica ou tensão psíquica ela se torna patológica e conseqüentemente, o sujeito sente-se diretamente afetado física e psiquicamente. Já a hipersônia, que é identificada como o estado de sonolência excessiva, pode ser espontânea ou provocada, transitória ou permanente. A sonolência pode apresentar-se como fisiológica ou condicionada por inúmeros fatores.

Com base em diferentes autores e épocas, percebo que a má qualidade do sono traz inúmeros transtornos que podem prejudicar o indivíduo em todas as áreas, desde a social, emocional até a laboral. Quer por opção ou devido à demanda e exigências da sociedade atual somos constantemente expostos à privação de sono e a seus conseqüentes efeitos adversos.

REFERÊNCIAS:
REIMÃO, R. Temas de medicina do sono. São Paulo: Lemos Editorial, 2000.
SOUZA, J. C.; GUIMARÃES, A. M. Insônia e qualidade de vida. Campo Grande – MS: Editora UCDB, 1999.
ALOE, F.; AZEVEDO, A. P. de; HASAN, R. Mecanismos do ciclo sono-vigília. Revista Brasileira de Psiquiatria, maio 2005, vol.27 supl. 1, p.33-39. ISSN 1516-4446.
MADALENA, J. C. O sono. Porto Alegre: Fundo Editorial Byk Procienx, 1979.

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