23 de novembro de 2012

Mad World


Gary Jules

Tudo a minha volta são rostos familiares.
Lugares desgastados.
Rostos desgastados.
Claro e cedo para suas corridas diárias
indo a lugar nenhum.
Indo a lugar nenhum.
E suas lágrimas estão enchendo seus óculos.
Sem expressão.
Sem expressão.
Escondo minha cabeça, quero afogar meu sofrimento.
Sem amanhã.
Sem amanhã.
E eu acho isso meio engraçado.
E eu acho isso meio triste.
Os sonhos nos quais estou morrendo são os melhores que eu já tive.
Eu acho difícil te dizer
eu acho difícil de entender.
Quando as pessoas andam em círculos fica um muito muito
Louco Mundo.
Louco Mundo.

Crianças esperando pelo dia que se sentirão bem:
Feliz Aniversário.
Feliz Aniversário.
E eu me sinto do jeito que toda criança deve.
Sentar e Escutar.
Sentar e Escutar.
Cheguei à escola e estava muito nervoso.
Ninguém me conhecia.
Ninguém me conhecia.
Olá, professora, diga qual é minha lição.
Olhe bem para mim.
Olhe bem para mim.
E eu acho isso meio engraçado.
E eu acho isso meio triste.
Os sonhos nos quais estou morrendo são os melhores que eu já tive.
Eu acho difícil te dizer
eu acho difícil de entender.
Quando as pessoas andam em círculos fica um muito muito
Louco Mundo.
Louco Mundo.
Ampliando seu mundo
Louco Mundo.

15 de novembro de 2012

As Leis de Galileu


As ciências físicas e naturais, em geral, têm na Renascença a sua maior expressão em Leonardo da Vinci e, sobretudo em Galileu Galilei; pelo que diz respeito em especial à astronomia, em Copérnico e Kepler.

Leonardo da Vinci, nascido perto de Florença em 1452, exercitou a sua profissão de artista e técnico em Milão, em Florença, em Roma e na França onde faleceu em 1519. Não nos interessa como artista, mas como cientista, técnico e teórico da ciência. Leonardo não deixou obras sistemáticas e editadas, e sim uma grande quantidade de apontamentos e bosquejos preciosos, publicados mais tarde, em que se revela um gênio soberano e um teórico genial. Aplicou ele imediatamente à técnica, ao domínio da natureza, seus princípios teóricos, em harmonia com os ideais e as conquistas da idade nova.

Leonardo fez uma notável quantidade de pesquisas e de invenções preciosas no campo das ciências: em matemática, física, mecânica, astronomia, geologia, botânica, anatomia, fisiologia, etc. Aplicou a matemática à física, convencido de que era mister partir da experiência, para chegar à razão, isto é, à matemática, que seria a razão que governa o mundo natural.

Entretanto, o grande metodólogo da ciência natural é Galileu Galilei, nascido em Tosacana (Pisa) em 1564. Ensinou nas universidades de Pisa e de Pádua; as seguir, em Florença, como matemático e filósofo. Pela sua defesa do sistema astronômico de Copérnico (heliocêntrico) foi para Roma onde foi processado pelo Santo Ofício, que condenou aquele sistema (1616). Galileu, tendo defendido com persistência o supradito sistema, foi processado e condenado novamente em 1633. Passou seus últimos anos de vida na vila de Arcetri, perto de Florença, onde faleceu em 1642. Entre suas obras são famosas: O Saggiatore (1623), livro polêmico contra os aristotélicos; o Diálogo sopra i due massimi sistemi del mondo (1632), que foi causa do segundo processo; e o Diálogo delle scienze nuove (1638).

Como Aristóteles e Tomás de Aquino, Galileu está convencido de que o conhecimento humano deve firmar-se na experiência; mas, diversamente daqueles dois filósofos que partem da experiência para transcendê-la e construir uma metafísica geral e especial, Galileu fica no âmbito da própria experiência; Galileu estuda o mundo não para conhecê-lo metafisicamente, isto é, para colher as essências imutáveis das coisas, mas fisicamente, isto é, para colher os fenômenos e suas leis. Tais leis julga Galileu sejam as matemáticas; pois, o livro da natureza é escrito com caracteres que são "triângulos, quadrados, círculos, esferas, cones, pirâmides e outras figuras matemáticas muito aptas para tal leitura". Daí a explicação da matemática à física, resultando assim a físico-matemática: o que constituirá o elemento verdadeiramente racional, universal e necessário da ciência moderna, e será tão fecundo em resultados práticos, técnicos.

Para constituir a ciência, portanto, é mister a experiência e a razão, sentido e discurso, como diz Galileu. Quanto ao procedimento metódico e particular para construir a ciência, Galileu distingue três momentos principais: a) a observação; b) a hipótese; c) a experimentação, que é a verificação da hipótese. Esta, quando confirmada experimentalmente, transforma-se em lei.


A ciência galileiana é, por conseguinte, quantitativa, a saber, o seu princípio racional é matemático: é físico-matemática, mecânica. O que é irredutível à quantidade é considerado como subjetivo, escapando ao alcance da físico-matemática. Galileu considera objetivas as propriedades geométrico-mecânicas: a figura, o tamanho, a posição, o movimento, o número - que serão mais tarde chamadas qualidades primárias; ao passo que considera subjetivas (transformação das objetivas por obra dos nossos órgãos sensoriais) as propriedades qualitativas: a cor, o som, o sabor, o frio, o calor - que serão mais tarde chamadas qualidades secundárias.

Como é sabido, a doutrina astronômica heliocêntrica chama-se copernicana, sendo seu verdadeiro fundador Copérnico. Nicolau Copérnico nasceu em Thorn, na Polônia, em 1473. Estudou em vários lugares, especialmente na Itália. De volta à pátria, retirou-se para Frauenburg, onde era cônego, e dedicou-se às meditações astronômicas, cujo resultado publicou na famosa obra De obrium coelestium revolutionibus, publicada em 1543 e dedicada ao papa. O seu sistema astronômico pode ser assim resumido: o mundo é esférico, finito; todos os corpos celestes são esféricos; o movimento dos corpos celestes é circular e uniforme; o Sol está imóvel no centro do sistema e giram-lhe em volta os planetas e também a Terra que tem duplo movimento: diurno em volta do próprio eixo, anual em volta do Sol . Ele também segue o princípio de que a natureza é governada por leis matemáticas: ubi materia, ibi geometria. Caberá mais tarde a Newton completar o sistema com a grande lei da gravitação universal, que explica o equilíbrio dos corpos celestes.

A Ciência Nova e a Metafísica Tradicional

O atomismo mecânico, que Galileu pressupôs para a sua gnosiologia empirista-matemática, está evidentemente em contraste com o seu fenomenismo, porquanto constitui sempre uma filosofia da natureza, contrariamente ao afirmado agnosticismo galileiano sob este aspecto cientificamente fecundo. E tal atomismo mecânico está logicamente em contraste com a convicção religiosa de Galileu, pois o atomismo mecânico implica evidentemente uma concepção materialista da realidade.

Com Galileu começa a tendência da filosofia moderna - que se manifestará claramente no racionalismo de Descartes, Spinoza, Leibniz, etc. - de reduzir a metafísica à física, pela pretensão de explicar tudo matematicamente e considerar a ordem matemática como a ordem ideal da realidade. Pretensão evidentemente infundada, porquanto não se podem reduzir à quantidade o espirito, Deus, a alma nem sequer o elemento qualitativo da realidade empírica. Será mister, portanto, que a ciência moderna, mesmo no seu aspecto racional-matemático, adquira consciência da sua limitação, permanecendo entre os limites da experiência, e não pretenda tornar-se metafísica. E destarte será ela inteiramente valorizável e conciliável com a metafísica tradicional aristotélico-tomista. Esta, por sua parte, terá de se libertar de igualmente infundada pretensão de que também a ciência natural seja filosofia, metafísica. Deste modo, poderá logicamente separar-se da física aristotélica e da astronomia ptolemaica, com que estava de fato, e se julgava de direito, ligada, liame este que, historicamente, sobremaneira prejudicou à metafísica tradicional na idade moderna, como ficou evidente também pelo famoso processo de Galileu.

Neste processo não há duvidar da boa fé de Galileu, católico convicto, nem da dos seus juizes, entre os quais se destaca São Roberto Belarmino. Em todo caso devemos prescindir de tais questões práticas, pessoais, que não concernem à história da filosofia, cujo objeto próprio são as idéias, os sistemas, e não os homens e suas intenções. Temos, de um lado, uma sólida filosofia, que se julgava, sem razão, conexa necessariamente com a ciência da época, cuja ruína, julgava-se erroneamente, acarretaria consigo a ruína da filosofia, que constituía a base racional da religião. E temos, do outro lado, uma ciência prodigiosa, que, erradamente, se punha em contradição com a filosofia tradicional e em conexão com a nova filosofia humanista e imanentista. Tenha-se, acima de tudo, presente a tese geral do matematismo universal, com suas inevitáveis conseqüências materialistas, e a outra tese da infinidade dos mundos, que, erradamente, se julgava derivar do sistema copernicano, heliocêntrico. Acrescenta-se a tudo isso, por parte da igreja católica, o temor da crítica demolidora, que teve tão grave manifestação no livre exame protestante - temor confirmado pela veleidade de interpretação da Sagrada Escritura, por parte de Galileu, para ajustá-la à nova astronomia. E se compreenderá então historicamente o processo e a condenação de Galileu.


A oposição entre sistema ptoleimaco e sistema copernicano, entre a filosofia tradicional e a ciência nova, cessaria no dia em que se adquirisse consciência da natureza infrafilosófica, afilosófica, indiferente, da ciência, se permanecer nos limites da experiência - como deve ser - e se tivesse consciência da sua relatividade. A ciência, portanto, não pode vir a estar em contraste com a filosofia e a teologia, cujo objeto é metafísico; conseqüentemente pode-se e deve-se compor a filosofia tradicional com a ciência nova.

Leia mais: http://www.mundodosfilosofos.com.br/galileu.htm#ixzz24rejUqmY

26 de outubro de 2012

O Gato de Schrodinger


O “princípio da incerteza” é um dos conceitos mais discutidos da discutidíssima Física do século 20, e diz respeito à nossa dificuldade em observar e medir o comportamento das partículas sub-atômicas. Para ilustrá-lo, o físico Erwin Schrodinger concebeu um experimento. Certas substâncias radioativas têm exatamente 50% de probabilidade de emitir radiação no período de uma hora. O estado dessa substância depois de uma hora de iniciada a medição pode ser descrito através de uma equação matemática que expressa essa possibilidade dupla, este ser-ou-não-ser, este haver-ou-não-haver radiação.

Schrodinger sugeriu que puséssemos um gato vivo numa caixa fechada, e que a emissão radioativa desencadeasse um mecanismo que mataria o gato. Uma hora depois do gato posto ali, a equação matemática que descreve o experimento nos diz que o que há dentro da caixa é um gato metade morto, metade vivo. As duas possibilidades se equivalem, e só ao abrirmos a caixa, e constatarmos o que aconteceu, faremos com que uma delas se concretize e a outra se evapore. Enquanto a caixa não for aberta (enquanto o observador não interferir com o fenômeno observado) é preciso ficar lidando com o conceito de um gato meio-morto, meio-vivo.

A parábola do “Gato de Schrodinger” (porque pra mim isto é uma parábola equivalente às do Novo Testamento) é um exemplo do curioso mundo da Física Quântica, onde não existem realidades, e sim probabilidades, e é nossa interferência quem faz essas probabilidades se inclinarem numa ou noutra direção. Eu posso sugerir outras parábolas igualmente eficazes (corrijam-me os físicos, caso eu esteja errado).

Por exemplo, a parábola do Pênalte Decisivo. Na decisão do Campeonato, o time A joga pelo empate para ser campeão; o time B, pela vitória. O jogo está 0×0 e no último minuto (já incluídos os descontos) é marcado um pênalte a favor do time B. Ou seja: se o pênalte for convertido, B é campeão; se for desperdiçado, A é campeão. Talvez as probabilidades não sejam rigorosamente iguais. É mais fácil converter um pênalte do que perder; mas imaginemos também o nervosismo do cobrador… Enfim: a equação matemática desse momento do jogo proclama a existência sólida, palpável, com 50% de chances para cada lado, de dois Universos contraditórios e mutuamente excludentes (ou seja, um não pode existir ao mesmo tempo que o outro): A campeão, B campeão. A bola foi colocada na marca, o goleiro retesa o corpo e abre os braços, o atacante começa sua corridinha rumo à bola…

É um momento quântico. Duas probabilidades inconciliáveis são, naquele instante, absolutamente possíveis, e estão coexistindo no mesmo espaço físico. Dentro de alguns segundos, uma delas será real, a outra desaparecerá para sempre. É assim o mundo da matéria. Cada vez que observamos algo, fazemos com que uma coisa “tenha acontecido”, e todas as outras probabilidades “tenham deixado de acontecer”.

http://universofantastico.wordpress.com

1 de outubro de 2012

Pensar Dói

A juventude é sempre prisioneira da falta de experiência. O garoto chega à universidade, vindo de um ensino médio destruído, e então é solicitado a construir narrativas. No entanto, não viveu o suficiente para que as narrativas tenham frases impregnadas pelo que aconteceu com ele. Ou então, até viveu, mas não domina os instrumentos da linguagem para que as frases possam dar às vivências o caráter efetivo de vivências.  Nessa hora, é vítima das fórmulas e esquemas abstratos que, enfim, decora rapidamente de modo a poder conversar com os professores, virar “peixinho”, ganhar uma bolsa ou simplesmente “tirar a nota para passar”. Fica revoltado com aquele professor que insiste em fazê-lo pensar, que o empurra para refletir sobre suas vivências. Pois para quem não tem a linguagem, pensar dói.

É difícil fazer um garoto assim entender que frases do tipo “o capitalismo é injusto” não podem significar nada para ele e, vindo da boca dele, não ter valor algum. Outro professor disse que é tal frase que significa! Como ele está vazio, ele absorve esse “saber” abstrato e, então, tendo êxito nas conversas e provas, imagina que está com a chave do sucesso escolar nas mãos. Um garoto assim fica revoltado com o filósofo. Quando ele aparece para mim, eu quero que ele narre experiências vividas, e não as não vividas ou impossíveis de serem vividas.

É impossível viver a realidade da frase “o capitalismo é injusto”. É uma frase filosófica, quase que teórica. De teoria filosófica, é claro. Não é uma frase empírica. Nem o mais pobre dos trabalhadores pode sentir “a injustiça do capitalismo”. O que pode talvez sentir é o enfiar a mão no bolso e não tirar nada mesmo tendo trabalhado o mês todo. Assim, a frase “trabalhei o mês todo, ganhei e, enfim, o que ganhei não deu para comprar o pão de hoje cedo” espelha uma experiência. É uma vivência. Ao narrar isso o pensamento começa a funcionar. Mas quem começa pelo “o capitalismo é injusto”, mesmo que tenha vivido a pobreza, não terá narrado absolutamente nada de válido. Não começando pelo vivido, nunca conseguirá dizer com propriedade a frase teórica de modo a fazer o interlocutor compreender que há também vida na frase abstrata.

A frase “o capitalismo é injusto” é abstrata e filosófico-teórica e, então, não é da experiência individual. Cada um de nós não vive no âmbito da universalidade do campo filosófico teórico, mas no campo da individualidade concreta dos relatos históricos. Por isso é a história e não a filosofia a matéria pela qual se pode começar a filosofar. Mas se a própria história, antes de ser história, já é teoria da história, então fica ainda pior. Desse modo, também estudantes de história – até de história! – se revoltam ao ter de conversar comigo, filósofo. Para eles, também, pensar dói!

A revolta é maior ainda quando eu os forço a escrever e falar e pensar. Eles querem fazer isso, mas sem esforço. Fogem da reflexão. Pensar dói. Eles querem viver de fórmulas prontas, jargões, que descansam a mente. Funcionam como aquele que vê o pai morto e, então, para fugir da dor diz para si mesmo “ele estava velho, viveu a vida e, enfim, todos morrem”. Todos morrem? Ora, vá dar os pêsames a alguém cujo pai morreu e diga isso! Caso o filho seja inteligente, mas sem paciência com a sua grosseria e burrice, você levará um tapa na cara. E bem merecido.

Não estou dizendo que não podemos generalizar. Generalizar nós não só podemos como devemos. Quem diz “não vale generalizar” é, em geral, completamente ignorante ou quase um retardado mental. Tudo que temos é a indução e a dedução, vamos do particular para o geral e do geral para o particular a todo o momento. Além disso, uma das figuras de linguagem que mais usamos é a sinédoque (o carioca é malandro, o são paulino é bambi, etc.). Não é a respeito disso que falo. Refiro-me à situação de vida que nos faz não conseguir pensar e escrever. Essa situação tem um correspondente num drama filosófico medieval, o conflito entre universais e particulares.

Não vivemos no âmbito do mundo das palavras universais. Janela é universal. Não encontramos com janela e, sim, com esta janela que está aqui no meu escritório neste momento ou com a janela da sala de aula em que estarei amanhã etc. Minha vivência não é da janela, mas de cada janela em particular que, aliás, são bem diferentes umas das outras. Não posso ter vivência do que é universal, só do particular. No entanto, sem pestanejar não posso dizer que o universal não existe – se ele não existe então como podem existir seus exemplares, as janelas? Em parte, esse drama da filosofia medieval é, mutatis mutandis, o drama do jovem que não consegue pensar. Ele quer escrever sobre janelas, mas como não tem experiência delas, e não pode ter, teria de começar a escrever sobre a janela do seu quarto, que realmente representa algo para ele. No entanto, não aprendeu a escrever sobre isso. Ele foi sequestrado no ensino básico, levado para uma terra da ignorância, e ali onde ele teria de ter vivido a experiência de relatar experiências ele viveu um nada. Então, ele se matricula na universidade e capta um discurso abstrato que fala da teoria das janelas, que fala da janela universal.  Ele começa a relatar o mundo da abstração e da universalidade sem ter chegado a ele pelos caminhos normais, a passagem da vivência à teorização, e eis que sua fala soa artificial ou então maluca. Sabe falar da janela e, no entanto, tem uma dificuldade imensa de reconhecer a janela da sala em que está como janela! Alguns percebem isso. Percebem que esse tipo de coisa os torna esquisitos e tolos. Mas muitos estudantes não percebem essa situação por que são premiados pelos seus professores quando repetem a conversa em nível teórico, como papagaios ou até mesmo como quem entendeu o básico da teoria das janelas, mas nunca escreveu sobre o caso de ter de pular uma janela na infância.

Como hoje em dia a sala de aula nos serve pouco, dado que, na maioria das universidades, a pressão para não ensinar – vinda de colegas e de alunos – é muito forte, os estudantes que querem aprender procuram na internet os intelectuais que ganharam algum renome. Às vezes os encontram. Muitos recorrem a mim, na internet, para ter um professor – não raro o único que vão ter durante toda uma vida escolar. Os mais corajosos querem ouvir de mim um diagnóstico que lhes dê condições de avançar. Ora, sem a pressão da escola, eles e eu somos livres. Posso dizer-lhes abertamente: você está sendo burro, pare com frases do tipo “o capitalismo é injusto” e comece a ver as frases que fazem sentido na sua carne, na sua mente como um todo, e não somente na sua memória ou nos esquemas que você absorveu. Ou seja, eu digo: pense! Mas, pensar dói.

Uns nem sabem mais o que é que eu quero dizer quando digo “pensem”. Eles acreditam que “pensar” é falar o que têm na cabeça. Mas não é. Pensar é refletir. Pensar é ter a linguagem para falar das experiências que tem a ver antes com o sentido que com a verdade. Lembro a eles que Sócrates, segundo o filósofo positivista Schlick buscava o significado, não a verdade. A verdade tem a ver com a ciência, o significado tem a ver com a filosofia. Então, digo para o jovem: pense, mas pense como filósofo, ou seja, busque o sentido e o significado, veja se antes de tudo a coisa que pensa “bate em você”, isto é, lhe causa o “sentimento” de fazer sentido. Peço que escreva sobre o namoro, imaginando que então terão um bom começo. Mas aí descubro que o namoro é vazio, que não há planos, não há conversa, não há sonhos, não há esmero recíproco (a relação erótica de Platão, no Fedro) e nem mesmo o sexo é bem feito. Não há namoro. Nem mesmo a vivência do namoro ele possui.

Isso se agrega à experiência ou, melhor, à falta de experiência que é não terem podido escrever e usar da linguagem para que esta pudesse desenvolver o pensamento. E pior, se são religiosos, adeptos dessas novas religiões de hoje no Brasil, a própria linguagem é castrada, porque muitas palavras são malignas, são “palavrões”, são pecados, e ao ficarem sem palavras ficam impedidos de fazer o próprio cérebro funcionar. Não tendo linguagem não há pensamento, não havendo pensamento não há propriamente atividade mental digna. O cérebro torna-se um órgão que perde para o cerebelo. Muitos ficam adultos assim. Terminam a universidade assim. Serão os burros, os idiotizados, os imbecilizados. Para estes, não haverá mais cura. Poderão viver bem até, uma vez que, no Brasil, é proibido chamar o burro de burro e o imbecil de imbecil. Oficialmente somos um país de gênios. No entanto, para uma boa parte desses gênios, pensar dói.

© 2012 Paulo Ghiraldelli Jr, 55, filósofo, escritor e professor da UFRRJ
fonte: http://ghiraldelli.pro.br

4 de setembro de 2012

A Executiva no Céu

por Max Gehringer

Foi tudo muito rápido.

A executiva bem-sucedida sentiu uma pontada no peito, vacilou, cambaleou.
Deu um gemido e apagou.

Quando voltou a abrir os olhos, viu-se diante de um imenso portal.
Ainda meio zonza, atravessou-o e viu uma miríade de pessoas.
Todas vestindo cândidos camisolões e caminhando despreocupadas.
Sem entender bem o que estava acontecendo, a executiva bem-sucedida abordou um dos passantes:

-Enfermeiro, eu preciso voltar urgente para o meu escritório, porque tenho um meeting importantíssimo. Aliás, acho que fui trazida para cá por engano, porque meu convênio médico é classe A, e isto aqui está me parecendo mais um pronto-socorro. Onde é que nós estamos?

-No céu.
-No céu?...
-É. Tipo assim, o céu. Aquele com querubins voando e coisas do gênero.
-Certamente. Aqui todos vivemos em estado de gozo permanente.

Apesar das óbvias evidências (nenhuma poluição, todo mundo sorrindo, ninguém usando telefone celular), a executiva bem-sucedida custou um pouco a admitir que havia mesmo apitado na curva.

Tentou então o plano B: convencer o interlocutor, por meio das infalíveis técnicas avançadas de negociação, de que aquela situação era inaceitável. Porque, ponderou, dali a uma semana ela iria receber o bônus anual, além de estar fortemente cotada para assumir a posição de presidente do conselho de administração da empresa.

E foi aí que o interlocutor sugeriu:
-Talvez seja melhor você conversar com Pedro, o síndico.
-É? E como é que eu marco uma audiência? Ele tem secretária?
-Não, não. Basta estalar os dedos e ele aparece.
-Assim? (...)
-Pois não?
A executiva bem-sucedida quase desaba da nuvem.

À sua frente, imponente, segurando uma chave que mais parecia um martelo, estava o próprio Pedro.
Mas, a executiva havia feito um curso intensivo de approach para situações inesperadas e reagiu rapidinho:
-Bom dia. Muito prazer. Belas sandálias. Eu sou uma executiva bem-sucedida e...
-Executiva... Que palavra estranha. De que século você veio?
-Do 21. O distinto vai me dizer que não conhece o termo "executiva"?
-Já ouví falar. Mas não é do meu tempo.

Foi então que a executiva bem-sucedida teve um insight.

A máxima autoridade ali no paraíso aparentava ser um zero à esquerda em modernas técnicas de gestão empresarial. Logo, com seu brilhante currículo tecnocrático, a executiva poderia rapidamente assumir uma posição hierárquica, por assim dizer, celestial ali na organização.

-Sabe, meu caro Pedro. Se você me permite, eu gostaria de lhe fazer uma proposta. Basta olhar para esse povo todo aí, só batendo papo e andando à toa, para perceber que aqui no Paraíso há enormes oportunidades para dar um upgrade na produtividade sistêmica.
-É mesmo?
-Pode acreditar, porque tenho PHD em reengenharia. Por exemplo, não vejo ninguém usando crachá. Como é que a gente sabe quem é quem aqui, e quem faz o quê?
-Ah, não sabemos.
-Headcount, então, não deve constar em nenhum versículo, correto?
-Hã?

-Entendeu o meu ponto? Sem controle, há dispersão. E dispersão gera desmotivação. Com o tempo isto aqui vai acabar virando uma anarquia.
Mas nós dois podemos consertar tudo isso rapidinho implementando um simples programa de targets individuais e avaliação de performance.
-Que interessante. ..
-Depois, mais no médio prazo, assim que os fundamentos estiverem sólidos e o pessoal começar a reclamar da pressão e a ficar estressado, a gente acalma a galera bolando um sistema de stock option, com uma campanha motivacional impactante, tipo: "O melhor céu da América Latina".
-Fantástico!

-É claro que, antes de tudo, precisaríamos de uma hierarquização de um organograma funcional, nada que dinâmicas de grupo e avaliações de perfis psicológicos não consigam resolver.
-Aí, contrataríamos uma consultoria especializada para nos ajudar a definir as estratégias operacionais e estabeleceríamos algumas metas factíveis de leverage, maximizando, dessa forma, o retorno do investimento do Grande Acionista... Ele existe,certo?
-Sobre todas as coisas.
-Ótimo. O passo seguinte seria partir para um downsizing progressivo, encontrar sinergias high-tech, redigir manuais de procedimento, definir o marketing mix e investir no desenvolvimento de produtos alternativos de alto valor agregado. O mercado telestérico por exemplo, me parece extremamente atrativo.
-Incrível!

-É óbvio que, para conseguir tudo isso, nós dois teremos que nomear um board de altíssimo nível. Com um pacote de remuneração atraente, é claro. Coisa assim de salário de seis dígitos e todos os fringe benefits e mordomias de praxe. Porque, agora falando de colega para colega, tenho certeza de que você vai concordar comigo, Pedro. O desafio que temos pela frente vai resultar em um turnaround radical.
-Impressionante!
-Isso significa que podemos partir para a implementação?
-Não. Significa que você terá um futuro brilhante ... se for trabalhar com o nosso concorrente. Porque você acaba de descrever, exatamente, como funciona o Inferno...

fonte: www.maximconsultores.com.br

23 de agosto de 2012

Religião e Ciência


Todas as ações e todas as imaginações humanas têm em vista satisfazer as necessidades dos homens e trazer alívio às suas dores. Negar essa evidência é não compreender a vida do espírito e seu progresso. Porque experimentar e desejar são os impulsos primários do ser, antes mesmo de considerar a majestosa criação desejada.

Sendo assim, que sentimentos e condicionamentos levaram os homens a pensamentos religiosos, e os incitaram a crer, no sentido mais forte da palavra? Descubro logo que as raízes da idéia e da experiência religiosa são múltiplas. No homem  primitivo, por exemplo, o temor suscita representações religiosas para atenuar a angústia da fome, o medo das feras, das doenças e da morte. Neste momento da história da vida, a compreensão das relações causais mostra-se limitada e o espírito humano tem de inventar seres mais ou menos à sua própria imagem. [1] Ele transfere para a vontade e o poder desses seres as experiências dolorosas e trágicas de seu destino. Ele acredita mesmo poder obter sentimentos propícios desses seres através da realização de ritos ou de sacrifícios. A memória das gerações passadas lhe faz crer no poder propiciatório do rito para alcançar as boas graças de seres que ele próprio criou.

A religião é vivida antes de tudo como angústia. Não é inventada, mas essencialmente estruturada pela casta sacerdotal, que cumpre o papel de intermediário entre seres temíveis e o povo, fundando assim a sua hegemonia. Com frequência o chefe, o monarca ou uma classe privilegiada, de acordo com os elementos de seu poder e para salvaguardar a soberania no mundo, se atribuem as funções sacerdotais. Ou então se estabelece uma comunidade de interesses entre a casta política dominante e a casta sacerdotal.

Os sentimentos sociais constituem a segunda causa dos fantasmas religiosos. Porque o pai, a mãe ou o chefe de imensos grupos humanos, todos enfim, são falíveis e mortais. Então a paixão pelo poder, pelo amor e pela forma externa impele a imaginar um conceito moral ou social de Deus. O Deus-Providência preside o destino, socorre, recompensa e castiga. Segundo a imaginação humana, esse Deus-Providência ama e favorece a tribo, a humanidade, a vida, consola na adversidade e no malogro, protege a alma dos mortos. É este o sentido da religião vivida de acordo com o conceito social ou moral de Deus. Nas Sagradas Escrituras do povo judeu, manifesta-se claramente a passagem de uma religião-angústia para uma religião-moral. As religiões de todos os povos civilizados, particularmente dos povos orientais, se manifestam como basicamente morais. O progresso de um grau ao outro constitui a vida dos povos. Por isto desconfiamos do preconceito que define as religiões primitivas como religiões de angústia e as religiões dos povos civilizados como morais. Todas as simbioses existem,  mas a religião-moral predomina onde a vida social atinge um nível superior. Estes dois tipos de religião constroem uma idéia de Deus pela imaginação do homem.

Somente indivíduos particularmente profundos e  comunidades particularmente sublimes se esforçam por ultrapassar esta experiência religiosa. Todos, no entanto, podem atingir a religião em um último grau, raramente acessível em sua pureza total. Dou a isto o nome de religiosidade cósmica, e não posso falar dela com facilidade, já que se trata de uma noção muito nova, e a ela não corresponde conceito algum de um Deus antropomórfico.

O ser experimenta o nada das aspirações e vontades humanas, e descobre a ordem e a perfeição, ali onde o mundo da natureza corresponde ao mundo do pensamento. A existência individual é vivida então como uma espécie de prisão, e o ser deseja vivenciar a totalidade do Ser como um conjunto perfeitamente inteligível. Notam-se exemplos dessa religião cósmica, nos primeiros momentos da sua evolução, em alguns salmos de Davi ou em alguns profetas. Em grau infinitamente mais elevado, o budismo organiza os dados do cosmos, que os maravilhosos textos de Schopenhauer nos ensinaram a decifrar. Ora, os gênios religiosos de todos os tempos se distinguiram por essa religiosidade diante do cosmos. Ela não tem dogmas nem um Deus concebido à imagem do homem; portanto nenhuma Igreja ensina a religião cósmica. Temos também a impressão de que os hereges de todos os tempos da história humana se nutriam com esta forma superior de religião. Contudo, seus contemporâneos muitas vezes os consideravam suspeitos de ateísmo, e às vezes, também, de santidade. Encarados deste ponto de vista, homens como Demócrito, Francisco de Assis, Spinoza se assemelham profundamente.

Como poderá transmitir-se de homem a homem esta religiosidade, uma vez que ela não pode chegar a nenhum conceito determinado de Deus, a nenhuma teologia? Para mim, o papel mais importante da arte e da ciência consiste em despertar e manter desperto o sentimento dela naqueles que estão abertos para isso. Estamos começando a conceber a relação entre a ciência e a religião de um modo totalmente diferente da concepção clássica. A interpretação histórica considera ciência e religião adversários irreconciliáveis, por uma razão fácil de ser percebida. Aquele que está convencido de que a lei causal rege todo acontecimento não pode absolutamente encarar a idéia de um ser que intervém no processo cósmico, e ao mesmo tempo refletir seriamente sobre a hipótese da causalidade. Não pode encontrar um lugar para um Deus-angústia, nem mesmo para uma religião social ou moral: de modo algum pode conceber um Deus que recompensa e castiga, já que o homem age segundo leis rigorosas internas e externas, que lhe proíbem projetar a responsabilidade sobre a hipótese-Deus, do mesmo modo que um objeto inanimado é irresponsável por seus movimentos. Por este motivo, a ciência foi acusada de prejudicar a moral. Coisa absolutamente injustificável. E como o comportamento moral do homem se fundamenta eficazmente sobre a simpatia ou os compromissos sociais, de modo algum implica uma base religiosa. A condição dos homens seria lastimável se tivessem de ser domados pelo medo do castigo ou pela esperança de uma recompensa depois da morte.

É compreensível, portanto, que as Igrejas tenham, em todos os tempos, combatido a Ciência e perseguido os seus adeptos. Mas eu afirmo com todo o vigor que a religião cósmica é o móvel mais poderoso e mais generoso da pesquisa científica. Só aquele que pode avaliar os gigantescos esforços e, antes de tudo, a paixão, sem os quais as criações intelectuais e científicas inovadoras não existiriam, é capaz de pesar a força do sentimento único que cria um trabalho totalmente desligado da vida prática. Que confiança profunda na inteligibilidade da arquitetura do mundo, e que vontade de compreender, nem que seja uma parcela minúscula da inteligência que desvenda o mundo, devia animar Kepler e Newton, para que tenham podido explicar os mecanismos da mecânica celeste, através de um trabalho solitário de muitos anos?

Aquele que só conhece a pesquisa científica por seus efeitos práticos vê depressa demais e incompletamente a mentalidade de homens que, rodeados de contemporâneos céticos, indicaram caminhos aos indivíduos que pensavam como eles. Ora, eles estão dispersos no tempo e no espaço.  Só aquele que devota sua vida à mesma finalidade possui uma imaginação que permite compreender estes homens, e aquilo que os anima,  que lhes estimula a força necessária para conservar seu ideal apesar de inúmeros fracassos. A religiosidade cósmica é pródiga em tais forças. Um contemporâneo declarava, não sem razão, que,  em nossa época, instalada no materialismo, reconhece-se nos sábios escrupulosamente honestos os únicos espíritos profundamente religiosos.

A RELIGIOSIDADE DA PESQUISA


O espírito científico, fortemente armado com seu método, não existe sem a religiosidade cósmica. Ela se distingue da crença das multidões ingênuas que consideram Deus um Ser de quem se espera benevolência e do qual se teme o castigo – uma espécie de sentimento exaltado da mesma natureza que os laços do filho com o pai -, um ser com quem também estabelecem relações pessoais, por respeitosas que sejam.

Mas o sábio, bem consciente da lei de causalidade que determina qualquer acontecimento, decifra o futuro e o passado, que estão submetidos às mesmas regras de necessidade e determinismo. A moral não lhe cria problemas com os deuses, mas simplesmente com os homens.

Sua religiosidade consiste em espantar-se e extasiar-se diante da harmonia das leis da natureza, as quais revelam uma inteligência tão superior que todos os pensamentos dos homens e todo o seu engenho não podem desvendar, diante dela, a não ser o seu nada irrisório. Este sentimento mostra a regra dominante de sua vida, de sua coragem, na medida em que supera a servidão dos desejos egoístas. Indubitavelmente, este sentimento se compara àquele que animou os espíritos criadores religiosos de todos os tempos.


NOTA:

[1] Sobre o fato de Deus ter sido inventado pelos homens à sua própria imagem a semelhança, H. P. Blavatsky escreveu em “A Doutrina Secreta”, obra que parece ter sido detalhadamente estudada por Albert Einstein: “Em sua incomensurável presunção, e no orgulho e vaidade que lhe são inerentes, o homem criou o seu Deus pelas suas próprias mãos sacrílegas e com os materiais que encontrou em sua mísera substância cerebral, e o impôs ao gênero humano como uma revelação direta do ESPAÇO  uno e não revelado.” (“A Doutrina Secreta”, Ed. Pensamento, SP, edição em seis volumes, ver volume I, p. 77.) (Nota do boletim  “O Teosofista”). 

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O texto acima é reproduzido do boletim eletrônico “O Teosofista”, de dezembro de 2009.

Ele faz parte da obra  “Como Vejo o Mundo”,  de Albert Einstein,  Editora Nova Fronteira, RJ, 12ª Edição, 1981, 214 pp.  Está nas pp. 19 a 24, sob os subtítulos “Religião e Ciência” e “A Religiosidade da Pesquisa”.  Para maior clareza do texto, algumas palavras foram trocadas por sinônimos.

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fonte: www.FilosofiaEsoterica.com, www.TeosofiaOriginal.com e www.VislumbresdaOutraMargem.com.

29 de julho de 2012

Vamos falar sobre sexo?

Prometheus, o prelúdio de Alien - O Oitavo Passageiro que conta a história de uma expedição espacial a bordo da nave que dá nome ao filme, marca não só o retorno de Ridley Scott à franquia e ao gênero da ficção científica depois de 30 anos, como também responde a uma das mais perturbadoras questões que assolam a humanidade: afinal, quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?

Há outras perguntas, claro, como aquela feita pelo escritor Erich von Däniken no livro de 1968 Eram os Deuses Astronautas?, que Scott diz homenagear com o filme. Embora Prometheus aborde as supostas origens extraterrestres da raça humana, porém, é de maternidade, em particular, que trata todo Alien. E este prelúdio, assim como os demais longas da série, reorganiza de um modo menos sutil e mais calculado as metáforas feministas propostas em O Oitavo Passageiro.

Sem Ellen Ripley (que segundo o cânone nasceu na Lua terrestre em 2092, um ano antes da chegada da nave Prometheus à lua LV-223 nos confins do universo), temos agora como protagonistas a cientista Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e a executiva Meredith Vickers (Charlize Theron). A primeira acredita que a humanidade veio de alienígenas e quer conhecê-los, já Meredith busca resultados mais práticos na viagem que a empresa dela, a Weyland, financia com base nos estudos de Elizabeth.

Credulidade e racionalidade opõem as duas, mas como estamos no terreno de Alien há mais diferenças em jogo. Elizabeth diz ser estéril e se ressente de não poder ter filhos, enquanto Meredith se orgulha de seu sexo; quando o piloto negro e forte da Prometheus dá em cima da fria loira, ela só cede na hora em que o homem questiona se ela não seria, na verdade, uma robô. Como em todo Alien, a afirmação pessoal é acima de tudo uma demonstração do sexo - o que consequentemente leva à questão materna e ao velho nó do ovo e da galinha.

O retorno não só de Scott mas também do suiço H.R. Giger, o criador do design do alien original, como consultor em Prometheus rende uma nova leva de símbolos - das cobras fálicas ao "engenheiro" (nome dado ao criador da raça humana) retratado como um ultramacho, com seus músculos definidos - então os desafios às mulheres só aumentam. Estamos em um sci-fi de terror sobre violações e fecundações, afinal, e há uma cota de secreções viscosas a atingir. O 3D valoriza essa variedade de texturas quando as ressalta da tela - não só as gosmas mas também o vapor, o metálico, o terroso - e torna Prometheus mais táctil, mais imersivo.

De resto, convém não esperar nenhum milagre do cinema. Prometheus reproduz o primeiro Alien não só no subtexto, mas também na estrutura, que envolve novamente um contato prometéico com o desconhecido, que então gera um castigo do espaço a ser resolvido com muitos sacrifícios. Descontados os atalhos apressados da narrativa, os diálogos literais e os desencontros de continuidade (Prometheus não se encaixa perfeitamente com a situação em que encontramos o Space Jockey em Alien), o filme tem seus momentos.

A cena do "parto", especialmente, é linda, com a injeção de anestesia paralisando a câmera à altura dos olhos da pessoa deitada, que então assiste ao resultado do seu desafio aos deuses. Nesse sentido, Prometheus, embora tenha toda uma vocação para a megalomania, é muito coerente com outros Alien, que não são mais do que contos de cautela sobre o horror de ser mulher em um universo de homens.

fonte: omelete.uol.com.br/prometheus/cinema/prometheus-critica/

Weyland Industries apresenta o robô David 8:

25 de julho de 2012

O Ocultismo em Therion


por Adriano Camargo

Aos interessados, algumas palavras sobre algumas letras de alguns álbuns da banda Therion.

As músicas:

- Kings of Edom (álbum Sitra Ahra): refere-se à estrela de 11 pontas que sempre aparece nos discos do Therion, que representa o reino qliphótico, os 11 reis que representam as 11 qliphoth da Árvore da Morte;

- Kali Yuga I, II & III (álbuns Sirius B/Sitra Ahra): a Idade Negra, a Era do Ferro, em que humanidade vive atualmente;

- The Shells Are Open (álbum Sitra Ahra): refere-se às qliphoth novamente, à abertura dos reinos qliphóticos, à iniciação qliphótica;

- Cú Chulainn (álbum Sitra Ahra): refere-se ao semideus e guerreiro celta/irlandês, sendo um arquétipo da esfera de Marte;

- Din (álbum Sitra Ahra): refere-se à esfera de Geburah, à sephira correspondente à Marte, por vezes traduzida como “julgamento”, “justiça”, “força”;

- The Perennial Sophia (álbum Gothic Kabbalah): refere-se a Sabedoria (Sophia, Skekinah, Shakti) e ao poder feminino manifestados na Terra, em nosso mundo, e disponível aos verdadeiros buscadores/iniciados;

- The Wand of Abaris (álbum Gothic Kabbalah): refere-se ao Magista e seu Caminho e à gnosis greco-egípcia e escandinava; Abaris (o Mago) era o sacerdote do Templo de Apolo, cujo bastão era uma flecha de ouro;

- TOF –The Trinity (álbum Gothic Kabbalah): refere-se aos três deuses nórdicos: Thor, Odin e Frey;

- The Blood of Kingu (álbum Sirius B): refere-se ao deus mesopotâmico Kingu cujo sangue foi a matéria-prima para criar a humanidade;

- Son of the Sun (álbum Sirius B): refere-se ao faraó Akhenaton e fala sobre o fim do monoteísmo;

- Sirius B (álbum Sirius B): refere-se obviamente à estrela Sírius B, chamada de Po Tolo pela tribo dogon de Mali, na África;


- Dark Venus Persephone (álbum Sirius B): refere-se ao mito de Perséfone no Hades, o submundo;

- Arrow From the Sun (álbum Lemuria): refere-se novamente a Abaris, o sacerdote de Apolo, e sua flecha dourada; está relacionado também a Sagitário e ao Caminho/Túnel de Samekh/Saksaksalim;

- Abraxas (álbum Lemuria): refere-se ao deus gnóstico Abraxas, considerado o Início e o Fim, o Tudo e o Nada, e o ciclo solar de 365 dias;

- Enter Vril-Ya (álbum Deggial): refere-se aos Vril-Ya, um povo do mundo intraterreno imerso em energia Vril, segundo o escritor Bulwer Lytton;

- Deggial (álbum Deggial): refre-se ao “falso” profeta, cego do olho direito, chamado de Deggial, ou Dajjal, associado a Sorath, o espírito solar, que irá estabelecer a morte de Deus e o nascimento do homem-deus;

- Emerald Crown (álbum Deggial): refere-se à coroa de Lúcifer;

- Wine of Aluqah (álbum Vovin): refere-se ao sangue menstrual e à magia sexual;

- Clavicula Nox (álbum Vovin): refere-se ao símbolo atlante de mesmo nome (“Chave da Noite”), usado pela Dragon Rouge;

- Black Sun (álbum Vovin): refre-se a Sorath, o espírito do Sol, cujo número é 666; está associado à qlipha Thagiriron;

- Raven of Dispersion (álbum Vovin): refere-se à qlipha venusiana Arab Zaraq;

- Nightside of Eden (álbum Theli): refere-se à Árvore qliphótica e ao livro de Kenneth Grant de mesmo nome;

- Riders of Theli (álbum Lepaca Kliffoth): refere-se à Irmandade Draconiana; Theli é o dragão-serpente que circunda o universo, uma ‘versão’ qliphótica da serpente Ouroboros;

- Lepaca Kliffoth (álbum Lepaca Kliffoth): refere-se à abertura das qliphoth e ao ingresso na Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal;

- Evocation of Vovin (álbum Lepaca Kliffoth): refere-se à evocação do dragão das qliphoth, e ao Dragão individual, o Daemon, a Sombra, de cada um;

O álbum Secret of The Runes trata ele todo sobre os mundos e os deuses da mitologia escandinava.

Sobre a capa de Sitra Ahra:


A Árvore que aparece na ilustração é a Árvore qliphótica, de maneira invertida. A esfera da Árvore que está em primeiro plano é a qlipha Thaumiel (na Árvore da Vida é a sephira Kether). A “flor” que surge da qlipha Thaumiel é uma flor e é uma concha (o que significa “qlipha”); como flor representa o chacra Sunya, que está além do chacra da coroa (Sahashara); como concha representa a própria qlipha Thaumiel. Dessa “concha-flor” o que surge é uma pedra bruta conhecida como Diamante Negro, que é uma outra representação do chacra negro Sunya. Sunya é o Vazio que Tudo contém e é chamado também de Olho do Dragão, Olho de Lúcifer e Olho de Shiva, que quando aberto significa a destruição de toda Ilusão do universo manifestado para a assimilação e experiência do Real, e representa também o Pralaya, a dissolução, a Noite em seu sentido metafísico espiritual.

Adriano Camargo Monteiro é escritor de Filosofia Oculta, Draconismo e de simbologia e mitologia comparadas. É membro de diversas Ordens, possui diversos livros publicados pela Madras Editora e escreve também para a Revista Universo Maçônico, para o site Morte Súbita, para blogs pertinentes e é artista colaborador na Zupi, famosa revista trilíngue de arte e design.

Site do autor: http://www.geocities.ws/adrianocmonteiro

28 de junho de 2012

Do Androids Dream of Eletric Sheep?


"O desenvolvimento da sociedade do capital é o desenvolvimento ampliado de suas contradições sociais, seja no campo da técnica e da tecnologia, seja no da sociabilidade e subjetivadades humanas e também do ecossistema urbano-social. O estranhamento atinge o trabalho e a reprodução social, o que significa que desefetiva a memória e a identidade do homem, dilacerando seus referentes de espaço-tempo, comprimindo-os e imprimindo neles sua marca indelével. A manipulação de homens e coisas assumem dimensões cruciais. A sociedade burguesa hipertardia tende a se tornar uma imensa coleção de múltiplos objetos-mercadorias complexas criadas pelas novas tecnologias de engenharia genética. No limite, a produção de mercadorias atinge a produção de supostas inteligências artificiais e de objetos-andróides no limiar da hominidade. Na verdade, na medida em que não se abole o sistema do capital, ele tende a instituir formas sociais estranhadas mais desenvolvidas, abrindo um campo de hominização dessumanizada (o que é a própria bárbarie social)."

Blade Runner, de Ridley Scott (1986), é um dos filmes cult da década de 1980, mesclando policial noir e ficção-científica na Los Angeles de 2019. A história é baseada na obra de Philip K. Dick, Do Androids Dream of Eletric Sheep?, e foi adaptada pelos roteiristas Hampton Fancher e David Peoples. A direção ficou a cargo de ninguém menos que o inglês Ridley Scott (Gladiador), que anos antes já havia feito o também cult Alien - O 8º Passageiro. Outros dos nomes em destaque do longa-metragem são os do designer Syd Mead (Moebius foi convidado, mas declinou - algo de que mais tarde se lamentou), o diretor de arte David Snyder e o diretor de fotografia Jordan Cronenweth, no que é o mais relevante trabalho de suas carreiras. Todo o visual futurista-retrô é inspirado nos filmes noir da década de 50, nos quadrinhos de ficção franceses (especialmente a revista Metal Hurlant) e em outro clássico da ficção científica, Metrópolis, de Fritz Lang. Igualmente marcante é a trilha sonora de Vangelis - uma das mais reconhecidas do cinema até hoje.

Logo na tela abertura, uma apresentação do problema do filme: “No inicio do século XXI a Tyrel Corporation criou os robôs da série Nexus virtualmente idênticos aos seres humanos. Eram chamados de replicantes. Os replicantes Nexus 6 eram mais ágeis e fortes e no mínimo tão inteligentes quanto os Engenheiros genéticos que os criaram. Eles eram usados fora da Terra como escravos em tarefas perigosas da colonização planetária. Após motim sangrento de um grupo de Nexus 6, os replicantes foram declarados ilegais sob pena de morte. Policiais especiais, os blade runners, tinham ordens de atirar para matar qualquer replicante. Isto não era chamado execução, mas sim ‘aposentadoria’.”

A seguir, aparece a data (e local) da trama de Blade Runner – Los Angeles, novembro de 2019. Pelo visto, o filme possui uma estrutura narrativa simples. Rick Deckard (interpretado por Harrison Ford), é caçador de replicantes, ou blade runner, destacado para “aposentar” um grupo de replicantes Nexus 6 que fugiram do seu local de trabalho. Sob o comando do replicante Roy Batty (interpretado por Rudger Hauer), os Nexus 6 buscam prolongar seu tempo de vida. Apesar de serem tão ágeis, fortes e inteligentes quanto qualquer ser humano, os replicantes têm apenas quatro anos de vida.

Ao lado desta trama principal, podemos destacar uma trama secundária: o envolvimento afetivo de Deckard com Rachael (interpretada por Sean Young), replicante, secretária de Tyrel, dono da poderosa corporação industrial produtora dos Nexus 6 (Tyrel diz: “Nossa meta é o comércio. Nosso lema é ‘mais humanos que os humanos’”).

Blade Runner é um filme de caçada humana, onde, de certo modo, todos buscam algo: Deckard busca encontrar os replicantes; mas percebemos também que ele busca a si próprio. E persegue o amor de Rachael, que está imersa na busca de sua identidade inexistente. E os replicantes Nexus 6 buscam desesperadamente ter mais tempo de vida. Enfim, Blade Runner é uma pequena odisséia de homens e mulheres, humanos e pós-humanos, em busca da sua identidade perdida.

É um filme de ação intensa que contém uma profunda reflexão filosófica sobre o problema da identidade do homem, debilitada pelo descentramento do sujeito humano diante da vigência das tecnoestruturas burocrático-corporativas do mundo do capital. É o caso de Deckard, individuo perdido, solitário, obrigado pelos dispositivos policiais e corporativos a “aposentar” os replicantes (apesar de ter-se aposentado, no sentido usual do termo, Deckard é convocado a utilizar sua habilidade de investigador policial, ou melhor de blade runner, para caçar os Nexus 6). Sua vida pregressa é obscura, escondendo talvez algo incriminador, pois percebe-se que o convencimento de Deckard é um jogo de chantagem feito pelo chefe de polícia de LA. Como diz ele: “Conheço o jogo meu chapa. Se não topar, está acabado.”

Enfim, o cenário distópico de Los Angeles em 2019 é opressivo, onde a individualidade humana é tão-somente uma sombra molhada pela constante chuva negra, decorrente de um ecossistema devastado. Como construção histórica, a identidade do homem como sujeito da modernidade prometeica, encontra-se irremediavelmente obliterada. A distopia noir de Blade Runner tende a negar, em si, qualquer identidade do homem consigo mesmo. O sistema do capital, com suas derivações destrutivas no plano do ecossistema, coloca no centro do cosmo, o fetiche das coisas, isto é, as tecnoestruturas urbano-corporativas com seus aparatos policiais e de manipulação midiática, como, por exemplo, o out-door móvel que preenche a paisagem superior da cidade e insiste em anunciar as maravilhas de paraíso distante.

Diz, logo no inicio do filme, a mensagem publicitária: “Uma nova vida espera por você nas colônias interplanetárias. A chance de começar de novo numa terra dourada de oportunidades e aventuras! Vamos para as colônias!”. E a mensagem do grupo Shimago-Dominguez Corporation conclui dizendo: “Ajudando a América a entrar no Novo Mundo”.

Pelo que se percebe, a crise de identidade não é apenas de homens e mulheres, de humanos e pós-humanos, mas a crise de identidade atinge inclusive o próprio Estado-nação, ou seja, os EUA, onde é perceptível a presença marcante (e dirigente) de estrangeiros (japoneses e chicanos). Na verdade, os EUA não são mais o Novo Mundo, mas sim as colônias interplanetárias criadas pelas corporações industriais (com certeza, de acesso seletivo e excludente).


Em Blade Runner, logo no inicio, são destacadas as luzes de néon de propagandas das corporações industriais, emoldurando um cenário urbanóide tão opressiva quanto a chuva ácida persistente e as vias urbanas cheias de transeuntes, um imenso bazar desterritorialziado, tecno-asiático, de incrustações mafiosas, com bairros decadentistas, com prédios abandonados ocupados por ateliers hightech de fornecedores de ponta das corporações industriais (por exemplo, a oficina hightech de J. F. Sebastian está num prédio abandonado, local em que ocorrerá o duelo derradeiro entre Deckard e o replicante Roy). Na verdade, a Los Angeles de 2019 é uma imensa Chinatown, de homens e mulheres incapazes de migrar para o paraíso distante, outras terras privilégio territorial da classe dos capitalistas e congêneres.

É interessante que, em Blade Runner, a clivagem de classe assume, de forma radical, dimensões sócio-territoriais: os homens estranhados, despossuídos, embora proprietários de força de trabalho ou de mercadorias que vendem no bazar global, de fato, herdarão a Terra, mas uma Terra devastada enquanto ecossistema, pela lógica do capital predador. Estamos diante do resultado supremo da sociedade de classe. Diante de um espaço territorial exaurido no decorrer de uma modernização predatória, os capitalistas decidem “curtir” sua vida (e uma suposta identidade humana) em paraísos distantes,”...terra dourada de oportunidades e aventuras”, colônias espaciais, artifícios urbano-sociais, servidos por uma coorte de replicantes servis, novos servos pós-modernos, êmulos funcionais de homens e mulheres (a desterritorialização do capital se expressaria na própria interversão do Lar em Terra Estrangeira, como salientamos acima – a Los Angeles de 2019 não parece ser a América e os que habitam a Terra parecem ser meros estrangeiros). O capital tende sempre a criar novas fronteiras de colonização para si, mesmo que possuam o sentido ilusório de um “Novo Mundo”. O ilusionismo social é a base da subjetivação estranhada.

Mas a identidade humana é debilitada não apenas pelo cenário distópico da Los Angeles de 2019, com seu urbanismo opressor e sua humanidade non-sense (o que é o homem sem a utopia?), mas pelo próprio desenvolvimento tecno-científico e da engenharia genética que criou os novos objetos vivos, os replicantes, imagens perfeitas do homem (ou como disse Tyrell: “mais humano que os humanos”), objetos técnicos complexos que desencantam irremediavelmente qualquer idéia de uma unicidade humana (Walter Benjamin já demonstrou que a reprodutibilidade técnica tende a ocasionar a perda da aura da obra de arte e diríamos nós, da própria vida, no caso de replicantes).

Os avanços da técnica tendem a desencantar, mas, de forma contraditória, afirmam a identidade do homem, como iremos verificar no decorrer de Blade Runner. Podemos dizer que é através da experiência de vida dos replicantes que tende a ocorrer a apreensão da identidade perdida, ou em processo de perda, do homem. Na verdade, o homem se encontra através de seus objetos vivos (uma contradição em termos). É no decorrer desta busca desesperada dos Nexus 6 que conseguimos apreender o significado (e valor) da experiência humana.

Ora, nós temos o que eles buscam: tempo de vida e memória. Esta é base da hominidade em Blade Runner. Mas o que nós temos é passível de debilitação sob o sistema do capital. O tempo de vida se interverte em tempo de trabalho e a memória se degrada por conta da presentificação crônica instaurada pelo sócio-metabolismo do capital.

Em Blade Runner, os replicantes, embora não sejam do gênero humano, mas sim objetos técnicos complexos, produtos do trabalho humano, da engenharia genética e de seus avanços fantásticos, reivindicam um atributo elementar da hominidade: tempo de vida. O tempo é o campo de desenvolvimento humano, já destacava Marx. Terem apenas quatro anos de vida, como os Nexus 6, é muito pouco para inteligências ágeis e complexas que sonham alcançar a almejada hominidade.

É claro que tal discrepância entre potencialidades de desenvolvimento e tempo de vida é dilacerante. A busca por mais tempo torna-se uma “estranha obsessão”. Tyrel reconhece tal dilema dos replicantes quando diz a Deckard: “...eles são emocionalmente inexperientes, têm poucos anos para coletar experiências que nós achamos corriqueiras. Fornecendo a eles um passado criamos um amortecedor para sua emoção e os controlamos melhor.”

Na verdade, o objetivo de Tyrell é controlar sua criação, os Nexus 6, evitando que tal “estranha obsessão” signifique motins (como ocorreu com os seis replicantes “caçados” por Deckard). A manipulação da memória é capaz de amortecer tal sofrimento psíquico e controlar suas disposições insurgentes. Ao fornecer um passado para os replicantes, a Tyrell Corporation manipula sua memória e os controla melhor. É interessante a sugestão do filme Blade Runner em considerar a manipulação da memória através da atribuição de um passado imaginário, prática intensiva dos dispositivos midiáticos do sistema do capital, como uma forma de controle social.

Mas a ciência humana de Blade Runner está imersa num paradoxo (o paradoxo de Blade Runner): ainda não conseguiu compatibilizar vida intensa e maior inteligência com maior tempo de vida. Ao reivindicar mais tempo de vida (“o criador pode consertar a criação?” – pergunta o Nexus 6), o replicante Roy ouve de seu criador Tyrel o seguinte: “Fazer alterações na evolução de um sistema orgânico é fatal. Um código genético não pode ser alterado depois de estabelecido. Quaisquer células que tenham sofrido mutações de reversão dão origem a colônias reversas, como ratos abandonando o navio...” E Tyrel conclui: “A luz que brilha o dobro arde a metade do tempo.”

O diálogo entre Roy e Tyrell é uma das cenas mais significativas de Blade Runner. Expressa o lancinante paradoxo de Blade Runner (diz Tyrel: “Você foi feito o melhor possível. Mas não pode durar”). É a suprema contradição entre o desenvolvimento complexo do processo civilizatório e das forças produtivas do trabalho e a forma social do capital. É uma aguda injustiça ter tanta inteligência e intensa ânsia de viver e tempo de vida tão curto. Na verdade, os replicantes atingiram, tal como Hal 9000 em 2001-Uma Odisséia no Espaço, o limiar da hominidade. E tal como Hal 9000, se rebelam e são “desligados” (ou “aposentados” – no jargão da Tyrel Corporation).

Ora, Roy (e Tyrell) estão diante de um limite objetivo da engenharia genética (como ele expressou no diálogo acima). É claro que Tyrell está justificando a impossibilidade de alterar o código genético de Roy e de seus amigos replicantes. O que não significa a impossibilidade de altera-lo para as demais gerações de Nexus 6 (a reivindicação dos replicantes insurgentes em Blade Runner é meramente contingente – eles querem mais tempo de vida para si e não propriamente para a classe dos replicantes). Insatisfeito com Tyrell, Roy mata seu criador.

O drama dos replicantes é o drama humano. Em Blade Runner, como já destacamos, é através do drama de seus objetos técnicos inteligentes que apreendemos a tragédia humana. Ao ouvir de Tyrell que não podem obter um tempo de vida extendido, os Nexus 6 colocam-se diante de uma impossibilidade concreta dada pelo estágio de desenvolvimento da engenharia genética. Existe, deste modo, um limite técnico – mas perguntaríamos: é apenas um limite técnico ou tecnológico?

Nesse caso, merece a distinção entre técnica e tecnologia, onde a tecnologia é a forma social da técnica. E numa situação de contradição aguda entre forma social do capital e desenvolvimento humano humano-genérico, a própria tecnologia colocaria limites irremediáveis à técnica. Eis mais uma determinação da tragédia dos Nexus 6.

Enfim, não é suficiente o “cogito ergo sum” (como disse a replicante Pris para J.F. Sebastian: “Penso, Sebastian, logo existo”). Ou seja, não basta apenas “pensar para existir” (a referência sarcástica à famosa frase de Descartes sugere uma critica do racionalismo cartesiano, base da filosofia do sujeito e da civilização do capital). Estamos diante de uma aguda contradição: o homem demonstrou ser capaz de dar a vida, mas não conseguiu ainda ser capaz de dar-lhe um sentido. Ou melhor, o homem ainda não se tornou capaz de constitui um campo de desenvolvimento humano, onde a vida possa ser plena de sentido. Os Nexus 6, em seus curtos quatro anos de vida útil, estão condenados a sofrer de forma infinitamente intensa esta experiência trágica. Talvez nós, homens e mulheres, possamos sofrê-la de forma mitigada.

Os replicantes podem ser considerados a síntese intensa da tragédia humana. É o que a biotecnologia complexa de Blade Runner conseguiu demonstrar. A morte de Tyrel é uma morte metafísica. A cena do criador sendo dilacerado pela própria criatura é uma das mais significativas cenas do cinema do século XX. É um gesto supremo de insatisfação existencial. É um gesto totalmente absurdo, como a própria experiência de ser replicante em Blade Runner. Ao esmagar o cérebro de Tyrell, Roy dilacera (e contesta) a perversidade da inteligência humana.


Em Blade Runner, como salientamos acima, percebemos a aguda contradição entre o desenvolvimento das forças produtivas do homem, capaz de criar vida inteligente complexa, e as relações sociais capitalistas imersas na lógica do controle do tempo e do tempo restringido em função da utilidade do capital. Mas é importante destacar o seguinte: a incapacidade da ciência e da técnica da Tyrell Corporation em extender a vida dos replicantes não é apenas um dado objetivo, mas é algo socialmente determinada pelo sistema do capital.

Como dissemos, seria impossível alterar o sistema orgânico de Roy, por exemplo, para garantir-lhe mais tempo de vida; mas nada impediria que novas gerações de Nexus 6 pudessem ter um tempo de vida mais extendido. O que sugere que a afirmação de Tyrell de que “a luz que brilha o dobro arde a metade do tempo” é tão-somente uma afirmação ideológica (Pris, em certo momento num diálogo com J.F. Sebastian, chegou a dizer: “Não somos computadores, Sebastian, somos seres vivos” – negando, portanto, o caráter fetichista dos replicantes).

Enquanto mercadorias complexas, os replicantes estão submetidos à lei do valor. Portanto, devem ter um tempo de vida útil restringido, principalmente quando, na Los Angeles de 2019, deve-se estar sob a vigência plena da tendência decrescente de queda da taxa de utilização decrescente do valor de uso das mercadorias, como observa Mészáros. Deste modo, mesmo não o sabendo, não é apenas contra a perversidade dos limites objetivos da ciência e da técnica da Tyrell Corporation que se revoltam os replicantes, mas contra a lei do valor e a lógica contraditória do capital, que frustra as promessas de uma vida plena de sentido, seja para homens, seja para os replicantes Nexus 6, numa etapa avançada do processo civilizatório.

É interessante observar que um instrumento capaz de identificar os replicantes Nexus 6 é um aparelho de leitura da íris dos olhos. Um detalhe: a presença do olhar em Blade Runner é marcante, não apenas pelo fato dos replicantes serem identificados através da análise de sua íris, mas pela cena de abertura do filme, que mostra um close-up magistral dos olhos de Deckard contemplando o cenário sombrio de Los Angeles. Em sua íris se reflete a distopia da América. Na verdade, como se diz, a imagem dos olhos é expressão da “janela da alma”, da subjetividade avassalado do homem diante do sistema do capital. A presença deste olhar que ocupa a extensão da tela é marcante também em “2001 – Uma Odisséia no Espaço”. Assim como sugerimos uma aproximação entre os Nexus 6 e HAL 9000, podemos fazer o mesmo entre Deckard e Frank, personagem do filme de Stanley Kubrick.

Através de um teste de perguntas e respostas e do aparelho de leitura da íris dos olhos, utilizada nas sessões de interrogatórios pelos policiais blade runner, se busca verificar não apenas relatos de memória, mas a coerência das respostas dadas (o que sugere uma atitude-padrão no mundo social de Blade Runner). “É um teste criado para provocar uma resposta emocional”, como observa o blade runner. Estamos diante de um instrumento de aferição da socialidade e da consciência coletiva, de valores e atitudes sociais politicamente corretas (no sentido durkheiminiano). O que significa que, no mundo social de Blade Runner, a identidade humana é constituída não apenas por um lastro de memória pessoal, mas por um arcabouço de socialidade e de memória coletiva, background de reações emocionais (e lingüísticas) previsíveis.

Ora, os replicantes não possuem tais lastros da experiência humana. Aliás, podem até possui-las, mas são meras próteses, implantes assumidos de outros homens e mulheres. Por exemplo, a experiência de memória de Rachel é um implante da experiência de vida da sobrinha de Tyrell (Rachael chega a dizer, imersa em crise de identidade impossível: “Não sei se sou eu ou a sobrinha de Tyrell”). Enfim, suas memórias pessoais não pertencem a si, mas são de outrem (Deckard diz para Rachael: “... não são suas memórias, são de outra pessoa”). Eis um agudo estranhamento dos replicantes. Eles não escolheram suas memórias. Mas, afinal, quem as escolhe? – como poderia nos dizer Gaff (o policial, interpretado por Edward James Olmos).

Deste modo, Rachael está diante de certo estranhamento. Ela sente-se profundamente incomodada com sua condição replicante. É próprio da sua natureza, ser incapaz de possuir memória de vida pessoal única. Para ela, a memória é um simulacro expresso em imagens fotográficas. Na verdade, Rachel, como o mundo midiático de Blade Runner, está totalmente imersa num mundo de imagens fotográficas (basta verificar, por exemplo, os detalhes do escritório do chefe de policia de Los Angeles que conversa com Deckard, logo no inicio do filme e do próprio apartamento de Deckard – a presença de inúmeros quadros de fotografias é marcante, o que pode nos levar a refletir: se seriam eles todos replicantes; ou será que são meros homens em processo de desesfetivação de sua identidade humana pela corrosão da memória pessoal ou pela manipulação avassaladora de suas experiências de vida passada?).

Mas, as fotografia da replicante Rachael são necessárias para afirmar para si própria o simulacro de sua identidade pessoal. Na verdade, tais representações, ou melhor, signos, de memória, são quase uma extensão de si. O que se coloca, a partir da experiência de Rachael em Blade Runner é o seguinte: até que ponto nossas memórias pessoais são nossas e não representações (ou signos) protéticas, implantadas pelo complexo midiático vigente do sistema do capital, que produzem, por exemplo, nostalgia de um tempo não-vivido, mas percebido no plano imagético? Na verdade, como percebemos, o mundo social de Blade Runner é o mundo da aguda manipulação da subjetividade.

É a chegada de Deckard que irá problematizar a condição replicante de Rachael. Ele sente amor por ela. Por isso Deckard irá ensina-la a socialidade dos afetos, quase para dar completude ao simulacro de sua identidade humana. Nesse caso, o que parece ser, tende a se tornar.. De fato, ao agir como mulher, Rachael tornar-se-á mulher. Em Blade Runner, a afirmação da hominidade ocorre através da práxis auto-consciente, reflexiva e mimética.

Neste momento, estamos diante da pedagogia da práxis mimética, aquilo que Aristóteles considerava fundamental no próprio ato da educação. Em Aristóteles, a arte de aprender se reduz a imitar por muito tempo e a copiar por muito tempo. Diz Vergnières, a respeito da ética de Aristóteles: “Adquire-se tal ou qual disposição ética agindo de tal ou qual maneira. O caráter não é mais o que recebe suas determinações da natureza, da educação, da idade, da condição social; é o produto da série de atos dos quais sou o principio. Posso ser declarado autor de meu caráter, como o sou dos meus atos.” (VERGNIÉRES, 1999). Ao ensinar a Rachel a socialidade dos afetos através da formação de hábitos, da imitação, de ações ponderadas, Deckard se contrapunha à imposição da natureza dada, do destino inscrito pela Natureza ou pela lógica da tecnologia.


No caso da distopia de Ridley Scott, existe um intenso jogo de manipulação, objetivo e subjetivo. O ato de manipulação não ocorre apenas na dimensão da exterioridade (a manipulação que outrem exerce sobre mim, como é perceptível nas propagandas de néon em Blade Runner); mas a manipulação percorre a dimensão da interioridade, aparecendo como intensa auto-simulação (o ego manipula a si mesmo, buscando constituir uma identidade pessoal auto-referenciada – no caso dos replicantes, uma identidade irremediavelmente estranhada). O que Blade Runner sugere é que, talvez a tragédia dos replicantes seja a verdadeira tragédia humana (o que demonstra que a ficção-científica expõe de forma invertida, e até fetichizada, a verdade da condição humana).

Em Blade Runner existe uma outra situação paradoxal: o caçador, aos poucos, se interverte em caça. Ao longo da narrativa, Deckard, que persegue os replicantes, torna-se, na cena final, perseguido pelo último dos Nexus 6, Roy Batty, que dá-lhe uma “lição de vida”. Ou seja, poupa-lhe da morte, demonstrando ser a vida um valor supremo para ele (ora, ao matar Tyrell, Roy expressa um gesto de afirmação da vida, demonstrando uma suprema indignação com seu destino).

Na sua derradeira cena, o replicante Roy traduz o que é próprio da condição humana sob o sistema do capital. Disse ele: “Uma experiência e tanto viver com medo, não? Ser escravo é assim.” E sentindo de forma intensa o paradoxo de Blade Runner, isto é, a angústia de inteligências agudas e de alta sensibilidade estética diante de uma vida fugaz e supérflua, Roy observa: “Eu vi coisas que vocês nunca acreditariam. Naves de ataques em chamas perto da borda de Orion. Vi a luz do farol cintilar no escuro, na Comporta Tannhauser. Todos esses momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva.” O replicante Nexus 6 sente a angústia do tempo, destacando a unicidade (e fluidez) da sua experiência singular de vida. Conclui, dizendo: “É hora de morrer” (tal como os personagens da peça “Os Que Têm a Hora Marcada”, de Elias Canetti).

Enfim, Blade Runner é permeado de paradoxos magistrais, que são contradições dilacerantes. Vejamos alguns detalhes: os replicantes que fugiram eram 6. Um deles, morreu na fuga. Então, 5 são os que deveriam estar sendo perseguidos. Mas só temos conhecimento de 4 na versão do diretor. Ou ainda: se Deckard seria um replicante (como sugere a versão do diretor), Gaff também não o seria? Enfim, quem nos garante – como já sugerimos acima - que o mundo social de Blade Runner não seria constituído por replicantes medianos, meros simulacros de homens e mulheres, onde os Nexus 6 seriam versões sofisticadas, os super-homens de 2019 ? Outro detalhe curioso é o sonho de Deckard, o sonho do unicórnio, acrescido na versão do diretor. O que ele significa? Teria o unicórnio do sonho de Deckard alguma relação com o unicórnio de palito feito por Gaff no final do filme?. Mera coincidência ou haveria alguma relação causal com um significado latente?

Mas o que nos interessa são os significados críticos do filme Blade Runner. Ele é um pré-texto magistral para apreendermos os dilaceramentos humanos diante da opressão do capital. O mundo social de Blade Runner é um mundo capitalista, com a presença visível dos ícones das corporações globais, cintilando em luzes néon num cenário distópico. Torna-se visível através do exagero metodológico da ficção-científica alguns elementos contraditórios desta sociabilidade estranhada. Já destacamos o problema da identidade humana, da impossibilidade da vida plena de sentido num sistema de tempo de vida restringido, de memória protética e de sociabilidade estruturada (drama trágico explicito, até como “tipo ideal”, pelos replicantes Nexus 6).

É possível destacar, dentre os múltiplos detalhes significativos do filme, alguns elementos sobre o mundo do trabalho em Blade Runner. Por exemplo: a Tyrell Corporation é uma empresa-rede tendo em vista que se utiliza do trabalho subcontratado de fornecedores, que contribuem para a produção das mercadorias-objetos técnicos complexos (os replicantes). Os fornecedores, pequenas oficinas de técnicos altamente especializados, não conhecem o resultado final de sua atividade. Produzem apenas um determinado componente daquela estrutura biotecnológica. Por exemplo, quando o replicante Roy visita a oficina de trabalho de um dos fornecedores da Tyrell, ele nada sabe sobre os demais componentes de um organismo Nexus 6. Especializou-se apenas em elaborar os olhos – mas nada sabe sobre o dispositivo capaz de dar mais tempo de vida aos replicantes. É sintomático que Ridley Scott tenha escolhido a atividade estranhada do produtor dos olhos para expressar a paradoxalidade do capital e sua fragmentação da atividade produtiva. Os que produzem os olhos estão cegos sobre o produto final. Eis uma dimensão suprema (e paradoxal) do estranhamento da produção capitalista.

Outro paradoxo de Blade Runner é a relação do personagem J. F. Sebastian, projetista genético, um dos criadores dos Nexus 6, que, tal como eles, sofre de decrepitude acelerada. Ou seja, J. F. Sebastian sofre de envelhecimento precoce, (Síndrome de Matusalém). Por isso não conseguiu migrar para as colônias interplanetárias. Como disse ele: “não passei no exame médico” (o que confirma o acesso seletivo e excludente ao Novo Mundo). Um detalhe curioso são os bonecos vivos da oficina de J. F. Sebastian. Inclusive, um deles representa um militar com nariz de Pinóquio (uma crítica velada à corporação militar tão poderosa na América?). Aliás, é possível um paralelo entre J. F. Sebastian e o artesão Gepeto, personagem do conto Pinóquio, de Carlo Calodi. Talvez J. F. Sebastian seja o Gepeto pós-moderno, solitário e decrépito, que se apaixona por Pris, um dos Nexus 6 em fuga, modelo básico de prazer; e é através de J. F. Sebastian que Roy e Pris têm acesso ao criador dos Nexus 6, Tyrell, misto de cientista genial e mega-investidor bem-sucedido (um Bill Gates do mundo de Blade Runner?).

Talvez seja interessante uma análise do personagem Tyrell, dono da corporação industrial que produz os replicantes. Tal como J.F. Sebastian, é um gênio solitário, parceiro do projetista genético no jogo de xadrez, investidor diuturno no mercado financeiro (na sua última cena, aparece deitado na cama orientando seu operador financeiro a vender 66 mil ações...). Do mesmo modo, tal como Sebastian, é cercado de objetos vivos – a coruja e a secretária Rachael. É provável que Tyrell cultive uma prazer estético (e libidinal) pelos seus objetos vivos.

Outro detalhe interessante do mundo do trabalho em Blade Runner é que os Nexus 6, geração superiores de replicantes, são altamente especializados (por exemplo, o replicante Roy Batty é um modelo de combate, e Pris, é um modelo básico de prazer, demonstrando que a sofisticação de habilidade cognitiva e instrumental é acompanhada por uma especialização).

Além disso, o mundo do trabalho de Blade Runner é constituído por uma mancha de “informalidade”, de trabalhadores por conta própria, alguns altamente especializados, que utilizam high technology (Deckard recorre aos serviços de uma artesã hightech para identificar o número de código de um fragmento de escama encontrado nos vestígios deixados por Zhora, uma dos Nexus 6). Ora, no cenário pós-moderno de Blade Runner, conciliam-se degradação ambiental (e pessoal) com high tecnology. O mundo do trabalho é um imenso bazar de atividades de serviços industriais subcontratados e de entretenimento de cariz mafioso (expressão de sobrevivências seculares da sociabilidade urbana degradada, como o saloon de Taffey Lewis, onde se apresentava a replicante Zhora com seu número “Sra. Salomé e a Cobra”).

Blade Runner expressa, no melhor estilo pós-moderno, uma bricolage de situações típicas da temporalidade extendida (e presente) do capital. Passado, presente e futuro estão contidos numa temporalidade hipertensa. Enfim, não existem, a partir da ótica da narrativa, perspectivas de “negação da negação”. No bom estilo de Hollywood, as contradições sociais se traduzem em meras saídas individuais – mas perguntaríamos, parafraseando Gaff, são realmente saídas? Afinal, quem escapa?

©Giovanni Alves (2004)
(ATENÇÃO: Esta análise de filme é parte do Projeto de Extensão Tela Crítica 2004)
fonte: www.telacritica.org/BladeRunner.htm