26 de agosto de 2009

Eros & Psiquê

Certo rei e rainha tiveram 3 filhas de beleza sem igual, mas a mais nova delas, Psiquê, tinha uma beleza indescritível. A fama dessa beleza cresceu tanto que alguns diziam que a jovem tinha beleza superior do que a da própria Afrodite (Vênus). Isso enfureceu a Deusa, que mandou seu próprio filho Eros (Cupido) fazer com que a jovem se apaixonasse pelo ser mais indigno que ele encontrasse, alguém tão vil e baixo que fizesse ela colher uma mortificação maior do que o júbilo que ela vivia.
Eros preparou-se para obedecer às ordens de sua mãe, mas quando viu Psiquê dormindo, foi tomado de tamanha piedade que acabou ferindo a si mesmo em uma de suas flechas e no mesmo instante caiu de amores pela jovem. Sem saber o que fazer ele fugiu, mas sabendo que estava perdidamente apaixonado.
O tempo passou, as irmãs de Psiquê se casaram e apesar da beleza da jovem ser sempre exaltada não aparecia pretendes para desposá-la. Preocupado o pai dela foi consultar o oráculo, que respondeu que Psiquê não estava destinada a casar-se com um mortal, mas sim com um mostro imortal que a estava esperando no alto da montanha. Ao invés de se revoltar com um destino tão tenebroso, Psiquê aceitou resignada, sem deixar de estar assustada. Quando chegou no alto da montanha ela sentiu que estava sendo transportada por um vento brando, era Zéfiro quem a carregava. Ele a levou para um palácio que de tão majestoso parecia ser a morada de um Deus. Ela se acalmou e quando escureceu um ser misterioso foi ao seu encontro dizendo-lhe que ele era o seu marido. Psiquê não conseguiu ver-lhe as feições, mas sua voz era macia e ela sentiu que o marido lhe falava com muita ternura. O casamento foi então celebrado, porém todos os dias, antes do amanhecer, seu marido desaparecia e só retornava quando escurecia, e todos os dias ele fazia ela prometer que jamais tentaria ver-lhe o rosto. Por um tempo, enquanto tudo era novidade, Psiquê foi muito feliz, mas com o tempo ela começou a se sentir sozinha e enfadonha, por isso pediu ao marido que permitisse ver as irmãs, pois estava com muitas saudades.Quando as irmãs viram o palácio em que Psiquê morava e a vida que ela levava, sentiram muito inveja e começaram a envenenar a alma de Psiquê dizendo que se marido não mostrava o rosto era porque ele deveria ser mesmo um monstro horrível, quem sabe vil. Tanto fizeram que Psiquê numa noite enquanto o marido dormia, pegou uma lamparina a óleo e quanto viu o rosto do marido, viu o rosto mais lindo que ela já havia visto na vida. Seu assombro diante de tamanha beleza foi tanto que ela acidentalmente acabou se espetando numa das flechas de Eros e no mesmo instante ela se apaixonou pelo marido, a quem ela já aceitava por saber que ele a amava. Com a espetada, Psiquê deixou cair uma gota de óleo no rosto de Eros que acordou sobressaltado. Quando percebeu o que havia acontecido ele a recriminou duramente pela sua desobediência e ingratidão. Enfurecido, Eros disse a Psiquê que o amor não pode conviver com a desconfiança e voou para longe.
Quando Psiquê se recompôs ela estava num campo perto dos palácios de suas irmãs. Ao encontrá-las, Psiquê lhes contou todo o ocorrido e as irmãs se regozijaram pela desgraça da irmã. Ao invés de consolá-la, elas faziam planos para conquistar Eros, que as repudiou veementemente.
Dali em diante Psiquê saiu errante pelo mundo em busca do seu amor perdido e sempre perseguida pela raiva de Afrodite, que fez a jovem submeter a várias tarefas ou castigos terríveis. Um desses castigos foi fazer com que Psiquê fosse ao submundo, onde não é permitida entrada de mortal nenhum.
Como Psiquê é muito bondosa, gentil e generosa ela recebeu em todas as tarefas ajuda de Deuses, como a de Ceres, dos animais, das flores, etc.
Por fim, emocionado pelo arrependimento e esforço da esposa, a quem nunca deixara de amar realmente, Eros foi até Zeus e suplicou permissão para desposá-la. Zeus ouviu-o com benevolência e advogou com tanto empenho a causa dos amantes, que conseguiu a concordância até mesmo de Afrodite para a união dos dois.
Psiquê foi levada a assembléia celestial, onde tomou uma taça de ambrósia e se tornou imortal. Então, o segundo casamento de Eros e Psiquê foi celebrado no Olimpo.
Assim, Psiquê ficou finalmente unida a Eros e mais tarde tiveram uma filha, cujo nome é Prazer.

Psiquê em grego significa tanto borboleta como alma. Não há comparação mais notável e bela da imortalidade da alma como a borboleta, que, depois de uma vida rastejante como lagarta, de sair do túmulo em que se achava (casulo), abrir as asas e flutuar na brisa do dia, tornando-se um dos mais belos e delicados aspectos da primavera. Psiquê é portanto a alma humana purificada pelos sofrimentos e infortúnios e preparada assim, para gozar a pura e verdadeira felicidade.
Em algumas analogias Eros é comparado com o espírito e Psiquê com a alma, quando o espírito e alma de uma pessoa estão sintonizados, o que temos é Prazer pela vida, pelas coisas que nos cercam, prazer em tudo o que fazemos.

24 de agosto de 2009

Mar Absoluto

Foi desde sempre o mar,
E multidões passadas me empurravam
como o barco esquecido.

Agora recordo que falavam
da revolta dos ventos,
de linhos, de cordas, de ferros,
de sereias dadas à costa.

E o rosto de meus avós estava caído
pelos mares do Oriente, com seus corais e pérolas,
e pelos mares do Norte, duros de gelo.

Então, é comigo que falam,
sou eu que devo ir.
Porque não há ninguém,
tão decidido a amar e a obedecer a seus mortos.

E tenho de procurar meus tios remotos afogados.
Tenho de levar-lhes redes de rezas,
campos convertidos em velas,
barcas sobrenaturais
com peixes mensageiros
e cantos náuticos.

E fico tonta.
acordada de repente nas praias tumultuosas.
E apressam-me, e não me deixam sequer mirar a rosa-dos-ventos.
"Para adiante! Pelo mar largo!
Livrando o corpo da lição da areia!
Ao mar! - Disciplina humana para a empresa da vida!"
Meu sangue entende-se com essas vozes poderosas.
A solidez da terra, monótona,
parece-mos fraca ilusão.
Queremos a ilusão grande do mar,
multiplicada em suas malhas de perigo.

Queremos a sua solidão robusta,
uma solidão para todos os lados,
uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do mundo,
e faz o tempo inteiriço, livre das lutas de cada dia.

O alento heróico do mar tem seu pólo secreto,
que os homens sentem, seduzidos e medrosos.

O mar é só mar, desprovido de apegos,
matando-se e recuperando-se,
correndo como um touro azul por sua própria sombra,
e arremetendo com bravura contra ninguém,
e sendo depois a pura sombra de si mesmo,
por si mesmo vencido. É o seu grande exercício.

Não precisa do destino fixo da terra,
ele que, ao mesmo tempo,
é o dançarino e a sua dança.

Tem um reino de metamorfose, para experiência:
seu corpo é o seu próprio jogo,
e sua eternidade lúdica
não apenas gratuita: mas perfeita.

Baralha seus altos contrastes:
cavalo, épico, anêmona suave,
entrega-se todos, despreza ritmo
jardins, estrelas, caudas, antenas, olhos, mas é desfolhado, cego, nu,
dono apenas de si,
da sua terminante grandeza despojada.

Não se esquece que é água, ao desdobrar suas visões:
água de todas as possibilidades,
mas sem fraqueza nenhuma.

E assim como água fala-me.
Atira-me búzios, como lembranças de sua voz,
e estrelas eriçadas, como convite ao meu destino.

Não me chama para que siga por cima dele,
nem por dentro de si:
mas para que me converta nele mesmo. É o seu máximo dom.
Não me quer arrastar como meus tios outrora,
nem lentamente conduzida.
como meus avós, de serenos olhos certeiros.

Aceita-me apenas convertida em sua natureza:
plástica, fluida, disponível,
igual a ele, em constante solilóquio,
sem exigências de princípio e fim,
desprendida de terra e céu.

E eu, que viera cautelosa,
por procurar gente passada,
suspeito que me enganei,
que há outras ordens, que não foram ouvidas;
que uma outra boca falava: não somente a de antigos mortos,
e o mar a que me mandam não é apenas este mar.

Não é apenas este mar que reboa nas minhas vidraças,
mas outro, que se parece com ele
como se parecem os vultos dos sonhos dormidos.
E entre água e estrela estudo a solidão.

E recordo minha herança de cordas e âncoras,
e encontro tudo sobre-humano.
E este mar visível levanta para mim
uma face espantosa.

E retrai-se, ao dizer-me o que preciso.
E é logo uma pequena concha fervilhante,
nódoa líquida e instável,
célula azul sumindo-se
no reino de um outro mar:
ah! do Mar Absoluto.
Cecília Meireles

17 de agosto de 2009

11 de agosto de 2009

Metafísica

Há metafísica bastante em não pensar em nada.
O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.
Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).
O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.
Metafísica? Que metafísica tem aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?
"Constituição íntima das cousas"...
"Sentido íntimo do universo"...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.
Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentando, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água da fonte.
O único sentido íntimo das cousas
elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, aqui estou!
(Isto é talvez ridículo ao ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende que fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)
Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e o sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si-próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda hora.
Fernando Pessoa

3 de agosto de 2009

O Assassinato de Cristóvão

Animais de estimação são bastante importantes em muitas famílias. Mas na minha família isso nunca foi levado em consideração, talvez por não termos muitos recursos.
Mas certo dia de minha adolescência chega meu pai com um leitão. Ele o havia ganhado como presente de alguém que, provavelmente, visasse um favor seu. Meu pai era policial (PM) de um posto de fiscalização da receita estadual.
Esse leitão já tinha seu destino certo, quando chegasse a uma certa idade e peso, seria abatido e aproveitado como alimento. Parte consumida por nós e outra parte vendida pra vizinhança. Isso ficou ciente pra todos da casa. Nessa época, éramos seis, eu, papai, mamãe, duas irmãs e um irmão.
No entanto, aquilo que só parecia importante para as outras famílias, veio a se manifestar, logo que algum de nós designou o nome de Cristóvão para o leitão. E assim o chamávamos, e achávamos que ele (o leitão) até atendia e compreendia ordens como um animal comum de estimação.
Para que o animal engordasse e desse bom peso, conseqüentemente bastante carne e gordura pra se vender e consumir, havia um ritual ridículo que éramos obrigados a cumprir: obedecendo a um revezamento diário, cada um de nós (filhos) teria que coçar a papada do animal, não sei o porquê, mas ao que parecia para papai essa manha faria com que o porco engordasse. O Cristóvão parecia adorar, ficava deitado gemendo enquanto algum de nós lhe coçava a papada.
Mas apesar dessa situação, isso não era tão constrangedor se comparado ao dia em que o danado do porco desapareceu de casa. O afago na papado do Cristóvão ainda podia se engolir já que era no quintal de casa e os colegas e vizinhos não estavam vendo. Mas sair gritando pela rua o nome do porco, não era pra qualquer um; eu olhava pra um lado e pra outro e só chamava o porco pelo nome quando não via ninguém por perto ou quando via minha mãe ou meu pai, neste caso só pra fazer o “h”.
Caçada de lá, caçada de cá e o porco chegou ao tamanho e peso certo pra o abate. Marcou-se a esperada data, avisou-se aos parentes e vizinhos sobre o acontecimento. O dia marcado, se não me falha a memória, foi um sábado. Nós em casa aguardávamos com certa ansiedade, até mesmo um pouco de euforia. Sabe como é, menino não pode ver uma novidade que fica todo ouriçado!
Pra quem não sabe, o abate de um porco é quase um ritual, a começar pelo horário. As pessoas envolvidas nas atividades devem levantar muito cedo, bem antes do sol, pois isto garante que às oito horas, quando os compradores estiverem chegando, o porco já estará todo retalhado e preparado para a venda. Geralmente os homens é que tem o encargo do abate propriamente dito e mulheres tratam do miúdo, ou seja, o serviço sujo.
Meus pais já tinham todo esse esquema na cabeça, eles já haviam presenciado outros abates, no entanto para nós (filhos) esse seria o primeiro. Para abater um porco ou bode bastam dois homens: um segura as patas traseiras hasteadas enquanto o segundo dana um machado no meio da testa do bicho. Eu como era o mais velho dos filhos fiquei com a maldita missão de segurar as patas do bicho e meu pai manusearia o machado.
Seria o acontecimento do momento e ninguém queria se furtar à presença. Logo cedo todos estavam de pé, mesmo sem haver necessidade, pois bastavam eu, meus pais e uma tia para fazer os trabalhos iniciais que demorariam até o amanhecer. Porém, minhas duas irmãs e meu irmão, mais novos, estavam de pé pra ver.
Até aquele momento, parecia que todos estavam cientes que aquele ali era só um animal e que desde o início já teria aquele fim certo sabido. Porém, tudo mudou quando meu pai deu a primeira machadada na testa do Cristóvão. Todo mundo, inclusive minha mãe correu pra dentro de casa, uns foram pra suas camas de onde se ouvia os soluços do choro. Eu, pobre de mim, não podia sair; tive que ver o assassinato; eu era o segundo homem da casa e tinha a missão de segurar o porco, além do que já era adolescente e não pegava bem sair correndo pro quarto chorar a morte do porco.
Cristóvão foi resistente. A cada machadada que levava, soltava um som que parecia o granido de um animal pedindo socorro e a cada granido o povo escondido chorava mais. Foi triste!
Dizem que se um animal estiver sendo abatido e houver uma pessoa chorando por ele, ele demora mais a morrer. Não sei se é verdade; só sei que essa foi a primeira e ultima vez que um abate de um porco, lá em casa, teve platéia.
Carlos Heliy