18 de setembro de 2007

Eterno

O que há com a lua hoje. Não sei dizer, talvez seja seu formato, sua circunferência imperfeita, suas manchas negras, seus segredos. Quanto mistério deve existir neste espaço infinito, o que será que você sabe sobre nós, oh! Rainha da Escuridão. Nós que a vossa face observa complacente, que invadimos seu palco para interpretar nosso curto teatro da vida.
Pergunto-me por que estas questões se passam pela minha cabeça. Porque logo esta noite passei a admirar aquela que encantou o céu noturno por toda minha vida, e só agora pude perceber sua formosura.

Talvez seja uma espécie de solidão. Talvez eu esteja procurando no céu algo que preencha o vazio dentro de mim.

Espere! Mas não há vazio dentro de mim. Ou há? Não importa, pois a hora corre solta quando o pensamento divaga. Já é tarde e amanhã preciso acordar cedo.

Deito-me na cama, fazendo o possível para esquecer minha repentina admiração pelos corpos celestes. Porém minha preocupação logo se dissipa, pois um sonho começa a tomar o lugar da realidade...

Vejo um céu negro, sem estrelas, com apenas a lua no centro. Olhando melhor percebo que não é a lua mas sim uma luz de cores indefinidas; amarelo, azul, branco, lilás. As cores se alteram nesta luz produzindo um maravilhoso espetáculo, que ma dá uma sensação de extrema tranqüilidade e harmonia.

De repente o brilho começa a perder intensidade, e a esfera de luz se divide em duas. Ambas com seu brilho próprio, mas este brilho já não transmite mais alegria e sim tristeza. Percebo que, se as luzes não se juntarem de novo... elas se apagarão.

Então o sonho, como todo sonho, muda totalmente. Estou em uma espécie de castelo, vestido como um criado, e nas minhas mãos carrego um carneiro frito. Coloco delicadamente a bandeja em uma grande mesa de carvalho. Em volta da mesa as pessoas, com trajes elegantes, conversam entre si, ignorando minha presença. Exceto uma, que esta me encarando. Olho nos olhos da dama e me impressiono com sua beleza. Mesmo sabendo do perigo que corro ao flertar com os convidados, não consigo desviar o olhar. E, para minha eterna felicidade, ela sorri para mim. O sonho começa a embaçar e quando entra em foco novamente, eu me encontro cavalgando com a bela dama (cujo nome agora já sei) em meus braços. Atrás de mim, dez cavaleiros gritam branindo suas espadas. Quase não sinto a flecha que entra pelas minhas costas por causa da imensa felicidade em que me encontro. E o sonho muda de novo...

Estou andando em uma espécie de praça, o sol brilha no céu, a grama é verde e bem cuidada, as pessoas estão vestidas de maneira estranha, como naqueles filmes antigos. Vejo uma mulher ao longe, com um vestido branco e segurando uma sombrinha, a aba de seu chapéu me impede de ver seu rosto. Alguma coisa nela me atrai, me fascina.

Caminho em sua direção. O chapéu ainda cobre seu rosto quando eu me aproximo. Uma lufada de vento faz a sombrinha escapar de minha mão e parar exatamente entre minhas pernas. Pego a sombrinha e estendo-a de volta para a moça de branco. Lentamente ela levanta a cabeça e me encara nos olhos. Meu coração parece explodir, pois o rosto que eu vejo é exatamente o mesmo que o da dama do castelo. Minhas suspeitas se confirmam quando ela sorri para mim e outra flecha atravessa meu coração, desta vez não é a flecha destinada a mim por soldados furiosos a serviço de um senhor medíocre, mas a flecha do cupido que enche meu corpo de amor e alegria. Sinto que desta vez a história será diferente, que o amor irá florescer entre nós dois e que caminharemos juntos pela estrada da vida.

Estendo meu braço para moça de branco, que o aceita com alegria. Quando ela me toca sinto a verdadeira vida percorrer meu corpo, sinto que até aquele momento uma parte de mim estava faltando e que agora estou completo. Caminhamos juntos pelo lindo gramado. Então algo estranho acontece.

A paisagem a nossa volta muda freqüentemente. A praça dá lugar a um vilarejo, que dá lugar a uma cidade, onde aparecem e desaparecem casas e edifícios. Mesmo neste turbilhão, a linda moça continua de braços dados comigo. Nossas roupas também se alternam junto com a paisagem.

Então eu compreendo. Nós estamos em uma espécie de túnel do tempo. O tempo flui ao nosso redor, gerações nascem e morrem, mas nós continuamos juntos. Nós agora somos um, que deve se separar quando o corpo morre, mas que volta a se encontrar depois, e depois, e depois... Ela olha para mim com suas feições suaves, com sua inocência, com sua extrema beleza, e diz alegremente:
- Acorde! Eu tento dizer algo mas ela repete: - Acorde!



Acordo assustado, o rosto da moça, até então muito nítido em minhas lembranças, começa a desaparecer lentamente. Tento reter a imagem por mais tempo, mas é impossível. Ela se foi, assim como a lembrança de tudo que aconteceu no sonho. Começo a me trocar sentindo uma sensação estranha no corpo e uma suave dor no peito. No fundo do meu subconsciente eu sei que ela está lá, olhando para mim... aguardando, assim como eu, o momento de voltarmos a nos encontrar.

Sangue Pt. 5


Ok. Aqui estou, no meio do nada, cercado por um monte de evangélicos egocêntricos que pensam ser superiores ao restante da humanidade, com um pastor maluco que diz ser meu pai e ter dois mil e quinhentos anos de idade. Fico imaginando se quando acordar vou conseguir lembrar deste sonho, e porque diabos eu não acordo logo.

O homem que se diz meu pai continua a olhar fixamente para mim, mas agora eu vejo nitidamente o brilho vermelho em seus olhos e sua expressão já não é mais tão tranqüila e amigável como antes. – “Mais uma vez a história se repete, e a cria se volta contra o criador. Infelizmente ‘filho’, meu tempo é curto e não posso desperdiçar o trabalho que venho realizando por quase cinco gerações.” – Os ajudantes, que antes estavam boquiabertos, retomam a compostura e assumem posições distintas ao meu redor. – “Parece que herdou a mediocridade de sua mãe. Se você quer agir como um inferior deve ser tratado como um. Segurem-no!”.

Cercado por todos os lados, observo os ajudantes aproximarem-se lentamente. Acabou, é o fim, seja lá quem forem estes caras, eles me pegaram. Então algo dentro de mim explode, uma chama que perecia estar apagada por toda minha vida parece consumir meu corpo inteiro. Um ódio indomável toma conta do meu corpo fazendo-me reagir instintivamente, acerto um chute no estômago de um, quase ao mesmo tempo em que derrubo outro com um gancho de direita, giro o corpo e chuto a cara do que se aproximava por trás, o último salta por cima do companheiro em minha direção. Aproveito o movimento do corpo no ar e arremesso-o contra o homem de sobretudo. Enquanto estão todos no chão, saco a faca e viro-me na direção do pastor, que permanece parado atrás da mesa observando. “Não estou de brincadeira, quem chegar perto leva faca!” – O pastor me olha fixamente, sinto seu ódio me gelar as veias – “Muito bom...” – Antes de terminar a frase ele me acerta um poderoso soco no rosto, fazendo meu corpo atravessar a sala inteira e colidir com a mesinha ao lado da porta, que se quebra, juntamente com algumas costelas. – “...mas você ainda tem muito que aprender.”

Cuspo sangue, a dor é insuportável, mal consigo me mexer. Não consigo entender como ele me acertou tão rápido. O desgraçado estava a uns três metros de distância e havia uma mesa entre nós. “A raça humana sempre almejou a vida eterna. O medo do desconhecido, do que está por trás do véu da morte e daquilo que não entendem sempre causou pavor e pânico. Você não percebe o que estou oferecendo. Não compreende a grandeza de nossa raça. Não gostaria de chegar a este ponto, mas não tenho escolha, está na hora de deixar cair a máscara...”

Nada do que vivi até agora havia me preparado para este momento, nem em meus pesadelos mais terríveis eu poderia imaginar tal coisa. Minha infância foi repleta de contos sobre monstros e aberrações, mas o que estava acontecendo na minha frente superava qualquer expectativa. O pastor se contorcia enquanto a pele de seu corpo começava a esticar. Seu crânio cresce na parte de trás e sua mandíbula projeta-se para baixo, juntamente com os dentes que se tornam afiados e compridos. Os músculos de seu tórax incham e as veias de seus braços parecem prestes a explodir, seus dedos esticam e a as pontas rompem-se para o surgimento de unhas grossas e afiadas. – “Contemple o terror que habita os corações humanos, olhe para a evolução da carne, veja o próximo estágio da evolução. Estamos no topo da cadeia alimentar, e os humanos são nossas presas...” – A criatura que antes era o pastor, solta uma gargalhada que termina com um guinchado agudo semelhante ao de uma ave que ressoa no cérebro causando um medo paralisante. Ele olha para mim e seus olhos estão vermelhos com as pupilas amarelas de felino, como no sonho. Seu corpo parece ter o dobro do tamanho, ligeiramente curvado para frente com o peso da musculatura, seus braços quase arrastam no chão.

Escuto novamente a voz de minha mãe ecoar em minha cabeça: “...o demônio ...o demônio esteve aqui...”. A criatura emite um grunhido e arma-se em postura de ataque. Olho para minha faca no chão... longe demais. Recuo a mão e sinto um pedaço do pé da mesa entre os dedos, fecho a mão com força na madeira. Então tudo parece acontecer em câmera lenta, a criatura salta em minha direção com os braços estendidos e a boca salivando. Quando ainda está no ar, a uma distância bem próxima de meu rosto, eu cravo com toda minha força o pedaço de madeira no peito da besta, que cai arrastando-me junto para o chão. Ignoro a dor de minhas costelas e utilizo as duas mãos para afundar ainda mais a madeira em seu peito.

A criatura levanta-se e afaste-se cambaleante para trás. Arranca os trinta centímetros de madeira cravados no lado esquerdo de seu peito, que sai acompanhado de um jato de sangue, curva seu corpo e emite um grito agudo, que vai aumentando em intensidade até tornar-se insuportavelmente alto, os vidros das janelas se estilhaçam e eu sinto um filete de sangue escorrer em meus ouvidos. O grito muda de tom, tornando-se gutural como o rugido de um leão ferido, e cessa. Seu corpo fica parado no ar por alguns segundos e cai com um baque seco. Observo a poça de sangue aumentar em torno do corpo inerte no chão. Meus tímpanos devem ter estourados pois não escuto mais nada. Olho para os ajudantes nos quatro cantos do aposento, congelados como estatuas.

“...não deixem ele pegar a criança...” – soa a voz de minha mão em um mundo de estática. “...matem-na se for preciso!” Agora, mais do que nunca, sei o que devo fazer. Sei porque minha mãe preferiu minha morte do que tornar-se um deles. Procuro novamente minha faca e salto em sua direção. “...matem-na...” “...o demônio...” – sem dar tempo par os ajudantes entenderem o que está acontecendo, apoio a faca no chão, com a ponta para cima e jogo todo o peso de meu corpo na lâmina afiada. Sinto o metal escorregar dentro de mim, rompendo camadas de pele e partindo ossos, sinto o sangue quente jorrar abundante da ferida. Sinto um forte aperto no peito, não chega a ser uma dor, parece algo se desprendendo, se partindo... sei que a faca encontrou meu coração e que tudo está acabado. “...não deixem ele pegar a criança...” – consegui mamãe, não me tornei um deles.

Minhas pernas perdem o movimento, sinto frio, minha visão começa a escurecer. Em meio às sombras, vejo o rosto deformado dos ajudantes em volta de meu corpo. Junto minhas últimas forças para levantar meu braço direito, com o punho fechado. Consigo esboçar um sorriso forçado enquanto levanto lentamente meu dedo do meio...




FIM?


“Em um pesadelo sem paz,
Sonhamos com o descanso que a morte nos trás.”

14 de setembro de 2007

Sangue Pt. 4


Entro em uma sala grande, a parede do fundo está totalmente coberta por uma cortina, um pouco a frente da cortina há uma mesa grande de madeira e, sentado em uma poltrona, atrás da mesa o “pastor” olha para mim com um sorriso no rosto. Ao seu lado, seus jovens ajudantes assumem postura militar, dois de cada lado.
“Finalmente você chegou, meu filho, a muito aguardo esse momento, por favor sente-se.” - diz o pastor com sua voz melodiosa apontando para uma cadeira do lado oposto da mesa.
Sento-me lentamente na cadeira, olhando nos olhos do pastor. “Ducar, sirva um pouco de água para o nosso garoto.” - olho para traz e vejo o homem com sobretudo da biblioteca. Desta vez ele está sem chapéu e eu posso ver que seu rosto está coberto de cicatrizes de queimaduras, um de seus olhos é quase fechado, horrível. Ele pega uma jarra que está em cima de uma mesinha do lado direito da porta, e enche um copo com água. Ele me entrega o copo e eu não consigo desviar os olhos de seu rosto. “Exposição excessiva ao sol, he,he,he!” - diz o homem. “Cale-se Duncan!” – interrompe o pastor, “Não ligue para nosso velho amigo, após todos este anos, ele já não é mais o mesmo.”
Fico parado, segurando o copo, perdido em pensamentos, tentando colocar uma ordem lógica em toda essa loucura. “Por toda minha vida eu procurei uma mulher como sua mãe, foram décadas manipulando a linhagem genética de seus descendentes para gerar a mulher perfeita, a única capaz de dar luz ao meu progenitor... meu substituto.” O pastor falava andando de um lado para o outro da cadeira com o olhar fixo nos meus, e eu escutava cada vez mais perplexo. “Séculos atrás, quando os homens se uniram para as famosas caças às bruxas, eu e meus irmãos fundamos o Nefrati” – Neste momento ele abre a imensa cortina, uma ante-sala descobre-se a minha vista. Há uma grande pedra de mármore no meio, manchada de sangue. A mesa encontra-se dentro de um pentagrama com uma vela acesa em cada ponta. No fundo, incrustado na parede, o mesmo símbolo que vi no livro talhado em bronze e ouro, do tamanho de um homem.
“Desde então controlamos o destino da humanidade, como você deve ter lido no livro, temos pessoas infiltradas nos principais governos do planeta, nada escapa ao nosso controle. Fazemos o que for preciso para preservar nossa raça, agimos nas sombras, protegidos pela falsa imagem de semelhança com os humanos. Somos os filhos de Caim, imortais, proscritos pelas leis e religiões, puxamos as cordas das marionetes e esmagamos nossos inimigos como insetos. Nasci há dois mil e quinhentos anos, sou o mais novo dos três irmãos, vi Cristo agonizando na cruz, instruí Hitler nos tempos de guerra, sussurrei no ouvido de Sadan e forneci os alvos para os mísseis americanos na Tempestade do Deserto. Mas não sou tão puro como meus irmãos e meu sangue está perdendo a força com o decorrer das eras. Por isso, há séculos venho preparando um predecessor, alguém que pode assumir o fardo que carrego por séculos. Os avanços na medicina e na genética me permitiram criar o ser perfeito, juntei minhas células com as de meus irmãos e introduzi o resultado diretamente no óvulo fecundado de sua mãe, não podemos nos reproduzir como os inferiores, portanto tive que utilizar a inseminação.”
O copo tremia levemente em minha mão - estou sonhando... só pode ser um sonho, vou acordar a qualquer momento e este maluco desgraçado nunca vai ter aparecido na minha vida – pensei enquanto o pastor tomava fôlego, seus olhos permaneciam fixos nos meus, sentia-me incrivelmente calmo, algo na voz dele me fazia acreditar no que estava dizendo, por algum motivo que não conseguia compreender, aquelas palavras me deixavam feliz e excitado. E ele continuou seu discurso:
“Infelizmente sua mãe não conseguiu compreender a magnitude que lhe era reservada, infelizmente seu sangue mortal ainda carregava a ignorância de seus ancestrais. Ela fugiu carregando você no ventre, como se fosse possível fugir de nós. Sustentei sua loucura pelo tempo necessário, mas sabia até que ponto ela poderia chegar. Quando fui procurá-la para oferecer-lhe a assistência devida pois o parto estava próximo, ela preferiu se matar, e o pior, a cadela inferior tentou lhe matar... Admito que subestimei seu potencial, meu filho, cheguei a pensar que você havia morrido no ventre exposto de sua mãe. Isso me levou a abandonar o corpo sem vida da inferior para ser tratada pelos seus ou apodrecer em um beco sujo, não me importava mais.”
Ao dizer estas últimas palavras, os olhos do pastor emitiram um estranho brilho vermelho, e uma pequena luz de consciência começou a se formar em minha mente. Aqueles olhos, aonde eu vi... os sonhos, estes são os olhos dos sonhos, uma espécie de lembrança do ventre de minha mãe. Assassino desgraçado. Ele continuava a falar enquanto eu juntava as peças do quebra-cabeça – “Agora chegou a sua hora...” – minha doença de nascença... – “...você deve assumir seu lugar na organização...” – as últimas palavras de minha mãe... – “...para isso terá que renascer...” - ...o demônio... – “...abandonar definitivamente sua forma inferior...” - ...mate-o se for preciso... – “...assumir sua verdadeira natureza e tornar-se o mais poderoso entre nós, o escolhido!”
Suas palavras já não surtiam efeito sobre mim. Um ódio avassalador crescia dentro do meu ser, precisava parar com essa loucura, havia descoberto meu papel neste quadro macabro.
“Cale esta boca, assassino filho da puta!” – gritei batendo com o copo na mesa – “Não sei que tipo de idiota você pensa que sou para cair nesta merda de conversa de pastor...” – minha mente trabalhava depressa, sabia que estava em desvantagem e precisava de tempo para me recompor – “...vou sair por aquela porta e o primeiro que tentar me impedir vai ficar com a sola de minha bota marcada em sua cara para o resto da vida!”
Os ajudantes do pastor olhavam perplexos para minha direção, mas o pastor permanecia firme. – “Mais uma vez você me impressiona. Em toda minha existência, ninguém nunca foi capaz de resistir a minha voz...”

A água do copo escorria em um filete que finalmente chegou no fim da mesa e começou a gotejar...



...continua.

Sangue Pt. 3

Confesso que, na hora, não dei muita atenção ao ocorrido, continuei com minha vida normalmente, até a morte de meu pai.
Meu pai tinha 75 anos, foi numa segunda-feira de madrugada que eu recebi seu telefonema. Estava com muita dificuldade para falar, em meio a gemidos roucos me disse para pegar o diário na escrivaninha do quarto e o telefone ficou mudo. Assim ele morreu, ataque cardíaco fulminante. Desliguei o telefone e corri para casa onde ele morava e lá estava seu corpo sem vida, ainda com o telefone na mão.

Após o enterro, fui até seu quarto e peguei o diário, sentei em sua cadeira de leitura e comecei a folheá-lo. O diário começa no dia 13 de dezembro de 1974, dia de meu nascimento e da morte de minha mãe. Meu pai sustentou durante minha vida inteira que minha mão havia morrido de complicações no parto, eu nunca tive razões para duvidar disso.

Vou reproduzir alguns trechos do diário assim como foi escrito por meu pai:


“Conheci Madalena grávida. Ela nunca quis falar sobre o pai da criança, dizia que era um imbecil qualquer que não merecia minha atenção. Me apaixonei logo de cara, que mulher maravilhosa, firme, decidida e extremamente linda. Não que eu tivesse problemas em arrumar mulheres, porém esta era especial, não sei explicar, mas o fato dela estar grávida não me incomodou nem um pouco (...)

(...) Como explicar o que eu senti aquela noite... Quando a polícia me ligou avisando de sua morte quase desmaiei... a maneira como ela morreu, meu Deus, por que? O policial me falou que os médicos estão fazendo o possível para salvar “meu filho” que, por incrível que pareça, conseguira sobreviver (...)

(...) ...ao ler os laudos policiais fiquei pasmo. Diziam que a viatura chegou no local em que Madalena havia sido supostamente atacada, e viram ela segurando a barriga, sangrando muito. Suas mão tentavam conter o sangue que saia de um corte horizontal na altura do umbigo de uns 20 centímetros, ao seu lado, a faca suja de sangue. O depoimento dos policiais, dizia que suas últimas palavras foram: “O demônio, o demônio esteve aqui e tentou levar a criança, não deixem ele pegar a criança... matem-na se for preciso..”. A perícia concluiu que ela própria havia se cortado. (...)

(...) Por que, por Deus, por que alguém como Madalena, que gostava tanto da vida, se suicidaria levando seu filho junto. (...) Agora não importa, cuidarei da criança, devo isso a Madalena. A partir de agora ele será meu filho, e nada saberá sobre o que aconteceu a sua mãe (...)


” Fechei o diário sem saber como reagir. Que história horrível, não culpo meu pai por não ter me contado.

Então lembrei-me do bilhete: “SEU PAI O AGUARDA”, meu pai biológico estava tentando me encontrar. Minha vida parecia estar se tornando um dos livros que tanto gosto de ler. Que mistério envolve a morte de minha mãe, o que deixou-a tão assustada a ponto de se matar? De que “demônio” ela tentava me proteger a ponto de preferir me matar? Quem é meu pai, e por que minha mãe não queria falar sobre ele?

Não demorou para me decidir, fiz os preparativos de minha viagem e em dois dias já estava de partida para o Maranhão. Resolvi ir de moto para ter a tão almejada “liberdade”. O mais difícil foi encontrar a cidade de Lacudra, não consta em nenhum mapa e poucos tinham ouvido falar dela. Foi na biblioteca de São Luis onde encontrei um velho mapa que constava a cidade, um pontinho no meio do nada.


Agora estou aqui, a um passo do meu destino. Hoje a noite descobrirei todo mistério que envolve minha origem. Neste momento aperto um pouco mais forte o dedo na faca e um pequeno filete de sangue começa a se formar. Chupo o dedo e o envolvo com um lenço. Mal deito a cabeça no travesseiro e já pego no sono, um sono transtornado e cheio de pesadelos, para mim, um sono normal.

Desde pequeno tenho o mesmo sonho. Estou nu, preso em uma espécie de bolha, tendo me libertar mas a bolha estica ao contato. Fora da bolha está tudo escuro. Subitamente surge um par de olhos da escuridão, olhos vermelhos com pupilas amarelas como as de um gato. Os olhos se aproximam e presas gigantes começam a se abrir, prontas para me abocanhar. Quando as presas se fecham a bolha estoura e eu caio em um líquido, afundando rapidamente. O líquido é viscoso, consistente e vermelho, seu cheiro e seu gosto me dizem que eu estou mergulhado em sangue. O ar se acaba e eu começo a me afogar... antes de perder totalmente a consciência vejo luzes, luzes girando de todas as cores, brancas, azuis, vermelhas. Nesta parte eu acordo. Suado, assustado, sempre com a sensação de que não dormi nada. Hoje não foi diferente. Acordo do pesadelo sentindo minha mão direita molhada, o lenço que cobria o pequeno corte está ensopado de sangue. Mal sinal, significa que o efeito da última transfusão está acabando, talvez o cansaço da viagem tenha acelerado o processo. Tiro o lenço e por sorte o corte já está cicatrizado. Não posso me preocupar com isso agora, são oito horas, chegou o momento de resolver esse mistério.

Alguém bate na porta, três batidas fortes. Abro a porta e não há ninguém no corredor. Parece que minha estranha anfitriã não quer que eu perca a hora do culto. Coloco minha jaqueta de couro e, pela primeira vez na vida, a faca em uma bainha presa ao tórax, de modo que fique escondida e possa ser sacada rapidamente se necessário.

Saio do quarto e, como previa, não vejo nem sinal da mulher gorda.

Chego no galpão. O culto já começou, a mesma coisa de sempre, gritos, canções, exorcismos, promessas e dízimos. Não sei como, mas essas pessoas enchem as mãos dos pastores de dinheiro, notas de 10 e de 50. Em um lugar tão pobre, como as pessoas conseguem dinheiro para sustentar estes circos? Se esse “pastor” for meu pai entendo porque minha mãe fugiu dele e nunca quis falar sobre isso.

Os vinte minutos finais do culto duram uma eternidade, fico imaginando que deveria ter trazido uma arma de grosso calibre e acabado de uma vez por todas com essa palhaçada. Quando o culto acaba as pessoas saem do galpão e o pastor e seus asseclas entram em uma porta lateral do palco. Vou na direção da porta. Pego na maçaneta fria pensando se atrás daquela porta estarão as respostas as minhas perguntas ou foi tudo invenção da minha imaginação fértil. Giro a maçaneta e abro a porta...



...continua.

Sangue Pt. 2

Sempre fui apaixonado pela leitura, talvez devido a minha doença ou a morte prematura de minha mãe, meu pai sempre foi superprotetor, impedindo, sempre que possível, que eu saísse de casa o que me levou aos livros. Dias e noites de leitura, imerso em todos os assuntos possíveis, absorvia conhecimento como uma esponja. O que me deu base suficiente para arrumar emprego na redação de um jornal de grande tiragem. Depois de um ano já trabalhava em casa, no segundo já tinha comprado a Harley, apesar de nunca usa-la, talvez o simples fato de olhar para ela me dava a sensação de liberdade que nunca tive.
Era uma tarde quente e eu resolvi sair um pouco do apartamento e aproveitar o ar condicionado da biblioteca. Estava olhando a parte sobre ocultismo, que conhecia como a palma de minha mão, quando percebi um livro diferente. Como todo fã de literatura, qualquer livro que tenha uma encadernação antiga, daquelas com lombada redonda e costuras expostas, chamam logo minha atenção. Aquele livro em especial tinha uma encadernação fantástica, grosso e maior que o normal com costura dourada e capa de couro preto envelhecido. Na capa da frente havia um brasão dourado em alto relevo que tinha a forma de uma serpente enroscada em um punhal, as páginas estavam amareladas e cheirando a mofo, mas em ótimo estado. Uma verdadeira raridade. Fui logo para uma mesa com o livro nas mãos, estava tão afoito que nem olhei para o senhor de sobretudo que esbarrei no caminho. O livro falava sobre uma organização secreta, o Nefrati, que existe desde a idade média e possui membros infiltrados nos mais altos escalões do poder. Eles não veneram nenhum deus, mas se reúnem para estudar e trocar conhecimentos como os maçons. Sentem-se superiores aos demais, tratando-os como “servos”. Suas reuniões são sempre fechadas com um ritual de sacrifício de um animal, geralmente uma galinha ou um cabrito. Cortam o pescoço do bicho e deixam-no pendurado de ponta-cabeça para seu sangue escorrer em uma vasilha. Por fim todos bebem o sangue em taças finas.
Estava tão imerso na leitura que quase não percebi um pedaço de papel escorregar do meio do livro e cair no chão. Abaixei e peguei o pedaço de papel. Ao ler o que estava escrito um calafrio percorreu meu corpo, pressentia que alguém estava querendo me dizer alguma coisa. Levantei a cabeça e notei que aquele senhor de sobretudo estava de pé, na saída da biblioteca e olhava fixamente para mim. Como não reparei antes neste sujeito, um sobretudo marrom sujo que cobria seu corpo inteiro e um chapéu de abas largas numa tarde quente como aquela. Seu rosto era extremamente pálido e cheio de cicatrizes e seus olhos tinham um estranho brilho vermelho.
Ao perceber que olhava para ele, o sujeito sorriu e saiu da biblioteca. Levantei num salto e corri atrás dele. Sai da biblioteca a tempo de ver o sujeito dobrando a esquina em direção ao beco sem saída. Gritei para ele esperar mesmo sabendo que não havia para onde ir. Qual foi minha surpresa ao entrar no beco e descobrir que ele havia sumido, evaporado no ar como uma nuvem. Minha cabeça tentava achar alguma explicação lógica para aquilo quando vejo dois caras altos vestindo ternos e chapeis entrarem em uma limusine. O que estava atrás carregava um grande livro preto com... um brasão dourado na capa. Corri mais uma vez mas não consegui alcançar o carro que saiu cantando pneus. Fiquei parado por alguns segundos em frente a porta da biblioteca e, ao olhar para o chão, encontrei um conhecido pedaço de papel...


...continua.

13 de setembro de 2007

Sangue Pt. 1

"... Seja, pois, o motivo de tuas ações e dos teus pensamentos sempre o cumprimento do dever, e fazer as tuas obras sem procurares recompensa, sem te preocupares com o teu sucesso ou insucesso, com teu ganho ou o teu prejuízo pessoal. Não caias, porém, em ociosidade e inação, como acontece facilmente aos que perderam a ilusão de esperar uma recompensa das suas ações. ..." (Baghavad-Gita)

Finalmente encontrei a cidade. Cinco dias comendo poeira, quase sem dormir, me alimentando pouco e com este sol insuportável fritando meus miolos. Não sei se aguentaria mais um dia. Vejo a cidade no vale abaixo de ponta a ponta, é pequena e isolada, praticamente no meio do nada, pergunto-me como as pessoas conseguem viver em um lugar assim.
Dou partida novamente em minha Harley, meus braços estão dormentes, quase não consigo acelerar. Preciso arrumar um lugar para descansar.
Sinto novamente o gosto de terra na boca, reparo que quanto mais próximo fico da cidade mais inóspito e sem vida fica o terreno.
Adentro nas ruas, entre os barracos de madeira. Não há ninguém nas ruas, a cidade parece deserta, mas eu noto rostos que aparecerem furtivamente nas janelas, e se escondem rapidamente quando passo. O que será que estes habitantes tanto temem... talvez nunca tenham visto uma moto antes.
Mais a frente noto um imenso galpão, parecido com um celeiro, deve ser o local de meu destino. Paro a moto, retiro o pedaço de papel amassado do bolso e, pela milésima vez, leio os garranchos: “LACUDRA - MARANHÃO - GALPÃO – SEU PAI O AGUARDA – O PASTOR”. Como estas palavras mudaram minha vida nos últimos dois anos, será que finalmente o segredo será revelado...
Avanço com a moto e noto que o galpão é na realidade um tipo de “igreja” evangélica. Acima da grande porta de entrada lê-se em uma placa: “Igreja da Sagrada Redenção” e logo abaixo: “próximo culto: 8 horas”, escrito a giz em uma lousa dependurada na parede. Ótimo, agora são 3 da tarde, posso descansar algumas horas.
No final da rua, vejo uma placa escrito “pousada” em uma das casas. Paro a moto em frente e bato na porta. Uma senhora gorda vestida de negro atende, gesticula para eu entrar e, sem dizer uma palavra, dá as costas e entra novamente em sua casa. Ao entrar reparo que a casa é bem simples mas aconchegante. A senhora gorda está parada no corredor segurando aberta a porta de um dos quartos, esta deve ser uma das maiores casas da região, pois possui quatro quartos no corredor e uma porta no centro, provavelmente deve ser um banheiro comum. A mulher aponta para um cartaz colado na porta com o valor da estadia e algumas regras do local, e vira novamente as costas afastando-se.
O quarto possui apenas uma cama e uma mesinha de cabeceira com uma tigela de água. Tiro minha jaqueta de couro que um dia foi preta e minha camiseta suada. Lavo-me na tigela com água fresca e meu corpo me lembra que estou com sede e fome, vou perguntar para a “simpática” dona da pousada onde posso comer algo, mas, ao abrir a porta deparo-me com uma jarra de água gelada e uma bandeja de frutas frescas, talvez a mulher no fundo seja uma boa anfitriã. Falo um obrigado em voz alta e fecho a porta. Neste momento, escuto uma voz anazalada, quase um sussurro dizendo: “Vááá emborrrraaaa!”, vindo do lado de fora do quarto. Abro a porta rapidamente mas não há ninguém no corredor e o silêncio é absoluto. “Lugar maldito”, penso enquanto apanho uma camiseta limpa de minha mochila. Pego também minha faca, a única arma que trouxe nesta viagem.

Sento na cama e me pergunto por quanto tempo mais irei aguentar sem uma transfusão sanguínea. Sou hemofílico de nascença, “...um tipo especial de hemofilia, sorte seu tipo de sangue ser AB ou receptor universal.”, dizem os médicos. Normalmente o sangue do hemofílico não coagula, causando hemorragias internas e externas que só podem ser estancadas ao introduzir “sangue novo”. A minha diferença é que, estes hemofílicos necessitam algo em torno de 30 transfusões mensais, eu faço uma vez por semana e, segundo os médicos, após cada transfusão, apresento uma fantástica capacidade regenerativa além de um ótimo vigor físico. Fiz minha última transfusão um dia antes de viajar, acho que dá para aguentar mais uns três dias. Passo o dedo no fio da faca para conferir o corte e procuro fazer uma retrospecção do que aconteceu até agora. Tudo começou quando achei aquele livro na biblioteca...

...continua.

Um Conto de Natal

Era uma vez um anjo chamado Jeremias. Ao contrário dos outros anjos do Céu, Jeremias tinha um sonho: ele queria tornar-se humano e viver na Terra. Todos no Céu achavam-no estranho, não conseguiam compreender por que alguém deixaria o Paraíso para viver junto com os homens. Imaginem só, diziam em sua ausência, conviver no meio de tanta violência e miséria, sentir fome e frio, ter que lutar constantemente contra os pecados capitais. Também tinham medo da reação de Deus, afinal ser anjo é uma dádiva concedida por Ele.

Não que Jeremias não gostasse de seu trabalho, ele adorava ajudar os humanos, e era justamente por isso que queria tornar-se um deles. Acreditava que desta maneira poderia entender melhor a humanidade e ajudá-los com maior eficiência. Além disso, queria sentir o que os humanos sentiam, sentir a grama molhada pelo orvalho em seus pés, sentir o vento em seu rosto, o calor do sol, o gosto salgado da água do mar, e todas as coisas simples que os humanos geralmente nem percebem. Mas ele sabia que era um sonho impossível, que apenas uma única vez Deus permitiu a um anjo tornar-se humano, e isso foi a quase dois mil anos.


Era um dia como outro qualquer e Jeremias estava sentado em sua nuvem aguardando um chamado da Terra. É assim que funciona no Céu: um humano pede ajuda, e Deus manda imediatamente um de seus anjos para ajudá-lo, mas a pessoa a ser ajudada tem que querer mesmo ajuda, senão o anjo nada pode fazer. É o que Deus chamou de “Livre Arbítrio”, que é a capacidade que todos os seres humanos possuem de decidir os rumos de suas vidas.

Então lá estava nosso amigo anjo, olhando calmamente para a Terra, esperando ansioso por mais uma oportunidade de ajudar aqueles seres maravilhosos que caminhavam de um lado para outro. Foi quando ele ouviu o chamado, bem baixinho, quase um sussurro. Sentiu a mão de Deus em seu ombro, o que indicava que ele fora o convocado para atender esse pedido. Em questão de segundos, Jeremias estava mais uma vez entre os humanos, apesar de ninguém conseguir vê-lo ou ouvi-lo. Só que ele não entendeu a cena que viu; um caminhão tombado, um carro todo esmagado e um corpo estendido no chão. Sabia muito bem que o homem estendido no chão estava para morrer, e que era este homem que o chamava. O que ele não sabia era como poderia ajuda-lo.

Jeremias colocou a mão na testa do homem e sentiu a vida se esvaindo daquele corpo, viu a sombra da morte se aproximando. Estava prestes a ir embora quando notou o homem acidentado ao seu lado, em espírito. O homem, que olhava para os lados como se estivesse perdido, perguntou ao anjo o que estava acontecendo. Mais uma vez Jeremias ficou confuso, este não era o seu trabalho, não havia nada que pudesse fazer. Mas o amor pelos humanos falava mais alto em seu coração e ele ficou com muita pena do homem. Resolveu acalma-lo com histórias do Céu e do Paraíso, contando sobre a beleza, a paz e o descanso que os humanos podem encontrar naquele lugar. Entretanto o homem não estava nem um pouco interessado nas histórias de Jeremias, dizia que precisava voltar para casa, que a mulher estava grávida e que não teve a oportunidade de dizer a esposa o quanto a amava.

O anjo pensou nos milhões de seres humanos que partem com esse desejo e, ao olhar nos olhos do espírito, imaginou que pudesse absorver seus sentimentos. Por alguns segundos, acreditou realmente que sentia o amor do homem pela esposa e compreendeu a importância daquele ato. Jeremias sabia que havia apenas uma maneira de ajudar aquele homem...

A muitos séculos, ele ouvira falar que os anjos tinham o poder de passar sua essência vital para os humanos, mas aquilo era proibido pois ia contra as regras de Deus e o anjo em questão estaria interferindo diretamente no desejo do Senhor. Além disso, a transmissão duraria apenas alguns minutos para o humano enquanto o anjo perderia para sempre sua alma imortal.

Jeremias pensou no que perderia, nos vôos suaves entre as nuvens, nas maravilhas do Paraíso, nos outros humanos que poderia ajudar. Olhou mais uma vez para o espírito amargurado, pensando nos dias que o homem passou junto com a esposa, no filho que ele não iria conhecer e na tristeza e solidão que a esposa sentiria ao saber da tragédia. O amor pela vida humana que o anjo sempre sentiu, ajudou-o a tomar a decisão. Que assim seja, pensou, atravessando a mão no peito e tirando de dentro de seu corpo uma pequena estrela brilhante.

Entregou a pequena estrela ao homem, dizendo que isto daria a ele apenas alguns minutos a mais de vida, que seria o suficiente para despedir-se de sua mulher. O homem, que não tinha idéia do sacrifício que o anjo estava fazendo, aceitou o presente. Segurando a estrela com as duas mãos, agradeceu alegremente e despediu-se do anjo que começava a desaparecer.


Às 22:30 de uma quinta-feira chuvosa, Daniel Martins dava entrada em um hospital de São Paulo, vítima de acidente de carro. Um motorista de caminhão que estava sobre efeito de soníferos, adormeceu no volante, entrou na contramão, e bateu de frente contra o carro que Daniel dirigia.

Na ficha médica de Daniel constava: traumatismo craniano, perfuração torácica com perca do rim esquerdo, braço esquerdo esmagado e uma artéria da perna rompida por um pedaço de metal que ainda encontrava-se cravado no corpo da vítima. Os médicos não entendiam como ele ainda estava vivo, mas o mais estranho aconteceu às 22:45, quando a vítima apertou o braço de uma enfermeira e começou a chamar pela esposa.

Às 22:50, Maria Alice Martins, grávida de quatro meses, entra na sala de operações, segura a mão do marido, aproxima o rosto da sua boca e escuta as seguintes palavras: “Meu amor, hoje e sempre eu te amo... cuide bem de nosso filho... diga a ele... que eu o amo”. Às 22:52, morre Daniel Martins. Segundo os médicos, fora um milagre ele ter conseguido chegar vivo ao hospital.



Jeremias abriu os olhos lentamente e viu que estava no Céu, e que todos os anjos do Paraíso estavam à sua volta. Ele lembrou dos acontecimentos das últimas horas e pensou que estava em uma espécie de julgamento pelo que fez. Uma voz soou ao longe e, apesar de não ser alta, todo o Céu podia ouvi-la. “Não, meu caro e fiel amigo, isto não é um julgamento, e nós não estamos aqui para puni-lo. Estamos aqui para realizar o seu desejo mais profundo”. A voz calou-se e Jeremias olhava para os lados no intuito de descobrir de onde vinha aquela voz, tão calma e suave. Os anjos começaram a recuar e abrir um corredor, onde um homem caminhava em sua direção. Não era um anjo, pois não tinha asas, mas parecia que carregava o sol em suas costas tal o brilho que emanava sua alma. O homem vestia uma túnica branca e sandálias de couro, seus cabelos eram negros e compridos, seus olhos eram de um azul intenso.

“A dois mil anos, falou o homem, fui escolhido para descer à Terra e ajudar os filhos de Deus a encontrarem seus caminhos. Muita coisa mudou desde então, meus ensinamentos foram distorcidos e muitos utilizam meu nome e o de nosso Senhor em vão, pensando apenas em seu próprio proveito e lucro material. Deus não está satisfeito com a situação e resolveu tentar mais uma vez mandar um de seus anjos para ajudar seus filhos. Você foi o escolhido, seu amor pela vida humana supera o de qualquer outro habitante do Paraíso, você provou que esta disposto a sacrificar sua própria existência pelos homens e mulheres da Terra. Que sua sabedoria guie seus passos e que você consiga tornar o mundo um lugar mais agradável para os nossos irmãos mortais viverem. Semeie a paz e colha o amor. Vá, meu amigo, cumpra o seu destino”.



E assim Jeremias realizou seu sonho de tornar-se humano. Agora mesmo ele pode estar entre nós. Talvez ele seja aquele bombeiro que arrisca a vida para salvar pessoas, talvez ele seja aquele senhor fantasiado de Papai Noel que faz as crianças sorrirem, ou talvez ele seja aquele mendigo que vive de caridade (como o foi seu amigo a dois mil anos), e tudo que tem dá para os mais necessitados. O importante é que cada um de nós pode fazer sua parte para tornar este mundo melhor, e eu não estou falando para dar esmola para qualquer mendigo que aparece pois, como todos sabem, tem muito sem vergonha por aí. O que quero dizer é que se você fizer uma pessoa sorrir a ponto de esquecer seus problemas por um minuto que seja, você já estará dando um grande passo. E, se esta história conseguiu entreter você e talvez até colocar um pouco de alegria em sua vida, então a minha parte esta cumprida.



Ah! Já ia me esquecendo. Cinco meses depois do acidente que matou seu marido, Maria Alice Martins deu a luz a um lindo menino. Sabem o que ela falou quando segurou o filho pela primeira vez?


“Olha só que gracinha, parece até um anjinho!”

11 de setembro de 2007

A Dama da Noite

Por muitos caminhos eu andei
Minhas pegadas deixaram dor e sofrimento
Falsidade e mentira encontrei
De sobras de humanidade eu buscava sustento
Dias nublados, noites frias
O concreto da cidade e o trânsito violento
Mostram a realidade em movimento
Vazia, fria...

Luz do sol raiando no horizonte
Flash de esperança distante
Doce lamento
Paz e tormento

Surgindo da luz, um anjo alado mostra o seu esplendor
Caminhando no ar sua silhueta começa a ganhar forma
Quanto mais próximo de mim ele está,
Mais forte escuto meu coração palpitar
No céu vermelho, vejo o corpo feminino do anjo se formar
Tamanha beleza, Deusa, Princesa
Pele de veludo, estrelas no olhar - a queimar...
E se apaixonar

Oh! Dama da noite, rainha do sol
És a senhora do meu sonhar, dona do despertar
Se estou a divagar, não quero mais retornar
Pois ficarei eternamente a lhe admirar
Erguerei um templo, construirei um altar
Irei te idolatrar, te cortejar
Você será a razão do meu viver, o fim do sofrer
Sentirei você, respirarei você...

E, quando nas noites frias
Em meu colo você se deitar
Passarei a mão no seu rosto e direi baixinho para só você escutar
“Eu sempre vou te amar”

Viajantes da Tormenta

I

No sol do deserto o viajante angustia
O seu corpo envolto em panos chora em prantos
Sua esperança e alegria acabou-se com o romper do dia
Nada mais resta ao viajante desperto,
Que deitar-se no infinito deserto.


II (Delírios)

Mas o que é aquilo que vê-se ao longe
Seria a morte a espreitar ou um anjo para me levar
Sua forma divina mostra a natureza feminina
E na cabeça do viajante um pensamento atormenta:
O que mais desejo, um gole de água fria ou sua pele macia?

Sem Nexo

Por que esta tão triste?
Por que não percebes mais o brilho do sol?
Por que não sorri mais aquele sorriso lindo?

Onde encontrar o coração que chora
Mais próximo, tão distante, disforme...
Estenda a mão não percebes
O rio continua correndo não deixe que leve embora
Parte da vida, reprimida...
Ilusão em forma de despedida

Olho para sua face na memória
Estampada nas esquinas da lembrança
Quem consegue esquecer
Tão próximo, mais distante, disforme...

Dias longos, noites escuras
Nas ruas cada vez mais sem sentido
Anda aquele que está perdido

As horas devoram o tempo
Contando os minutos para nada
Caminhando no vazio Pensando, vagando, esperando...

Tolo em forma de gente
Procuras aquilo que possui e perdes o que tem
Mente conturbada...

Cego...

Surdo...

Apaixonado...


Humano.

Meu Mundo

Me dê a sua mão
Venha comigo
Que vou lhe mostrar meu mundo

Me dê a sua mão
E veja com os meus olhos
Que vou lhe mostrar a beleza e a felicidade

Deixe-me derrubar as barreiras da visão comum
E mostrar-lhe o mundo como ele realmente é...
Infinito

Deixe-me lhe ensinar a ver o mar em um grão de areia
E o céu em um ramo que aflora

Deixe-me lhe mostrar a importância da vida
E toda a beleza que ela contém


Vamos correr descalços na grama
E sentir a energia da terra fluir em nossos corpos


Vamos ver um pôr de sol
E admirar a arte da natureza em todo seu esplendor


Permita que o sentimento tome conta de você
Deixando o amor surgir em seu coração


Permita que eu navegue pelas curvas de seu corpo
Transformando cada pedacinho dele em uma jóia rara


Juntos nós caminharemos até a estrela mais próxima
E lá construiremos nosso santuário


De hoje em diante, você nunca mais se sentira sozinha, pois toda vez que olhar para o céu, na direção da estrela mais brilhante, saberá que eu estarei lá, de braços abertos, esperando, pronto para lhe dar todo meu amor e carinho.

10 de setembro de 2007

Ode à Beleza

Certo dia, há muito tempo, num reino distante, um Bobo da corte caminhava pelos jardins do castelo real e parou perto de uma rosa. Era uma rosa grande, com um vermelho brilhante que fazia com que se sobressaísse perante as outras. O Bobo ficou fascinado e passou a mão levemente sobre as pétalas da rosa, que eram macias e suaves.

Em sua inocência ele pensou: “Seria isso a beleza?” A pergunta passou a atormentar o Bobo. Ele decide perguntar ao Mago, que tudo sabe, o que é beleza? E o Mago diz que ele é jovem demais para conhecer a beleza, quando for mais velho, ela aparecerá para ele como um anjo vindo do céu. Mas o Bobo não ficou satisfeito com a resposta do Mago e, quando andava pelos corredores do castelo, deparou-se com o Príncipe que admirava sua própria imagem no espelho. Com todo respeito e cortesia, ele pergunta ao Príncipe sobre o sentido da beleza.

O Príncipe joga a imensa pluma de seu chapéu para trás e, sem desviar o olhar do reflexo, diz ao Bobo que se ele quiser ver o que é belo que olhe no espelho neste exato momento. Desta resposta, o Bobo gostou menos ainda. Lembrava-se da flor no jardim e pensava que a beleza não podia ser somente aquilo que lhe diziam, sabia que havia algo mais, algo maior. Decide então perguntar aquele que é o mais admirado e respeitado, o mais sábio e inteligente de todas as pessoas que ele conhecia... E o Bobo pede uma audiência com o Rei.

As imensas portas se abrem e o Bobo entra lentamente no salão real. Com suas roupas coloridas, seu cetro na mão direita e seus guizos tilintando nas abas do chapéu, o jovem Bobo vê o Rei sentado em seu trono de marfim. As mãos do Rei repousam nos braços do trono cobertas de anéis com lindas jóias, um manto vermelho cobre seu corpo, vários colares podem ser vistos em seu peito e, em sua cabeça, a gigantesca coroa de ouro e diamantes ofusca a vista do Bobo. Castiçais de ouro puro iluminam parcialmente o rosto maduro de um homem que sobreviveu a mil guerras, que teve mil esposas e que matou mais de mil homens. Ajoelhando-se em reverência, o Bobo pergunta ao Rei: “Oh! Senhor dos céus e da terra, eu, que sou seu humilde servo, tenho uma pergunta que passou a atormentar minha vida e que somente o senhor, com sua vasta sabedoria, pode livrar-me deste fardo”. Ele olha para o Rei, que permanece impassível e continua: “Meu lorde, o que é beleza?”

O Rei permanece por alguns segundos olhando para a figura ajoelhada em sua frente, então levantasse e com sua voz que ecoa por todo o salão como uma tempestade, diz: “Meu caro e imaturo servo vou tirar-lhe o peso dos ombros dizendo-lhe o que é belo. Beleza são os reinos que conquistei, é o brilho de minha espada ao sol, são os homens que cavalgam ao meu lado com suas armaduras reluzentes, são as minhas esposas espalhadas pelos ventos, é este castelo com toda a ostentação e luxo que o ouro e as jóias podem trazer.” O Bobo agradece ao Rei, dizendo que nada mais lhe incomodava agora. Porém, decide olhar a rosa pela última vez.

Sentado em frente à grande rosa vermelha, ele reflete sobre o que o Rei falou, sobre as conquistas e o ouro. Vozes que se aproximam o fazem voltar a realidade e olhar para o lado, onde um grupo de crianças brincam alegremente. Elas correm de um lado para o outro rindo alto e gritando, por vezes caindo na grama macia do jardim. Uma das crianças nota a presença do Bobo e vem em sua direção. É uma menina, de cabelos loiros cacheados, com vestido branco. Ao chegar perto ela diz: “Olá, senhor Bobo, mas que flor bonita o senhor tem aí!” E com uma rizadinha, volta correndo para a sua turma.

O Bobo continua olhando as crianças brincarem, e do outro lado, ele vê os servos tirando leite das vacas e carregando sacas de cereais. Ao lado deles, damas bem vestidas tecem roupas aproveitando os últimos raios de sol. No portão do castelo, guardas permanecem imóveis com suas lanças nas mãos. Então ele olha para além dos muros do castelo, para as montanhas verdes, para o céu azul avermelhado e para o sol que se esconde no horizonte.

De repente uma imensa alegria invade o jovem rapaz, uma sensação de euforia e paz ao mesmo tempo, como se ele tivesse descoberto o segredo do universo. Pois agora o Bobo sabe a resposta para sua pergunta.

A beleza não é apenas um anjo, nem um príncipe. Não é uma espada, nem ouro nem jóias.


A beleza, e agora o Bobo tem certeza disso . . . é a vida.

Sombras

No beco escuro, a chuva fina molha meu cabelo
O vento frio corta a minha face e congela minhas mãos
Nas paredes do beco, seres se movem freneticamente
Os faróis dos carros faz com que estes seres realizam uma estranha dança
Alguns se arrastam no chão, outros parecem levantar vôo
Olho para eles apenas de relance, tenho medo de ver seus rostos

Sinto um imenso alívio quando saio do beco para a rua movimentada
Mas um calafrio me avisa que há algo errado
De alguma forma um destes seres saiu do beco e esta me seguindo
Sei que não devo olhar para trás, mas não resisto
Paro e me viro

Lá esta ele, deitado no chão, escondido em seu manto negro
As pessoas que passam ao meu redor parecem não notar o estranho ser
Uma delas até parece pisar em sua cabeça, mas ele continua imóvel, frio, impassível
Não resisto a tentação de tocá-lo
Minha mão aproxima-se dele e ele parece estender a sua em minha direção
Lentamente, nossas mãos se tocam...

Então, algo estranho acontece
Não sinto minha mão tocá-lo, mas a dele tocar a minha
O pânico toma conta de mim
Com a outra mão, tento arrancar o manto negro que cobre o seu rosto
Quando toco seu rosto ele começa a moldar-se e adquirir cor
Para meu espanto, eu conheço o rosto no asfalto molhado
Como em um espelho negro, vejo a minha própria face refletida no ser negro
E, como se não bastasse, o corpo inteiro do ser começa a adquirir forma
Estagnado pelo horror, fico observando o ser levantar-se como um recém-nascido
Como descrever o terror e a aflição que se apossa de mim
Quando noto que meu corpo começa a sumir e perder cor
O ser que agora possui meu corpo olha para mim e sorri
Oh! Desgraça, que terrível maldição se abateu sobre mim

Estou condenado a viver eternamente na escuridão

Sem controle de meus movimentos




Subjugado pela luz...

8 de setembro de 2007

A Última Poesia

“Toque-me.
É tão fácil me deixar
Aqui sozinho com a memória
Dos dias que passei ao sol.”

Havia um homem caminhando no deserto. Ele olhava para os lados e via somente o vazio. O Sol sugava a água do seu corpo como um sanguessuga. Ele queria apenas descansar, fechar os olhos. E o homem caiu na areia...
Quando a vista do homem começou a escurecer, ele deixou escorrer a areia entre os dedos e olhando para o astro brilhante pediu: “Oh! Você que consome a minha vida, dai-me algo que me faça viver de novo, ou deixe-me partir para o vale das sombras.” E o homem, em seu delírio, pensou ver o Sol pousar na Terra e de seu centro brilhante surgir uma forma que caminhava em sua direção. Mas ele desfaleceu.
Alguém dava água na boca do homem e a vida lentamente começou a voltar para seu corpo. Ele abriu os olhos e o que viu deixou-lhe fascinado. Havia uma mulher na sua frente, suas mãos seguravam-lhe a cabeça enquanto dava-lhe água na boca. Ele pensou estar sonhando; ela era linda, seus cabelos eram o oceano, seus olhos estrelas e seu corpo poesia.
O homem disse: “Você é um anjo?”, mas a mulher não respondeu, apenas sorriu, e fora o sorriso mais lindo que o homem já vira em toda a sua vida.
O homem percebeu que a mulher era pura e ingênua, que ela não conhecia nada sobre os assuntos da Terra e dos outros homens. Então ele ensinou à mulher tudo o que sabia. Falou sobre os animais e as plantas, sobre o mar, sobre as cidades, sobre as pessoas boas e ruins e falou sobre o amor...
Juntos, descobriram o êxtase, os prazeres e as desilusões da vida, e se apaixonaram. Por entre promessas e juras de amor eterno, eles trilharam os caminhos da vida. Ele ajudava-a sempre que fosse preciso, dando-lhe o apoio necessário para passar pelas pedras e pelos obstáculos que surgiam pelo caminho. Ela dava-lhe forças para continuar caminhando e água quando ele tinha sede.
Mas um dia a mulher deixou de ser feliz e disse para o homem que estava cansada da Terra, que tinha saudades do céu...
E o homem viu mais uma vez o Sol descer na Terra e a mulher desaparecer no centro do globo luminoso.

O homem continuou caminhando pelo deserto.

Ele olhava para os lados e via somente o vazio.

6 de setembro de 2007

Os Pássaros da Solidão


Certa noite tive um sonho estranho. Nele, eu acordava para ir trabalhar, tomava café, fazia a barba e me trocava, como faço todas as manhãs.
Foi quando sai de casa que as coisas começaram a ficar diferentes, não sei bem como explicar, mas havia algo estanho no ar, não se ouvia nenhum barulho, nem um carro, nem um pássaro, nada. Olhava para as casas da rua e me parecia que todas estavam abandonadas, as folhas das árvores se moviam suavemente, com uma brisa sem som.
Próximo ao banco da praça, um cachorro todo encolhido, tremendo de frio (eu não sentia frio), me encarava seus olhos negros e tristes. Ao chegar no ponto de ônibus, comecei a ficar preocupado, não havia ninguém na avenida, nem um carro passava em ambas as mãos.
Uma densa neblina impedia-me de enxergar além de cinqüenta metros. Estava olhando na direção em que costumava vir o ônibus, quando este surgiu do meio da neblina, devagar, sem emitir nenhum som. Dei sinal e o ônibus parou.
Quando subi olhei para o motorista e me toquei que ele era a primeira pessoa que eu encontrara naquele dia. Foi então que aconteceu... ao olhar para o motorista, conseguia ver toda sua vida passar pela minha cabeça em um piscar de olhos. Vi as intermináveis noites em que ele ficava bebendo cachaça em bares sujos, rindo de histórias indecentes. Vi ele voltando para casa cambaleando, com uma terrível dificuldade de se manter em pé. Vi a aventura que era tentar achar o buraco da fechadura de sua própria casa. Vi ele vomitando no quintal e via o olhar triste de sua mulher e o olhar de repugnância de seus filhos. Vi o dia em que ele dera uma bofetada em sua mulher sem ao menos saber porque. Vi sua mulher indo embora com seus filhos e vi as lágrimas escorrerem em seu rosto quando ele estava sozinho. Sentia toda a amargura deste homem, toda desilusão de toda uma vida perdida, afogada na bebida. Sacudi a cabeça para livrar-me de tais pensamentos e fui em direção à roleta.
Quando estendi a mão para dar o passe ao cobrador, aconteceu de novo. Vi o cobrador, ainda garoto, chagar na cidade segurando fortemente a mão de sua mãe. Vi ele olhando sua mãe trabalhar de faxineira para que eles pudessem comer alguma coisa. Vi ele passar toda sua adolescência pulando de um emprego para outro, e dando quase todo seu salário para que sua mãe conseguisse pagar o aluguel de um apartamento que era só sala e banheiro. Vi ele segurando a cabeça de sua mãe, que não podia mais trabalhar pois estava muito doente. Sentia seu desespero quando gastava todo seu salário comprando remédios para sua mãe. Sentia a dor da fome em seu estômago e a solidão de alguém que nunca teve o amor de outra pessoa sem ser sua mãe.
Passei apressadamente pela roleta e dei graças a Deus quando notei que havia apenas uma pessoa no ônibus, um senhor de idade, sentado em um dos bancos do meio ao lado do corredor. Tentei não olhar para ele apertando o passo até o fundo do veículo em movimento, mas do canto do olho percebi que ele estava com a cabeça baixa e que segurava um porta-retrato entre os dedos. De onde estava, podia ver claramente a foto do porta-retrato, era a imagem de uma senhora, com bochechas rasadas e sorriso simpático.
Então as visões recomeçaram, vi o velho e a senhora passeando de mãos dadas em um parque. Vi os dois abraçados, sentados juntinhos na varanda de sua casa, trocando juras de amor em uma tarde fria de inverno. Sentia o amor que o velho senhor sentia pela mulher, o mais puro e lindo amor. Vi ele olhando para a mulher na cama de um hospital, e aproximar seu rosto do nariz da mulher para sentir seu último suspiro. Vi ele de pé, sozinho, olhando para um caixão que descia em um buraco escuro. Olhava com pena para o velho com aquele lindo retrato em suas mãos. Notei que uma gota de lágrima pingara no centro da foto e escorria lentamente.
O ônibus parou em um semáforo, só que não havia carro algum no outro sentido. Olhei para o lado e, da calçada, um mendigo olhava fixamente para mim. Desviei rapidamente o olhar e tentei pensar em alguma coisa para que as imagens não voltassem. Respirei aliviado quando o ônibus recomeçou a andar.
Minha parada chegou e dei o sinal. Desci pensando na loucura que tinha acontecido e no sofrimento daquelas pessoas, quando um garoto maltrapilho segura no meu braço pedindo trocado. Olhei para o rosto sujo do menino e as imagens se formaram em minha mente. Vi o garoto chorando em um beco escuro agarrado ao corpo inerte de sua mãe. Vi seu pai abusar sexualmente dele, dando-lhe socos nas costas cada vez que ele reclamava de dor. Sentia toda sua angustia e desespero quando tentava dormir sob céu aberto, toda carência e solidão de uma criança que não tem ninguém que lhe dê carinho, que lhe diga uma palavra de amor. Isso foi demais para mim, retirei bruscamente a mão do menino de meu braço e sai correndo pela rua deserta. Fechava os olhos e pensava: Meu Deus, é uma criança, apenas uma criança. Continuei correndo até perceber que não havia mais nada ao meu redor. A cidade havia desaparecido. Estava sozinho no meio de uma estrada e não tinha nada em lugar nenhum. Sentia uma grande angústia dentro de mim, como se a solidão fosse um bando de pássaros que botavam seus ovos em meu coração, e estes ovos cresciam dolorosamente.

Acordei pensativo deste sonho e percebi que tinha feito uma visita ao reino da solidão, onde as pessoas tristes e amarguradas vagam eternamente procurando uma razão para viver. Roguei aos céus para que não tivesse mais um sonho tão terrível. Pedi que a força da solidão ficasse bem longe de mim. Implorei para que me mandassem alguém, para dar um novo sentido à minha vida, para que eu pudesse lhe dedicar todo meu afeto e que me fizesse feliz.

Para quebrar os ovos em meu coração e fazer com que os pássaros da solidão voassem para bem longe.