13 de setembro de 2007

Um Conto de Natal

Era uma vez um anjo chamado Jeremias. Ao contrário dos outros anjos do Céu, Jeremias tinha um sonho: ele queria tornar-se humano e viver na Terra. Todos no Céu achavam-no estranho, não conseguiam compreender por que alguém deixaria o Paraíso para viver junto com os homens. Imaginem só, diziam em sua ausência, conviver no meio de tanta violência e miséria, sentir fome e frio, ter que lutar constantemente contra os pecados capitais. Também tinham medo da reação de Deus, afinal ser anjo é uma dádiva concedida por Ele.

Não que Jeremias não gostasse de seu trabalho, ele adorava ajudar os humanos, e era justamente por isso que queria tornar-se um deles. Acreditava que desta maneira poderia entender melhor a humanidade e ajudá-los com maior eficiência. Além disso, queria sentir o que os humanos sentiam, sentir a grama molhada pelo orvalho em seus pés, sentir o vento em seu rosto, o calor do sol, o gosto salgado da água do mar, e todas as coisas simples que os humanos geralmente nem percebem. Mas ele sabia que era um sonho impossível, que apenas uma única vez Deus permitiu a um anjo tornar-se humano, e isso foi a quase dois mil anos.


Era um dia como outro qualquer e Jeremias estava sentado em sua nuvem aguardando um chamado da Terra. É assim que funciona no Céu: um humano pede ajuda, e Deus manda imediatamente um de seus anjos para ajudá-lo, mas a pessoa a ser ajudada tem que querer mesmo ajuda, senão o anjo nada pode fazer. É o que Deus chamou de “Livre Arbítrio”, que é a capacidade que todos os seres humanos possuem de decidir os rumos de suas vidas.

Então lá estava nosso amigo anjo, olhando calmamente para a Terra, esperando ansioso por mais uma oportunidade de ajudar aqueles seres maravilhosos que caminhavam de um lado para outro. Foi quando ele ouviu o chamado, bem baixinho, quase um sussurro. Sentiu a mão de Deus em seu ombro, o que indicava que ele fora o convocado para atender esse pedido. Em questão de segundos, Jeremias estava mais uma vez entre os humanos, apesar de ninguém conseguir vê-lo ou ouvi-lo. Só que ele não entendeu a cena que viu; um caminhão tombado, um carro todo esmagado e um corpo estendido no chão. Sabia muito bem que o homem estendido no chão estava para morrer, e que era este homem que o chamava. O que ele não sabia era como poderia ajuda-lo.

Jeremias colocou a mão na testa do homem e sentiu a vida se esvaindo daquele corpo, viu a sombra da morte se aproximando. Estava prestes a ir embora quando notou o homem acidentado ao seu lado, em espírito. O homem, que olhava para os lados como se estivesse perdido, perguntou ao anjo o que estava acontecendo. Mais uma vez Jeremias ficou confuso, este não era o seu trabalho, não havia nada que pudesse fazer. Mas o amor pelos humanos falava mais alto em seu coração e ele ficou com muita pena do homem. Resolveu acalma-lo com histórias do Céu e do Paraíso, contando sobre a beleza, a paz e o descanso que os humanos podem encontrar naquele lugar. Entretanto o homem não estava nem um pouco interessado nas histórias de Jeremias, dizia que precisava voltar para casa, que a mulher estava grávida e que não teve a oportunidade de dizer a esposa o quanto a amava.

O anjo pensou nos milhões de seres humanos que partem com esse desejo e, ao olhar nos olhos do espírito, imaginou que pudesse absorver seus sentimentos. Por alguns segundos, acreditou realmente que sentia o amor do homem pela esposa e compreendeu a importância daquele ato. Jeremias sabia que havia apenas uma maneira de ajudar aquele homem...

A muitos séculos, ele ouvira falar que os anjos tinham o poder de passar sua essência vital para os humanos, mas aquilo era proibido pois ia contra as regras de Deus e o anjo em questão estaria interferindo diretamente no desejo do Senhor. Além disso, a transmissão duraria apenas alguns minutos para o humano enquanto o anjo perderia para sempre sua alma imortal.

Jeremias pensou no que perderia, nos vôos suaves entre as nuvens, nas maravilhas do Paraíso, nos outros humanos que poderia ajudar. Olhou mais uma vez para o espírito amargurado, pensando nos dias que o homem passou junto com a esposa, no filho que ele não iria conhecer e na tristeza e solidão que a esposa sentiria ao saber da tragédia. O amor pela vida humana que o anjo sempre sentiu, ajudou-o a tomar a decisão. Que assim seja, pensou, atravessando a mão no peito e tirando de dentro de seu corpo uma pequena estrela brilhante.

Entregou a pequena estrela ao homem, dizendo que isto daria a ele apenas alguns minutos a mais de vida, que seria o suficiente para despedir-se de sua mulher. O homem, que não tinha idéia do sacrifício que o anjo estava fazendo, aceitou o presente. Segurando a estrela com as duas mãos, agradeceu alegremente e despediu-se do anjo que começava a desaparecer.


Às 22:30 de uma quinta-feira chuvosa, Daniel Martins dava entrada em um hospital de São Paulo, vítima de acidente de carro. Um motorista de caminhão que estava sobre efeito de soníferos, adormeceu no volante, entrou na contramão, e bateu de frente contra o carro que Daniel dirigia.

Na ficha médica de Daniel constava: traumatismo craniano, perfuração torácica com perca do rim esquerdo, braço esquerdo esmagado e uma artéria da perna rompida por um pedaço de metal que ainda encontrava-se cravado no corpo da vítima. Os médicos não entendiam como ele ainda estava vivo, mas o mais estranho aconteceu às 22:45, quando a vítima apertou o braço de uma enfermeira e começou a chamar pela esposa.

Às 22:50, Maria Alice Martins, grávida de quatro meses, entra na sala de operações, segura a mão do marido, aproxima o rosto da sua boca e escuta as seguintes palavras: “Meu amor, hoje e sempre eu te amo... cuide bem de nosso filho... diga a ele... que eu o amo”. Às 22:52, morre Daniel Martins. Segundo os médicos, fora um milagre ele ter conseguido chegar vivo ao hospital.



Jeremias abriu os olhos lentamente e viu que estava no Céu, e que todos os anjos do Paraíso estavam à sua volta. Ele lembrou dos acontecimentos das últimas horas e pensou que estava em uma espécie de julgamento pelo que fez. Uma voz soou ao longe e, apesar de não ser alta, todo o Céu podia ouvi-la. “Não, meu caro e fiel amigo, isto não é um julgamento, e nós não estamos aqui para puni-lo. Estamos aqui para realizar o seu desejo mais profundo”. A voz calou-se e Jeremias olhava para os lados no intuito de descobrir de onde vinha aquela voz, tão calma e suave. Os anjos começaram a recuar e abrir um corredor, onde um homem caminhava em sua direção. Não era um anjo, pois não tinha asas, mas parecia que carregava o sol em suas costas tal o brilho que emanava sua alma. O homem vestia uma túnica branca e sandálias de couro, seus cabelos eram negros e compridos, seus olhos eram de um azul intenso.

“A dois mil anos, falou o homem, fui escolhido para descer à Terra e ajudar os filhos de Deus a encontrarem seus caminhos. Muita coisa mudou desde então, meus ensinamentos foram distorcidos e muitos utilizam meu nome e o de nosso Senhor em vão, pensando apenas em seu próprio proveito e lucro material. Deus não está satisfeito com a situação e resolveu tentar mais uma vez mandar um de seus anjos para ajudar seus filhos. Você foi o escolhido, seu amor pela vida humana supera o de qualquer outro habitante do Paraíso, você provou que esta disposto a sacrificar sua própria existência pelos homens e mulheres da Terra. Que sua sabedoria guie seus passos e que você consiga tornar o mundo um lugar mais agradável para os nossos irmãos mortais viverem. Semeie a paz e colha o amor. Vá, meu amigo, cumpra o seu destino”.



E assim Jeremias realizou seu sonho de tornar-se humano. Agora mesmo ele pode estar entre nós. Talvez ele seja aquele bombeiro que arrisca a vida para salvar pessoas, talvez ele seja aquele senhor fantasiado de Papai Noel que faz as crianças sorrirem, ou talvez ele seja aquele mendigo que vive de caridade (como o foi seu amigo a dois mil anos), e tudo que tem dá para os mais necessitados. O importante é que cada um de nós pode fazer sua parte para tornar este mundo melhor, e eu não estou falando para dar esmola para qualquer mendigo que aparece pois, como todos sabem, tem muito sem vergonha por aí. O que quero dizer é que se você fizer uma pessoa sorrir a ponto de esquecer seus problemas por um minuto que seja, você já estará dando um grande passo. E, se esta história conseguiu entreter você e talvez até colocar um pouco de alegria em sua vida, então a minha parte esta cumprida.



Ah! Já ia me esquecendo. Cinco meses depois do acidente que matou seu marido, Maria Alice Martins deu a luz a um lindo menino. Sabem o que ela falou quando segurou o filho pela primeira vez?


“Olha só que gracinha, parece até um anjinho!”

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