31 de março de 2009

The Mindscape of Alan Moore

Quando cumprimos a vontade de nosso verdadeiro Eu, nós estamos inevitavelmente cumprindo com a vontade do universo. Na magia ambas as coisas são indistinguíveis. Cada alma humana não é, de fato, UMA alma humana: é a alma do universo inteiro. E, enquanto você cumprir a vontade do universo, é impossível fazer qualquer coisa errada.
Muitos dos magos como eu entendem que a tradição mágica ocidental é uma busca do Eu com "E" maiúsculo. Esse conhecimento vem da Grande Obra, do ouro que os alquimistas buscavam, a busca da Vontade, da Alma, a coisa que temos dentro que está por trás do intelecto, do corpo e dos sonhos. Nosso dínamo interior, se preferir assim. Agora, esta é particularmente a coisa mais importante que podemos obter: o conhecimento do verdadeiro Eu.
Assim, parece haver uma quantidade assustadora de pessoas que não apenas têm urgência por ignorar seu Eu, mas que também parecem ter a urgência por obliterarem-se a si próprias. Isto é horrível, mas ao menos vocês podem entender o desejo de simplesmente desaparecer, com essa consciência, porque é muita responsabilidade realmente possuir tal coisa como uma alma, algo tão precioso. O que acontece se a quebra? O que acontece se a perde? Não seria melhor anestesiá-la, acalmá-la, destruí-la, para não viver com a dor de lutar por ela e tentar mantê-la pura. Creio que é por isso que as pessoas mergulham no álcool, nas drogas, na televisão, em qualquer dos vícios que a cultura nos faz engolir, e pode ser vista como uma tentativa deliberada de destruir qualquer conexão entre nós e a responsabilidade de aceitar e possuir um Eu superior, e então ter que mantê-lo.
Tenho estudado a escola da história do pensamento mágico e o ponto em que começou a dar errado. No meu entender, o ponto em que começa a dar errado é com o monoteísmo. Quero dizer, se olhar a história da magia, verá suas origens nas cavernas, verá suas origens no xamanismo, no animismo, na crença de que tudo o que te rodeia, cada árvore, cada rocha, cada animal foi habitado por algum tipo de essência, um tipo de espírito com o qual talvez possamos nos comunicar. E ao centro você tinha um xamã, um visionário, que seria o responsável por canalizar as idéias úteis para a sobrevivência. No momento em que você chega às civilizações clássicas, verá que tudo isto foi formalizado até certo grau. O xamã atuava puramente como um intermediário entre os espíritos e as pessoas. Sua posição na aldeia ou comunidade, imagino, era a de um "encanador espiritual". Cada pessoa no grupo devia ter seu papel: A melhor pessoa durante uma caçada tornava-se o caçador, a pessoa que era melhor pra falar com os espíritos, talvez porque ele ou ela estivesse um pouco louco, um pouco separado do nosso mundo material normal, eles tornavam-se os xamãs. Eles não seriam mestres de uma arte secreta, mas sim os que simplesmente espalhariam sua informação pela comunidade, porque se acreditava que isto era últil para todo o grupo. Quando vemos o surgimento das culturas clássicas, tudo isso se formalizou para que houvesse panteões de deuses, e cada um destes deuses tinha uma casta de sacerdotes, que até certo ponto atuariam como intermediários, que te instruiriam na adoração a estes deuses. Então, a relação entre os homens e seus deuses, que pode ser vista como a relação entre os humanos e seus "Eus" superiores, não era todavia de um modo direto.
Quando chega o cristianismo, quando chega o monoteísmo, de repente tem uma casta sacerdotal movendo-se entre o adorador e o objeto de adoração. Tem uma casta sacerdotal convertendo-se em uma espécie de gerência intermediária entre a humanidade e a divindade que está se buscando. Já não se tem mais uma relação direta com os deuses. Os sacerdotes não têm necessariamente uma relação com Deus. Eles só têm um livro que fala sobre gente que viveu há muito tempo atrás que teve relação direta com a divindade. E assim está bom: Não é preciso ter visões milagrosas, não é preciso ter deuses falando contigo. Na verdade, se você tem algo disto, provavelmente está louco. No mundo moderno, essas coisas não acontecem; as únicas pessoas as quais se permite falar com os deuses, e de um modo unilateral, são os sacerdotes. E o monoteísmo é, pra mim, uma grande simplificação. Eu quero dizer, a Cabala tem uma grande variedade de deuses, mas acima da escala, da Árvore da Vida, há uma esfera que é o Deus Absoluto, a Mônada. Algo que é indivisível, você sabe. E todos os outros deuses, e, de fato, tudo mais no universo é um tipo de emanação daquele Deus. E isto está bem. Mas, quando você sugere que lá está somente esse único Deus, a uma altura inalcançável acima da humanidade, e que não há nada no meio, você está limitando e simplificando o assunto.
Eu tendo a pensar o paganismo como um tipo de alfabeto, de linguagem. É como se todos os deuses fossem letras dessa linguagem. Elas expressam nuances, sombras de uma espécie de significado ou certa sutileza de idéias, enquanto o monoteísmo é só uma vogal, onde tudo está reduzido a uma simples nota, que quem a emite nem sequer a entende.
trecho do documentário: The Mindscape of Alan Moore

21 de março de 2009

Citações

"Se as portas da percepção se desvanecessem, tudo apareceria ao homem como verdadeiramente é: infinito."
"Quando as estrelas baixaram suas lanças e inundaram os céus com lágrimas , ele se contentou ao ver sua obra? Ele, que criou o cordeiro, é também teu criador?"
"Ver todo o mundo em um grão
E um céu em ramo que aflora
É ter o infinito na palma da mão
E a eternidade numa hora."
"Se um louco persistisse em sua loucura, acabaria se tornando sábio."
"A verdade nunca pode ser dita de modo a ser compreendida sem ser acreditada."
"Os caminhos do excesso levam ao palácio da sabedoria."
"Um só pensamento preenche a imensidão."
"A essência do doce prazer jamais pode ser maculada."
"O tolo não vê a mesma árvore que o sábio"

Willian Blake
"Às vezes a dor é demasiada para ser analisada ou tolerada.
Não engendra o mal mas é encarada perigosamente.
Temem mais a morte que a dor.
É estranho mas tem medo da morte.

A vida fere muito mais que a morte.
Com a morte finda-se a dor.
Sim, penso-a como amiga."
"O sexo está repleto de mentiras. O corpo tenta revelar a verdade. Mas está tão emaranhado em regras que dificilmente conseguimos escutá-lo. Atamo-nos fortemente com mentiras. William Blake disse que o corpo é a prisão da mente até que os cinco sentidos estejam desenvolvidos e abertos."
"Em seu crisol, o alquimista refaz a 'Grande Obra' da natureza."
"Alguns nascem para suave deleite, outros para os confins da noite."
"A única obsenidade que conheço é a violência."
"Amigos, sondem o labirinto."
"O amor é um punhado de estrategemas que possuímos para preencher o vão da vacuidade. Tenho dito."
Jim Morrison
"Sou de uma raça antiga: meus pais eram escandinavos; eles traspassavam suas costas, bebiam o próprio sangue. Farei insições por todo meu corpo, me tatuarei, quero ficar horroroso como um mongol, verás, uivarei pelas ruas."
"Embriagues sagrada: te afirmamos método."
Rimbaud
"Oh, venha com o velho Khayyam e deixe o sábio falar.
De que a vida voa não resta dúvida.
Uma coisa é certa, o resto é mentira.
A flor que desabrochou uma vez morre para sempre."
Omar Khayyam
"Eu me encontro no terrível portal e vejo o fim e o começo, um nos braços do outro."

12 de março de 2009

Duna

Trechos do livro: Duna
De Frank Hebert
"Grandeza é uma experiência transitória. Nunca é consistente. Ela depende, em parte, da imaginação criadora de mitos da humanidade. A pessoa que experimenta a grandeza deve refletir a respeito do mito que encarna. Deve refletir sobre aquilo que nela se projeta. E deve possuir um forte senso do sarcástico. O sarcasmo é o que lhe permitirá mover-se dentro de si mesma. Sem essa qualidade até mesmo a grandeza ocasional será suficiente para destruir um homem."

"Você se debate em seus sonhos?
Luta com as sombras?
E se move num transe?
O tempo lhe escapou.
Sua vida está perdida.
Você a desperdiçou em ninharias,
Vítima de sua loucura."

"O medo é assassino da mente. O medo é a morte pequena que traz a obliteração. Enfrentarei meu medo. Não permitirei que ele passe sobre mim ou através de mim. E quando ele se for, voltarei minha visão interior para fitar sua trilha. Por onde o medo passou nada restou. Apenas eu permaneço."
De Citações Reunidas do Muad´Dib,
escrito pela Princesa Irulan.

11 de março de 2009

O Sofrimento do Hipócrita

Ter mentido é ter sofrido. 0 hipócrita é um paciente na dupla acepção da palavra; calcula um triunfo e sofre um suplício. A premeditação indefinida de uma ação ruim, acompanhada por doses de austeridade, a infâmia interior temperada de excelente reputação, enganar continuadamente, não ser jamais quem é, fazer ilusão, é uma fadiga. Compor a candura com todos os elementos negros que trabalham no cérebro, querer devorar os que o veneram, acariciar, reter-se, reprimir-se, estar sempre alerta, espiar constantemente, compor o rosto do crime latente, fazer da disformidade uma beleza, fabricar uma perfeição com a perversidade, fazer cócegas com o punhal, por açúcar no veneno, velar na franqueza do gesto e na música da voz, não ter o próprio olhar, nada mais difícil, nada mais doloroso. 0 odioso da hipocrisia começa obscuramente no hipócrita. Causa náuseas beber perpétuamente a impostura. A meiguice com que a astúcia disfarça a malvadez repugna ao malvado, continuamente obrigado a trazer essa mistura na boca, e há momentos de enjôo em que o hipócrita vomita quase o seu pensamento. Engolir essa saliva é coisa horrível. Ajuntai a isto o profundo orgulho. Existem horas estranhas em que o hipócrita se estima. Há um eu desmedido no impostor. 0 verme resvala como o dragão e como ele retesa-se e levanta-se. 0 traidor não é mais que um déspota tolhido que não pode fazer a sua vontade senão resignando-se ao segundo papel. É a mesquinhez capaz da enormidade. 0 hipócrita é um titã-anão.
Victor Hugo, in "Os Trabalhadores do Mar"

8 de março de 2009

Os Filhos de Abraão

"(...) As pesquisas de opinião confirmam sistematicamente que a maioria dos cristãos, judeus e muçulmanos de hoje não está ciente das mesmas raízes que suas religiões compartilham através de Abraão, o patriarca de todas as três religiões e o fundador do monoteísmo. Ironicamente, de acordo com o livro do Gênesis, Deus tinha enviado Abraão numa missão para curar as divisões entre os homens. Sua mensagem era que, considerando as diferentes línguas ou culturas, toda a humanidade deveria ser parte de uma única família, diante de um único Deus que sustenta toda a Criação. De alguma forma, essa mensagem foi sublime foi subvertida. (...) A mulher de Abraão, Sara, não conseguiu ter filhos e, portanto, ele tomou uma segunda esposa, sua empregada árabe, Hagar, que lhe deu um filho que chamaram Ismael. Treze anos depois, Sara consegue ter um filho, Isaac. Abraão morre, Sara expulsa Hagar e Ismael, e a raça semítica é dividida entre árabes e judeus. (...) As coisas só se perverteram quando as pessoas começaram a discutir as palavras de Abraão seriam a representação mais verdadeira da tradição de Deus. A fé judaica tomou suas crenças de seu profeta, Moisés, cuja linhagem os judeus remontam a Isaac e Abraão. Algumas centenas de anos depois, Jesus, um profeta judeu, surge com um novo conjunto de crenças, sua versão da religião de Abraão. Mais uma centena de anos depois, outro homem, Maomé, se apresenta, alegando que é ele, de fato, o verdadeiro mensageiro de Deus, não os dois primeiros charlatões, e promete uma volta às revelações fundamentais de Abraão, dessa vez, conforme reconstituído através de Ismael, e nasce o Islamismo. Não admira que os lideres cristãos da época considerassem o Islã uma heresia cristã e não uma religião nova ou diferente. E depois que Maomé morreu, o próprio Islã se divide em duas grandes seitas, os xiitas e os sunitas, por causa de uma luta pela sucessão, pelo direito do poder. E assim vai, continuamente. Desatino humano da pior espécie. Portanto, temos os cristãos tratando com superioridade os judeus, considerando-os seguidores de uma revelação antiga e incompleta dos desejos de Deus; os muçulmanos ridicularizando os cristãos de uma maneira bem parecida, embora eles também reverenciem Jesus, mas somente como um mensageiro obsoleto de Deus, não como seu filho. É tão patético. Sabia que os muçulmanos devotos abençoam Abraão 17 vezes ao dia? A Haj – a peregrinação a Meca, um dever sagrado de todo muçulmano - milhões deles enfrentando brandamente o calor causticante, bem como a possibilidade de ser pisoteado até a morte, sabe do que se trata? Estão comemorando o fato de Deus poupar Ismael, o filho de Abrão! Você só precisa ir a Hebron para ver como a coisa tornou-se absurda. Árabes e judeus ainda se matam em torno do pedaço de terra mais ardorosamente disputado no planeta, tudo porque é supostamente o túmulo de Abraão, uma pequena gruta que tem áreas de visualização separadas e isoladas para cada grupo. Abraão, se ele realmente existiu, deve estar se revirando no túmulo ao pensar nos seus descendentes briguentos, intolerantes e de espírito mesquinho. E ainda falam de famílias disfuncionais..."
trecho do livro: O Último Templário
de Raymond Khoury

6 de março de 2009

Penso, logo Existo

De há muito tinha notado que, pelo que respeita à conduta, é necessário algumas vezes seguir como indubitáveis opiniões que sabemos serem muito incertas, (...). Mas, agora que resolvera dedicar-me apenas à descoberta da verdade, pensei que era necessário proceder exatamente ao contrário, e rejeitar, como absolutamente falso, tudo aquilo em que pudesse imaginar a menor dúvida, a fim de ver se, após isso, não ficaria qualquer coisa nas minhas opiniões que fosse inteiramente indubitável. Assim, porque os nossos sentidos nos enganam algumas vezes, eu quis supor que nada há que seja tal como eles o fazem imaginar. E porque há homens que se enganam ao raciocinar, até nos mais simples temas de geometria, e neles cometem paralogismos, rejeitei como falsas, visto estar sujeito a enganar-me como qualquer outro, todas as razões de que até então me servira nas demonstrações. Finalmente, considerando que os pensamentos que temos quando acordados nos podem ocorrer também quando dormimos, sem que neste caso nenhum seja verdadeiro, resolvi supor que tudo o que até então encontrara acolhimento no meu espírito não era mais verdadeiro que as ilusões dos meus sonhos. Mas, logo em seguida, notei que, enquanto assim queria pensar que tudo era falso, eu, que assim o pensava, necessáriamente era alguma coisa. E notando esta verdade: eu penso, logo existo, era tão firme e tão certa que todas as extravagantes suposições dos cépticos seriam impotentes para a abalar, julguei que a podia aceitar, sem escrúpulo, para primeiro princípio da filosofia que procurava.
René Descartes, in 'Discurso do Método'