25 de abril de 2011

O Quinto Compromisso

Toda a nossa vida é norteada por compromissos que fazemos: com nós mesmos, com nossa família, amigos, igreja, Deus etc. É claro que os mais importantes são os compromissos que fazemos com nós mesmos. O problema é que normalmente criamos esses compromissos (crenças) a partir do medo, e por isso eles nos limitam, drenam nossa energia e nos colocam para baixo. Por causa deles o nosso “sonho pessoal” é um verdadeiro pesadelo. Somos os artistas de nossa vida, mas ao invés de pintarmos uma bela obra, pintamos o nosso inferno pessoal. Tudo porque alimentamos e vivemos de acordo com crenças irreais e equivocadas: sobre nós mesmos, sobre os outros, sobre o mundo, sobre a vida. Essas crenças, ou compromissos, nos afastam de nosso ser autêntico e nos mantêm presos ao sonho.

Os Quatro Compromissos nada mais são do que atitudes, que se praticadas, expandem a consciência e libertam (acordam) desse sonho (pesadelo) pessoal, e consequentemente do “sonho do mundo”. São eles:

1. Seja impecável com a sua palavra: fale com integridade. Diga somente o que quer dizer. Evite utilizar a palavra para falar contra si mesmo (coisas como “Estou gordo (a)”, “Sou burro (a) mesmo”, “Ninguém me entende”, “Nada dá certo para mim”, etc) ou para fazer fofoca dos outros (o que acontece ou deixa de acontecer aos outros não é problema seu, e sua vida não tem como ficar melhor ou mais feliz se você investe seu tempo e energia especulando ou comentando sobre a vida de terceiros…).

2. Não leve nada para o lado pessoal: nada que os outros façam é por sua causa. O que os outros dizem e fazem é projeção de suas próprias realidades, do sonho deles. Quando você é imune à opinião e a ação dos outros, você não será vítima de sofrimentos desnecessários. E aqui o autor tem a grande sacada de não limitar o compromisso de não levar nada para o lado pessoal apenas às opiniões e ações negativas. Quando alguém te elogia ou te agrada você também não deve levar para o lado pessoal. Afinal, tudo é projeção. Tanto as coisas ruins que te dizem, como as boas.

3. Não tire conclusões: encontre a coragem de fazer perguntas e de expressar o que você realmente quer. Comunique-se com os outros o mais claramente possível, de modo a evitar desentendimentos, tristeza e drama. Com somente esse compromisso, você pode transformar completamente a sua vida.

4. Sempre faça o seu melhor: o seu melhor irá mudar de momento a momento; será diferente quando você está saudável e oposto quando estiver doente. Sob qualquer circunstância, simplesmente faça o seu melhor e você irá evitar o auto-julgamento, a culpa e o arrependimento.


O quinto compromisso lhe ajuda ainda a não se apegar ao seu sonho pessoal, mesmo que esse sonho seja um paraíso. Você é o criador, o artista que está pintando a sua vida; e se ela é uma linda obra-prima, ótimo! De qualquer forma não se apegue, porque mesmo isso é ilusório, mesmo isso é só mais uma história. O seu ser autêntico, a única realidade, está muito além de tudo isso.


5. Seja cético. Mas Aprenda a Escutar: A verdade não precisa que você acredite nela ou não. As mentiras precisam que você acredite nelas. Se você fizer isso (duvidar), elas não sobreviverão ao seu ceticismo e simplesmente desaparecerão.


"(…) o ceticismo pode tomar duas direções. Uma delas é fingir que se é cético, porque acha que é inteligente demais para ser crédulo. “Vejam como eu sou inteligente. Não acredito em nada.” Isso não é ceticismo. Ser cético é não acreditar em tudo o que você ouve, e você não acredita porque não é verdade, só isso. A maneira de ser cético é apenas estar ciente de que toda a humanidade acredita em mentiras. Você sabe que os homens distorcem a verdade porque estamos sonhando, e nosso sonho é apenas um reflexo da verdade.

Todo artista distorce a verdade, mas você não precisa julgar o que alguém diz ou chamar a pessoa de mentirosa. Todos nós falamos mentiras de um jeito ou de outro, e não é por querer. É por causa daquilo que acreditamos, é por causa dos símbolos que nós apreendemos e da maneira como nós aplicamos todos eles. Uma vez que você esteja ciente disso, o quinto compromisso faz muito sentido, e isso pode fazer uma grande diferença na sua vida.

As pessoas irão até você para contar a história pessoal delas. Vão contar o ponto de vista delas, o que elas acreditam ser verdade. Mas você não julgará se isso é verdade ou mentira. Você não julga, mas respeita. Você ouve a maneira como os outros expressam os símbolos deles, ciente de que qualquer coisa dita por eles é distorcida pelas crenças que eles possuem. Você sabe que o que eles estão lhe dizendo não é mais do que uma história, e sabe disso porque pode sentir. Você simplesmente sabe. Mas também sabe quando as palavras vêm da verdade, e sabe disso sem precisar de palavras, e essa é a questão principal."

(O Quinto Compromisso, Don Miguel Ruiz – pg. 95)
fonte: inconscientecoletivo.net

11 de abril de 2011

O Fantasma do Futuro

Ghost in the Shell [Kokaku Kidotai]

Em 2029, as ligações directas da mente humana à rede informática tornaram-se algo de banal, tal como a cibernética que permite a substituição de partes de corpos humanos, a utilização de um cérebro humano integrado num corpo diferente, parcial ou totalmente artificial, ou mesmo a utilização de cérebros artificiais, preenchidos com um “espírito” duplicado. Os crimes mais perigosos estão relacionados com a violação (“hacking”) do “espírito”, para os mais diversos fins, nomeadamente para o desvio de fundos. Um indivíduo pode assim ser transformado numa verdadeira marionete a serviço de um mestre criminoso que lhe atribui memórias artificiais, enquanto o usa para a prossecução dos seus objectivos. Na Hong Kong do futuro (sob administração japonesa?), foram criados departamentos especiais da polícia para o combate a esses crimes, alguns dos quais recorrem a meios à margem da lei, não assumidos oficialmente pelo governo. Um novo criminoso anda à solta na rede, sendo conhecido por “Mestre das Marionetas”, devido à facilidade com que ganha controle de inúmeras “conchas”, para cometer crimes, como manipulação do mercado bolsista, espionagem ou terrorismo. A Secção 9, liderada por Kusanagi Motoko (Tanaka), conhecida como “Major”, segue o seu rasto.

O argumento de «Kokaku Kidotai» é mais denso do que complexo, uma vez que há uma série de relações perceptíveis entre interesses políticos e os acontecimentos que presenciamos, só que a narrativa desenrola-se num espaço de 80 e poucos minutos, contendo material para um filme de duas horas e ainda há tempo para uma bela sequência, em jeito de promoção da excelente banda sonora de Kawai Kenji, destinada a capturar alguns momentos de introspecção da personagem de Motoko. É um daqueles filmes que exige muita atenção por parte do espectador, não sendo de todo recomendável o visionamento a altas horas da noite. Talvez seja mais proveitoso deixar a completa apreciação de todos os enlaces e pormenores tecnico-cibernéticos para uma segunda ou terceira visita à obra de Oshi.

No cerne do filme temos uma intriga política entre diferentes secções da polícia, uma ligada mais diretamente ao governo e a outra dependente do Ministério dos Negócios Estrangeiros, além da entrada em cena de representantes duma república asiática, que se afirma uma jovem democracia e parece mais interessada em dar guarida a piratas do cyberespaço. Surge então o Mestre das Marionetas, que inicialmente se julga ser um hacker americano.

Apesar da acção ser praticamente irrelevante no conjunto do argumento, o filme contém algumas sequências movimentadas muito bem realizadas do ponto de vista artístico. Tudo aqui é criteriosamente trabalhado, desde a animação propriamente dita, à iluminação, à montagem e aos efeitos sonoros. Não estamos definitivamente perante um “filme de acção”; os temas centrais de «Ghost in the Shell» são a preservação da identidade humana num mundo em que a maior parte dos indivíduos já tem pouco de orgânico e a possibilidade de se manter a individualidade quando o cérebro (a alma) é uma criação informática, manipulada, ou uma duplicação das emoções e memórias de outra pessoa. É sobre a alma e a consciência, quando o conteúdo do cérebro humano puder ser totalmente convertido em impulsos eléctricos e transmitido através de uma rede informática, duplicado ou alterado, e transferido para outro corpo. Poderão conviver dois “espíritos” num mesmo corpo? A partir daqui é fácil de conceber a existência de um ser que vive sem precisar de uma existência física, um ser que vive numa rede informática, transferindo-se de corpo para corpo, da mesma forma que se movimenta de computador para computador. Outra das perguntas-chave é: um ser que parta para a Rede e que abandone o seu corpo ou um programa informático que ganhe auto-consciência e integre memórias de outros “espíritos”, recolhidas ao longo da sua vida, em que medida é que se assemelhará àquilo que nós definimos como um ser humano?

Os temas da humanidade de seres artificiais foram abordados com alguma frequência na literatura e no cinema, como no clássico «Blade Runner», de Scott ou no mais recente «A.I.» de Spielberg, talvez demasiado preocupado em ser “bonito” e ter impacto melodramático, para poder explorar realmente bem o tema. No que toca a animé, em 2001, Rintaro revisitou «Metropolis», apresentando, uma vez mais, uma máquina que deseja a humanidade, revoltando-se contra as linhas de código que lhe comandam o cérebro. O filme de Oshii, baseado na manga de Shirow Masamune, é um produto sem falhas a apontar, construído meticulosamente de raiz, sem um milímetro de filme desperdiçado com futilidades ou concessões, e que recebeu aplausos unânimes da crítica e de cineastas como James Cameron, tendo tido influência considerável em filmes como «The Matrix».


«Ghost in the Shell» conta com uma excelente banda sonora de Kawai Kenji e com um hipnótico tema musical, interpretado por Higuchi Saeko e revisitado várias vezes durante o filme. O design de personagens tem a assinatura de Okiura Hiroyuki, realizador de «Jin Roh».

Este "anime-movie" foi levado ao público brasileiro com o nome de "O Fantasma do Futuro", e surgiu de um mangá homônimo criado por Masamune Shirow e lançado entre os anos de 1989 e 1990 (mas existem algumas diferenças entre o anime e o mangá), além de ser uma das poucas obras que podem ser encontradas em locadoras brasileiras. A versão do "movie" foi produzida em 1995 pelos Studios I.G e dirigida, de forma independente, pelo genial Oshii Mamoru.

E dele surgiu ainda Ghost in the Shell: Stand Alone Complex, com 52 episódios, produzidos pela IG em 2002, e esta história transcorre num universo paralelo, onde a Major Kusanagi jamais se encontra com o Puppet Master. Como uma consideração final: se não gostaram do "movie" ou ficaram cheios de perguntas, sugiro que leiam o mangá. É bastante interessante e esclarece muito sobre a história. Inclusive partes que foram censuradas, por exibir um certo "lesbianismo" explícito como uma possibilidade cibernética; e outras coisas que, digamos, entrariam em confronto religioso, como as constantes comparações com Deus (na hora da criação do homem ou atingir a perfeição de Deus). Mais uma informação: o "Kusanagi", usado como nome de um dos personagens, tem uma referência mitológica: Kusanagi é o segundo nome da espada retirada de Orochi (Kusanagi no Tsurugi), que foi presenteada ao neto da deusa Amaterasu (Deusa do Sol), Niniji. Este, por sua vez, se tornou o avô do Imperador Jinmu, o Primeiro Imperador do Japão.


Abram suas mentes ao assistir a Ghost in the Shell, e irão entendê-lo logo de cara. Do contrário, irão assisti-lo 10, 20 vezes e não encontrarão sentido algum.

fonte: www.asia.cinedie.com e www.animehaus.com.br

5 de abril de 2011

28 dias, 6 horas, 42 minutos e 12 segundos

por Ricardo Rangel

Que relação poderia ligar entre si um garoto adolescente esquizofrênico, viagens no tempo provocadas por portais abertos no espaço-tempo chamados de worm holes ("buracos de minhoca"), um livro escrito por uma ex-professora secundarista - conhecida como "Vovó Surda" - sobre tais assuntos, um guru fundamentalista que é, na verdade, um falso profeta, um grupo infantil de dança, uma noite de Halloween e um ser fantasiado de coelho que diz ser um viajante do tempo, o qual vem ajudar o já citado garoto (que tem visões do tal coelho, mas não sabe se este é real ou um delírio da sua mente) a salvar o mundo do seu final, além de outras "viagens" de várias naturezas? Aparentemente, nada, ou muito pouco. Pois o genial diretor e roteirista juvenil norte americano Richard Kelly conseguiu uma proeza aos moldes de David Lynch no seu inteligente, curiosíssimo e impressionante filme de estréia, "Donnie Darko", realizado em 2001, e que foi lançado diretamente em vídeo e DVD, sem passagem pelos cinemas.

Aparentemente, uma estratégia proposital esta, de Kelly, a de restringir a distribuição do seu perturbador filme, que se tornou objeto de culto no cinema alternativo americano pela complexidade do roteiro, que, além de reunir todos estes elementos referidos acima, constitui-se em um desafio lógico na sua compreensão, um quebra-cabeças consistente, detentor de uma lógica interna difícil e intrincada, tudo isso permeado por uma trilha sonora doce, suave, nostálgica: um passeio pelas melhores bandas de sucesso dos anos 80, como Echo and the Bunnyman, Joy Division, Tears for Fears (da enigmática música "Mad World", cuja letra tem tudo a ver com o filme, sendo o tema que toca na, talvez, cena principal e mais difícil de ser interpretada), Duran Duran (com a inesquecível balada "Notorius"), The Church, dentre outros.

Aliado a tudo isso, o livro da "Vovó Surda", a ex-professora Roberta Sparrow, cujo título é "A Filosofia da Viagem no Tempo", existe de fato para além do filme, estando disponível na internet, e funciona como uma espécie de roteiro de apoio na tentativa de buscar solucionar os vários enigmas do filme (a personagem Sparrow é fictícia, mas o seu livro é real, e foi escrito também por Richard Kelly, assim como a carta de Donnie Darko para a vovó surda, outro documento fundamental para buscar as possíveis soluções). Percebe-se, assim, uma estratégia de marketing para divulgar o filme mais ou menos no estilo feito de "A Bruxa de Blair", que lançou um site para divulgar os resultados das investigações da procura pelos estudantes de cinema que desapareceram na floresta de Burskitsville, porém no caso de "Blair Witch Project" houve todo um apelo comercial de divulgação e marketing para promover o filme, que se tornou um sucesso de bilheteria por apresentar a proposta de um terror novo, e conseguiu, pois, alem de ser muito bom, surgiu como um produto diferente no mercado. Com "Donnie Darko", entretanto, não houve uma estratégia tão massiva, e nem era intenção dos realizadores tal alarde e propaganda do filme, que graças à produção executiva de Drew Barrymore, que também atua na fita, pôde ser realizado e produzido, sendo sucesso nos meios alternativos, transformando-se num fenômeno em escala menor, à margem da grande indústria hollywoodiana.

"Donnie Darko" imediatamente se converteu numa referência para discussões filosóficas, científicas, místicas e religiosas, e o que é melhor, sem cair em conceitos frouxos ou ridículos, sem embasamento: há coerência na história, o roteiro é genialmente bem construído por Kelly, conservando o ar de mistério, de enigma oculto no ar, e todas as explicações, até mesmo aquelas mais fantasiosas e talvez um pouco inverossímeis, dependendo da interpretação, tem fundamento científico. A metafísica que resulta daí não é nem um pouco carente de conteúdo e fraca, muito pelo contrário, leva a questões profundas sobre temas como, por exemplo, destino, acaso, determinação, revelação, além de levantar questões éticas e psicológicas bastante curiosas.


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