5 de abril de 2011

28 dias, 6 horas, 42 minutos e 12 segundos

por Ricardo Rangel

Que relação poderia ligar entre si um garoto adolescente esquizofrênico, viagens no tempo provocadas por portais abertos no espaço-tempo chamados de worm holes ("buracos de minhoca"), um livro escrito por uma ex-professora secundarista - conhecida como "Vovó Surda" - sobre tais assuntos, um guru fundamentalista que é, na verdade, um falso profeta, um grupo infantil de dança, uma noite de Halloween e um ser fantasiado de coelho que diz ser um viajante do tempo, o qual vem ajudar o já citado garoto (que tem visões do tal coelho, mas não sabe se este é real ou um delírio da sua mente) a salvar o mundo do seu final, além de outras "viagens" de várias naturezas? Aparentemente, nada, ou muito pouco. Pois o genial diretor e roteirista juvenil norte americano Richard Kelly conseguiu uma proeza aos moldes de David Lynch no seu inteligente, curiosíssimo e impressionante filme de estréia, "Donnie Darko", realizado em 2001, e que foi lançado diretamente em vídeo e DVD, sem passagem pelos cinemas.

Aparentemente, uma estratégia proposital esta, de Kelly, a de restringir a distribuição do seu perturbador filme, que se tornou objeto de culto no cinema alternativo americano pela complexidade do roteiro, que, além de reunir todos estes elementos referidos acima, constitui-se em um desafio lógico na sua compreensão, um quebra-cabeças consistente, detentor de uma lógica interna difícil e intrincada, tudo isso permeado por uma trilha sonora doce, suave, nostálgica: um passeio pelas melhores bandas de sucesso dos anos 80, como Echo and the Bunnyman, Joy Division, Tears for Fears (da enigmática música "Mad World", cuja letra tem tudo a ver com o filme, sendo o tema que toca na, talvez, cena principal e mais difícil de ser interpretada), Duran Duran (com a inesquecível balada "Notorius"), The Church, dentre outros.

Aliado a tudo isso, o livro da "Vovó Surda", a ex-professora Roberta Sparrow, cujo título é "A Filosofia da Viagem no Tempo", existe de fato para além do filme, estando disponível na internet, e funciona como uma espécie de roteiro de apoio na tentativa de buscar solucionar os vários enigmas do filme (a personagem Sparrow é fictícia, mas o seu livro é real, e foi escrito também por Richard Kelly, assim como a carta de Donnie Darko para a vovó surda, outro documento fundamental para buscar as possíveis soluções). Percebe-se, assim, uma estratégia de marketing para divulgar o filme mais ou menos no estilo feito de "A Bruxa de Blair", que lançou um site para divulgar os resultados das investigações da procura pelos estudantes de cinema que desapareceram na floresta de Burskitsville, porém no caso de "Blair Witch Project" houve todo um apelo comercial de divulgação e marketing para promover o filme, que se tornou um sucesso de bilheteria por apresentar a proposta de um terror novo, e conseguiu, pois, alem de ser muito bom, surgiu como um produto diferente no mercado. Com "Donnie Darko", entretanto, não houve uma estratégia tão massiva, e nem era intenção dos realizadores tal alarde e propaganda do filme, que graças à produção executiva de Drew Barrymore, que também atua na fita, pôde ser realizado e produzido, sendo sucesso nos meios alternativos, transformando-se num fenômeno em escala menor, à margem da grande indústria hollywoodiana.

"Donnie Darko" imediatamente se converteu numa referência para discussões filosóficas, científicas, místicas e religiosas, e o que é melhor, sem cair em conceitos frouxos ou ridículos, sem embasamento: há coerência na história, o roteiro é genialmente bem construído por Kelly, conservando o ar de mistério, de enigma oculto no ar, e todas as explicações, até mesmo aquelas mais fantasiosas e talvez um pouco inverossímeis, dependendo da interpretação, tem fundamento científico. A metafísica que resulta daí não é nem um pouco carente de conteúdo e fraca, muito pelo contrário, leva a questões profundas sobre temas como, por exemplo, destino, acaso, determinação, revelação, além de levantar questões éticas e psicológicas bastante curiosas.


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