23 de fevereiro de 2011

Excalibur

(...) Este foi o maior dos ataques saxões naquele dia, e foi empreendido por uma vaga de lanceiros confiantes que haviam recuperado do último ataque-surpresa e que agora vinham fracionar as nossas linhas para resgatar Aelle. Bramiam os seus cânticos de guerra enquanto se aproximavam, batiam com as lanças nos escudos e prometiam uns aos outros um grande número de mortes britânicas para cada um. Os saxões sabiam que tinham vencido. Eles haviam conseguido o pior que Artur podia fazer-lhes, tinham combatido até nos fazerem paralisar, haviam visto o seu paladino matar um rei e, agora, com as suas tropas refrescadas na dianteira, avançavam para acabar conosco. Os francos retiraram as suas leves lanças de arremesso, preparando-se para fazer cair sobre o nosso escudo defensivo uma chuva de ferros aguçados.

Quando, de repente, soou uma trompa vindo de Mynydd Baddon.

Primeiramente, poucos fomos os que ouvimos a trompa, tão sonoros eram os gritos e tamanho era o barulho da marcha e dos gemidos dos moribundos; mas depois a trompa voltou a soar, e ainda uma terceira vez, e ao terceiro chamamento os homens viraram-se e levantaram os olhos, fitando os taludes abandonados de Mynydd Baddon. Até os francos e os saxões se detiveram. Estavam apenas a cinquenta passos de nós quando o lur os deteve e eles, tal como nós, se viraram e levantaram os olhos para a vasta encosta verde da colina.

Vendo um único cavaleiro e um estandarte.

Era uma única bandeira, mas era enorme; um pano branco descomunal onde se via bordado o dragão vermelho da Dumnônia, ondulando ao vento. O animal, todo ele garras, cauda e fogo, empinava-se na bandeira serpenteante quase derrubando o cavaleiro que a empunhava. Até mesmo àquela distância conseguíamos ver que o cavaleiro montava de forma hirta e estranha, como se não conseguisse dominar o seu cavalo preto nem segurar a grande bandeira com firmeza. Então, surgiram atrás de si dois lanceiros, com cujas armas picaram o seu cavalo. O animal deu um salto descendo a colina a correr, velozmente, e o cavaleiro foi sacudido com força para trás pelo movimento repentino. Voltou a oscilar para diante, ao mesmo tempo que o cavalo descia pela encosta correndo e a sua capa preta voava para trás e para cima. Reparei que a sua armadura, por baixo da capa, era de um branco tão alvo como o tecido da sua bandeira flutuante. Por trás dele emergiu em torrente, vinda de Mynydd Baddon, tal como nós havíamos surgido logo pela manhã, uma massa de homens gritando. Uns traziam escudos negros e outros varrões com dentes de elefante nos seus escudos. Oengus Mac Airem e Culhwuch haviam chegado. Em vez de atacarem pela estrada de Corinium, primeiro abriram caminho por Mynydd Baddon, para que os seus homens se juntassem aos nossos.

Contudo, era o cavaleiro que eu observava. Cavalgava de modo estranho, e eu percebia agora que ele vinha amarrado ao cavalo. Os seus tornozelos estavam presos com uma corda, por baixo da barriga do garanhão preto, e o seu corpo havia sido fixado à sela por aquilo que teriam de ser tábuas de madeira presas à armação da sela. Ele não tinha elmo, de modo que o seu longo cabelo esvoaçava solto ao vento e, por baixo do cabelo, o rosto do cavaleiro mais não era do que uma caveira com um largo sorriso, coberta com pele amarela ressequida. Era Gawain, o defunto Gawain, lábios e gengivas contraídos para trás dos dentes, as narinas duas fendas negras e as suas órbitas buracos ocos.

A cabeça pendia-lhe balanceando, enquanto o corpo, ao qual o estandarte do dragão da Bretanha estava preso, oscilava de um lado para o outro.

Era a morte num cavalo preto chamado Anbarr, e com a visão daquele espírito dirigindo-se ao seu flanco, a confiança dos saxões esmoreceu. Os Escudos Negros gritavam atrás de Gawain, conduzindo o cavalo e o cavaleiro morto para lá das sebes e diretamente para o flanco dos saxões. Os Escudos Negros não atacavam em linha, surgindo numa massa vociferante. Este era o modo de ataque irlandês, um terrível assalto de homens enfurecidos que se dirigiam ao inimigo como loucos.

Por instantes, o campo de batalha ficou em grande agitação. Os saxões haviam estado próximo da vitória, mas ao ver a sua hesitação Artur gritou inesperadamente para que avançássemos.

- Preparar! - gritou ele.

- Avancem! - Mordred acrescentou a sua ordem à de Artur: - Avancem!

Deste modo se iniciou a matança de Mynydd Baddon. Todos os bardos cantam o feito e, pela primeira vez, não exageraram. Transpusemos a nossa cerrada fileira de mortos e empunhamos as nossas lanças em direção ao exército saxão, enquanto os Escudos Negros e os homens de Culhwuch batiam os seus flancos. Por breves instantes, ouviu-se o clangor de espadas entrechocando-se, as pancadas surdas dos machados nos escudos, o resmoneio, a agitação e o esforço da luta dos escudos defensivos bem cerrados; mas depois, o exército saxão separou-se e lutamos por entre as suas fileiras retalhadas em campos tornados escorregadios com sangue franco e saxão. Os saxões fugiram, divididos por uma carga selvagem conduzida por um homem morto num cavalo preto, e nós os matamos até não pensarmos em mais nada senão em matar. Enchemos a ponte das espadas com sais mortos. Nós os estocamos, estripamos, e foram poucos os que afogamos no rio. No início, não fizemos prisioneiros, descarregando apenas anos de ódio sobre os nossos odiosos inimigos. O exército de Cerdic ficara destruído neste duplo assalto, e nós bramíamos por entre as suas fileiras quebradas e competíamos uns com os outros para ver quem mais matava. Era uma orgia de morte, um tumulto de carnificina. Havia alguns saxões tão aterrorizados que não conseguiam se mexer, ficando literalmente de pé de olhos esbugalhados aguardando a sua vez de morrer, enquanto outros lutavam como demônios, outros ainda morriam correndo e outros mais tentavam fugir para o rio. Nós havíamos perdido toda a semelhança com um escudo defensivo, tendo-nos tornado apenas uma matilha de cães-de-guerra enraivecidos que despedaçava o inimigo. Vi Mordred coxeando sobre o seu pé defeituoso enquanto matava saxões, vi Artur no seu cavalo perseguindo os fugitivos, vi os homens de Powys vingando o seu rei milhares de vezes. Vi Galahad cutilando à direita e à esquerda do dorso do seu cavalo, com a mesma expressão calma de sempre. Vi Tewdric, em trajes de sacerdote, esqueleticamente magro e mostrando a sua tonsura, golpeando selvagemente com uma enorme espada. O velho bispo Emrys estava presente, com uma enorme cruz pendurada ao pescoço e uma velha armadura presa em volta da sua túnica com uma corda feita de crina.

- Vão para o inferno! - resmungava ele, enquanto trespassava com uma lança os desesperados saxões. - Consumam-se no fogo purificador para sempre!

Vi Oengus Mac Airem, com a barba ensopada de sangue saxão, trespassando ainda mais sais. Vi Guinevere montada no cavalo de Mordred dando estocadas com a espada que lhe havíamos oferecido. Vi Gawain, com a cabeça quase desprendendo-se do corpo, sumindo bruscamente com o seu cavalo quando este caiu pesadamente sobre a relva, no meio de cadáveres saxões. Finalmente, vi Merlim, pois fora ele quem acompanhara o corpo de Gawain, e apesar de já estar velho, batia nos saxões com o seu bastão e os amaldiçoava chamando-os de vermes miseráveis. Ele tinha uma escolta de Escudos Negros. Viu-me, sorriu, e acenou para a carnificina.

Invadimos a aldeia de Cerdic, onde as mulheres e as crianças se refugiavam em cabanas. Culhwuch e um bom número de homens abriam um frio caminho de terror por entre os poucos lanceiros saxões que tentavam proteger as suas famílias e a bagagem abandonada de Cerdic. Os guardas saxões morreram e o ouro pilhado foi espalhado como algo sem valor. Recordo-me da poeira elevando-se como nevoeiro, dos gritos aterrorizados e da fuga das mulheres, dos homens, das crianças e dos cães, das cabanas em chamas vomitando fumaça e dos enormes cavalos de Artur troando por entre aquele pânico e oscilando as lanças rapidamente, para cima e para baixo, para atacarem os lanceiros inimigos pela retaguarda. Não existe maior felicidade do que a destruição de um exército vencido. O escudo defensivo quebrou-se e reinou a morte e, deste modo, matamos até os nossos braços estarem muito cansados para levantar uma espada. Depois de terminada a matança, nos vimos num lago de sangue e foi, então, que os nossos homens descobriram a cerveja e o hidromel na bagagem saxã e começaram a beber. Algumas mulheres saxãs encontraram proteção entre os poucos de nós que permaneciam sóbrios, que transportavam água do rio para os nossos feridos. Procuramos amigos vivos e os abraçamos, vimos amigos mortos e choramos por eles. Conhecemos o delírio da vitória absoluta, partilhamos lágrimas e risos, e alguns homens, cansados como estavam, dançaram de pura felicidade.

Cerdic fugiu. Ele e a sua escolta atravessaram o caos e subiram as colinas, a leste. Alguns saxões atravessaram o rio a nado para sul, enquanto outros seguiam Cerdic; poucos fingiram-se mortos fugindo durante a noite, mas a maioria permaneceu no vale abaixo de Mynydd Baddon e aí permanecem até hoje.

Porque nós havíamos vencido. Transformáramos os campos junto ao rio num matadouro. Havíamos salvo a Bretanha e tornado real o sonho de Artur. Éramos os reis da carnificina e os senhores da morte, e gritamos para o céu o nosso triunfo sanguinário.

Porque o poder dos Saxões fora destruído.

Trecho do livro: "Excalibur" de Bernard Cornwell.

18 de fevereiro de 2011

O Rei do Inverno

(...)Artur afastou o capuz do rosto. Andava com passos largos e firmes e eu tinha de me apressar para conseguir acompanhá-lo.

- Qual pensa que é o trabalho de um soldado, Derfel? - perguntou-me daquela forma íntima que nos fazia sentir que ele estava mais interessado em nós do que em qualquer outra pessoa do mundo.

- Combater em batalhas, meu Senhor - respondi. Ele abanou a cabeça.

- Combater em batalhas, Derfel - corrigiu-me - em nome das pessoas que não podem lutar por elas próprias. Aprendi isso na Bretanha. Este mundo miserável está cheio de pessoas fracas, pessoas sem força, pessoas esfomeadas, pessoas tristes, pessoas doentes, pessoas pobres e a coisa mais fácil do mundo é desprezar os fracos, especialmente quando se é soldado. Se for um guerreiro e quiser a filha de um homem, se apodera dela; se quiser a terra desse homem, mata-o. Afinal você é um soldado e tem uma lança e uma espada e ele é apenas um homem fraco e pobre, com uma charrua partida e um boi doente... sim, o que é que pode te impedir?

Não esperava resposta para a pergunta, limitou-se a continuar andando em silêncio. Tínhamos chegado ao portão oeste e as escadas de toros rachados que levavam à plataforma sobre o portão estavam ficando brancas com a geada. Subimo-as lado a lado.

- Mas a verdade, Derfel - disse Artur quando chegamos à alta plataforma - é que nós só somos soldados, porque o homem fraco nos faz soldados. Ele cultiva o cereal que nos alimenta, ele curte o couro que nos protege e ele corta os freixos com que se fazem as hastes das nossas lanças. Devemos-lhe o nosso serviço.

- Sim, meu Senhor - disse eu, olhando com ele para a interminável extensão de planície à nossa frente. A noite não estava tão gélida como a noite em que Mordred nascera, mas estava muito fria e o vento tornava-a ainda pior.

- Todas as coisas têm um propósito - disse Artur - até mesmo ser soldado.

Sorriu, como se pedindo desculpas por ser tão sincero; no entanto não precisava se desculpar, pois eu aprendia muito com as suas palavras. Eu sonhara ser um soldado por causa da alta posição social de um guerreiro e porque sempre me parecera que era melhor pegar uma lança do que um ancinho, mas eu nunca pensara em mais nada senão nessas ambições egoístas. Artur pensara muito mais e trouxe para Dumnónia uma visão clara de onde a sua espada e a sua lança deviam levá-lo.

Trecho do livro "O Rei do Inverno" de Bernard Cornwell

14 de fevereiro de 2011

A Tartaruga e o Coelho

A versão japonesa da fábula da tartaruga e do coelho é um tanto quanto diferente daquele da minha infância brasileira. Eu a ouvi há poucos dias do Reverendo Miura, que veio do Japão nos visitar.

Conta-se que a tartaruga e o coelho foram apostar uma corrida. O coelho saiu na frente e quando estava no topo de um morro olhou para trás e viu a tartaruga lá longe, tão longe que ele resolveu deitar e dormir.

Passo a passo a tartaruga passou pelo coelho adormecido e chegou em primeiro lugar.
No Japão essa fábula é ensinada para enfatizar a importância da persistência, paciência, continuidade.

No entanto, quando essa história foi contada na Índia houve quem dissesse:

“A tartaruga foi má. Sabe por que? Porque ela não acordou o coelho.”

São maneiras diferentes de se interpretar a mesma história. Talvez a tartaruga devesse ter parado e verificado se o coelho estava bem antes de continuar caminhando lenta e continuamente.

A história do Brasil era diferente. A tartaruga enganava o coelho e chegava primeiro.

Talvez por isso temos tantas pessoas envolvidas na corrupção. Não paramos para ajudar como na Índia, país pobre e sofredor. Nem vamos passo a passo até nossos objetivos, como no Japão, país próspero.

Como seria a versão de Buda?

Saíram juntos o coelho e a tartaruga.

Não se preocupariam em ganhar, mas em criar harmonia com sua passagem. Ofereceriam o prêmio um ao outro, pois não haveria perdedor. Um ganharia pela velocidade. Outro pela persistência.

A tartaruga veria o coelho sair rapidamente. Da poeira levantada onde nem suas patinhas poderiam ser encontradas, a tartaruga apreciando, cada passo, flor, estrada se apiedaria do amigo que na grande correria se esquecia de ver cada detalhe sagrado.

O coelho por sua vez, pernas fortes e longas, se preocupava com a amiga tartaruga, de casco pesado e pernas curtas. Estaria sendo absurda essa competição?

Olhava para trás e a via caminhando, lenta e decididamente. Parava o coelho e a esperava. Perguntava como estava. Juntos descansavam na sombra das árvores. E o melhor é que não havia gol a obter, não havia corrida a ganhar. Tudo que havia era o prazer de viver. Cada um com seu passo, seu estilo, sem competir, caminhando o Caminho, sendo o Caminho iluminado.

E nessa caminhada iam encontrando pessoas e animais, árvores e minerais, água, terra, ar, fogo, tudo que existe e sempre se prontificando a ajudar e a procurar a maneira correta de fazer com que todos percebessem a beleza de caminhar o caminho sem começo e sem fim.

No budismo ambos seriam bodisatvas, seres iluminados disfarçados a mostrar o Caminho verdadeiro a todos os seres.

Essa versão me apetece e se parece sonho, fantasia, ilusão, utopia – é dessa matéria prima sagrada que a vida é celebrada.

Somos um com o mundo. O mundo é uno em nós.

Quando inspiramos o mundo inspira. Além da dualidade o que resta é a unidade.

A diversidade não é rival da unidade. Pelo contrário: no uno tudo está incluído. Cada parte, como um corpo de coração e pulmões, rins e fígado.

Outro monge, Reverendo Saikawa, bebeu de um copo de água. Era a água e eu. Agora a água sou eu. Eu sou a água .

Interconectados. Intersendo.

Olhar capaz de ver com clareza luminosa como espelho de cristal.

Audição de ouvir com clareza sonora como Espelho de cristal

Assim com todos os sentidos. Tudo vendo, tudo ouvindo, todos os odores sentindo, todos os sabores, na pele o frio, o calor, as texturas.

Mas a mente precisa estar luminosa e aberta, pois se estiver cheia de si mesma não é capaz de se tornar flexível e sensível.

Tartaruga e coelho não se opõem. São. Intersendo.

Cada um é como é. Tem sua função e ação. Se tartaruga quiser ser coelho terá problemas dores, sofrimentos. Não aceitará a si mesma. Estará o tempo todo reclamando, se rejeitando, julgando, se rebaixando. Triste sina.

Se o coelho pensasse ser tartaruga, com uma casa nas costas a se proteger dos caçadores, seria triste seu fim.

Cada um é cada um. Tem valor e tem lugar. Nada é fixo. Não há melhor nem pior. Há o que é correto em sua função e posição.

Ser humano, estrela, cão.

Somos todos apenas você.

E você sou eu.

Tartaruga e coelho. Além da competição.

Texto da Monja Coen
fonte: www.deldebbio.com.br

8 de fevereiro de 2011

O Problema do Caixeiro Viajante

Imagine uma cena que acontece todos os dias: um vendedor deve percorrer várias cidades e gostaria de saber o caminho mais curto que lhe permita visitar todas.

O problema é velho conhecido dos matemáticos e dos cientistas da computação, tão conhecido que é chamado de Problema do Caixeiro-viajante - caixeiros-viajantes eram pessoas que antigamente saíam vendendo badulaques pelas cidadezinhas do interior.

O fato é que não existe um algoritmo eficiente para resolver o problema. Mesmo os grandes supercomputadores podem ficar ocupados por dias tentando achar a solução para um número relativamente pequeno de cidades - isto porque ele precisa comparar todas as combinações possíveis de rotas.

Circuito neural mínimo

Mas a equipe do professor Lars Chittka, da Universidade de Londres, na Inglaterra, descobriu que as abelhas encontram a solução para o problema sem precisar de supercomputadores - e tendo um cérebro pouco maior do que a cabeça de um alfinete.

Abelhas não vendem badulaques por aí, mas elas precisam achar a rota mais eficiente para visitar diversas flores.

"As abelhas têm que associar centenas de flores de uma maneira que minimize a distância da viagem e, em seguida, encontrar de forma confiável o caminho de casa - não é uma façanha trivial se você tiver um cérebro do tamanho de uma cabeça de alfinete," diz Chittka.

Ao estudar como as abelhas fazem, os cientistas conseguiram identificar o circuito neural mínimo necessário para a solução de problemas complexos.

Da Internet ao trânsito

Chittka e seus colegas usaram flores artificiais controladas pelo computador para verificar se as abelhas iriam seguir uma rota definida pela ordem em que elas descobriram as flores ou se iriam procurar a rota mais curta.

Eles se espantaram ao ver que, depois de explorar a localização das diversas flores, as abelhas aprenderam rapidamente a fazer o percurso mais curto possível. A parte mais difícil da pesquisa foi ficar esperando o computador calcular o menor caminho possível, para checar se as abelhas estavam certas.

A descoberta tem uma ampla gama de aplicações - da entrega de pacotes de dados na Internet e de pacotes reais pelos Correios, até a eliminação de engarrafamentos nas cidades, apenas para citar alguns.

E, compreendendo como as abelhas podem resolver um problema que para os humanos se tornou um dilema, mesmo tendo um cérebro tão pequeno, poderemos melhorar nossas capacidades de administração de nossas necessidades diárias sem depender de computadores superpoderosos o tempo todo.

Bibliografia:
Travel Optimization by Foraging Bumblebees through Readjustments of Traplines after Discovery of New Feeding Locations
Mathieu Lihoreau, Lars Chittka, Nigel E. Raine
The American Naturalist
October 25, 2010

Fonte: Site Inovação Tecnológica

4 de fevereiro de 2011

As Lições do Filme "O Exorcista"

Certas coisas nem a ciência nem a tecnologia conseguem explicar.
Por Paulo Roberto Elias

Em “O Exorcista” William Peter Blatty e William Friedkin usam imagens fortes para debater o confronto de limitações entre fé e ciência, em um filme que até hoje é considerado um dos mais assustadores de todos os tempos.

O grande escritor e roteirista William Peter Blatty certa feita entregou ao excêntrico, porém muito competente, diretor de cinema William Friedkin o seu último livro, que seria depois transformado no filme homônimo “O Exorcista”, cujas duas versões (a de cinema e a estendida) foram relançadas recentemente em Blu-Ray.

Durante a minha última revisita ao filme foi ainda mais fácil constatar certas coisas. Existem momentos singulares na história do cinema, e este é claramente um deles. A partir de uma estória relativamente banal, baseada num caso de uma alegada possessão demoníaca e posterior exorcismo, relatada aos jornais da época, Blatty montou uma trama simulando um caso semelhante, porém aproveitando o ensejo para criar um filme, antes de mais nada, dramático.

E por ser de fato um drama, ambos o roteirista e o diretor se ressentiram quando o filme foi vendido ao público, e aceito pelo mesmo, como um filme de terror. Com o rótulo de o filme mais assustador jamais feito, O Exorcista segue até hoje como o principal filme de horror feito em estúdios americanos, só comparável ao Drácula, de Bella Lugosi, rodado na década de 1930.

E não podia ter sido diferente: embora o objetivo do roteiro tenha sido discutir as incongruências e disputas entre fé e ciência, ou até a ocupação de espaço entre medicina e curandeirismo, a verdade é que o filme mostra de frente um confronto entre dois padres Jesuítas e uma adolescente supostamente possuída por um demônio poderoso. Este não é o Diabo da cultura judaico-cristã, mas a platéia o interpreta como tal. A partir daí é quase que impossível assistir a O Exorcista sem ficar assustado e apreensivo com o desenrolar daquele drama todo.

Mas os autores têm razão: a proposta não é de discutir a existência ou a influência do diabo na reação humana, mas de questionar a fé perante o enfrentamento do desconhecido, e se assistirmos o filme como tal, é possível então vislumbrar um monte de aspectos novos, que passaram despercebidos no ambiente de terror no qual a estória se desenrola.


O que está por trás de O Exorcista

Os padres Jesuítas constituem uma ordem dedicada ao estudo, à pesquisa e ao ensino. É deles, por exemplo, a Pontifícia Universidade Católica, radicada em várias cidades do país. Seriam, poder-se-ia dizer assim, uma ordem de scholars e de uma ala mais à esquerda da Igreja Católica.

Uma boa parte do roteiro de O Exorcista está concentrada na figura do Padre Karras. Como outros Jesuítas, ele é mandado estudar medicina e acaba fazendo residência em psiquiatria.
O Padre Merrin, outro personagem da estória da mesma ordem, é um arqueólogo cuja fé é determinantemente crédula da existência de forças do bem e do mal, e é neste ângulo onde o filme finca a base do seu principal argumento, pois Karras atravessa um período onde a sua fé nessas coisas está em crise.

E ao fazê-lo, o roteiro explora um aspecto singular das forças do mal: a mentira! A principal delas é a mentira política, disfarçada no discurso do Padre Merrin ao Padre Karras, quando os dois estão próximos de começar o ritual de exorcismo. Merrin diz que “o demônio” (ou o político, se alguém quiser) é um mentiroso, que mistura propositalmente a verdade com a mentira, para perpetrar um ataque psicológico.

Estes eram tempos da administração Nixon, que acabou se envolvendo no escândalo de Watergate e renunciando, e que provavelmente serviu de inspiração para o roteirista.

A conotação política dos comentários inseridos neste discurso e as ilações aos políticos da época são bastante evidentes. O tema em si transcende as fronteiras de onde o filme é feito, e é de um caráter atemporal indiscutível, ou seja, pode ser transposto para os dias de hoje, em qualquer país do mundo onde a política tem prevalência sobre o trabalho e o esforço individual. E neste ponto, a gente percebe que os cineastas não estão falando do demônio, mas do ser humano que tem este tipo de formação e comportamento.

O Exorcista apresenta e discute a diferença de abordagem entre as ciências médicas e a religião, vista inicialmente como parte do curandeirismo, o que em alguns casos é mesmo. Mas, a questão é apresentada ao espectador, sem que os cineastas se dêem ao trabalho de tomar partido.

Na realidade, o tema é complexo. A medicina tira seu aprendizado da ciência, e o aluno por mais de seis anos em vida acadêmica. O médico aprende que a saúde é um estado de equilíbrio entre o mental e o físico, de tal forma que um tem influência sobre o outro, na produção de doença. A ciência ensina que muitas doenças mentais são o resultado de um conjunto de alterações metabólicas em nível cerebral como, por exemplo, nos surtos da esquizofrenia.

E no filme, é o padre Karras quem faz a citação a este fato. Se o roteiro seguisse um raciocínio lógico, a adolescente seria tratada como doente mental. Mas, a mãe descarta esta possibilidade. Cansada da falta de soluções médicas, ela prefere entrar no terreno do curandeirismo, o que implica em retirar o demônio do corpo de sua filha. São os próprios médicos quem sugerem o exorcismo, como meio de provocar uma reação em Regan. Em muitos casos, a medicina convencional não tem solução para a cura de certas doenças, nem as consegue explicar ao paciente ou à família.

No filme, entretanto, se Regan MacNeil está possuída ou não por um demônio, o fato em si é irrelevante, diante da exibição da perda da fé pelo padre Karras, e sobre a existência de Deus e do demônio. A Igreja Católica é essencialmente dogmática, ao contrário da ciência, que exige comprovação dos fenômenos observados pelo ser humano. Existe um momento no filme, onde Karras tem que decidir se continua a pensar como um cientista ou começa a pensar como um religioso. E este drama não é diferente dos muitos cientistas, criados em famílias ou colégios com formação religiosa.


A sexualidade humana versus possessão demoníaca

Regan MacNeil é uma adolescente, o que quer dizer que ela é dominada pelas transformações hormonais e biológicas que a preparam para a sua sexualidade. Um dos pontos enfatizados pelos cineastas é o de que, durante a possessão do corpo de Regan pelo demônio, ela se torna sexualmente agressiva. O que de outro modo poderia ser explicado pelo estágio corporal e mental no qual Regan se encontra, no filme a sugestão é a de que existe uma ligação entre disfunções na sexualidade humana e a má influência do demônio no comportamento do indivíduo.

Levada ao pé da letra, esta interpretação, se verdadeira, ignora por completo a influência das alterações hormonais no sangue sobre o comportamento das pessoas. Teriam os cineastas cometido um erro proposital?

Embora não se possa afirmar que O Exorcista determine conclusivamente que a sexualidade é um pecado, segundo os cânones da Igreja, ele abre a porta para este tipo de discussão. As conclusões que alguém possa tirar sobre ela dependerão em muito da visão de cada um do que é o sexo.

Existem, sem dúvida, dois lados distintos desta questão, e um deles pelo menos contradiz o lado pecaminoso do sexo exposto no filme: é o que se refere ao desenvolvimento natural do corpo humano. Partindo da adolescência, o desenvolvimento da sexualidade permite ao homem e à mulher se completarem, evoluírem, se relacionarem, procriarem e tentar encontrar a felicidade afetiva.

Em outro ângulo desta mesma perspectiva, a sexualidade pode agir contra o indivíduo, na forma de violência (estupro), abuso na exploração de um ser humano pelo outro (estrutura de poder) e da personificação equivocada do que deve ser o homem ou a mulher ideal. Esta última leva ao preconceito racial e à exclusão dos não privilegiados no contexto da sua aceitação pela sociedade como um todo. É o caso, por exemplo, de adolescentes que emagrecem para virarem modelos e se sentirem mais bonitas, às vezes com a ocorrência de anorexia nervosa.


O que a indústria da pornografia não conta para ninguém

O Exorcista mostra a pornografia através de palavras e gestos, durante a possessão demoníaca de Regan. Há uma denúncia implícita, na forma de uma reflexão não religiosa, e que tem respaldo no crescimento da indústria pornográfica com distribuição de filmes aos cinemas americanos, bem à época em que o filme foi feito.

Da mesma forma como a indústria do tabaco, que ficou durante décadas ignorando propositalmente que tabagismo não dá câncer nem doença cardiovascular, a indústria do filme pornográfico até hoje não revela os desastres sociais que ocorrem por conta dela.

A pornografia explora um lado saudável da sexualidade humana: a libido. As ações mostradas na tela tentam suprir um lado supostamente didático de como o sexo deve ser praticado, quando na verdade elas distorcem as relações entre homem e mulher de forma irresponsável. A indústria pornográfica incentiva a promiscuidade e o sexo inseguro, ignorando a disseminação de doenças infectocontagiosas, algumas das quais incuráveis, como as causadas por vírus HIV e HPV, vários tipos de câncer de útero, dilaceração e câncer do orifício retal, etc.

O índice de suicídios e de atores infectados é alarmante. A indústria, com rendas multimilionárias, pouco faz para ajudar suas vítimas. No caso do lendário Deep Throat, ícone da liberação pornográfica na década de 1970, a ruína perseguiu a então atriz Linda Boreman (conhecida na época como Linda Lovelace), o seu parceiro na tela Harry Reems, que foi preso, além do filme ter sido alvo de protestos diversos em alguns lugares onde fora exibido. A seqüência dos fatos a este respeito está mostrada no documentário da HBO Inside Deep Throat, de 2005, para quem tiver interesse.

Sob o ângulo de visão da possessão demoníaca, os cineastas abrem espaço para incluir a pornografia na lista das aberrações da sexualidade humana, conduzidas por uma influência maléfica ou simplesmente por pessoas com falhas de caráter, o que nada tem de esotérico. A personagem possuída menciona o sexo promíscuo várias vezes e usa a sexualidade para ofender aqueles que estão próximos.


A redenção em O Exorcista

Há uma claríssima menção à redenção na cruz de Jesus Cristo no final do roteiro. O padre Karras assume para si a possessão demoníaca e dá a vida para livrar Regan do demônio. A imagem é forte, mas o seu objetivo é informar à plateia que existe uma luz no fim do túnel, na forma do amor de Deus para os desesperados. Ela também diz que se o sexo abstrai e escraviza, o amor de um ser humano pelo outro é libertário.

Não há, até pelo menos onde eu possa perceber, prova de amor mais contundente do que uma pessoa dar a vida para salvar a outra. Em O Exorcista, William Peter Blatty fez questão que a plateia entendesse que, no final, o bem sempre triunfará sobre o mal.

A catarse tem particular significado para aqueles de fé católica: durante o primeiro ato do filme, é mostrado um ataque perpetrado contra uma imagem de Nossa Senhora. Para os católicos, Maria representa a mãe celeste e a advogada que irá interceder por nós no juízo final. Na referência bíblica, ela é citada como a mulher que esmagará a “cabeça da serpente”, e, portanto, nossa principal aliada na luta contra as influências do demônio. A cena da dessecração da imagem da Virgem não está lá por acaso, e ela serve para declarar que o filme não se refere a nenhuma outra religião, a não ser a Católica.


O poder das imagens no cinema

O Exorcista é evidência conclusiva de que o cinema tem uma linguagem de inigualável poder sugestivo. E neste particular a televisão, que também trabalha com imagens, sempre correu atrás, mas nunca de fato chegou perto, seja na forma de novelas, minisséries ou documentários. As duas mídias são notavelmente diferenciadas, para alívio do fã de cinema que não ver uma coisa misturada com a outra.

O que isto nos diz, em última análise é que lugar de filme é no espaço físico do cinema convencional, onde existe não um indivíduo, mas uma platéia dividindo emoções. Tudo neste espaço tem seu peso e influência, inclusive e principalmente o tamanho da tela onde o filme é projetado.

A construção dos home theaters cumpre, há várias décadas agora, o papel de resgatar cinema, já que é quase impossível ressuscitar as grandes salas do passado e/ou de ver as atuais exibindo filmes clássicos, em qualquer bitola.

Em tempos remotos, eram as filmotecas dos museus e os cineclubes quem preenchiam este vazio. Mas a cada ano que passa, este papel vai paulatinamente se extinguindo. Quiséramos nós poder reverter isso, mas a sensação que se tem é que a cultura não tem prevalência nas administrações públicas, e o que se consegue é sempre debaixo de muita luta.

De qualquer forma, o cinema como arte conquistou seu espaço legitimamente, seja ele projetado em película em uma sala de cinema, seja ele gravado em mídia e distribuído diretamente ao consumidor final.

O Exorcista encerra um momento singular da vida do cineasta ousado que foi William Friedkin. E de certa forma coloca no ostracismo um dos melhores roteiristas modernos do cinema americano: William Peter Blatty. E se existe algo de bom nos extras dos discos que nós compramos é de poder resgatar um pouco desta história!

[Webinsider]