23 de fevereiro de 2011

Excalibur

(...) Este foi o maior dos ataques saxões naquele dia, e foi empreendido por uma vaga de lanceiros confiantes que haviam recuperado do último ataque-surpresa e que agora vinham fracionar as nossas linhas para resgatar Aelle. Bramiam os seus cânticos de guerra enquanto se aproximavam, batiam com as lanças nos escudos e prometiam uns aos outros um grande número de mortes britânicas para cada um. Os saxões sabiam que tinham vencido. Eles haviam conseguido o pior que Artur podia fazer-lhes, tinham combatido até nos fazerem paralisar, haviam visto o seu paladino matar um rei e, agora, com as suas tropas refrescadas na dianteira, avançavam para acabar conosco. Os francos retiraram as suas leves lanças de arremesso, preparando-se para fazer cair sobre o nosso escudo defensivo uma chuva de ferros aguçados.

Quando, de repente, soou uma trompa vindo de Mynydd Baddon.

Primeiramente, poucos fomos os que ouvimos a trompa, tão sonoros eram os gritos e tamanho era o barulho da marcha e dos gemidos dos moribundos; mas depois a trompa voltou a soar, e ainda uma terceira vez, e ao terceiro chamamento os homens viraram-se e levantaram os olhos, fitando os taludes abandonados de Mynydd Baddon. Até os francos e os saxões se detiveram. Estavam apenas a cinquenta passos de nós quando o lur os deteve e eles, tal como nós, se viraram e levantaram os olhos para a vasta encosta verde da colina.

Vendo um único cavaleiro e um estandarte.

Era uma única bandeira, mas era enorme; um pano branco descomunal onde se via bordado o dragão vermelho da Dumnônia, ondulando ao vento. O animal, todo ele garras, cauda e fogo, empinava-se na bandeira serpenteante quase derrubando o cavaleiro que a empunhava. Até mesmo àquela distância conseguíamos ver que o cavaleiro montava de forma hirta e estranha, como se não conseguisse dominar o seu cavalo preto nem segurar a grande bandeira com firmeza. Então, surgiram atrás de si dois lanceiros, com cujas armas picaram o seu cavalo. O animal deu um salto descendo a colina a correr, velozmente, e o cavaleiro foi sacudido com força para trás pelo movimento repentino. Voltou a oscilar para diante, ao mesmo tempo que o cavalo descia pela encosta correndo e a sua capa preta voava para trás e para cima. Reparei que a sua armadura, por baixo da capa, era de um branco tão alvo como o tecido da sua bandeira flutuante. Por trás dele emergiu em torrente, vinda de Mynydd Baddon, tal como nós havíamos surgido logo pela manhã, uma massa de homens gritando. Uns traziam escudos negros e outros varrões com dentes de elefante nos seus escudos. Oengus Mac Airem e Culhwuch haviam chegado. Em vez de atacarem pela estrada de Corinium, primeiro abriram caminho por Mynydd Baddon, para que os seus homens se juntassem aos nossos.

Contudo, era o cavaleiro que eu observava. Cavalgava de modo estranho, e eu percebia agora que ele vinha amarrado ao cavalo. Os seus tornozelos estavam presos com uma corda, por baixo da barriga do garanhão preto, e o seu corpo havia sido fixado à sela por aquilo que teriam de ser tábuas de madeira presas à armação da sela. Ele não tinha elmo, de modo que o seu longo cabelo esvoaçava solto ao vento e, por baixo do cabelo, o rosto do cavaleiro mais não era do que uma caveira com um largo sorriso, coberta com pele amarela ressequida. Era Gawain, o defunto Gawain, lábios e gengivas contraídos para trás dos dentes, as narinas duas fendas negras e as suas órbitas buracos ocos.

A cabeça pendia-lhe balanceando, enquanto o corpo, ao qual o estandarte do dragão da Bretanha estava preso, oscilava de um lado para o outro.

Era a morte num cavalo preto chamado Anbarr, e com a visão daquele espírito dirigindo-se ao seu flanco, a confiança dos saxões esmoreceu. Os Escudos Negros gritavam atrás de Gawain, conduzindo o cavalo e o cavaleiro morto para lá das sebes e diretamente para o flanco dos saxões. Os Escudos Negros não atacavam em linha, surgindo numa massa vociferante. Este era o modo de ataque irlandês, um terrível assalto de homens enfurecidos que se dirigiam ao inimigo como loucos.

Por instantes, o campo de batalha ficou em grande agitação. Os saxões haviam estado próximo da vitória, mas ao ver a sua hesitação Artur gritou inesperadamente para que avançássemos.

- Preparar! - gritou ele.

- Avancem! - Mordred acrescentou a sua ordem à de Artur: - Avancem!

Deste modo se iniciou a matança de Mynydd Baddon. Todos os bardos cantam o feito e, pela primeira vez, não exageraram. Transpusemos a nossa cerrada fileira de mortos e empunhamos as nossas lanças em direção ao exército saxão, enquanto os Escudos Negros e os homens de Culhwuch batiam os seus flancos. Por breves instantes, ouviu-se o clangor de espadas entrechocando-se, as pancadas surdas dos machados nos escudos, o resmoneio, a agitação e o esforço da luta dos escudos defensivos bem cerrados; mas depois, o exército saxão separou-se e lutamos por entre as suas fileiras retalhadas em campos tornados escorregadios com sangue franco e saxão. Os saxões fugiram, divididos por uma carga selvagem conduzida por um homem morto num cavalo preto, e nós os matamos até não pensarmos em mais nada senão em matar. Enchemos a ponte das espadas com sais mortos. Nós os estocamos, estripamos, e foram poucos os que afogamos no rio. No início, não fizemos prisioneiros, descarregando apenas anos de ódio sobre os nossos odiosos inimigos. O exército de Cerdic ficara destruído neste duplo assalto, e nós bramíamos por entre as suas fileiras quebradas e competíamos uns com os outros para ver quem mais matava. Era uma orgia de morte, um tumulto de carnificina. Havia alguns saxões tão aterrorizados que não conseguiam se mexer, ficando literalmente de pé de olhos esbugalhados aguardando a sua vez de morrer, enquanto outros lutavam como demônios, outros ainda morriam correndo e outros mais tentavam fugir para o rio. Nós havíamos perdido toda a semelhança com um escudo defensivo, tendo-nos tornado apenas uma matilha de cães-de-guerra enraivecidos que despedaçava o inimigo. Vi Mordred coxeando sobre o seu pé defeituoso enquanto matava saxões, vi Artur no seu cavalo perseguindo os fugitivos, vi os homens de Powys vingando o seu rei milhares de vezes. Vi Galahad cutilando à direita e à esquerda do dorso do seu cavalo, com a mesma expressão calma de sempre. Vi Tewdric, em trajes de sacerdote, esqueleticamente magro e mostrando a sua tonsura, golpeando selvagemente com uma enorme espada. O velho bispo Emrys estava presente, com uma enorme cruz pendurada ao pescoço e uma velha armadura presa em volta da sua túnica com uma corda feita de crina.

- Vão para o inferno! - resmungava ele, enquanto trespassava com uma lança os desesperados saxões. - Consumam-se no fogo purificador para sempre!

Vi Oengus Mac Airem, com a barba ensopada de sangue saxão, trespassando ainda mais sais. Vi Guinevere montada no cavalo de Mordred dando estocadas com a espada que lhe havíamos oferecido. Vi Gawain, com a cabeça quase desprendendo-se do corpo, sumindo bruscamente com o seu cavalo quando este caiu pesadamente sobre a relva, no meio de cadáveres saxões. Finalmente, vi Merlim, pois fora ele quem acompanhara o corpo de Gawain, e apesar de já estar velho, batia nos saxões com o seu bastão e os amaldiçoava chamando-os de vermes miseráveis. Ele tinha uma escolta de Escudos Negros. Viu-me, sorriu, e acenou para a carnificina.

Invadimos a aldeia de Cerdic, onde as mulheres e as crianças se refugiavam em cabanas. Culhwuch e um bom número de homens abriam um frio caminho de terror por entre os poucos lanceiros saxões que tentavam proteger as suas famílias e a bagagem abandonada de Cerdic. Os guardas saxões morreram e o ouro pilhado foi espalhado como algo sem valor. Recordo-me da poeira elevando-se como nevoeiro, dos gritos aterrorizados e da fuga das mulheres, dos homens, das crianças e dos cães, das cabanas em chamas vomitando fumaça e dos enormes cavalos de Artur troando por entre aquele pânico e oscilando as lanças rapidamente, para cima e para baixo, para atacarem os lanceiros inimigos pela retaguarda. Não existe maior felicidade do que a destruição de um exército vencido. O escudo defensivo quebrou-se e reinou a morte e, deste modo, matamos até os nossos braços estarem muito cansados para levantar uma espada. Depois de terminada a matança, nos vimos num lago de sangue e foi, então, que os nossos homens descobriram a cerveja e o hidromel na bagagem saxã e começaram a beber. Algumas mulheres saxãs encontraram proteção entre os poucos de nós que permaneciam sóbrios, que transportavam água do rio para os nossos feridos. Procuramos amigos vivos e os abraçamos, vimos amigos mortos e choramos por eles. Conhecemos o delírio da vitória absoluta, partilhamos lágrimas e risos, e alguns homens, cansados como estavam, dançaram de pura felicidade.

Cerdic fugiu. Ele e a sua escolta atravessaram o caos e subiram as colinas, a leste. Alguns saxões atravessaram o rio a nado para sul, enquanto outros seguiam Cerdic; poucos fingiram-se mortos fugindo durante a noite, mas a maioria permaneceu no vale abaixo de Mynydd Baddon e aí permanecem até hoje.

Porque nós havíamos vencido. Transformáramos os campos junto ao rio num matadouro. Havíamos salvo a Bretanha e tornado real o sonho de Artur. Éramos os reis da carnificina e os senhores da morte, e gritamos para o céu o nosso triunfo sanguinário.

Porque o poder dos Saxões fora destruído.

Trecho do livro: "Excalibur" de Bernard Cornwell.

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