4 de fevereiro de 2011

As Lições do Filme "O Exorcista"

Certas coisas nem a ciência nem a tecnologia conseguem explicar.
Por Paulo Roberto Elias

Em “O Exorcista” William Peter Blatty e William Friedkin usam imagens fortes para debater o confronto de limitações entre fé e ciência, em um filme que até hoje é considerado um dos mais assustadores de todos os tempos.

O grande escritor e roteirista William Peter Blatty certa feita entregou ao excêntrico, porém muito competente, diretor de cinema William Friedkin o seu último livro, que seria depois transformado no filme homônimo “O Exorcista”, cujas duas versões (a de cinema e a estendida) foram relançadas recentemente em Blu-Ray.

Durante a minha última revisita ao filme foi ainda mais fácil constatar certas coisas. Existem momentos singulares na história do cinema, e este é claramente um deles. A partir de uma estória relativamente banal, baseada num caso de uma alegada possessão demoníaca e posterior exorcismo, relatada aos jornais da época, Blatty montou uma trama simulando um caso semelhante, porém aproveitando o ensejo para criar um filme, antes de mais nada, dramático.

E por ser de fato um drama, ambos o roteirista e o diretor se ressentiram quando o filme foi vendido ao público, e aceito pelo mesmo, como um filme de terror. Com o rótulo de o filme mais assustador jamais feito, O Exorcista segue até hoje como o principal filme de horror feito em estúdios americanos, só comparável ao Drácula, de Bella Lugosi, rodado na década de 1930.

E não podia ter sido diferente: embora o objetivo do roteiro tenha sido discutir as incongruências e disputas entre fé e ciência, ou até a ocupação de espaço entre medicina e curandeirismo, a verdade é que o filme mostra de frente um confronto entre dois padres Jesuítas e uma adolescente supostamente possuída por um demônio poderoso. Este não é o Diabo da cultura judaico-cristã, mas a platéia o interpreta como tal. A partir daí é quase que impossível assistir a O Exorcista sem ficar assustado e apreensivo com o desenrolar daquele drama todo.

Mas os autores têm razão: a proposta não é de discutir a existência ou a influência do diabo na reação humana, mas de questionar a fé perante o enfrentamento do desconhecido, e se assistirmos o filme como tal, é possível então vislumbrar um monte de aspectos novos, que passaram despercebidos no ambiente de terror no qual a estória se desenrola.


O que está por trás de O Exorcista

Os padres Jesuítas constituem uma ordem dedicada ao estudo, à pesquisa e ao ensino. É deles, por exemplo, a Pontifícia Universidade Católica, radicada em várias cidades do país. Seriam, poder-se-ia dizer assim, uma ordem de scholars e de uma ala mais à esquerda da Igreja Católica.

Uma boa parte do roteiro de O Exorcista está concentrada na figura do Padre Karras. Como outros Jesuítas, ele é mandado estudar medicina e acaba fazendo residência em psiquiatria.
O Padre Merrin, outro personagem da estória da mesma ordem, é um arqueólogo cuja fé é determinantemente crédula da existência de forças do bem e do mal, e é neste ângulo onde o filme finca a base do seu principal argumento, pois Karras atravessa um período onde a sua fé nessas coisas está em crise.

E ao fazê-lo, o roteiro explora um aspecto singular das forças do mal: a mentira! A principal delas é a mentira política, disfarçada no discurso do Padre Merrin ao Padre Karras, quando os dois estão próximos de começar o ritual de exorcismo. Merrin diz que “o demônio” (ou o político, se alguém quiser) é um mentiroso, que mistura propositalmente a verdade com a mentira, para perpetrar um ataque psicológico.

Estes eram tempos da administração Nixon, que acabou se envolvendo no escândalo de Watergate e renunciando, e que provavelmente serviu de inspiração para o roteirista.

A conotação política dos comentários inseridos neste discurso e as ilações aos políticos da época são bastante evidentes. O tema em si transcende as fronteiras de onde o filme é feito, e é de um caráter atemporal indiscutível, ou seja, pode ser transposto para os dias de hoje, em qualquer país do mundo onde a política tem prevalência sobre o trabalho e o esforço individual. E neste ponto, a gente percebe que os cineastas não estão falando do demônio, mas do ser humano que tem este tipo de formação e comportamento.

O Exorcista apresenta e discute a diferença de abordagem entre as ciências médicas e a religião, vista inicialmente como parte do curandeirismo, o que em alguns casos é mesmo. Mas, a questão é apresentada ao espectador, sem que os cineastas se dêem ao trabalho de tomar partido.

Na realidade, o tema é complexo. A medicina tira seu aprendizado da ciência, e o aluno por mais de seis anos em vida acadêmica. O médico aprende que a saúde é um estado de equilíbrio entre o mental e o físico, de tal forma que um tem influência sobre o outro, na produção de doença. A ciência ensina que muitas doenças mentais são o resultado de um conjunto de alterações metabólicas em nível cerebral como, por exemplo, nos surtos da esquizofrenia.

E no filme, é o padre Karras quem faz a citação a este fato. Se o roteiro seguisse um raciocínio lógico, a adolescente seria tratada como doente mental. Mas, a mãe descarta esta possibilidade. Cansada da falta de soluções médicas, ela prefere entrar no terreno do curandeirismo, o que implica em retirar o demônio do corpo de sua filha. São os próprios médicos quem sugerem o exorcismo, como meio de provocar uma reação em Regan. Em muitos casos, a medicina convencional não tem solução para a cura de certas doenças, nem as consegue explicar ao paciente ou à família.

No filme, entretanto, se Regan MacNeil está possuída ou não por um demônio, o fato em si é irrelevante, diante da exibição da perda da fé pelo padre Karras, e sobre a existência de Deus e do demônio. A Igreja Católica é essencialmente dogmática, ao contrário da ciência, que exige comprovação dos fenômenos observados pelo ser humano. Existe um momento no filme, onde Karras tem que decidir se continua a pensar como um cientista ou começa a pensar como um religioso. E este drama não é diferente dos muitos cientistas, criados em famílias ou colégios com formação religiosa.


A sexualidade humana versus possessão demoníaca

Regan MacNeil é uma adolescente, o que quer dizer que ela é dominada pelas transformações hormonais e biológicas que a preparam para a sua sexualidade. Um dos pontos enfatizados pelos cineastas é o de que, durante a possessão do corpo de Regan pelo demônio, ela se torna sexualmente agressiva. O que de outro modo poderia ser explicado pelo estágio corporal e mental no qual Regan se encontra, no filme a sugestão é a de que existe uma ligação entre disfunções na sexualidade humana e a má influência do demônio no comportamento do indivíduo.

Levada ao pé da letra, esta interpretação, se verdadeira, ignora por completo a influência das alterações hormonais no sangue sobre o comportamento das pessoas. Teriam os cineastas cometido um erro proposital?

Embora não se possa afirmar que O Exorcista determine conclusivamente que a sexualidade é um pecado, segundo os cânones da Igreja, ele abre a porta para este tipo de discussão. As conclusões que alguém possa tirar sobre ela dependerão em muito da visão de cada um do que é o sexo.

Existem, sem dúvida, dois lados distintos desta questão, e um deles pelo menos contradiz o lado pecaminoso do sexo exposto no filme: é o que se refere ao desenvolvimento natural do corpo humano. Partindo da adolescência, o desenvolvimento da sexualidade permite ao homem e à mulher se completarem, evoluírem, se relacionarem, procriarem e tentar encontrar a felicidade afetiva.

Em outro ângulo desta mesma perspectiva, a sexualidade pode agir contra o indivíduo, na forma de violência (estupro), abuso na exploração de um ser humano pelo outro (estrutura de poder) e da personificação equivocada do que deve ser o homem ou a mulher ideal. Esta última leva ao preconceito racial e à exclusão dos não privilegiados no contexto da sua aceitação pela sociedade como um todo. É o caso, por exemplo, de adolescentes que emagrecem para virarem modelos e se sentirem mais bonitas, às vezes com a ocorrência de anorexia nervosa.


O que a indústria da pornografia não conta para ninguém

O Exorcista mostra a pornografia através de palavras e gestos, durante a possessão demoníaca de Regan. Há uma denúncia implícita, na forma de uma reflexão não religiosa, e que tem respaldo no crescimento da indústria pornográfica com distribuição de filmes aos cinemas americanos, bem à época em que o filme foi feito.

Da mesma forma como a indústria do tabaco, que ficou durante décadas ignorando propositalmente que tabagismo não dá câncer nem doença cardiovascular, a indústria do filme pornográfico até hoje não revela os desastres sociais que ocorrem por conta dela.

A pornografia explora um lado saudável da sexualidade humana: a libido. As ações mostradas na tela tentam suprir um lado supostamente didático de como o sexo deve ser praticado, quando na verdade elas distorcem as relações entre homem e mulher de forma irresponsável. A indústria pornográfica incentiva a promiscuidade e o sexo inseguro, ignorando a disseminação de doenças infectocontagiosas, algumas das quais incuráveis, como as causadas por vírus HIV e HPV, vários tipos de câncer de útero, dilaceração e câncer do orifício retal, etc.

O índice de suicídios e de atores infectados é alarmante. A indústria, com rendas multimilionárias, pouco faz para ajudar suas vítimas. No caso do lendário Deep Throat, ícone da liberação pornográfica na década de 1970, a ruína perseguiu a então atriz Linda Boreman (conhecida na época como Linda Lovelace), o seu parceiro na tela Harry Reems, que foi preso, além do filme ter sido alvo de protestos diversos em alguns lugares onde fora exibido. A seqüência dos fatos a este respeito está mostrada no documentário da HBO Inside Deep Throat, de 2005, para quem tiver interesse.

Sob o ângulo de visão da possessão demoníaca, os cineastas abrem espaço para incluir a pornografia na lista das aberrações da sexualidade humana, conduzidas por uma influência maléfica ou simplesmente por pessoas com falhas de caráter, o que nada tem de esotérico. A personagem possuída menciona o sexo promíscuo várias vezes e usa a sexualidade para ofender aqueles que estão próximos.


A redenção em O Exorcista

Há uma claríssima menção à redenção na cruz de Jesus Cristo no final do roteiro. O padre Karras assume para si a possessão demoníaca e dá a vida para livrar Regan do demônio. A imagem é forte, mas o seu objetivo é informar à plateia que existe uma luz no fim do túnel, na forma do amor de Deus para os desesperados. Ela também diz que se o sexo abstrai e escraviza, o amor de um ser humano pelo outro é libertário.

Não há, até pelo menos onde eu possa perceber, prova de amor mais contundente do que uma pessoa dar a vida para salvar a outra. Em O Exorcista, William Peter Blatty fez questão que a plateia entendesse que, no final, o bem sempre triunfará sobre o mal.

A catarse tem particular significado para aqueles de fé católica: durante o primeiro ato do filme, é mostrado um ataque perpetrado contra uma imagem de Nossa Senhora. Para os católicos, Maria representa a mãe celeste e a advogada que irá interceder por nós no juízo final. Na referência bíblica, ela é citada como a mulher que esmagará a “cabeça da serpente”, e, portanto, nossa principal aliada na luta contra as influências do demônio. A cena da dessecração da imagem da Virgem não está lá por acaso, e ela serve para declarar que o filme não se refere a nenhuma outra religião, a não ser a Católica.


O poder das imagens no cinema

O Exorcista é evidência conclusiva de que o cinema tem uma linguagem de inigualável poder sugestivo. E neste particular a televisão, que também trabalha com imagens, sempre correu atrás, mas nunca de fato chegou perto, seja na forma de novelas, minisséries ou documentários. As duas mídias são notavelmente diferenciadas, para alívio do fã de cinema que não ver uma coisa misturada com a outra.

O que isto nos diz, em última análise é que lugar de filme é no espaço físico do cinema convencional, onde existe não um indivíduo, mas uma platéia dividindo emoções. Tudo neste espaço tem seu peso e influência, inclusive e principalmente o tamanho da tela onde o filme é projetado.

A construção dos home theaters cumpre, há várias décadas agora, o papel de resgatar cinema, já que é quase impossível ressuscitar as grandes salas do passado e/ou de ver as atuais exibindo filmes clássicos, em qualquer bitola.

Em tempos remotos, eram as filmotecas dos museus e os cineclubes quem preenchiam este vazio. Mas a cada ano que passa, este papel vai paulatinamente se extinguindo. Quiséramos nós poder reverter isso, mas a sensação que se tem é que a cultura não tem prevalência nas administrações públicas, e o que se consegue é sempre debaixo de muita luta.

De qualquer forma, o cinema como arte conquistou seu espaço legitimamente, seja ele projetado em película em uma sala de cinema, seja ele gravado em mídia e distribuído diretamente ao consumidor final.

O Exorcista encerra um momento singular da vida do cineasta ousado que foi William Friedkin. E de certa forma coloca no ostracismo um dos melhores roteiristas modernos do cinema americano: William Peter Blatty. E se existe algo de bom nos extras dos discos que nós compramos é de poder resgatar um pouco desta história!

[Webinsider]

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