30 de abril de 2009

A Educação Coletiva Não Funciona

A nossa política educacional baseia-se em duas enormes falácias. A primeira é a que considera o intelecto como uma caixa habitada por idéias autonomas, cujos números podem aumentar-se pelo simples processo de abrir a tampa da caixa e introduzir-lhes novas idéias. A segunda falácia, é que, todas as mentes são semelhantes e podem lucrar como o mesmo sistema de ensino. Todos os sistemas oficiais de educação são sistemas para bombear os mesmos conhecimentos pelos mesmos métodos, para dentro de mentes radicalmente diferentes. Sendo as mentes organismos vivos e não caixotes do lixo, irremediavelmente dissimilares e não uniformes, os sistemas oficiais de educação não são como seria de esperar, particularmente afortunados. Que as esperanças dos educadores ardorosos da época democrática cheguem alguma vez a ser cumpridas parece extremamente duvidoso. Os grandes homens não podem fazer-se por encomenda por qualquer método de ensino por mais perfeito que seja.
O máximo que podemos esperar fazer é ensinar todo o indivíduo a atingir todas as suas potencialidades e tornar-se completamente ele próprio. Mas o eu de um indivíduo será o eu de Shakespeare, o eu de outro será o eu de Flecknoe. Os sistemas de educação prevalecentes não só falham em tornar Flecknoes em Shakespeares (nenhum método de educação fará isso alguma vez); falham em fazer dos Flecknoes o melhor. A Flecknoe não é dada sequer uma oportunidade para se tornar ele próprio. Congenitamente um sub-homem, ele está condenado pela educação a passar a sua vida como um sub-sub-homem.

Aldous Huxley, in "Sobre a Democracia e Outros Estudos"

16 de abril de 2009

Metade

Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo que acredito não me tape os ouvidos e a boca.
Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio...
Que a música que eu ouço ao longe seja linda, ainda que triste
Que a mulher que eu amo seja sempre amada, mesmo que distante.
Porque metade de mim é partida e a outra metade é saudade...
Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor...
Apenas respeitadas, como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimento.
Porque metade de mim é o que eu ouço, mas a outra metade é o que calo..
Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço.
Que essa tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada.
Porque metade de mim é o que eu penso e a outra metade é um vulcão...
Que o medo da solidão se afaste.
Que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto o doce sorriso que eu me lembro de ter dado na infância.
Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade eu não sei...
Que não seja preciso
mais do que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito.
E que o teu silêncio me fale cada vez mais.
Porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço...
Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba, e que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer.
Porque metade de mim é a platéia e a outra metade, a canção...
E que minha loucura seja perdoada.
Porque metade de mim é amor e a outra metade...
Também...
Oswaldo Montenegro

11 de abril de 2009

Sensacionalismo

Mal raia o dia, os carros de reportagem da televisão já começam a parar em frente à casa da pobre mulher. Ela vê pela cortina uma grande agitação lá fora e muitos aparelhos sendo descarregados da perua por jovens. Alguém, atrás, puxa fios e carrega um suporte com muitas lâmpadas. É um alvoroço.
A mulher simples da periferia da cidade não entende nada. Tinha vindo para São Paulo há alguns anos, tentar vida melhor, pois fora abandonada pelo marido com filhos ainda pequenos.
Sua casa é muito modesta. Um cômodo mais a cozinha. Ali ela vive com seus três filhos, mas, nesta noite, eles não tinham vindo dormir em casa.
O pessoal lá fora continua agitado, fazendo um estardalhaço. Cabos, câmeras, microfones. A mulher, à janela, começa a ficar apreensiva. Para mais um carro. Tem na porta um símbolo que ela está acostumada a ver na TV. Ler, não sabe. O pessoal deste carro, que chega sem nenhuma discrição, se junta aos primeiros. Vêm também equipados com toda a parafernália de televisão. Caminham em direção à casa da mulher. Estão sorridentes e brincalhões. Chegam à porta e batem. A mulher estremece. Seu coração bate mais forte:
- O que querem de mim esses daí?
Batem novamente. Metem a cara na vidraça. A cortina impede que vejam lá dentro. Impacientam-se, e a mulher fica ainda mais apreensiva. “Será melhor abrir”, pensa ela.
Mal abre uma fresta da porta, o bando de jornalistas invade o modesto cômodo da mulher.
- É a dona Gertrudes?
- Sim senhora.
- Então é com a senhora mesmo!
- O que é menina?
- É sobre a chacina de ontem à noite no Parque Alvorada... Do tiroteio com a polícia... a senhora não soube?
- . . .
- É. Mataram seus filhos... Esses policiais são uns assassinos! Disseram que estavam vingando um cabo da PM morto semana passada...
- Meus filhos?!... Meus filhos?!...
A mulher está chocada. O pessoal das equipes de reportagem vai entrando e se pondo à vontade na casinha da mulher. Ela fica olhando para o vazio, estática. Olhos vidrados, indiferente ao burburinho ao seu redor.
Os jornalistas vão se arrojando. Procuram tomadas onde ligar seus aparelhos começam a ensaiar filmagens, medem a luz, à distância, começam a falar sozinhos, elaborando um texto que irá às câmeras...
- A senhora já pode falar? – pergunta-lhe a moça.
- . . .
- Eu acho que a gente tem que começar pessoal – continua a jovem, já impaciente, olhando para seus colegas.
A cena é patética. De um lado a dor, o desespero, uma sensação de impotência, de nulidade e o desgosto de viver. A vida, as esperanças, a paz, de uma hora para outra, desmoronadas. O choque de uma mulher que a vida ensinou a já não se chocar com mais nada. De outro lado, a naturalidade daqueles jovens, ansiosos por uma matéria forte, preocupados em fazer um alarde e influenciar a opinião pública.
- Dona Gertrudes, como a senhora se sente ao saber que seus filhos foram cruelmente assassinados por policiais inescrupulosos na última madrugada?
A mulher nada responde. Câmeras fixas sobre ela. Aquela luz forte cega-a. Ela não entende nada. Que querem essas pessoas na casa dela? Por que tudo aquilo? Os jornalistas aguardam ansiosamente uma descarga emocional da pobre mulher que comova os telespectadores.
A repórter insiste. Tanto fala, tanto cutuca que a mulher começa realmente a chorar. Está pronto o cenário. Dispara-se a fita. As lentes focalizam as lágrimas da pobre mãe. A entrevistadora é quem fala todo o tempo para as câmeras, diz-se comovida, denuncia os homens da polícia. Em poucos minutos, tudo está terminado. Plugues são retirados das tomadas, câmeras descem dos ombros, microfones são guardados.
Rapidamente, o grupo de jornalistas deixa a casa da mulher, com a mesma tranqüilidade com que haviam entrado. Absolutamente intocados pelo que provocaram e pelo que deixaram. Aliviados, entram em seus carros e partem para mais um trabalho de reportagem.

6 de abril de 2009

O Retirante e a Rainha

Encosto ou não encosto? Só o joelho. O que pode acontecer? Ela dizer "Mr. Lula, please!" Aí eu recolho o joelho, peço desculpas, "aimsórri, aimsórri" e pronto. Se eu soubesse falar inglês, explicaria. Sabe o que é, Elizabeth? Eu estava aqui pensando - quando é que, lá em Pernambuco, eu ia imaginar que um dia estaria sentado ao lado da rainha da Inglaterra? Não sei quem é que me botou aqui para tirar esta fotografia dos G-20. Não acho que tenha sido um pedido seu - "Quero o bonitinho de barba à minha esquerda". Claro que não. Mas o fato é que estou aqui e o Barack está aí atrás em algum lugar, de pé e se perguntado o que eu tenho que ele não tem. O Sarkozy não deve nem estar aparecendo. Ficou atrás da Merkel e não vai sair na foto. E eu aqui ao seu lado, na primeira fila. Isto significa muito, viu Elizabeth? Lá na minha terra vai ter gente se mordendo de raiva. Onde já se viu, aquele retirante nordestino que nem fala direito sentado à esquerda da rainha da Inglaterra?
Quando eu me elegi muita gente ficou horrorizada - como é que vai ser quando ele, um torneiro mecânico, tiver que nos representar num jantar oferecido, por exemplo, pela coroa inglesa? Vai ser servido na cozinha, para nao dar vexame na escolha dos talheres. E aqui estou eu, sentado ao lado - com todo o respeito - da coroa inglesa em pessoa.
Se foi o protocolo que me botou aqui, ele acertou, viu Beth? Você, queira ou não, não é só a rainha dos ingleses, é, simbolicamente, a rainha de todos os loiros de olhos azuis do mundo, incluindo o Barack. De todos os bandidos que causaram esta crise e hoje nos infernizam a vida. E, de certo modo, eu sou o seu oposto. Sou uma espécie de rei republicano dos não-loiros do mundo - ou pelo menos deve ter sido essa a ideia do protocolo aos nos botar lado a lado. Todos os outros chefes de Estado desta fotografia seriam dispensáveis. A foto poderia ser só de nós dois e estariam todos representados. E isto significa outra coisa também, viu Beth? Eu não me contentei em ter nascido na miséria, no Nordeste, e quis mais. Não me contentei em ser um torneiro mecânico em Sao Paulo e quis mais. Não me contentei em ser um líder sindical e quis mais. Não me contentei em perder eleição atrás de eleição, insisti e acabei presidente.
Agora estou aqui, lado a lado com a rainha da Inglaterra, num dos pontos mais altos da minha carreira, e também quero mais. Por isso minha perna se moveu e meu joelho encostou no seu. De certa forma, o movimento da minha perna foi o passo final da caminhada que começou em Pernambuco, tantos anos atrás. Já que, ao contrário de você, Beth, não posso ficar no poder para sempre.

Fonte: Noticia do Blue Bus - 06/04/09
"Onde já se viu, aquele retirante q nem fala direito sentado ao lado da rainha?"
Luis Fernando Verissimo ontem, nos jornais.

4 de abril de 2009

As Formigas e a Pena

Uma formiga, que caminhava perdida sobre uma folha de papel, viu uma pena que desenhava traços negros e finos.
- Que maravilha! – exclamou. – Que coisa mais notável! Tem vida própria e faz garatujas nesta bela superfície a ponto de poder equiparar-se aos esforços conjuntos de todas as formigas do mundo. E que rabiscos faz! Parecem formigas, milhões de formigas trabalhando juntas!
- Contou seus pensamentos a outra formiga, que ficou igualmente interessada e elogiou os poderes de observação e de reflexão da primeira. Mas outra formiga disse:
- Valendo-me de seus esforços, devo admiti-lo, tenho observado esse estranho objeto. Mas cheguei à conclusão de que não é ele que impulsiona seu trabalho. Você cometeu o erro de não observar que a pena está ligada a outros objetos que a rodeiam e a conduzem. Esses devem ser considerados como a origem de seu movimento, acredite.
Desse modo as formigas descobriram os dedos.
Passado algum tempo, outra formiga caminhou sobre os dedos e percebeu que faziam parte da mão, que explorou total e minuciosamente, ao estilo das formigas, esquadrilhando-a toda.
Voltou então para junto de suas companheiras e gritou-lhes;
- Formigas! Tenho importantes notícias para vocês. Aqueles pequenos objetos fazem parte de outro muito maior. E este é o que realmente move tudo.
Depois descobriram que a mão estava ligada a um braço e o braço a um corpo; que não existia uma, e sim duas mãos; e que existiam dois pés, que não escreviam.
As investigações prosseguiram. Assim, as formigas chegaram a ter uma idéia adequada da mecânica da escrita.
Através de seu método de investigação costumeira, entretanto, nada conseguiram saber a respeito do sentido e da intenção da escrita, nem sobre como, finalmente, eles eram determinados: as formigas não sabiam ler nem escrever.