11 de abril de 2009

Sensacionalismo

Mal raia o dia, os carros de reportagem da televisão já começam a parar em frente à casa da pobre mulher. Ela vê pela cortina uma grande agitação lá fora e muitos aparelhos sendo descarregados da perua por jovens. Alguém, atrás, puxa fios e carrega um suporte com muitas lâmpadas. É um alvoroço.
A mulher simples da periferia da cidade não entende nada. Tinha vindo para São Paulo há alguns anos, tentar vida melhor, pois fora abandonada pelo marido com filhos ainda pequenos.
Sua casa é muito modesta. Um cômodo mais a cozinha. Ali ela vive com seus três filhos, mas, nesta noite, eles não tinham vindo dormir em casa.
O pessoal lá fora continua agitado, fazendo um estardalhaço. Cabos, câmeras, microfones. A mulher, à janela, começa a ficar apreensiva. Para mais um carro. Tem na porta um símbolo que ela está acostumada a ver na TV. Ler, não sabe. O pessoal deste carro, que chega sem nenhuma discrição, se junta aos primeiros. Vêm também equipados com toda a parafernália de televisão. Caminham em direção à casa da mulher. Estão sorridentes e brincalhões. Chegam à porta e batem. A mulher estremece. Seu coração bate mais forte:
- O que querem de mim esses daí?
Batem novamente. Metem a cara na vidraça. A cortina impede que vejam lá dentro. Impacientam-se, e a mulher fica ainda mais apreensiva. “Será melhor abrir”, pensa ela.
Mal abre uma fresta da porta, o bando de jornalistas invade o modesto cômodo da mulher.
- É a dona Gertrudes?
- Sim senhora.
- Então é com a senhora mesmo!
- O que é menina?
- É sobre a chacina de ontem à noite no Parque Alvorada... Do tiroteio com a polícia... a senhora não soube?
- . . .
- É. Mataram seus filhos... Esses policiais são uns assassinos! Disseram que estavam vingando um cabo da PM morto semana passada...
- Meus filhos?!... Meus filhos?!...
A mulher está chocada. O pessoal das equipes de reportagem vai entrando e se pondo à vontade na casinha da mulher. Ela fica olhando para o vazio, estática. Olhos vidrados, indiferente ao burburinho ao seu redor.
Os jornalistas vão se arrojando. Procuram tomadas onde ligar seus aparelhos começam a ensaiar filmagens, medem a luz, à distância, começam a falar sozinhos, elaborando um texto que irá às câmeras...
- A senhora já pode falar? – pergunta-lhe a moça.
- . . .
- Eu acho que a gente tem que começar pessoal – continua a jovem, já impaciente, olhando para seus colegas.
A cena é patética. De um lado a dor, o desespero, uma sensação de impotência, de nulidade e o desgosto de viver. A vida, as esperanças, a paz, de uma hora para outra, desmoronadas. O choque de uma mulher que a vida ensinou a já não se chocar com mais nada. De outro lado, a naturalidade daqueles jovens, ansiosos por uma matéria forte, preocupados em fazer um alarde e influenciar a opinião pública.
- Dona Gertrudes, como a senhora se sente ao saber que seus filhos foram cruelmente assassinados por policiais inescrupulosos na última madrugada?
A mulher nada responde. Câmeras fixas sobre ela. Aquela luz forte cega-a. Ela não entende nada. Que querem essas pessoas na casa dela? Por que tudo aquilo? Os jornalistas aguardam ansiosamente uma descarga emocional da pobre mulher que comova os telespectadores.
A repórter insiste. Tanto fala, tanto cutuca que a mulher começa realmente a chorar. Está pronto o cenário. Dispara-se a fita. As lentes focalizam as lágrimas da pobre mãe. A entrevistadora é quem fala todo o tempo para as câmeras, diz-se comovida, denuncia os homens da polícia. Em poucos minutos, tudo está terminado. Plugues são retirados das tomadas, câmeras descem dos ombros, microfones são guardados.
Rapidamente, o grupo de jornalistas deixa a casa da mulher, com a mesma tranqüilidade com que haviam entrado. Absolutamente intocados pelo que provocaram e pelo que deixaram. Aliviados, entram em seus carros e partem para mais um trabalho de reportagem.

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