27 de fevereiro de 2009

Visões da Aldeia Global pt3: Gibson – Comunicação Global Sim, Mas Com Ruído

Alienação é uma das palavras-chave para se compreender o universo supertecnológico criado por William Gibson em suas histórias. Desde contos como Johnny Mnemonic (1981), em que o personagem-título é na verdade um misto de yuppie com ciborgue, mais preocupado em apresentar um bom desempenho nos negócios (no seu caso, transferência de dados através de um disco rígido implantado em seu cérebro) do que com as conseqüências morais ou mesmo puramente físicas de seus atos, até a recente “Bridge Trilogy” (composta pelos romances Virtual Light, Idoru e All Tomorrow’s Parties), Gibson descreve uma realidade que é a epítome do pós-moderno, dentro da qual se movimenta como ninguém: o universo cyberpunk.
Embora fruto de um movimento, criado no começo da década 1980 com outros autores*, a visão de mundo cyberpunk foi melhor definida por Gibson em Neuromancer: o melhor e o pior dos mundos possíveis; o charme das tecnologias do mais alto nível convivendo numa nem sempre agradável simbiose com a sujeira punk das ferramentas obsoletas e maquinário sucateado. A reinvenção, ou, para utilizarmos um termo pós-moderno, o sampleamento de velhas técnicas para quem não tem dinheiro para pagar os confortos da sociedade futura. O mundo cyberpunk é um mundo dividido (mal) entre os muito ricos, que dispõem de acesso fácil à comunicação instantânea universal e os muito pobres, os mendigos e loucos da aldeia global, que lutam nos subterrâneos por esse acesso, criando tribos e subculturas que trocam informações entre si sem parar, fomentando guerrilhas midiáticas não muito diferentes das que vemos atualmente (vide as atividades recentes dos coletivos Luther Blissett e Wu-Ming, na Itália). É a aldeia global possível.
Quando Gibson concluiu Neuromancer, em julho de 1983, a Internet havia sido criada exatamente seis meses antes – em 1o. de janeiro, a ARPANet migrou para o protocolo TCP/IP, dando origem à rede mundial de computadores. Mas a World Wide Web, que só seria criada em 1990, não passava de mera especulação – assim como o ciberespaço vislumbrado por Gibson. Mas o fator humano já estava lá – o espírito punk de “no future”, tomado de empréstimo dos ingleses e metamorfoseado para as necessidades de um possível século XXI, onde quem tem tecnologia (ou domina o seu uso, seja oficialmente, como as megacorporações, seja subterraneamente como o grupo pós-hacker dos Panther Moderns, que cria sua própria tecnologia ou sucateia a já existente) tem tudo, e quem não a possui é um pária. Ou seja, não só não há justiça social como não há futuro no futuro.
As grandes guerras podem até ter acabado no mundo de Neuromancer, mas deixaram profundas seqüelas em níveis macro e microeconômicos, e a sociedade não parece ter aprendido com os erros do passado. É uma aldeia malgré elle même, parafraseando Moliére. Mais ou menos como o mundo em que vivemos.
Gibson exerce uma função profética bastante semelhante à de McLuhan ao criar o conceito de aldeia global em Understanding Media. E, entre os escritores de ficção científica, é ele quem parece ter melhor compreendido que o McLuhan quis dizer, criando em Neuromancer um mundo praticamente todo interconectado, onde as minorias têm vez e voz (a um ponto tal que coloca talvez até mesmo em discussão a definição de minorias) e as casas dessa aldeia são regidas acima de tudo pelo paradigma da variedade. Ninguém é igual a ninguém, ou por outra: em termos de posse e utilização de tecnologias, uns são mais iguais que outros.


Conclusão: O Presente – Nem Isto Nem Aquilo

A Internet e a sua interface gráfica, a World Wide Web, estão evidentemente muito mais para os sonhos de William Gibson do que os de Arthur C. Clarke – mas o ciberespaço, a realidade consensual tal como imaginada por Gibson ainda não existe, e talvez nunca venha a existir.
A Web é a terceira margem do rio que corta a aldeia global de McLuhan. Ela ainda está apenas no começo de suas possibilidades – que já estão sendo discutidas por escritores da chamada segunda geração cyberpunk, como Neal Stephenson, em Snow Crash, e por Bruce Sterling, antigo parceiro de Gibson, que acabou se tornando o ideólogo dos cyberpunks e de uma nova geopolítica tecnológica, discutida tanto sob a forma de ficção (como em Zeitgeist, de 1999) quanto sob a chancela bastante interessante da não-ficção em seu recém-lançado Tomorrow Now – numa tradução literal para o português, O Amanhã Agora. Um amanhã cuja única certeza é que ele não será jamais aquele que imaginamos em nossos sonhos, mas que Clarke e Gibson, de maneiras bem diferentes, ajudaram a moldar. Com as bênçãos de Marshall McLuhan.

Visões da Aldeia Global pt2: McLuhan – Totalidade com Variedade

Em nenhum momento ao longo de Understanding Media McLuhan nos dá uma definição precisa do que é a aldeia global. No prefácio, ele diz que:
Hoje, depois de mais de um século de tecnologia elétrica, projetamos nosso próprio sistema nervoso central num abraço global (itálico nosso), abolindo tempo e espaço. Estamos nos aproximando rapidamente da fase final das extensões do homem: a simulação tecnológica da consciência, pela qual o processo criativo do conhecimento se estenderá coletiva e corporativamente a toda a sociedade humana.
E, mais adiante:
Eletricamente contraído, o globo já não é mais do que uma aldeia*. A velocidade elétrica, aglutinando todas as funções sociais e políticas numa súbita implosão, elevou a consciência humana de responsabilidade a um grau dos mais intensos. É este fator implosivo que altera a posição do negro, do adolescente e de outros grupos. Eles já não podem ser contidos, no sentido político de associação limitada. Eles agora estão envolvidos em nossas vidas, como nós na deles – graças aos meios elétricos.
Se na primeira afirmação McLuhan alude a um “abraço global” que uniria todas as pessoas numa espécie de consciência coletiva, na segunda ele complementa essa idéia mencionando a inclusão das minorias na vida cotidiana de todos, por intermédio de meios que em seu tempo eram apenas elétricos (rádio e TV), e hoje são eletrônicos (Internet).
McLuhan e Clarke parecem concordar quanto ao abraço global, mas é no chamado “fator implosivo” que as diferenças se estabelecem – precisamente porque McLuhan não descarta as diferenças, sejam sociais, culturais ou raciais, ao contrário de Clarke, que prefere esquecê-las em detrimento de um pretenso governo mundial. Clarke não é racista (vários de seus protagonistas são negros, como os personagens de O Fim da Infância e Rama II), mas advoga a idéia de um grande direcionamento das culturas para um único vetor – o das nações mais avançadas tecnologicamente. Em seus livros, países tão distantes e diferentes entre si como Sri Lanka, África do Sul e Fiji encontram-se inteiramente colonizados pela cultura dos Estados Unidos e da Europa, a ponto de as raras manifestações culturais locais serem tratadas como superstições ou, na melhor das hipóteses, como curiosidades históricas que eventualmente podem ser dignas de registro em museus ou bancos de dados.
McLuhan vê parte desse processo (a invasão da tecnologia em todos os recantos do mundo) como inevitável, mas está bem ciente de suas armadilhas, como a alienação, a julgar pela seguinte afirmação:
Não estamos mais bem preparados para enfrentar o rádio e a televisão em nosso ambiente letrado do que o nativo de Gana em relação à escrita, que o expulsa de seu mundo tribal coletivo, acuando-o num isolamento individual. Estamos tão sonados em nosso novo mundo elétrico quanto o nativo envolvido por nossa cultura escrita e mecânica.

Visões da Aldeia Global pt1: Clarke – Comunicação Limpa e Sem Obstáculos

Autor, entre outros livros, de Encontro com Rama e A Cidade e as Estrelas, Clarke é conhecido como criador de mundos fantásticos e utópicos. Contudo, o que pouca gente sabe é que este inglês radicado no Sri Lanka, além de escritor, é físico e matemático, e contribuiu ele próprio com a ciência ajudando a desenvolver o radar durante a Segunda Guerra Mundial e criando em 1945 o conceito do satélite de órbita geoestacionária, que revolucionaria as comunicações em escala global.
Talvez por isso, antes de William Gibson, nenhum outro escritor tenha se interessado tanto pela idéia de comunicação instantânea universal. Em diversos de seus livros de ficção, como Terra Imperial e 3001 – a Odisséia Final, ele descreve sociedades em que todos os habitantes do globo estão interligados constantemente, e em obras de divulgação científica, como Um Dia na Vida do Século XXI, escrito em 1986, conceitos como e-learning (educação à distância) e teleconferências utilizando realidade virtual são descritos como lugares-comuns em 2019.
É nesse livro, aliás, que Clarke deixa clara sua afinidade com as idéias de McLuhan, ao citar parte de um discurso que realizou em 1983 na Organização das Nações Unidas, no Dia Mundial das Telecomunicações:
A tão anunciada Aldeia Global já está quase conosco, mas durará apenas um breve momento na história da humanidade. Antes de percebermos que chegou, será suplantada – pela Família Global.
A idéia de Família Global, uma extensão do conceito de McLuhan, parece evocar uma sensação de belonging, de pertencimento, a um grupo unido e fechado, que convive em harmonia e protege seus membros – uma visão de mundo coerente com o momento histórico em que Arthur C. Clarke (nascido em 1917) foi criado. Hoje, num mundo no qual, entre muitas outras noções, o conceito de família começa a ganhar contornos mais fluidos, as palavras de Clarke parecem transmitir uma mentalidade ainda ligada de modo inconsciente ao passado. Como Bruce R. Powers observa no prefácio a The Global Village – Transformations in World Life and Media in the 21st Century, “as pessoas passam suas vidas criando simulações razoáveis do que foi feito na era precedente. (...) O homem do século dezenove vivia na Renascença. Nós vivemos no século dezenove.” Depois do advento da Web e da nova economia global, essa afirmação de Powers pode estar datada, mas ainda fazia sentido na época do discurso de Clarke – assim como na época em que ele escreveu a maioria de seus livros.
Clarke vislumbra efetivamente um futuro onde o mundo se tornou uma aldeia global, mas nessa aldeia, as casas são todas limpas e assépticas. As histórias de seus livros não excluem guerras e catástrofes, mas os conflitos ocorreram no passado, e o homem soube aprender com seus erros e construir uma civilização mais avançada, sem fome e miséria, e onde a doença e a morte não foram erradicadas, mas estão praticamente sob controle. Mesmo os erros e as imperfeições são previstos e calculados. Um wishful thinking característico da ficção científica de caráter utópico, herdeira do pensamento de H.G.Wells – não por acaso um socialista científico, que acreditava que o progresso da ciência traria o bom senso às mentes dos cidadãos, e conseqüentemente a paz e o bem-estar geral a todas as sociedades humanas.

19 de fevereiro de 2009

O Arquétipo "Sombra"

A sombra apresenta-se, conforme C. G. Jung, como o mais poderoso de todos os arquétipos, já que é a fonte de tudo o que existe de melhor e de pior no ser humano. Como todo e qualquer elemento psíquico, a sombra possui aspectos positivos e negativos para o desenvolvimento da personalidade.
Enquanto a anima ou animus, projeta-se no sexo oposto, determinando a qualidade das relações entre os sexos, a sombra influirá nas relações com pessoas do mesmo sexo.
Se a persona é desenvolvida com o objetivo de facilitar a convivência do homem na sociedade onde vive, onde, então, se apresentarão aqueles conteúdos não compatíveis com esta adaptação? A sombra é o arquétipo receptáculo dos aspectos que foram suprimidos no desenvolvimento da persona, e mais que isto, ela contém conteúdos que nem chegaram a passar pelo crivo do consciente. Estes conteúdos podem, potencialmente, emergir a qualquer momento na consciência, se considerados do ponto de vista energético.
Quanto mais unilateral se torna o consciente; tanto mais a persona é banhada de purpurina e mais acentuados são os elementos que compõem a sombra. Importante salientar, no entanto, que a sombra não é o lado oposto da consciência, mas representa o que falta a cada personalidade consciente.
Um dos maiores trabalhos no processo de individuação, que consiste no desenvolvimento da personalidade total, é sem dúvida a integração da sombra na consciência. Uma vez reconhecida, a sombra, como parte de si mesmo, o ser humano irá fazê-lo constantemente, pois os conteúdos sombrios não se esgotam, porque sempre que houver processo de escolha, consciente, haverá também, o lado que ficou negligenciado ou não escolhido, aquele que poderia ter sido vivido e não foi. Neste sentido, a sombra estará sempre ao lado do indivíduo e focaliza o resultado de suas escolhas.
Normalmente, reconhecer a sombra implica em “arrumar encrenca” e colocar em questionamento toda a consciência de si: os hábitos, crenças, valores, afetividade, etc. É um mergulho no desconhecido, é ficar sem chão, é perder o apoio.
Sendo o confronto com a sombra um dos primeiros aspectos do processo de individuação, é necessário um ego bem estruturado para reconhecer que tudo aquilo que projetamos nos outros, principalmente as coisas que menos gostamos, são nossas e de mais ninguém.
A sombra não possui, porém, somente aspectos negativos e rejeitados. Possui também aspectos que impulsionam o ser humano para a criatividade e busca de soluções, quando os recursos conscientes se esgotaram. Por sorte, a sombra é insistente e não se sente acuada com a repressão exercida pela consciência. Sempre arranja um jeito de se manifestar, a inspiração é uma destas maneiras. Uma vida sem a presença da sombra torna-se sem brilho e sem criatividade.
Quando, para a nossa adaptação social, desenvolvemos a persona, somos obrigados a descartar vários aspectos que não condizem com a atitude da consciência naquele momento. Estes aspectos poderão ser úteis em outra época de nossas vidas, poderão voltar, uma vez que não serão mais prejudiciais à nossa adaptação e poderão mudar o rumo de nossa história.
A sombra, quando trabalha em harmonia com o ego, deixa a vida mais colorida e rica.
por Vanilde Gerolim Portillo

17 de fevereiro de 2009

O Inconsciente Coletivo

Uma das teorias pela qual Jung é mais reconhecido é a teoria do inconsciente coletivo. Essa teoria foi adotada somente por algumas escolas psicológicas.
Segundo Jung, o inconsciente coletivo não deve sua existência a experiências pessoais; ele não é adquirido individualmente. Jung faz a distinção: o inconsciente pessoal é representado pelos sentimentos e idéias reprimidas, desenvolvidas durante a vida de um indivíduo. O inconsciente coletivo não se desenvolve individualmente, ele é herdado. É um conjunto de sentimentos, pensamentos e lembranças compartilhadas por toda a humanidade.
O inconsciente coletivo é um reservatório de imagens latentes, chamadas de arquétipos ou imagens primordiais, que cada pessoa herda de seus ancestrais. A pessoa não se lembra das imagens de forma consciente, porém, herda uma predisposição para reagir ao mundo da forma que seus ancestrais faziam. Sendo assim, a teoria estabelece que o ser humano nasce com muitas predisposições para pensar, entender e agir de certas formas. Por exemplo, o medo de cobras pode ser transmitido através do inconsciente coletivo, criando uma predisposição para que uma pessoa tema as cobras. No primeiro contato com uma cobra, a pessoa pode ficar aterrorizada, sem ter tido uma experiência pessoal que causasse tal medo, e sim derivando o pavor do inconsciente coletivo. Mas nem sempre as predisposições presentes no inconsciente coletivo se manifestam tão facilmente.
Os arquétipos presentes no inconsciente coletivo são universais e idênticos em todos os indivíduos. Estes se manifestam simbolicamente em religiões, mitos, contos de fadas e fantasias. Entre os principais arquétipos estão os conceitos de nascimento, morte, sol, lua, fogo, poder e mãe. Após o nascimento, essas imagens preconcebidas são desenvolvidas e moldadas conforme as experiências do indivíduo. Por exemplo: toda criança nasce com o arquétipo da mãe, uma imagem pré-formada de uma mãe, e à medida que esta criança presencia, vê e interage com a mãe, desenvolve-se então uma imagem definitiva.
(Carl Gustav Jung - 1875/1961)

16 de fevereiro de 2009

Oração aos Mortos

Não me digam que a vida é sonho vão, em soluços céticos e pranto enorme, porque está morta a alma que dorme. E as coisas permanecem, mas não são. A vida é real e seu destino é sério, não é seu fim ao sepulcro se juntar; e do pó vieste e ao pó hás de retornar não é da alma o divino mistério. Nem é do homem a busca ou o destino, o repouso, a dor ou a alegria, mas sim a ação, para que a cada dia avance mais seu trabalho cristalino.
A ciência é ampla, o tempo, estreito, e o coração mais varonil e forte bate o fúnebre compasso da morte qual velado tambor dentro do peito. No bivaque do mundo, alça teu escudo! No campo de batalha, arma tua lança! Sê herói da vida em meio a pujança e não do rebanho que se faz de mudo!
Do porvir, os passos tortos. Vive e age sem trégua no presente, teu coração firme, Deus em tua mente!
Que o passado sepulte seus mortos!
de Ultimate Avengers (Os Supremos - Edição Definitiva)

6 de fevereiro de 2009

Sem Cometários...

A Luta pela Recordação

Os meus pensamentos foram-se afastando de mim, mas, chegado a um caminho acolhedor, repilo os tumultuosos pesares e detenho-me, de olhos fechados, enervado num aroma de afastamento que eu próprio fui conservando, na minha pequena luta contra a vida. Só vivi ontem. Ele tem agora essa nudez à espera do que deseja, selo provisório que nos vai envelhecendo sem amor.Ontem é uma árvore de longas ramagens, e estou estendido à sua sombra, recordando.De súbito, contemplo, surpreendido, longas caravanas de caminhantes que, chegados como eu a este caminho, com os olhos adormecidos na recordação, entoam canções e recordam. E algo me diz que mudaram para se deter, que falaram para se calar, que abriram os olhos atónitos ante a festa das estrelas para os fechar e recordar...Estendido neste novo caminho, com os olhos ávidos florescidos de afastamento, procuro em vão interceptar o rio do tempo que tremula sobre as minhas atitudes. Mas a água que consigo recolher fica aprisionada nos tanques ocultos do meu coração em que amanhã terão de se submergir as minhas velhas mãos solitárias...
Pablo Neruda, in "Nasci para Nascer"

5 de fevereiro de 2009

Moby Dick

"Oh, clareiras gramíneas! Oh, infinitas paisagens da alma, eternamente primaveris; em vós – embora por longo tempo crestados pela secura mortal da vida terrena –, em vós os homens podem ainda revolver-se, como cavalos novos no trevo recente e matinal, e, por uns poucos momentos flutuantes, sentir imortal, neles, o fresco orvalho da vida. Quisesse Deus que durassem essas benditas calmas! Mas os fios da vida, misturados e a misturar-se, são tecidos com urdidura e trama: calmas atravessadas por tempestades, uma tempestade para cada calma. Não há nesta vida uma caminhada firme, isenta de retrocessos; não avançamos por gradações fixas, com uma pausa no fim: através do encanto inconsciente da infância, da fé descuidada da puerícia, da dúvida da adolescência (a sorte comum), depois do ceticismo, depois da descrença, para pausar, por fim, na virilidade, no meditativo repouso do “se”. Mas, tendo feito o caminho, recomeçamos o circuito: e somos crianças, meninos e homens, e “ses”, eternamente. Onde se estende o ancoradouro final, de que não mais zarparemos? Em que extasiante éter navega o mundo, do qual o mais cansado jamais se cansará? Onde se ocultou o pai do enjeitado? Nossas almas são como aqueles órfãos cujas mães, não casadas, morrem ao dá-los à luz: o segredo de nossa paternidade jaz-lhes no túmulo, e neste devemos descobri-lo."

"Para começar: aí está Áries, ou o carneiro – tipo luxurioso, ele nos gera; depois Taurus, o touro – ele nos acomete, antes de tudo; depois Gemini, ou os gêmios – isto é, a virtude e o vício; tentaremos alcançar a virtude quando, repare! Vem Câncer, o caranguejo, e nos arrasta para trás; e aqui, afastando-se da virtude, Leo, um leão rugidor, deita-se no caminho, dá algumas mordidas ferozes e, de mau humor, uma patada leve; livramo-nos, e saudamos Virgo, a virgem, que é o nosso primeiro amor; casamo-nos e pensamos estar felizes sempre, quando de súbito vem Libra, ou a balança: a felicidade é pesada no prato e mostra-se de menos; e enquanto nos entristecemos muito com isso, senhor! Como damos um repentino pulo, quando Scorpio, ou o escorpião, nos ferroa por detrás; estamos cuidando das feridas, quando por toda a volta sibilam as setas: Sagitarium, ou o arqueiro, está-se divertindo. Quando tiramos as flechas, saia do caminho! Aqui está o aríete, Capricornus, ou a cabra; em pleno combate ela vem impetuosa e somos atirados de ponta-cabeça; quando Aquarius, ou o aguadeiro, verte todo seu dilúvio e nos submerge; e para concluir dormimos com Pixes, ou os peixes. Eis aí um sermão, escrito no alto dos céus; o sol o percorre todos os anos e contudo sai dele ativo e bem disposto."
Trechos do livro: Moby Dick
de Herman Melville

4 de fevereiro de 2009

As Sefirats

A Qabalah (ou Cabala) é chamada de Árvore da Vida (ou diagrama da Êtz Háim) porque é representada por Dez Esferas interligadas, cada qual representando um Princípio-Regente. Essas esferas-princípios são chamadas de Sefirats.
A Árvore da Vida é um diagrama que representa todas as forças e fatores atuantes no universo e na humanidade. Não existe nenhuma característica, influência ou energia que não seja suscetível de representação na Árvore. O começo, o fim e os caminhos intermediários, todos são representados. Pode-se assim ver o passado, o presente o o futuro nas Dez Sefirats e nos vinte e dois caminhos que as ligam.
A palavra Sefirat tem dois significados: um é contar, o outro é limite ou fronteira. De acordo com a Cabala, existem 10 dimensões para a nossa realidade, que são as 10 Sefirats. As Sefirats funcionam como canais através dos quais a Luz do Mundo Infinito chega até nós, animando o nosso universo inteiro, incluindo nossas almas.
Cada Sefirat, como um filtro, reduz sucessivamente a emanação da Luz, diminuindo gradativamente seu brilho para um nível quase imperceptível em nosso mundo físico dos cinco sentidos. Por cada Sefirat que passa, a Luz se manifesta de forma diferente, mas sem nunca mudar sua essência. É como se colocássemos um filtro colorido na luz do sol; nós a veremos azul, vermelha ou verde, mas a Luz não muda nunca, o que muda é o recipiente.
Elas também são conhecidas como atributos divinos, já que cada uma delas está relacionada a um atributo ou qualidade de Deus. Cada uma delas também se relaciona a uma parte do nosso corpo.
Esses 10 níveis ou Sefirats são: Kether, Chokmah, Bimah, Chesed, Geburah, Tipheret, Netzach, Hod, Yesod e Malkuth. As Sefirats Chesed, Geburah, Tipheret, Netzach, Hod e Yesod estão compactadas em uma dimensão chamada Zeir Anpin como um todo unificado. Toda a Luz que recebemos em nosso mundo físico de Malkuth é derivada de Zeir Anpin.
Curiosamente, os cientistas do final do século 20 revelaram uma estranha visão do nosso universo com o advento da Teoria da Supercorda, que é uma tentativa de unificar a teoria da relatividade de Einstein com a mecânica quântica.
De acordo com a teoria, todas as partículas subatômicas são na verdade diferentes ressonâncias de minúsculas supercordas vibrantes, muito parecidas com as diferentes notas musicais que podem emanar de uma única corda de violão. A Teoria das Supercordas sustenta ainda que nosso universo deve conter 10 dimensões de modo que possa se conciliar com a teoria da relatividade de Einstein, considerando a força da gravidade.
Graças à evolução da ciência e da tecnologia, os cientistas atuais e os antigos Cabalistas concordam que a realidade existe em 10 dimensões e que 6 dimensões estão firmemente compactadas.

3 de fevereiro de 2009

O Valor de Pi

Ao longo dos tempos, diferentes civilizações tentaram calcular a célebre razão circular, com maior ou menor precisão. Foram os avanços da teoria matemática e da tecnologia que permitiram o progresso no cálculo de pi. Apresenta-se a seguir uma cronologia de pi (adaptada da obra de David Blatner 'The Joy of pi', 1997), onde é curioso notar a diferença entre diversas civilizações e a aceleração, em relação ao número de dígitos, que se foi verificando, até chegarmos à possibilidade de associação de utilizadores da Internet à descoberta de dígitos.
- 2000 a. C. Os babilónios utilizam pi=3 1/8; os egípcios usam pi=3,1605.
- 1100 a. C. Os chineses empregam pi=3.
- 550 a. C. O Antigo Testamento afirma que pi=3.
- séc. III a. C. Arquimedes determina que pi=3 10/71

- séc. II d. C. Cláudio Ptolomeu utiliza pi=3,14166...
- 263 Liu Hui emprega pi=3,14.
- 450 Tsu Ch'ung-chih acha 355/113.
- 1220 Leonardo de Pisa (Fibonacci) descobre pi=3,141818...
- 1593 Adriaen Romanus calcula pi com 15 casas decimais.
- 1610 Van Ceulen amplia o cálculo para 35 casas decimais.
- 1665-66 Isaac Newton calcula pi com 16 casas decimais pelo menos; resultado apenas publicado postumamente em 1737.
- 1699 Abraham Sharp calcula pi com 72 casas decimais.
- 1713 A corte chinesa publica o Su-li Ching-yun, que tem pi representado com 19 dígitos.
- 1722 Takebe Kenko descobre 40 dígitos no Japão. Georg Vega calcula pi com 140 casas decimais.
- 1844 L. K. Schulz von Stassnitzky e Johann Dase calculam pi com 200 casas, em dois meses.
- 1873-74 William Shanks publica os seus cálculos de pi com 707 casas decimais.
- 1874 Tseng Chi-hung descobre 100 dígitos na China.
- 1945 D. F. Ferguson descobre que o cálculo de Shanks está errado, a partir da 527ª casa.
- 1946 Ferguson calcula 808 casas, com recurso a uma calculadora de secretária, um feito que demorou cerca de um ano.
- 1949 O ENIAC computa 2037 casas decimais em setenta horas.
- 1955 O NORC computa 3089 casas decimais em treze minutos.
- 1959 O IBM 704 (Paris) computa 16167 casas decimais.
- 1961 Daniel Shanks e John Wrench utilizam o IBM 7090 (Nova Iorque) para computarem 100200 casas decimais em 8,72 horas.
- 1966 O IBM 7030 (Paris) computa 250000 casas decimais.
- 1967 O CDC 6600 (Paris) computa 500000 casas decimais.
- 1973 Jean Guilloud e M. Bouyer usam um CDC 7600 (Paris) para computarem 1 milhão de casas decimais, em 23,3 horas.
- 1983 Y. Tamura e Y. Kanada usam um HITAC M-280H para computar 16 milhões de dígitos em trinta horas.
- 1988 Kanada computa 201326000 dígitos num Hitachi S-820, em seis horas.
- 1989 Os irmãos Chudnovsky acham 480 milhões de dígitos; Kanada calcula 536 milhões de algarismos; os Chudnovsky calculam 1 milhar de milhão de dígitos.
- 1995 Kanada computa 6 mil milhões de dígitos.
- 1996 Os irmãos Chudnovsky computam mais de 8 milhares de milhão de dígitos.
- 1997 Kanada e Takahashi calculam 51,5 milhares de milhão de dígitos num Hitachi SR2201, em pouco mais de 29 horas.

Yasumasa Kanada continuou a sua investigação e, em 1999 estabeleceu o recorde 206.158 milhares de milhão de casas decimais. Pareceria, talvez suficiente a aproximação. No entanto, Kanada e a sua equipa, no passado dia 6 de Dezembro de 2002, conseguiram novo recorde, produzindo desta feita o bonito número de 1.24 biliões de casas decimais, mais do que o sextuplo do anterior!! Qual a razão desta obsessão de Yasumasa Kanada, quando é sabido que, para efeitos práticos, quer em Matemática, quer em Engenharia, o cálculo do valor de pi com mais de 1000 casas decimais, não tem interesse? E se ainda por cima, como refere Peter Borwein (ele próprio um anterior detentor do recorde) , não estamos muito mais perto de resolver o problema do que os Gregos, há 2500 anos? A equipa passou cinco anos a desenvolver o programa de computador. Foi utilizado um supercomputador Hitachi, durante 400 horas, em Setembro, na universidade de Tokyo. Vai levar algum tempo até que os cálculos sejam verificados, para comprovar se Kanada ultrapassou o seu próprio recorde. Mas o objectivo também não foi, com certeza, entrar de novo no Guinness Book of World Records.
Segundo Borwein, niguém estará propriamente ávido de interesse em saber qual é o valor do último algarismo encontrado. O que realmente importa, é todo o caminho, tudo o que é descoberto durante o processo. É o enorme feito em Informática, não só pelo seu volume, como pelo avanço das novas técnicas, pois as anteriormente conhecidas excederiam muito a capacidade do computador utilizado.