28 de julho de 2011

Zero



Em um mundo que julga as pessoas pelo seu número, Zero enfrenta preconceito e perseguição constante. Ele caminha um caminho solitário até que um encontro casual muda sua vida para sempre: ele conhece um zero fêmea. Juntos, eles provam que através de determinação, coragem e amor, nada pode ser realmente alguma coisa.

22 de julho de 2011

Assim falou Tyler Durden...

“…Eu vejo no clube da luta os homens mais fortes e mais inteligentes que já viveram.

Vejo todo este potencial, e eu os vejo desperdiçando.

Puta que pariu, toda uma geração de bombeadores de gás, servindo mesas; escravos com colarinhos brancos.

A Publicidade tem nos feito perseguir carros e roupas, trabalhando em empregos que odiamos para que possamos comprar merdas que não precisamos.

Nós somos os filhos do meio da história. Sem propósito ou lugar.

Nós não temos nenhuma Grande Guerra.

Nenhuma Grande Depressão.

Nossa Grande Guerra é uma guerra espiritual… nossa grande depressão são nossas vidas.

Todos nós fomos criados pela televisão para acreditar que um dia estaríamos todos milionários, e deuses do cinema, e estrelas rock. Mas não somos.

E estamos aos poucos aprendendo isto. E estamos muito, muito irritados…”

Tyler Durden – Clube da Luta

19 de julho de 2011

Vikings parte 2 de 2

(...) Para o homem comum, é fácil de ver em meio a uma tropa conscrita, pelo seu maldito senhor da terra. Por certo os impostos que você paga significa que o senhor e os seus guarda-costas têm obrigação de cuidar para que você não como um machado, não? As safras não vão colher a si mesma, vão?

Mesmo se convocam só a metade dos homens, parece que você sempre é contemplado. E ai esta você dando beijinhos de despedida nos pimpolhos e evitando o olhar rancoroso da esposa. Saindo para atear fogo naquilo que outro pobre lavrador levou a vida inteira para construir para depois então vaguear desajeitadamente, fazendo de conta que os soldados fixos do seu senhor não estupram na sua frente toda e qualquer fêmea que encontrem. E tudo em que você consegue pensar e na sua casa, e orar para que da próxima vez o destino não resolva ser caprichoso e mande meia tropa conscrita contra o seu lado.

Também temos o tipo empreendedor, o sujeito que consegue farejar riquezas no vento e achar certo perturbar belos e dourados dias de verão com um pouco de invasões Vikings.

Três semanas num barco ensebados nunca são um piquenique, mas a recompensa pode ser ótima. Incursões-relâmpagos lá e acolá na costa Irlandesa podem ser fundamentais quando a colheita rende abaixo da expectativa.

Todo mundo sonha com sua própria ilha de Lindisfarne: uma fortuna a espera de ser tomada e montes de monges gordos para fatiar. Atividade por conta própria são cheias de perigo e frustração, mas basta uma só teta de ouro onde você possa voltar mais e mais vezes.

“O borrifo do mar nunca encharca o guerreiro de prontidão nem cutuca a vista do cidadão dormente .” Armod, na saga Orkneyinga.

Em outras palavras, se você não fez, não vai entender.

Assim como os Berserkers, ergamos taças ao inventor do casco de calado raso. Um barco que leva cinqüenta homens e requer menos de um metro de água para flutuar? Conte outra. Diga-nos quem é seu inimigo e onde ele toma seu banho noturno, que velejaremos direto aquele riacho ou poça de água suja e cairemos sobre ele tal qual demônios. Mesmo com a cabeça de dragão posta, mesmo com a cantoria deplorável em que insistem os mais entusiasmados entre nós, vocês não saberão que vínhamos até ser tarde muito tarde.

Não que eu queira distribuir muitos tapinhas nas costas, mas sempre admirei o pragmatismo que rege os assaltos. Claro, pensar e agir com inteligência sempre beneficia quem tem um pouco de disciplina. Mas por outro lado existe uma certa pureza na coisa toda. Que não é pelos deuses, não por um rei, não por um conjunto de normas ou um brasão ou filosofia. Mas é por comida, por terra para cultivo e água para pesca. Para escapar da corrupção e da violência. Por uma vida melhor para a família.
Resta pouco consolo aos conquistados, mas os deuses fizeram uma só terra. Provavelmente para rirem ate rachar o bico enquanto a disputamos. Fazer o que.

Snorri está por baixo, acuado pela mais simples das armas: um escudo de madeira de tília, confeccionado de ripas, rebites de ferro, aro de couro e uma só alça no centro. Definitivamente descartável. Mais ou menos como Snorri noventa centímetro de diâmetro, espessura de um centímetro se muito. Quanto mais você levar a uma batalha, melhor. Na maioria dos casos, você vera agarrado somente a alça e aos rebites, com a madeira reduzida a lascas obteria mais proteção se empunhasse o prato em que jantou na véspera. Mesmo assim em combate nos agarramos desesperadamente aos escudos, mesmo que só pela ilusão de segurança. Alem de quebrarem, são perfurados por flechas e lanças.

“Quem usa faca curta precisa de braço comprido” geitir, na saga dos Vopnafirthings.

“Dente canino”, espada curta e gume único, é a arma furtiva de Snorri, em princípio usadas em assassinatos e outras atividades escusas. Não é boa em campo de batalha geralmente houve época em que nosso Egil era um grande líder. Apesar de ser o segundo irmão mais velho, ficou quieto, mostrou a que veio e rapidamente ganhou o favoritismo do pai. Aos dezesseis anos, recebeu o comando de uma tropa. Além de ficar na frente e no centro das paredes de escudos, como qualquer líder que se preze, muitas vezes divertiu seus homens ao arremeter sozinho área de conflito adentro, sacudir o pinto para o inimigo e voltar correndo, seus soldados choravam de tanto rir.

Eles o adoravam. Quando tomou a flechada na cabeça (o idiota tinha tirado o capacete para coçar uma infestação particularmente pruriginosa de piolhos), seus próprios homens abriram um furo no capacete para apresentá-lo como marca de um disparo incrivelmente sortudo para o bem do pai deles.

Depois disso, Egil nunca mais foi o mesmo. Manteve seus reflexos, destrezas de combate e recordações, mas se tornou um muro de pedra. Sem ânimo, senso de humor ou felicidade, Egil bem que poderia ter morrido naquele dia. Certamente foi como se tivesse. Dispersaram os homens de Egil e o nomearam campeão mais para impedir que seis maus bofes afetassem os demais.

Depois de iniciado e findo o dia desta luta, muito se especulara sobre a verdadeira razão de Snorri te se recusado a vestir uma cota de malha. Mas o provável é que ele não tivesse uma. Ou melhor, que não tivesse mais. Ele certamente conservou a morde-raio, mas, por te divida de jogo lengedárias, pode ter se desfeito da cota como um pagamento. Creio que foi fácil escolher. Pois a cota, por melhor que fosse, era comprida para o tamanho de Snorri e lembrava uma camisola tanto que seus homens começaram a chamá-lo de “Snorri, o munheca virada”e a elogiar em alto e bom tom a graça e elegância dessa filha da casa. Ele ficava da cor da beterraba.

Mas não da para simplesmente jogar de lado trinta quilos de túnica de metal e mijar na taberna. Toma tempo e um par de mãos extras. É por isso que a vestimos por tanto tempo quanto possível. Alguns chegavam a dormir de cota. Tanto melhor para entrar em combate. Se você pudesse acostumar o corpo a tal peso morto, fica como se você não o tivesse vestido. A exceção é na água. Se cair no mar, não importa o quanto suas costas sejam fortes, essa túnica o fincará no fundo.
É fácil esquecer que o mundo é um belo lugar. Muitas vezes isso me parece uma brincadeira cruel dos deuses conosco. Mostram-nos vistas deslumbrantes, águas cristalinas, pomares perfumados de maçãs e colinas verdes tão viscosas que dá dó de pisar na grama.

Mas é uma luta sangrenta só para se manter neste mundo. Só para atender as necessidades básicas de terra e comida. Só para ir de um lugar a outro sem que algum escroto tente retalhá-lo, cobrar impostos, raptar sua cara-metade ou incendiar sua casa.
Aqueles longos meses de inverno entocados com sua mulher, todo aquele glorioso e aconchegante tempo na horizontal a fazer bebês, se estes conseguem sobreviver ao primeiro ano de vida, você passa mais doze anos num estado de terror entorpecido, temendo que algo horrível aconteça a eles. Temendo que os horrores que você mesmo cometeu acabem dando um jeito de voltar. E não há porra nenhuma que você possa fazer para evitar.

E é ai que Loki ri seu riso mais poético, escorregadio e ardiloso, e todos vocês têm que baixar a cabeça, pois afinal não deixa de ser justiça, certo?

“Riqueza vai embora, amigos passam, um dia você também morre. A única coisa que sempre fica é o julgamento de como você passou a vida.”- Do compêndio norueguês de aforismos Hávamál.

A ânsia de fugir insiste. Abra certa distância dos entes queridos para aumentar a chance de poupá-los da dor. Você só se poupa de dar seu testemunho. A culpa fica é claro que você não se afasta só os abraça mais apertado e assiste as terras do norte encolherem ano a ano.

Você constrói uma casa melhor, cuida da reserva de comida, muda o que mais tiver para um novo esconderijo e não esquece de afiar as espadas. Você tenta esquecer a feiúra e reza para que o vento oeste não se vingue.

“De corpo em corpo eu engatinho e rastejo agora... desvalido. Quem sabe a quais altura serei proclamado algum dia?” Harold Sirgurdarson, sobrevivente ferido da batalha de Stiklestad e futuro Rei da Noruega.

Retirado na integra da revista “Vertigo nº17”
Escrito por Briam Woods

12 de julho de 2011

Vikings parte 1 de 2

Norte da Europa, entre 790 e 1100 d.C.

O senhor das terras ao leste, um sujeitinho magro, rijo e assolado por nada mais que filhas, tomou uma decisão cretina ao esbravejar bêbado uma noite. E não menos que de repente o senhor ao oeste acordou com seu salão novo em folha pegando fogo acima da própria cabeça, e retalhou com entusiasmo amigos próximos e familiares ao escapar pela única saída.

Mas os dois senhores em conflito, após seis gerações de guerras de proporções modestas, reduziram seus embates a indecorosos assassinatos noturnos. Sua capacidade de mobilizar qualquer força de combate maior que uma pequena quadrilha era então quase nula.

De modo que selecionaram campeões.

Snorri, o Preto defende.

Egil Sleggia (tradução: “Egil o Malho”) vinga.

Dois homens que, para o bem ou para o mal, se enfrentarão até a morte em nome de seus senhores e clãs.

Tudo por causa do orgulho caprichoso de um velho tolo, atiçado por cerveja e filhas demais.

Noventa centímetros de aço-carbono forjado em camadas mescladas, dois gumes, qualidade do Reino Franco, um quilo e 140 gramas, cinco milímetro de espessura máxima e pomo de ferro maciço. Cabo de abeto Norueguês, polido como vidro depois de empunhado dez mil vezes.

O aço-carbono e dobrado sobre um núcleo de aço mais macio, o que confere flexibilidade excepcional á espada e compensa o afã e a despesa de trazer as lâminas francas pelos rios. Verdade seja dita, Viking nenhum jamais conseguiu produzir uma lâmina como as que os Francos faziam.

A espada é antiga, e o pai de Snorri a chama de “Morde-Raio”. Emagreceu varias dezenas de gramas após incontáveis passadas pela pedra de amolar.

Snorri, 22 anos sobrinho do senhor da terra, nasceu de uma serva. A bastardia nas ações, e ele se virou bem. Numa casa com falta de filhos legítimos, até um bosta como Snorri pode brilhar feito prata.

Problemas à parte, Snorri fez o próprio nome ao enfrentar uns imprestáveis Bem piores que o oponente Egil. Claro que Egil não é nenhum piolho furreca. É o campeão de um Lorde, tanto quanto Snorri.

Quem se engalfinha com porco sai cheirando a porco.

Egil ficou naquele salão em chamas mais tempo do que qualquer um. Cavacos em chamas caiam-lhe sobre a cabeça, assando-o como a um biscoito.

Ele não daria essa satisfação aos assassinos. Disseram os poetas que dava para sentir o cheiro de seu cozimento a meio quilômetro. Disseram também que, quando ele finalmente irrompeu do inferno de chamas, as espadas de seus atacantes resvalaram na sua carne quente como pedrinhas lisas na superfície de um lago.

O machado de Egil, no momento enfiado no cinto, é de seis quilos de aço de alto carbono que se abrem numa borda de ataque de trinta centímetros. É uma arma de impacto de curto alcance, apropriada para despedaçar escudos e rachar capacetes. Egil, ele mesmo tendo um quê de objeto rombudo, chama o machado de “HEL”.

Os outros se limitam a assistir. O lado do campeão que perder terá um período de trégua para ficar em casa e encher a cara por umas semanas até a rixa voltar a se inflamar. Se tudo correr bem, vão emprenhar a companheira e arrumar um herdeiro antes da merda começar a voar.

Este jovem traça no chão o circulo de quatro metros de raio determinado pela versão local das regras. É o ringue dos combates. Um PE fora do circulo significa rendição. Dois pés fora querem dizer que o pobre diabo se escafedeu, caso em que poderia muito bem ter entregado a alma aos céus, já que mulher ou guerreiro nenhum iria mais querer ficar a seu lado.

Regras não validas nesta praia em especial: Um segundo homem por perto com vários escudos de reserva, e a chance de o perdedor comprar a própria vida ao primeiro ferimento.

Elas deixaram de existir há um par de gerações. Esta rixa é negócio sério. Guerreiros lutam dispostos em blocos ou em focinho de javali, que é uma formação em cunha com os homens que estão à direita sobrepondo os escudos à esquerda, como escamas num peixe ou telha num teto. Mire a ponta da cunha no inimigo e marche direto sobre a garganta dele.

Claro que, como seu inimigo apronta a mesma coisa, o problema é que é mais forte, quem tem a retaguarda mais forte e o coração mais vigoroso.

Nossa Snorri nunca botou muita Fé em táticas de grupo ou em lutas equilibradas. Egil apenas arranca para começar a bater, e Snorri dispensa a armadura, trocando segurança por velocidade.

O ponto fraco do focinho de javali é algum safado pequeno e ligeiro passar a faca de caça por baixo do seu escudo e lhe rasgar a coxa.

Se você luta atrás de uma parede de escudos, o que é a sensação morna que molha suas canelas e escorre entre os dedos dos pés?

Sim pode ser o parceiro do lado se mijando de medo. Mas é mais provável que seja sangue de artérias femorais. Então, prepare-se, pois sua parede de escudos está rachando.

A morde-raio verga como um canino, e o fato de não se partir ao meio faz o ateu Snorri sentir – se idiota por ter chegado a pensar em rezar há meros dois segundos.

Os jovens em meio a nós trilharão alegremente “Thor!” a serem perguntados sobre os deuses da guerra. Mas um guerreiro lídimo, do tipo que não faz algo tão covarde quanto sangrar numa parede de escudos quando deveria proteger as suas costas esse vai sorrir e falar de Loki.

O liso e escorregadio Loki. O deus ideal da guerra, decerto, mas também deus da poesia, educação, falsidade e trapaça, tudo num pacote só.

Thor cai matando dos céus em sua direção como um grande babaca arrogante. Já Loki chega por trás enquanto você paparica alguma moça, e arranca um rim seu com uma colher de pedreiro.

É o conceito básico de “atacar o inimigo onde ele não está” ou de trapaça, como preferem chamar outros. Os mortos via de regra.

Pois por que perder quando se pode vencer? Por que morrer quando se pode sair vivo? Por que não voltar para casa quando você pode voltar, plantar um alqueire, desenvolver uma receita realmente épica de vinho de batata e viver para ver os netos aprendendo a andar.

Por que entrar em combate sem pensar, como um idiota? Isto é ao estilo dos Berserkers. Guerreiros com vida útil média de dois verões. Os reis e senhores os adoram.

Jogue algum equipamento usado e um punhado de cogumelos na mão deles. Em vinte minutos, estarão malucos o suficiente para mascarem o próprios escudos, sem perceberem que quebram os dentes e estão a ponto de investirem contra o inimigo com espadas cegas e enferrujadas.

Pessoas normais apenas meneiam a cabeça, admiradas com a imagem de um Berserkers avançando desabaladamente, cuspindo e babando, contra uma dúzia de pontas de lança. Mas eles têm a marcante vantagem de apavorar um inimigo desprevenido. Por isso, e por todas as batalhas que não teriam sido vencidas sem eles, brindemos aos malucos.

(continua...)

5 de julho de 2011

Cosmos

“Nós somos uma forma do Cosmos conhecer a si mesmo”.


Quando a Humanidade deu seu grande salto na Lua em 1969, em torno de meio bilhão de pessoas assistiram empolgadas em pequenas TVs em preto e branco a dois astronautas pisarem em outro mundo. O evento marcou toda uma geração e continua sendo um dos maiores feitos de nossa espécie, mas apenas três anos depois, quando os astronautas da Apollo 17 deram o último adeus ao nosso satélite natural, o interesse popular pela exploração espacial já não era tão grande. Faltava algo mais básico para continuar a alimentar o grande interesse público além da novidade de pisar na Lua.

Foi neste contexto que um cientista espacial que continuava a explorar outros mundos com sondas robóticas renovaria a fascinação de centenas de milhões. Através da mesma telinha, agora a cores e com efeitos especiais e um roteiro quase poético, ele relembraria e para muitos apresentaria pela primeira vez o que realmente significava aquela pegada no solo lunar – e tanto mais além desta façanha.

Desde as verdadeiras dimensões do Universo em que vivemos até a magnífica aventura do conhecimento que levou um pequeno punhado de macacos pelados a se estender por todo um planeta e, com o poder fantástico do método científico, viajar ainda mais longe. À vastidão em que ainda não tocamos, com uma “nave da imaginação” modelada à imagem de uma semente de dente-de-leão ao vento, ele nos levaria cruzando a galáxia por anos-luz.

Quando finalmente retornarmos à Lua depois de um longo afastamento, ou quando visitarmos Marte e os infinitos mundos que nos aguardam pelo espaço, talvez nosso interesse e excitação como um todo dure um tanto mais porque nos lembraremos de sua grande e bela visão.

Falamos, é claro, da série televisiva “Cosmos: Uma Viagem Pessoal” do astrônomo Carl Edward Sagan, cujo primeiro episódio foi ao ar pela TV americana em 28 de setembro de 1980. Toda uma geração, incluindo este que escreve estas linhas, já nasceu e cresceu não sob a sombra, mas sob a luz e inspiração de uma obra ao mesmo tempo popular e imensamente inteligente, sóbria e profundamente atraente.


Três décadas depois, é surpreendente como muito da visão de Sagan do Cosmos seria largamente validada, transformando especulação otimista em fato científico. Um destes elementos mais empolgantes envolve o primeiro planeta fora do sistema solar, que só seria confirmado como descoberta científica quase uma década depois que Sagan despertasse milhões às tantalizantes possibilidades da multiplicidade de mundos.

Pois desde o primeiro exoplaneta em 1988, quase 500 exoplanetas já foram confirmados. Os nove, ou melhor, oito planetas de nosso sistema solar são hoje poucos em comparação com as centenas de outros corpos orbitando estrelas longínquas. E a viagem da imaginação aos fatos não parou aí.

Os dados iniciais de um novo satélite, o Kepler, como parte continuada da exploração do Cosmos, podem mais do que dobrar este número em poucos meses de observação, levando à sugestão de que planetas sejam não só quase onipresentes pela Galáxia, como que até 100 milhões de planetas como a Terra populem a Via Láctea. Por sua vez, apenas uma das centenas de bilhões de galáxias pelo Universo.

Na mesma semana de aniversário de Cosmos, o mais forte candidato a exoplaneta potencialmente habitável, chamado Gliese 581 g, foi anunciado com grande animação. A beleza disto é que sendo esta a ciência, a descoberta pode ou não ser confirmada, mas sendo esta a ciência e particularmente uma área que assistiu a enormes avanços nas últimas décadas, é uma questão de tempo até que dezenas, centenas, milhares e quem sabe mesmo milhões de planetas como a Terra sejam comprovados em nossa galáxia.

São números que mesmo o homem dos grandes números, com quem o apresentador Johnny Carson brincava sobre os “bilhões e bilhões”, tomaria como uma estimativa muito otimista. O amanhã em que vivemos hoje trata de confirmá-la como fato.



Em meio à viagem pelas estrelas, e entre os milhões de planetas como a Terra que podem existir, Sagan também se preocupou muito em abordar as questões muito humanas que enfrentávamos em nosso único e pálido ponto azul. No início da década de 1980, a Guerra Fria começava a se reaquecer enquanto EUA e União Soviética acumulavam dezenas de milhares de ogivas nucleares, um número grande que o cientista espacial se dedicou obstinadamente a diminuir. Poucos anos depois de Cosmos, Carl Sagan seria um dos descobridores do Inverno Nuclear, destacando ainda mais o perigo de extinção que enfrentávamos como espécie.

Igualmente superando suas mais otimistas expectativas, alguma lucidez tomou conta de líderes de ambos os lados, que passaram a diminuir seu arsenal, até que em 1989 a União Soviética implodiu sem o disparo de nenhuma bomba nuclear. Se superamos a maior urgência deste desafio, por outro lado, perigos sobre os quais Sagan também alertou e que há trinta anos pareciam menores hoje se tornam prioridade, como as mudanças climáticas e todo o impacto que o nosso próprio sucesso descomunal em habitar todos os continentes e contar com um número cada vez maior de confortos exerce sobre o pálido ponto que pode em breve tomar uma cor diferente e menos hospitaleira que o azul.

Vivemos em um fabuloso amanhã, com novos conhecimentos e novos desafios de uma geração somando-se à enorme jornada de milhares de ancestrais explorada em Cosmos. Lamentavelmente, vivemos também sem a companhia de Sagan, que nos deixou cedo apenas 16 anos depois de comover um mundo com a beleza e mesmo a espiritualidade que pode ser encontrada na busca pelo conhecimento através da ciência.

Se Sagan teve uma visão por vezes profética de descobertas futuras, também podemos profetizar com grande segurança que é mera questão de tempo até que um membro da geração sob a luz de Cosmos ganhe um prêmio Nobel. E ele – ou ela – será apenas o primeiro de muitos, enquanto Carl Sagan deve ter o mérito de ter inspirado diretamente mais do que qualquer outra pessoa um número gigantesco de jovens a seguir uma carreira científica e ajudar o Cosmos a conhecer a si mesmo.


O legado de Sagan vive como uma porção particularmente brilhante de conhecimento, e como tal só deve se multiplicar enquanto novas mentes continuarem sendo inspiradas a buscar saber mais sobre “tudo que existe, tudo que existiu e tudo que existirá”.

É parte da frase com que Carl Sagan iniciou seu primeiro episódio às “margens do oceano cósmico” há três décadas.

E é como definiu o próprio Cosmos.

Fonte: ceticismoaberto.com / saganismos.haaan.com