19 de julho de 2011

Vikings parte 2 de 2

(...) Para o homem comum, é fácil de ver em meio a uma tropa conscrita, pelo seu maldito senhor da terra. Por certo os impostos que você paga significa que o senhor e os seus guarda-costas têm obrigação de cuidar para que você não como um machado, não? As safras não vão colher a si mesma, vão?

Mesmo se convocam só a metade dos homens, parece que você sempre é contemplado. E ai esta você dando beijinhos de despedida nos pimpolhos e evitando o olhar rancoroso da esposa. Saindo para atear fogo naquilo que outro pobre lavrador levou a vida inteira para construir para depois então vaguear desajeitadamente, fazendo de conta que os soldados fixos do seu senhor não estupram na sua frente toda e qualquer fêmea que encontrem. E tudo em que você consegue pensar e na sua casa, e orar para que da próxima vez o destino não resolva ser caprichoso e mande meia tropa conscrita contra o seu lado.

Também temos o tipo empreendedor, o sujeito que consegue farejar riquezas no vento e achar certo perturbar belos e dourados dias de verão com um pouco de invasões Vikings.

Três semanas num barco ensebados nunca são um piquenique, mas a recompensa pode ser ótima. Incursões-relâmpagos lá e acolá na costa Irlandesa podem ser fundamentais quando a colheita rende abaixo da expectativa.

Todo mundo sonha com sua própria ilha de Lindisfarne: uma fortuna a espera de ser tomada e montes de monges gordos para fatiar. Atividade por conta própria são cheias de perigo e frustração, mas basta uma só teta de ouro onde você possa voltar mais e mais vezes.

“O borrifo do mar nunca encharca o guerreiro de prontidão nem cutuca a vista do cidadão dormente .” Armod, na saga Orkneyinga.

Em outras palavras, se você não fez, não vai entender.

Assim como os Berserkers, ergamos taças ao inventor do casco de calado raso. Um barco que leva cinqüenta homens e requer menos de um metro de água para flutuar? Conte outra. Diga-nos quem é seu inimigo e onde ele toma seu banho noturno, que velejaremos direto aquele riacho ou poça de água suja e cairemos sobre ele tal qual demônios. Mesmo com a cabeça de dragão posta, mesmo com a cantoria deplorável em que insistem os mais entusiasmados entre nós, vocês não saberão que vínhamos até ser tarde muito tarde.

Não que eu queira distribuir muitos tapinhas nas costas, mas sempre admirei o pragmatismo que rege os assaltos. Claro, pensar e agir com inteligência sempre beneficia quem tem um pouco de disciplina. Mas por outro lado existe uma certa pureza na coisa toda. Que não é pelos deuses, não por um rei, não por um conjunto de normas ou um brasão ou filosofia. Mas é por comida, por terra para cultivo e água para pesca. Para escapar da corrupção e da violência. Por uma vida melhor para a família.
Resta pouco consolo aos conquistados, mas os deuses fizeram uma só terra. Provavelmente para rirem ate rachar o bico enquanto a disputamos. Fazer o que.

Snorri está por baixo, acuado pela mais simples das armas: um escudo de madeira de tília, confeccionado de ripas, rebites de ferro, aro de couro e uma só alça no centro. Definitivamente descartável. Mais ou menos como Snorri noventa centímetro de diâmetro, espessura de um centímetro se muito. Quanto mais você levar a uma batalha, melhor. Na maioria dos casos, você vera agarrado somente a alça e aos rebites, com a madeira reduzida a lascas obteria mais proteção se empunhasse o prato em que jantou na véspera. Mesmo assim em combate nos agarramos desesperadamente aos escudos, mesmo que só pela ilusão de segurança. Alem de quebrarem, são perfurados por flechas e lanças.

“Quem usa faca curta precisa de braço comprido” geitir, na saga dos Vopnafirthings.

“Dente canino”, espada curta e gume único, é a arma furtiva de Snorri, em princípio usadas em assassinatos e outras atividades escusas. Não é boa em campo de batalha geralmente houve época em que nosso Egil era um grande líder. Apesar de ser o segundo irmão mais velho, ficou quieto, mostrou a que veio e rapidamente ganhou o favoritismo do pai. Aos dezesseis anos, recebeu o comando de uma tropa. Além de ficar na frente e no centro das paredes de escudos, como qualquer líder que se preze, muitas vezes divertiu seus homens ao arremeter sozinho área de conflito adentro, sacudir o pinto para o inimigo e voltar correndo, seus soldados choravam de tanto rir.

Eles o adoravam. Quando tomou a flechada na cabeça (o idiota tinha tirado o capacete para coçar uma infestação particularmente pruriginosa de piolhos), seus próprios homens abriram um furo no capacete para apresentá-lo como marca de um disparo incrivelmente sortudo para o bem do pai deles.

Depois disso, Egil nunca mais foi o mesmo. Manteve seus reflexos, destrezas de combate e recordações, mas se tornou um muro de pedra. Sem ânimo, senso de humor ou felicidade, Egil bem que poderia ter morrido naquele dia. Certamente foi como se tivesse. Dispersaram os homens de Egil e o nomearam campeão mais para impedir que seis maus bofes afetassem os demais.

Depois de iniciado e findo o dia desta luta, muito se especulara sobre a verdadeira razão de Snorri te se recusado a vestir uma cota de malha. Mas o provável é que ele não tivesse uma. Ou melhor, que não tivesse mais. Ele certamente conservou a morde-raio, mas, por te divida de jogo lengedárias, pode ter se desfeito da cota como um pagamento. Creio que foi fácil escolher. Pois a cota, por melhor que fosse, era comprida para o tamanho de Snorri e lembrava uma camisola tanto que seus homens começaram a chamá-lo de “Snorri, o munheca virada”e a elogiar em alto e bom tom a graça e elegância dessa filha da casa. Ele ficava da cor da beterraba.

Mas não da para simplesmente jogar de lado trinta quilos de túnica de metal e mijar na taberna. Toma tempo e um par de mãos extras. É por isso que a vestimos por tanto tempo quanto possível. Alguns chegavam a dormir de cota. Tanto melhor para entrar em combate. Se você pudesse acostumar o corpo a tal peso morto, fica como se você não o tivesse vestido. A exceção é na água. Se cair no mar, não importa o quanto suas costas sejam fortes, essa túnica o fincará no fundo.
É fácil esquecer que o mundo é um belo lugar. Muitas vezes isso me parece uma brincadeira cruel dos deuses conosco. Mostram-nos vistas deslumbrantes, águas cristalinas, pomares perfumados de maçãs e colinas verdes tão viscosas que dá dó de pisar na grama.

Mas é uma luta sangrenta só para se manter neste mundo. Só para atender as necessidades básicas de terra e comida. Só para ir de um lugar a outro sem que algum escroto tente retalhá-lo, cobrar impostos, raptar sua cara-metade ou incendiar sua casa.
Aqueles longos meses de inverno entocados com sua mulher, todo aquele glorioso e aconchegante tempo na horizontal a fazer bebês, se estes conseguem sobreviver ao primeiro ano de vida, você passa mais doze anos num estado de terror entorpecido, temendo que algo horrível aconteça a eles. Temendo que os horrores que você mesmo cometeu acabem dando um jeito de voltar. E não há porra nenhuma que você possa fazer para evitar.

E é ai que Loki ri seu riso mais poético, escorregadio e ardiloso, e todos vocês têm que baixar a cabeça, pois afinal não deixa de ser justiça, certo?

“Riqueza vai embora, amigos passam, um dia você também morre. A única coisa que sempre fica é o julgamento de como você passou a vida.”- Do compêndio norueguês de aforismos Hávamál.

A ânsia de fugir insiste. Abra certa distância dos entes queridos para aumentar a chance de poupá-los da dor. Você só se poupa de dar seu testemunho. A culpa fica é claro que você não se afasta só os abraça mais apertado e assiste as terras do norte encolherem ano a ano.

Você constrói uma casa melhor, cuida da reserva de comida, muda o que mais tiver para um novo esconderijo e não esquece de afiar as espadas. Você tenta esquecer a feiúra e reza para que o vento oeste não se vingue.

“De corpo em corpo eu engatinho e rastejo agora... desvalido. Quem sabe a quais altura serei proclamado algum dia?” Harold Sirgurdarson, sobrevivente ferido da batalha de Stiklestad e futuro Rei da Noruega.

Retirado na integra da revista “Vertigo nº17”
Escrito por Briam Woods

Nenhum comentário: