12 de julho de 2011

Vikings parte 1 de 2

Norte da Europa, entre 790 e 1100 d.C.

O senhor das terras ao leste, um sujeitinho magro, rijo e assolado por nada mais que filhas, tomou uma decisão cretina ao esbravejar bêbado uma noite. E não menos que de repente o senhor ao oeste acordou com seu salão novo em folha pegando fogo acima da própria cabeça, e retalhou com entusiasmo amigos próximos e familiares ao escapar pela única saída.

Mas os dois senhores em conflito, após seis gerações de guerras de proporções modestas, reduziram seus embates a indecorosos assassinatos noturnos. Sua capacidade de mobilizar qualquer força de combate maior que uma pequena quadrilha era então quase nula.

De modo que selecionaram campeões.

Snorri, o Preto defende.

Egil Sleggia (tradução: “Egil o Malho”) vinga.

Dois homens que, para o bem ou para o mal, se enfrentarão até a morte em nome de seus senhores e clãs.

Tudo por causa do orgulho caprichoso de um velho tolo, atiçado por cerveja e filhas demais.

Noventa centímetros de aço-carbono forjado em camadas mescladas, dois gumes, qualidade do Reino Franco, um quilo e 140 gramas, cinco milímetro de espessura máxima e pomo de ferro maciço. Cabo de abeto Norueguês, polido como vidro depois de empunhado dez mil vezes.

O aço-carbono e dobrado sobre um núcleo de aço mais macio, o que confere flexibilidade excepcional á espada e compensa o afã e a despesa de trazer as lâminas francas pelos rios. Verdade seja dita, Viking nenhum jamais conseguiu produzir uma lâmina como as que os Francos faziam.

A espada é antiga, e o pai de Snorri a chama de “Morde-Raio”. Emagreceu varias dezenas de gramas após incontáveis passadas pela pedra de amolar.

Snorri, 22 anos sobrinho do senhor da terra, nasceu de uma serva. A bastardia nas ações, e ele se virou bem. Numa casa com falta de filhos legítimos, até um bosta como Snorri pode brilhar feito prata.

Problemas à parte, Snorri fez o próprio nome ao enfrentar uns imprestáveis Bem piores que o oponente Egil. Claro que Egil não é nenhum piolho furreca. É o campeão de um Lorde, tanto quanto Snorri.

Quem se engalfinha com porco sai cheirando a porco.

Egil ficou naquele salão em chamas mais tempo do que qualquer um. Cavacos em chamas caiam-lhe sobre a cabeça, assando-o como a um biscoito.

Ele não daria essa satisfação aos assassinos. Disseram os poetas que dava para sentir o cheiro de seu cozimento a meio quilômetro. Disseram também que, quando ele finalmente irrompeu do inferno de chamas, as espadas de seus atacantes resvalaram na sua carne quente como pedrinhas lisas na superfície de um lago.

O machado de Egil, no momento enfiado no cinto, é de seis quilos de aço de alto carbono que se abrem numa borda de ataque de trinta centímetros. É uma arma de impacto de curto alcance, apropriada para despedaçar escudos e rachar capacetes. Egil, ele mesmo tendo um quê de objeto rombudo, chama o machado de “HEL”.

Os outros se limitam a assistir. O lado do campeão que perder terá um período de trégua para ficar em casa e encher a cara por umas semanas até a rixa voltar a se inflamar. Se tudo correr bem, vão emprenhar a companheira e arrumar um herdeiro antes da merda começar a voar.

Este jovem traça no chão o circulo de quatro metros de raio determinado pela versão local das regras. É o ringue dos combates. Um PE fora do circulo significa rendição. Dois pés fora querem dizer que o pobre diabo se escafedeu, caso em que poderia muito bem ter entregado a alma aos céus, já que mulher ou guerreiro nenhum iria mais querer ficar a seu lado.

Regras não validas nesta praia em especial: Um segundo homem por perto com vários escudos de reserva, e a chance de o perdedor comprar a própria vida ao primeiro ferimento.

Elas deixaram de existir há um par de gerações. Esta rixa é negócio sério. Guerreiros lutam dispostos em blocos ou em focinho de javali, que é uma formação em cunha com os homens que estão à direita sobrepondo os escudos à esquerda, como escamas num peixe ou telha num teto. Mire a ponta da cunha no inimigo e marche direto sobre a garganta dele.

Claro que, como seu inimigo apronta a mesma coisa, o problema é que é mais forte, quem tem a retaguarda mais forte e o coração mais vigoroso.

Nossa Snorri nunca botou muita Fé em táticas de grupo ou em lutas equilibradas. Egil apenas arranca para começar a bater, e Snorri dispensa a armadura, trocando segurança por velocidade.

O ponto fraco do focinho de javali é algum safado pequeno e ligeiro passar a faca de caça por baixo do seu escudo e lhe rasgar a coxa.

Se você luta atrás de uma parede de escudos, o que é a sensação morna que molha suas canelas e escorre entre os dedos dos pés?

Sim pode ser o parceiro do lado se mijando de medo. Mas é mais provável que seja sangue de artérias femorais. Então, prepare-se, pois sua parede de escudos está rachando.

A morde-raio verga como um canino, e o fato de não se partir ao meio faz o ateu Snorri sentir – se idiota por ter chegado a pensar em rezar há meros dois segundos.

Os jovens em meio a nós trilharão alegremente “Thor!” a serem perguntados sobre os deuses da guerra. Mas um guerreiro lídimo, do tipo que não faz algo tão covarde quanto sangrar numa parede de escudos quando deveria proteger as suas costas esse vai sorrir e falar de Loki.

O liso e escorregadio Loki. O deus ideal da guerra, decerto, mas também deus da poesia, educação, falsidade e trapaça, tudo num pacote só.

Thor cai matando dos céus em sua direção como um grande babaca arrogante. Já Loki chega por trás enquanto você paparica alguma moça, e arranca um rim seu com uma colher de pedreiro.

É o conceito básico de “atacar o inimigo onde ele não está” ou de trapaça, como preferem chamar outros. Os mortos via de regra.

Pois por que perder quando se pode vencer? Por que morrer quando se pode sair vivo? Por que não voltar para casa quando você pode voltar, plantar um alqueire, desenvolver uma receita realmente épica de vinho de batata e viver para ver os netos aprendendo a andar.

Por que entrar em combate sem pensar, como um idiota? Isto é ao estilo dos Berserkers. Guerreiros com vida útil média de dois verões. Os reis e senhores os adoram.

Jogue algum equipamento usado e um punhado de cogumelos na mão deles. Em vinte minutos, estarão malucos o suficiente para mascarem o próprios escudos, sem perceberem que quebram os dentes e estão a ponto de investirem contra o inimigo com espadas cegas e enferrujadas.

Pessoas normais apenas meneiam a cabeça, admiradas com a imagem de um Berserkers avançando desabaladamente, cuspindo e babando, contra uma dúzia de pontas de lança. Mas eles têm a marcante vantagem de apavorar um inimigo desprevenido. Por isso, e por todas as batalhas que não teriam sido vencidas sem eles, brindemos aos malucos.

(continua...)

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