27 de junho de 2013

Afinal, o que é Inteligência?

(por Isaac Asimov)

Quando eu estava no exército, fiz um teste de aptidão, solicitado a todos os soldados, e consegui 160 pontos.

A média era 100.

Ninguém na base tinha visto uma nota dessas e durante duas horas eu fui o assunto principal.

(Não significou nada – no dia seguinte eu ainda era um soldado raso da KP – Kitchen Police)

Durante toda minha vida consegui notas como essa, o que sempre me deu uma ideia de que eu era realmente muito inteligente. E eu imaginava que as outras pessoas também achavam isso.

Porém, na verdade, será que essas notas não significam apenas que eu sou muito bom para responder um tipo específico de perguntas acadêmicas, consideradas pertinentes pelas pessoas que formularam esses testes de inteligência, e que provavelmente têm uma habilidade intelectual parecida com a minha?

Por exemplo, eu conhecia um mecânico que jamais conseguiria passar em um teste desses, acho que não chegaria a fazer 80 pontos. Portanto, sempre me considerei muito mais inteligente que ele.

Mas, quando acontecia alguma coisa com o meu carro e eu precisava de alguém para dar um jeito rápido, era ele que eu procurava. Observava como ele investigava a situação enquanto fazia seus pronunciamentos sábios e profundos, como se fossem oráculos divinos.
No fim, ele sempre consertava meu carro.

Então imagine se esses testes de inteligência fossem preparados pelo meu mecânico.

Ou por um carpinteiro, ou um fazendeiro, ou qualquer outro que não fosse um acadêmico.

Em qualquer desses testes eu comprovaria minha total ignorância e estupidez. Na verdade, seria mesmo considerado um ignorante, um estúpido.

Em um mundo onde eu não pudesse me valer do meu treinamento acadêmico ou do meu talento com as palavras e tivesse que fazer algum trabalho com as minhas mãos ou desembaraçar alguma coisa complicada eu me daria muito mal.

A minha inteligência, portanto, não é algo absoluto mas sim algo imposto como tal, por uma pequena parcela da sociedade em que vivo.

Vamos considerar o meu mecânico, mais uma vez.

Ele adorava contar piadas.

Certa vez ele levantou sua cabeça por cima do capô do meu carro e me perguntou:

“Doutor, um surdo-mudo entrou numa loja de construção para comprar uns pregos. Ele colocou dois dedos no balcão como se estivesse segurando um prego invisível e com a outra mão, imitou umas marteladas. O balconista trouxe então um martelo. Ele balançou a cabeça de um lado para o outro negativamente e apontou para os dedos no balcão. Dessa vez o balconista trouxe vários pregos, ele escolheu o tamanho que queria e foi embora. O cliente seguinte era um cego. Ele queria comprar uma tesoura. Como o senhor acha que ele fez?”

Eu levantei minha mão e “cortei o ar” com dois dedos, como uma tesoura.

“Mas você é muito burro mesmo! Ele simplesmente abriu a boca e usou a voz para pedir”

Enquanto meu mecânico gargalhava, ele ainda falou:

“Tô fazendo essa pegadinha com todos os clientes hoje.”
“E muitos caíram?” perguntei esperançoso.
“Alguns. Mas com você eu tinha certeza absoluta que ia funcionar”.
“Ah é? Por quê?”
“Porque você tem muito estudo doutor, sabia que não seria muito esperto”

E algo dentro de mim dizia que ele tinha alguma razão nisso tudo.

(tradução livre do original “What is inteligence, anyway?”)
fonte: www.updateordie.com

18 de junho de 2013

Lola e o Existencialismo

Corra, Lola, Corra” (Lola Rennt) é um filme alemão de 1998, dirigido por Tom Tywker. Conta a história de Manni, que esquece uma sacola com 100.000 marcos alemães no metrô, tendo somente 20 minutos para recuperá-la, já que pertence a um perigoso contrabandista para o qual ele está trabalhando. Desesperado, liga para sua namorada, Lola, que sai correndo pelas ruas para ajudá-lo.

Quando o filme foi lançado, além de todo o visual clubber da personagem, ainda contou com a música techno, que inclusive foi gravada pela intérprete de Lola, Franka Potente. Ele chamou atenção por mostrar três desfechos diferentes para os personagens, possibilitando uma série de interpretações por parte de quem assiste. Com essa descrição, o filme parece ser voltado para intelectuais, difícil e tudo mais. Mas não! É bem divertido de ser assistido e tem boas doses de ação.

O interessante é que, ao longo dos três desfechos, são mostradas as conseqüências de pequenos atos de Lola às pessoas a sua volta. Se ela chega um segundo mais cedo em um local, isso muda toda a vida de várias personagens. É como se cada ato pequeno, minúsculo e simples de nosso dia a dia tivesse conseqüências gigantescas na vida de todos a nossa volta. Daí surge a questão: seríamos responsáveis pelas conseqüências destes pequenos atos? Será que nossa liberdade de agir implica na responsabilidade por estes atos? Parece ser a linha de pensamento desenvolvida pelo filme.

Jean-Paul Sartre (1905-1980), filósofo francês do século XX, pai do Existencialismo, propõe uma leitura do ser humano partindo de Heidegger, Husserl, Hegel, entre outros: o ser humano como um nada que se projeta no mundo. O autor propõe que não há nada que nos pré-determine, como um Deus criador, destino, inconsciente, nosso corpo, ou qualquer outra coisa. Para Sartre, somos tão livres que, mesmo que o meio em que nascemos nos leve a uma trajetória existencial, somos nós que escolhemos trilhá-la ou não. Isso faz com que sejamos completamente responsáveis por nós mesmos em todos os aspectos de nossa existência.

Poderíamos perguntar ao autor: e naqueles momentos em que não decidimos, simplesmente deixamos as coisas seguirem? Ele nos responderia: não decidir já é uma escolha, portanto você é plenamente responsável por ela e por todas as suas conseqüências. Ao tratar, por exemplo, de uma pessoa covarde, ele diria que ela é covarde por escolher ser assim. Não foi o meio, os pais, o corpo, a sociedade, ou o que mais seja, que o tornou o que ele é. Você só é um covarde por escolher ser um covarde.

É dentro desta perspectiva, de que somos seres vazios que passamos a existir, e então nos projetamos através de nossas escolhas existenciais, que surge sua famosa frase: “A existência precede a existência”. Isso quer dizer que primeiro surgimos no mundo, depois definimos aquilo que realmente somos. O que vai implicar em “o homem está condenado a ser livre”, já que não há meios de se fugir dessa liberdade. Isso levou o autor a compreender a existência como angústia, por sermos fadados a liberdade, e como a náusea, que é a sensação advinda dessa liberdade e responsabilidade existencial.

Sartre foi criticado com o argumento de que, se somos fadados a sermos livres, sendo de nossa própria responsabilidade cada um de nossos atos, não haveria responsabilidade nas relações com outros humanos. Seria como projetar a existência tendo somente o horizonte da própria individualidade, desconsiderando os outros indivíduos. Sartre nega esse argumento: “quando dizemos que o homem é responsável por si próprio, não queremos dizer que o homem é responsável pela sua restrita individualidade, mas é responsável por todos os homens”. Como nossas escolhas refletem-se nos outros, ou por incluí-los, ou pelo fato de estarmos todos inseridos num mundo comum, então somos condenados a assumir a responsabilidade por cada uma de nossas escolhas, das menores às mais complexas.

Pensemos em algo simples, como a relação de um casal dentro da perspectiva de Sartre. São as grandes escolhas e atos que determinam o caminhar da relação, ou são as pequenas coisas do dia a dia que vão acumulando-se e gerando a própria relação? O conflito de casais não advém da responsabilidade individual de cada pequena ação, como um gesto, um olhar, uma palavra, e cada um é plenamente responsável por ele? Não é essa tônica que encaminha uma discussão em casal? Por estas e outras coisas que a perspectiva sartreana o levará a dizer que o “inferno são os outros”, já que o peso de nossa responsabilidade com o outro é angustiante e nauseante.

Imaginemos nossa responsabilidade individual num esbarrão ao caminhar ou uma distração causada à outra pessoa. O que isso pode gerar na vida do outro? O filme trabalha com essa perspectiva sem a angústia nauseante com que Sartre trata do tema, mas permite-nos refletir o quanto cada pequeno ato nosso influi no mundo, e sobre nossa responsabilidade sobre esse ato. Apesar de não ser exatamente sartreano, ele nos permite compreender melhor a maneira como Sartre vê a responsabilidade individual e a relação com os outros. Recomendo assisti-lo, se divertir e depois refletir um pouco.

Fontes de aprofundamento: O Existencialismo é um Humanismo, Jean-Paul Sartre.
Fonte: randomcast.com.br/nerdices-filosoficas-corra-lola-corra-e-o-existencialismo/

5 de junho de 2013

Eu Creio

Eu creio em mim mesmo. Creio nos que trabalham comigo, creio nos meus amigos e creio na minha família. Creio que Deus me emprestará tudo que necessito para triunfar, contanto que eu me esforce para alcançar com meios lícitos e honestos. Creio nas orações e nunca fecharei meus olhos para dormir, sem pedir antes a devida orientação a fim de ser paciente com os outros e tolerante com os que não acreditam no que eu acredito. Creio que o triunfo é resultado de esforço inteligente, que não depende da sorte, da magia, de amigos, companheiros duvidosos ou de meu chefe. Creio que tirarei da vida exatamente o que nela colocar. Serei cauteloso quando tratar os outros, como quero que eles sejam comigo. Não caluniarei aqueles que não gosto. Não diminuirei meu trabalho por ver que os outros o fazem. Prestarei o melhor serviço de que sou capaz, porque jurei a mim mesmo triunfar na vida, e sei que o triunfo é sempre resultado do esforço consciente e eficaz. Finalmente, perdoarei os que me ofendem, porque compreendo que às vezes ofendo os outros e necessito de perdão.

Mahatma Gandhi