30 de abril de 2008

Abra os Olhos

"Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar - se possível - judeus, o gentio ... negros ... brancos. Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo - não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar ou desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover todas as nossas necessidades.

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma do homem... levantou no mundo as muralhas do ódio ... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, emperdenidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas duas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.

A aviação e o rádio aproximaram-se muito mais. A próxima natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem... um apelo à fraternidade universal ... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhões de pessoas pelo mundo afora... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas ... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: "Não desespereis!" A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem os homens, a liberdade nunca perecerá.

Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam ... que vos escravizam ... que arregimentam as vossas vidas ... que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como um gado humano e que vos utilizam como carne para canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos.

Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas é escrito que o Reino de Deus está dentro do homem - não de um só homem ou um grupo de homens, mas dos homens todos! Estás em vós! Vós, o povo, tendes o poder - o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto - em nome da democracia - usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.

É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos.

Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontres, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo - um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergues os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!"
"Charles Chaplin"

1 de abril de 2008

13

Na esperança de realizar seu sonho, José retirou todo dinheiro da poupança. Três anos economizando e o dinheiro não dava nem pro começo. Queria um carro. Estava cansado do transporte público.
- Não precisa ser novo não, qualquer “fuquinha” já tá bom.
Tomou uma decisão, tinha que fazer o dinheiro crescer rápido, paciência nunca foi seu forte.
- Até que esperei demais, agora é tudo ou nada! Afirmava com ar de esperto.

Às dez e quinze de uma terça-feira qualquer, José parou em frente à porta do Bingo. Bateu a mão no bolso onde guardava suas economias, estufou o peito e entrou com passo forte.
Às doze e quarenta apoiou-se no balcão da padaria e pediu uma pinga. Do seu lado direito próximo ao banheiro, uma máquina caça-níqueis acendia e apagava luzes azuis e vermelhas em um transe hipnótico.
Uma e dezoito apostou no bicho.
- Macaco. Dorinha, minha filha do meio vive pedindo um de presente, ontem mesmo tocou no assunto. Onde já se viu, olha pra mim com os zóio arregalado e diz: “igual aquele do zoológico pai”.
Duas e vinte, meio tonto por causa da cachaça, José subia as escadas de serviço para o apartamento do Mané.
- Se você tá precisando de grana José, fala com o Mané que ele cobra pouco juros, o cara é firmeza, toma aí o endereço. Disse Jeremias mais ou menos entre a quinta e a sexta dose. Duas e vinte e três parou em cima do tapete escrito “welcome”. Estendeu o braço para tocar a campainha, mas não tocou, ficou olhando o número do apartamento no meio da porta – 13.
Retirou o dinheiro do bolso e contou. Olhou para o relógio na parede do corredor, um ponteiro no dois e outro quase no seis. Pensou alguns segundos. Desceu apressado as escadas e saiu do prédio.
- Duas e meia, ainda dá tempo!
Três e quarenta e oito saiu do banco. Meia hora preenchendo a papelada para uma nova conta e quarenta minutos de fila.
- Pelo menos ainda dá para comprar uns presentinhos para as crianças no natal. Quem sabe a Dorinha se contenta com um macaquinho de pelúcia.
Estendeu o braço dando sinal para o ônibus parar. Antes de subir os degraus do coletivo lembrou-se que havia depositado todo seu dinheiro na nova conta. Descupou-se com o motorista que fez cara de poucos amigos.

No caminho para sua casa, um carro preto passou velozmente por uma poça. José, que estava mais próximo do meio-fio, recebeu a maior parte da água arremessada pelo veículo. Enquanto olhava para o carro se afastando pensava: “Mais alguns anos, mais alguns anos...”

Sentada na cadeira de madeira da cozinha, Maria, esposa de José, dava de mamar para Rita, a filha mais nova do casal. - Será que o papai arrumou emprego? Dizia para a menina que chupava ansiosamente a mamadeira.

Um Dia na Cidade

Mesmo sem querer, ela abre os olhos. Apesar do frio, raios de sol penetram pelas frestas entre as tábuas, juntamente com o vento frio e o barulho ensurdecedor dos carros que passam pela avenida.

Ela pensa em levantar da cama, mas percebe que esta no chão e joga para o lado o imenso papelão que servia-lhe de cobertor. Ao colocar a mão sobre o corpo, nota que suas roupas estão úmidas, porém não se preocupa com isso pois, por várias vezes, já acordara molhada por causa da chuva que escorre pelo chão do barracão.

Do seu lado outra pessoa ainda dorme, totalmente coberta por um cobertor marrom. Próximo a essa pessoa há uma bolsa jeans suja e, projetando-se para fora da bolsa, ela vê um espelho que deve ter pertencido ao retrovisor de um carro. Sorrateiramente, ela apanha o objeto e olha a sua imagem na superfície espelhada. Todavia, o que sua mente distorcida vê não são as pelancas que caem de seu rosto, ou os dentes que faltam em sua boca, ou os cabelos sebosos e sujos. A imagem que ela vê neste momento é a de uma mulher bonita, com cabelos loiros e longos, olhos verdes e batom vermelho, realçando lábios carnudos. Satisfeita com o reflexo imaginário, ela devolve o objeto ao seu companheiro de quarto desconhecido e caminha em direção à porta do barracão, ignorando o fedor de lixo e o cheiro insuportável de urina que impregna o aposento. Ao empurrar a porta do barracão, uma terrível dor a faz cair de joelhos no chão, uma sensação de queimação no estômago, como se alguma coisa estivesse rasgando-lhe de dentro para fora. Suas mãos tremem e o mundo ao seu redor começa a girar. De repente, assim como começou, a dor desaparece e ela consegue continuar a andar.

Ela tenta se lembrar da última vez que comeu... três dias, uma semana. Que diferença faz. Tenta se lembrar de seu nome, sua idade, de como foi parar naquele barraco debaixo da ponte, mas também não consegue.

Depois de muito andar, ela para em frente de uma barraca de frutas. Então, sem pensar nas conseqüências, apanha uma maçã e dá uma mordida. De trás da barraca, um homem gordo avança em sua direção com uma vassoura na mão, gritando coisas que ela não consegue entender. O gordo levanta a vassoura no ar e acerta-lhe um violento golpe na cabeça, fazendo-a cair de costas no chão e soltar a maçã que rola até o meio-fio. Várias pessoas se aproximam para segurar o homem gordo. Uma mulher diz para ela ir embora o mais rápido possível. Levantando-se com dificuldade, ela apanha a maçã, agora molhada pela água suja do córrego, e continua sua caminhada.

Um filete de sangue escorre em sua testa, mas ela finge não perceber. Ao passar perto de um prédio abandonado, ela vê duas crianças sentadas próximas de uma árvore. São duas meninas, agarradas uma na outra, tremendo por causa do vento frio. Lembranças desconexas começam a aparecer na sua mente, flashes de memórias de uma outra pessoa, de uma outra vida. Dois meninos correndo na grama, um homem ao seu lado, que ela ama muito, o vento levantando folhas secas. Os meninos crescidos, um deles, o maior, levado a força pela polícia que carrega vários sacos plásticos com pó branco dentro. O outro saindo de casa com uma mochila, deixando-a sozinha com o homem. O homem pálido, deitado em um lugar frio, cheiro de flores misturado com algum produto químico, ela chorando ao seu lado segurando-lhe a mão sem vida...

Um grito histérico e prolongado sai de sua garganta, seus olhos enchem-se de água. Na rua, uma mulher que passava ao seu lado, aperta a bolsa contra o peito e apressa o passo. Um office-boy com uma pasta verde debaixo do braço, aponta para ela e ri. Do outro lado da rua, um policial que está de pé em frente a sua viatura, finge não notar sua existência. As meninas apenas olham assustadas. Ela chega perto delas, entrega-lhes a maçã e continua caminhando.

Ela está andando pelo acostamento de uma grande avenida quando a dor volta, só que desta vez muito mais forte. A tontura a faz cair de cara no asfalto. Sente-se tão fraca que não consegue mover um músculo. Neste momento, ela escuta um helicóptero passar por cima de sua cabeça, tenta olhar para cima mas consegue apenas ver uma intensa luz branca vinda do céu que parece envolver seu corpo inteiro.


De dentro do helicóptero, o assistente do câmera de uma famosa rede de televisão relembra sua última reportagem; um caminhão que colidiu com um ônibus. Havia muito sangue e sofrimento , várias pessoas haviam ficado presas nas ferragens. “Mas afinal, pensa ele, é isso que dá audiência e, apesar de tudo, eu gosto de meu trabalho”.

Ao olhar pela janela do helicóptero, ele vê uma velha vestida com trapos cambalear e cair no acostamento da avenida. Não dá muita atenção e nem se preocupa em comentar com seus companheiros de trabalho. “Afinal, um mendigo a mais ou a menos, que diferença faz?”.