1 de abril de 2008

13

Na esperança de realizar seu sonho, José retirou todo dinheiro da poupança. Três anos economizando e o dinheiro não dava nem pro começo. Queria um carro. Estava cansado do transporte público.
- Não precisa ser novo não, qualquer “fuquinha” já tá bom.
Tomou uma decisão, tinha que fazer o dinheiro crescer rápido, paciência nunca foi seu forte.
- Até que esperei demais, agora é tudo ou nada! Afirmava com ar de esperto.

Às dez e quinze de uma terça-feira qualquer, José parou em frente à porta do Bingo. Bateu a mão no bolso onde guardava suas economias, estufou o peito e entrou com passo forte.
Às doze e quarenta apoiou-se no balcão da padaria e pediu uma pinga. Do seu lado direito próximo ao banheiro, uma máquina caça-níqueis acendia e apagava luzes azuis e vermelhas em um transe hipnótico.
Uma e dezoito apostou no bicho.
- Macaco. Dorinha, minha filha do meio vive pedindo um de presente, ontem mesmo tocou no assunto. Onde já se viu, olha pra mim com os zóio arregalado e diz: “igual aquele do zoológico pai”.
Duas e vinte, meio tonto por causa da cachaça, José subia as escadas de serviço para o apartamento do Mané.
- Se você tá precisando de grana José, fala com o Mané que ele cobra pouco juros, o cara é firmeza, toma aí o endereço. Disse Jeremias mais ou menos entre a quinta e a sexta dose. Duas e vinte e três parou em cima do tapete escrito “welcome”. Estendeu o braço para tocar a campainha, mas não tocou, ficou olhando o número do apartamento no meio da porta – 13.
Retirou o dinheiro do bolso e contou. Olhou para o relógio na parede do corredor, um ponteiro no dois e outro quase no seis. Pensou alguns segundos. Desceu apressado as escadas e saiu do prédio.
- Duas e meia, ainda dá tempo!
Três e quarenta e oito saiu do banco. Meia hora preenchendo a papelada para uma nova conta e quarenta minutos de fila.
- Pelo menos ainda dá para comprar uns presentinhos para as crianças no natal. Quem sabe a Dorinha se contenta com um macaquinho de pelúcia.
Estendeu o braço dando sinal para o ônibus parar. Antes de subir os degraus do coletivo lembrou-se que havia depositado todo seu dinheiro na nova conta. Descupou-se com o motorista que fez cara de poucos amigos.

No caminho para sua casa, um carro preto passou velozmente por uma poça. José, que estava mais próximo do meio-fio, recebeu a maior parte da água arremessada pelo veículo. Enquanto olhava para o carro se afastando pensava: “Mais alguns anos, mais alguns anos...”

Sentada na cadeira de madeira da cozinha, Maria, esposa de José, dava de mamar para Rita, a filha mais nova do casal. - Será que o papai arrumou emprego? Dizia para a menina que chupava ansiosamente a mamadeira.

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