4 de novembro de 2016

Janela de Overton: como manipular a Opinião Pública

Há 20 anos, um americano elaborou uma teoria sobre como nós podemos ser levados a pensar o que um grupo de pessoas quer que nós pensemos


Pense bem antes de responder. Qual sua opinião sobre a legalização do aborto? A descriminalização das drogas? A privatização das universidades públicas? O casamento gay?
Essas e várias outras questões estão postas de alguma forma na sociedade brasileira atual e, provavelmente, você tem uma opinião mais ou menos fundamentada sobre cada um desses assuntos. Mas a pergunta que fica é: será que essa é verdadeiramente nossa opinião ou fomos levados a pensar assim?


Influências

Que as pautas vigentes na sociedade podem ser escolhidas pela imprensa, pelas propagandas, pelos políticos, pelos ativistas, etc, todos nós já sabemos. Mas uma teoria bem mais "recente" – de meados da década de 1990 – e suplementar veio nos mostrar que esses diversos atores sociais podem estar escolhendo não só o que pensamos, mas como.
O conceito foi elaborado por Joseph P. Overton e chamado de Janela. Mais tarde, assim como o Teorema de Pitágoras e as Leis de Newton, o termo assumiu a alcunha do autor e passamos a chamá-lo de Janela de Overton.
Resumidamente, ele estabeleceu que as opiniões sobre todos os assuntos podem ser enquadras num espectro alocado numa faixa que vai desde o absolutamente contrário até o absolutamente favorável. Esse espectro representa onde está alocada a opinião pública (ou da grande maioria dela) e passou a ser chamado de janela.



O conceito demonstra, por exemplo, quais tipos de posições são consideradas aceitáveis para aquela sociedade naquele momento. Nesse cenário, se uma figura pública deseja ser bem quista pela população (ou pela grande maioria dela), então suas opiniões devem variar apenas dentro dessa janela. Extrapolá-la pode significar rejeição.
Mas a teoria de Overton não se limitou a isso e provou que essa tal janela não só é mutável como manipulável. Explico.

Influenciadores

Por ações naturais, a nossa opinião e, consequentemente, do nosso coletivo muda. Compreender isso não é lá tão difícil, basta notar que a menos de 150 anos atrás a escravidão era legal.
O experimento, porém, mostrou também que, além das ações naturais, agentes podem interferir deliberadamente no deslocamento dessa janela e movê-la no sentido que desejarem ao influenciarem a opinião pública. A esses agentes – que podem ser desde políticos até youtubers –, Overton chamou de Think Tank, ou seja, aqueles que desviam o foco da questão principal e começam a pautar assuntos adjacentes para tornar o discurso mais aceitável até que a percepção das pessoas seja deslocada.
Esse jogo de influências foi se profissionalizando com o passar do tempo e hoje existe toda uma indústria de assessores de imprensa, publicitários, relações públicas, cientistas políticos, pesquisadores e tantos outras profissões que estão por aí tentando mover as diversas janelas de acordo com seus interesses – sejam eles louváveis ou não. A Janela de Overton se torna, assim, um conceito fundamental na nossa tentativa de entender melhor a complexidade da sociedade. 
Usando o mesmo exemplo: em 1850 era um absurdo propor a libertação dos escravos no debate público da sociedade brasileira. Sabendo que mudar de um extremo ao outro seria muito difícil, primeiro foi proposto apenas a proibição do tráfico de negros. A aceitação a esse tópico específico foi maior e o resultado foi a aprovação da lei Eusébio de Queiroz. 21 anos depois, as opiniões foram novamente deslocadas e a lei do Ventre Livre conseguiu ser aprovada. Levaram mais 13 anos até que a lei dos Sexagenários tivesse o mesmo fim e só em 1888 a lei Áurea foi finalmente sancionada.



Nesse caso, portanto, levou quase 40 anos para que a Janela da escravidão no Brasil se deslocasse do absolutamente favorável ao absolutamente contrário (pelo menos no que diz respeito a lei).
Assim, vagarosamente, caminha a maior parte das discussões em tempos de paz em regimes democráticos. A Janela de Overton pode ser definida sem muito prejuízo como a zona de conforto das opiniões públicas.

Cuidados

Essa transformação intencional, porém, deve ser vista com algum cuidado e ratifica a importância de estar sempre questionando nossos princípios e as reais motivações dos temas colocados em pauta (e até dos que não estão colocados). O fato da janela ser manipulável ganha um agravante quando percebemos que ela se desloca por meio do debate público de ideias, mas que estas não precisam, sequer, ser verdadeiras.
Para ilustrar e seguir ao pé da letra a Lei de Godwin, vamos citar o caso do nazismo para encerrar o artigo.

“Uma mentira contada mil vezes torna-se verdade”
Joseph Goebbels – ministro da propaganda na Alemanha Nazista

A frase mais célebre do ministro da propaganda no governo nazista revela muita coisa. Os nazistas sabiam que para mudar as coisas era necessário, antes de mais nada, travar uma batalha no campo ideológico. Não foi a toa que foi criado um ministério da propaganda e que, assim, os nazistas conseguiram convencer os alemães (ou a maioria deles) de que a raça ariana era pura e superior.
Com essa mensagem bem difundida e consolidada, os nazistas facilitaram as coisas pra si. As pessoas foram se deslocando aos poucos do ponto radicalmente contrário ao extermínio de minorias para o apoio ao massacre promovido contra judeus, negros, ciganos, homossexuais, comunistas e assim por diante.
Perceber, portanto, que as batalhas começam a ser travadas no campo do discurso nos faz treinar um olhar mais amplo sobre as transformações pelas quais estamos passando. Ainda que o aspecto comercial seja predominante no mundo globalizado, eles têm um caráter menos decisivo do que outros tantos que também estão colocados como o político, o social, o econômico, o religioso, etc.
Com esses exemplos, fica evidente que a Janela de Overton é um conceito que pode ser igualmente utilizado para o bem ou para o mal. Conhecê-lo não rende nenhuma garantia de se tornar "imanipulável", mas como gosto de dizer, conhecer as regras do jogo torna ele muito mais fácil de jogar.

Unanimidades

Antes de terminar, uma última ressalva. Ao tomar conhecimento desse conceito e, caso você se interesse muito por ele, é preciso tomar cuidado para não cair no outro extremo da ingenuidade: as teorias da conspiração.
Para não começar a achar que simplesmente tudo que você vê, ouve ou pensa faz parte de um plano maior arquitetado por [insira aqui seu adversário], é preciso lembrar que algumas mudanças ocorrem apenas pelas suas próprias forças naturais. Além disso, mesmo algumas daquelas que são orquestradas podem ser benéficas, se o interesse for justo.
A dica é a mesma que todas as outras vezes: exercite a empatia. Procure pessoas com pontos de vista e argumentos diferentes (e distantes) dos seus. Ouça o que ele tem a dizer com atenção, sem tentar convencê-la. Quando você tiver dimensão de todos os atores e espectros de opiniões envolvidos na questão, ficará mais fácil descobrir os interesses por trás. Se assim for o seu caso, desconfie. Toda unanimidade é burra.


21 de outubro de 2016

Como fazer as pessoas concordarem com você


Você não precisa ser uma pessoa tão importante assim para fazer com que os outros te escutem. Pesquisas psicológicas sugerem que existem diversas maneiras de motivar as pessoas a fazer o que você deseja, sem que elas percebam que estão sendo persuadidas.

Essa lista, do Business Insider, traz 11 estratégicas com base científica para você motivar as pessoas a gostar de você, comprar algo ou seja lá quais forem os seus objetivos.

1 – Use “armadilhas” para fazer as pessoas comprarem seus produtos

Em uma edição do ‘Ted Talk’, o economista comportamental Dan Ariely explicou o “decoy effect“, ou algo como “efeito armadilha”, utilizando um anúncio antigo.

A peça publicitária possuía dois tipos de assinatura: $59 para uma edição on-line, $159 para apenas edição impressa e $159 para edição online e impressa. Ariely diz que a opção de pagar $159 pela edição impressa existe apenas para tornar a opção online+versão impressa mais interessante do que se ela fosse comparada apenas à opção de $59.

Em outras palavras, se você está enfrentando problemas ao vender um produto caro, considere adicionar uma nova opção, apenas com o objetivo de tornar o produto mais chamativo.

2 – Manipule o ambiente para fazer com que as pessoas sejam menos egoístas

Um estudo citado no livro “You Are Not So Smart” (ou “você não é tão inteligente”, em português), descobriu que as pessoas podem se sentir menos à vontade para gastar dinheiro quando estão rodeadas de objetos que lembrem negócios: como portfólios, pasta de documentos, canetas especiais, etc.

Isso pode potencializar a forma como você negocia com alguém. Em vez de marcar uma reunião de negócios em uma sala de conferências, considere marcar o encontro em uma cafeteira, ou lancheria.

3 – Imite as expressões corporais das pessoas

A próxima vez que você estiver tentando impressionar um entrevistador ou alguma outra pessoa importante, tente imitar (levemente, é óbvio) as suas expressões corporais.

Cientistas chamam isso de “efeito camaleão”: Nós temos uma maior tendência a aprovar um diálogo onde nossos parceiros copiam nossas posturas, gestos e expressões faciais.

A parte mais estranha desse fenômeno é que ele ocorre majoritariamente de forma inconsciente. A maior parte dos participantes do estudo que revelou o efeito camaleão sequer se deram conta de que estavam sendo imitados.

4 – Controle a velocidade da sua fala

A forma como você comunica suas ideias pode ser tão importante quanto o conteúdo dos seus argumentos. Pesquisas sugerem que quando alguém discorda de você, você deve falar mais rápido, de forma com que tenham menos tempo para processar o que você está falando.

Do contrário, quando você está falando sobre um assunto que uma plateia concorda, por exemplo, convém falar mais devagar.

5 – Confunda as pessoas para que elas obedeçam seus pedidos

Um estudo publicado no Journal of Personality and Social Psychology descobriu que as pessoas tendem a aceitar o valor de um produto caso fiquem confusas. O experimento consistiu em tentar vender cartões por $3, batendo de porta em porta. Mas em vez de anunciar esse preço, os pesquisadores davam o preço de 300 centavos.

De acordo com pesquisadores, esse processo causa confusão, e enquanto as pessoas tentam entender quantos dólares valem 300 centavos, elas acabam se distraindo e concordando que o preço é adequado.

6 – Peça favores para as pessoas quando elas estiverem cansadas

Uma mente em estado de alerta pode expressar mais dúvidas acerca de pedido ou sugestões. Já alguém que está distraído ou cansado por ser menos crítico na hora de tomar decisões, e pode ter maior tendência a aceitar o que você falar.

Por isso, se você pretende pedir para que um colega de trabalho embarque com você em um novo projeto, talvez seja interessante fazer esse convite no fim do dia de trabalho, pois a chance da sugestão ser aceita é maior.

Só não esqueça de ajudar seu amigo na próxima vez!

7 – Imagens de olhos podem fazer com que as pessoas sejam mais respeitosas

Em um estudo realizado em um bar, os participantes se mostraram mais inclinados a limpar a própria sujeira quando uma imagem contendo dois olhos era exibida no ambiente. Os autores da pesquisa dizem que a figura dos olhos normalmente fazem com que as pessoas se sintam observadas.

8 – Use substantivos em vez de verbos para fazer as pessoas mudarem de comportamento

O livro “How to Get People to do Stuff” mostra um estudo onde os participantes eram indagados sobre uma mesma questão, de duas formas diferentes: “Qual a importância de você ir votar nas eleições de amanhã?” e “Qual a importância de você ser um eleitor amanhã?“. Os resultados mostraram que os participantes que receberam a segunda pergunta eram mais propensos a ir às urnas no dia seguinte.

9 – Assuste as pessoas para que elas lhe deem o que você precisa

Pesquisas sugerem que as pessoas que passam por situações de ansiedade e depois alívio normalmente respondem de forma positiva a pedidos e sugestões quando estão “aliviadas”.

Isso se dá possivelmente porque a mente estava tão ocupada pensando no potencial perigo em que a pessoa estava sujeita, que acaba não prestando atenção no pedido que recebe em seguida.

10 – Em uma negociação, foque naquilo que a outra pessoa irá ganhar

Pesquisas sugerem que durante uma negociação, as pessoas se sentem mais propensas a aceitar uma oferta caso você as aborde, por exemplo, dizendo que “dá seu carro por 10 mil reais”, em vez de “quero 10 mil reais pelo meu carro”.

11 – Mostre às pessoas o extremo de suas visões

Parece óbvio, mas se você quer mudar o ponto de vista de alguém, você deve fazer com que essa pessoa perceba que está errada. Mas quando o assunto é política, a ciência sugere uma estratégia um pouco diferente.

Em um estudo realizado em 2014, israelenses de diferentes opiniões políticas assistiram uma série de vídeos que mostravam o conflito entre Israel e Palestina como algo positivo.

Depois de alguns meses, aqueles participantes de direita (normalmente menos simpático que os de esquerda em relação ao palestinos) mostraram maior tendência a mudar seus pensamentos, em relação aos que assistiram vídeos apolíticos.

12 – Não tenha tanta certeza

Experimentos realizados em 2016 sugerem que se você pretende mudar a opinião de alguém sobre algum tema, é mais interessante realizar abordagens tranquilas, dizendo por exemplo que “talvez seja o caso de…” ou “veja bem…”. Essas abordagens costumam ser mais bem sucedidas do que aquelas que demonstram arrogância e prepotência.

13 – Toque as pessoas (de forma gentil, por favor)

Um estudo de 1991 descobriu que clientes de livrarias que eram cumprimentados com um pequeno toque no ombro gastavam mais tempo nas lojas e compravam mais itens que os clientes que eram cumprimentados sem serem tocados.

14 – Diga que as pessoas podem ficar à vontade para discordar de você

Isso pode parecer controverso, mas lembrar as pessoas de que elas podem não aceitar o que você está sugerindo pode motivá-las a aceitar seus pedidos.

Um estudo recente demonstrou a efetividade desta técnica. Reafirmar a liberdade de opinião de uma pessoa pode dobrar as chances dela fazer aquilo que você está pedindo.

13 de outubro de 2016

20 contos para conhecer Lovecraft

Quem gosta de terror certamente ouviu falar em Stephen King, um dos grandes nomes contemporâ-neos do gênero.

Mas e se eu te dissesse que, se Howard Phillips Lovecraft não tivesse existido, não existiria Stephen King? Parece absurdo, não? Mas o principal fundamento dessa afirmação vem do próprio King:
“Agora que o tempo nos permite olhar para sua obra com algum distanciamento, parece não restar dúvida de que H.P. Lovecraft permanece insuperado como o maior expoente do horror clássico do século XX.”
E o curioso é que, apesar de tamanha contribuição para o gênero, Lovecraft é pouco conhecido como autor, quase transparente, apesar de ter uma bibliografia considerável, disponível completa aqui em inglês. Mas enquanto o público o desconhece, os roteiristas, escritores, diretores e artistas fazem inúmeras referências às suas obras.
Duas das criações mais icônicas de Lovecraft são mencionadas com frequência mundo afora. Uma que já visitou até South Park é a entidade cósmica gigantesca aonde a mera visão já leva qualquer um a loucura: Cthulhu.



A outra criação é o Necronomicon, o famoso Livro dos Mortos, como é comumente chamado mundo afora. O livro de necromancia, magia negra e demonologia ganhou até uma franquia de filmes com Uma Noite Alucinante e o remake A Morte do Demônio.



Inclusive, uma das várias bandas que tem músicas influenciadas por Lovecraft, é Metallica. 

Ouvir “Call of Cthulhu” e “The Thing That Should Not Be” nunca mais será mesma coisa depois de ler alguns contos do escritor.
Mas não só de terror se faz Lovecraft, pois alguns de seus contos também flertam com a ficção científica. Sempre a par dos avanços científicos daquela época, ele mesclou o terror clássico aos tempos modernos ao incrementá-lo com a ciência de sua época.
Só que, como quase todos os grandes autores do passado, não teve visibilidade do público ou críticos em vida e conseguiu publicar somente um livro, em 1936, “A Sombra de Innsmouth”.
Para sobreviver em sua vida conturbada, marcada por perdas e obsessões, realizava revisões e fazia ghost-writing. Enquanto isso, suas histórias encontravam espaço para viver nas cartas para amigos e assinantes de um newsletter analógico.
Quando morreu, em 1937, dois amigos e correspondentes criaram uma editora para publicar a obra de Lovecraft, a editora Arkham House.
Suas obras aos poucos ganharam o conhecimento do público e críticos ao ponto de criarem grupos de estudos em cima de suas histórias.
Hoje, sua marca é tão profunda no gênero que existe um termo para descrever o que ele criou: “Lovecraftian” ou “Lovecraftiano”.
Interessado? Então aqui vai uma lista de 20 histórias de Lovecraft que irão te fazer questionar a sanidade.
1. Dagon
“Não entenda minha dependência da morfina como uma fraqueza ou uma perversão. Quando o senhor ler essas páginas rabiscadas às pressas poderá entender, ainda que não por completo, a minha ânsia pelo esquecimento ou pela morte.”
No relato de sobrevivência deste marinheiro em alto mar, a dualidade do autor entre a razão e a ausência dela fica evidente neste que é um dos primeiros contos escritos por Lovecraft na vida adulta.
É difícil falar sobre algo que possui algo em torno de 5 páginas sem nenhum spoiler, mas, vendo por esse lado, é algo em torno de 5 páginas para preparar o terreno para terrores mais profundos. Porque não experimentar?
2. O Cão de Caça
“E conforme eu pronunciava a última sentença demoníaca, ouvi ao longe no pântano o uivo fraco de um gigantesco cão de caça.”
O narrador e seu amigo, St. John possuem um hobby incomum: são ladrões de túmulos. Em suas excursões noturnas a cemitérios, eles guardam os objetos encontrados nas tumbas, criando na casa em que dividem um altar profano com esses tesouros. Um dia descobrem um túmulo de 5 séculos atrás de alguém que, como eles, compartilhava desse gosto e havia roubado algo poderoso de um lendário túmulo.
Neste conto há a primeira menção  o nascimento  do Necronomicon, um livro que contém inúmeras informações sobre magia, necromancia e demonologia escrito pelo árabe louco Abdul Alhazred.
3. Ar Frio
“O senhor quer que eu explique porque temo as lufadas de ar frio; porque estremeço mais do que outros ao entrar em um recinto frio e pareço sentir náuseas e repulsa quando o frio noturno sopra em meio ao calor dos dias amenos do outono.”
Ao conseguir um trabalho em uma revista de Nova York, este jovem editor se muda para uma pensão devido às limitações de seu dinheiro. Após algum tempo ali morando, foi acometido por um fatídico infarto súbito onde buscou a ajuda do dr. Muñoz, o vizinho de cima. Era nítido que este dr. Muñoz era um homem culto, de bom gosto e boa posição social, devido a sua fala eloquente e pela mobília do apartamento. Este curiosamente munido de um eficiente sistema de refrigeramento.
4. A Música de Erich Zann
“Ele não reagiu, e a viola continuou a gritar sem trégua.”
Um estudante universitário, após ser despejado de diversas casas por falta de pagamento, se muda para a Rue d’Auseil. Próxima a universidade e por um valor que poderia pagar, aceitou um quarto no quinto andar em uma casa quase vazia. No sótão acima morava um velho violista alemão que tocava em uma pequena orquestra de um teatro, um homem estranho e mudo chamado Erich Zann. Ao ouvir tocá-lo nos primeiros dias de sua estadia, ficou assombrado e quis conhecer aquelas harmonias que nunca havia ouvido antes.
5. O Chamado de Cthulhu
“Na casa em R’lyeh, Cthulhu, morto, aguarda sonhando."
Este é, sem medo de errar, o conto mais icônico de Lovecraft.
Nele, Francis Wayland Thurston, executor e herdeiro de seu falecido tio George Gammell Angell, encontra uma caixa com um artefato moderno com entalhes de antigos hieróglifos e um punhado de papéis, cujo principal possuía o título “O Culto a Cthulhu”.
O conto é dividido em três partes, sendo as duas primeiras os relatos encontrados do tio com o resultado de suas buscas. Já o último é um relato de um marinheiro que Francis Thurston encontra por acaso.
6. Os Gatos de Ulthar
“Mas todos estavam de acordo em um ponto: a recusa dos gatos em comer porções de carne ou em tomar o leite da tigela era um tanto inusitada."
Se você gosta de gatos (e há porque não gostar?), vai adorar este conto.
Aqui, Lovecraft conta a história da pequena vila de Ulthar e sua lei um tanto peculiar – mas não menos correta – de que é proibido matar gatos.
7. Celephaïs
“Então um rasto pareceu abrir a escuridão adiante, e Kuranes viu a cidade no vale, resplandecendo ao longe, lá embaixo, contra um fundo de céu e mar com uma montanha nevada junto à costa.”
Kuranes sonhou com Celephaïs e decidiu encontrá-la. Precisou encontrá-la. Mais um conto curtíssimo que é capaz de trazer um horror sincero ao levantar questionamentos interiores assustadoramente atuais.
8. A Cor Que Caiu do Espaço
“Por mais que os policiais estivessem acostumados a ocorrências horripilantes, ninguém permaneceu indiferente ao que encontraram no sótão e sob a toalha vermelha e branca no térreo.”
Para se construir uma nova represa, o narrador vai inspecionar o local, tirar as medições e se informar sobre o local com o povo de Arkham. O que ele descobre é que aquela região que precisava vistoriar é conhecida como “descampado maldito”. Quando nenhum morador dá informações, ele procura um velho habitante de Arkham a quem todos mandam ignorar. Ammi Pierce se inclinou e confidenciou com sua voz rouca os acontecimentos mais recentes do que o esperado.
Esse conto também irá ganhar um filme de Richard Stanley que está em produção.



9. O Modelo de Pickman
“E se eu dissesse que tenho um outro estúdio por lá, onde posso captar o espírito noturno de horrores ancestrais e pintar coisas que eu não conseguiria sequer imaginar na Newbury Street?"
O narrador escreve uma carta para seu amigo, Eliot, a respeito de Richard Upton Pickman, um pintor que é considerado pelo narrador o maior pintor que Boston já teve. Apesar de possuir uma arte mórbida que levou pessoas a se afastarem de Pickman, isso a nada importava ao autor da carta. Até a visita que fez ao seu estúdio secreto em North End.
10. Navio Branco
“Porém, ainda mais deslumbrante do que a sabedoria dos anciões e a sabedoria dos livros é a sabedoria do oceano.”
Basil Elton era responsável pelo farol de North Point como seu pai e avô. Mantinha uma relação saudável com os poucos marinheiros que ainda ali passavam e uma de cumplicidade com o oceano. Este lhe contava inúmeras histórias, até que Basil decidiu vivê-las com o capitão de barba e manto do Navio Branco pelos mundos oníricos.
11. A Sombra Vinda do Tempo
“Será que esses casos mais brandos seriam experimentos monstruosos e sinistros de caráter e autoria muito além de qualquer crença respaldada pela razão? ”
Nathaniel Wingate Peaslee, morador de Arkham, formado na Universidade do Miskatonic, estudou economia em Harvard e foi professor de Economia Política na Universidade do Miskatonic por 13 anos. Então teve um colapso durante uma aula. Quando acordou foi diagnosticado com amnésia e não se parecia em nada a pessoa que havia sido. Pouco tempo depois recebeu um diagnóstico adicional: dupla personalidade.
12. Os Outros Deuses
“Às vezes, quando sentem saudades de casa, os deuses terrestres visitam os picos que outrora habitaram na calada da noite, e choram em silêncio enquanto tentam brincar como em tempos antigos nas encostas lembradas."
Barzai, o sábio, estudou a fundo tudo que podia ser estudado, inclusive os deuses terrestres e os Grandes Deuses. Seguido por seu discípulo, ele parte em uma jornada para escalar a montanha Hatheg-Kla em busca desses deuses terrestres.
13. A Busca Onírica por Kadath
“E lembra-te dos Outros Deuses, que são poderosos e irracionais e terríveis e espreitam nos vazios siderais. Convém temê-los."
Randolph Carter sonha com a majestosa cidade de Kadath sem nunca conseguir alcançá-la. Quando reza para os deuses lhe mostrarem o caminho, eles não respondem. Decidido em encontrar a cidade sonhada, ele parte em uma jornada que desafia a própria vontade dos deuses.
Nesta novela, Lovecraft nos leva a uma verdadeira jornada por sua imaginação, aprofundando outros contos anteriormente citados.
14. O Caso de Charles Dexter Ward
“Mesmo depois, passou a ter a singular impressão - que a formação médica assegurava não ser mais do que uma simples impressão - de que os olhos do retrato nutriam uma espécie de desejo, se não de fato uma tendência, a seguir o jovem Charles Dexter Ward enquanto andava pelo cômodo."
O Dr. Willet, responsável pelo paciente Charles Dexter Ward, relata o estranho caso do rapaz que acompanhou durante toda a vida. Dos seus gostos da infância até os acontecimentos atuais, ele relata os horrores que a obsessão do jovem desencadeou em sua vida - e o preço que lhe foi cobrado.
Por se tratar de outra novela, e não um conto, essa história sintetiza muitos aspectos contemporâneos da obra de Lovecraft, ao contrário de A Busca Onírica por Kadath que foca em seu universo criado.

15. O Que a Lua Traz Consigo
“Impiedosa, a lua pairava logo acima desses horrores, mas os vermes túrgidos não precisam da lua para se alimentar.”
Este é mais um dos contos curtíssimos de Lovecraft, de mais ou menos duas páginas. Mas porque tão avançado na lista este número quase insignificante de páginas?
Sem conhecer outras obras do escritor, esse conto estaria quase deslocado de seus outros trabalhos. É curto, tem elementos de terror, mas falha em despertar qualquer tipo de emoção. No entanto, estas duas páginas transbordam toda a mitologia lovecraftiana.
16. O Horror de Dunwich
“Yog-Sothoth conhece a passagem. Yog-Sothoth é a passagem. Yog-Sothoth é a chave e o guardião da passagem. O passado, o presente e o futuro encontram-se em Yog-Sothoth.”
Na pequena cidade de Dunwich sempre existiu uma aura de desconforto nítida para os viajantes. Em especial nas pequenas montanhas além dos bosques. Era nessas montanhas que Lavinia Whateley, uma albina de 35 anos com leves deformações, passava boa parte do tempo.
Em 2 de fevereiro de 1913 seu filho nasce, Wilbur Whateley. Assim, eram 3 na antiga casa: Lavinia, Wilbur e o avô da criança, sobre quem as mais terríveis histórias de bruxaria eram sussurradas.
O rápido crescimento do garoto não passou despercebido e vários médicos o visitaram. Seu amadurecimento e inteligência também assustavam. Mas não era só isso que assustava no precoce rapaz.
17. A Sombra de Innsmouth
“Quanto mais eu olhava, mais o objeto me fascinava; e nesse fascínio havia um elemento perturbador que não se deixaria classificar ou explicar a duras penas."
Durante sua viagem para comemorar a recém atingida maioridade pela Nova Inglaterra, um jovem descobre um trajeto mais barato que o trem de Newburyport para Arkham. Se trata de um antigo ônibus, que as pessoas evitam pegar por passar pela cidade de Innsmouth.
Curioso sobre esta cidade que todos evitam falar, ele começa a buscar informações e logo descobre na biblioteca referências às estranhas joias que vem de Innsmouth.
Como se não bastasse a curiosidade, o objetivo de sua viagem – fins turísticos, antiquários e genealógicos – o levou a escolher a viajar pelo ônibus para conhecer a cidade da qual tão misteriosas joias relacionadas a uma depravada e pagã crença, “A Ordem Esotérica de Dagon”, surgiu.
18. Os Ratos Nas Paredes
“Eles precisam saber que foram os ratos; os escorregadios, apressados ratos que a correria nunca vai me deixar dormir."
O descendente da família De La Poer restaura e se muda para a antiga propriedade da família na Inglaterra, a Exham Priory. Após se mudar, ele e seus gatos frequentemente ouvem ratos correndo atrás das paredes. Algo que ninguém mais é capaz de ouvir.
19. A coisa na soleira da porta
“Posso ter certeza de que estou a salvo? Aqueles poderes sobrevivem a vida da forma física.”
Daniel Upton escreve um relato que, embora possam dizer que esteja louco, busca provar que, apesar de ter dado seis tiros na cabeça do melhor amigo, não é um assassino.
20. Um Sussurro Nas Trevas
“Meu Deus! Aqueles sussurros nas trevas, acompanhados de um odor mórbido e de vibrações!”
Albert N. Wilmarth, professor de literatura da Universidade de Miskatonic em Arhkam, recebe uma carta de Henry Wentworth Akeley que afirma que, embora existam, as intenções das Criaturas Siderais são nobres. Os cultos, as lendas e suas intenções nada passam de uma interpretação equivocada. E, para explicar melhor, convida o professor à sua casa.


Texto de Pedro Soler publicado originalmente em: http://papodehomem.com.br/

27 de janeiro de 2016

Brainwashing Damage

A história da humanidade está recheada de pessoas e civilizações que sofreram uma tremenda lavagem cerebral e fizeram coisas absurdas, como atentar contra a própria vida e ou a vida dos outros outros. E é obvio que você acredita que isso jamais irá acontecer com você, que é instruído e inteligente, não é mesmo?

Mas não funciona assim. Mesmo os mais espertos estão sujeitos a apoiarem causas não tão espertas, por conta de truques de lavagem cerebral, como:

As Ideias não importam – as pessoas só se preocupam com o que “funciona”


Cientologia é um conjunto de crenças e práticas relacionadas a autoajuda. Enquanto seus cursos incluem conselhos interessantes, a cientologia também ensina que o governante do mal Xenu congelou bilhões de vítimas e escondeu-as em vulcões da Terra.

Por que cargas d’água as pessoas abraçam essa e outras mitologias aparentemente bizarras? Bom, porque tem coisas na cientologia que funcionam. Por exemplo, eles recomendam que as pessoas se concentrem em completar uma tarefa rapidamente e corretamente, esquecendo-se de todas as outras coisas que também precisam fazer. Então, uma vez que essa tarefa for concluída, as pessoas têm a confiança para avançar para a próxima e conseguem fazer tudo que querem.

A cientologia não inventou isso – provavelmente só adaptou essa ideia de tantas outras que existem e que funcionam há séculos. Mas aqui está a chave: quando um cientologista (ou qualquer outra pessoa que tenha qualquer outra crença) diz que isso funciona, é verdade. Funciona. A mitologia adjacente já não é tão importante – se dizem que a técnica funciona por causa de seres pequenos alienígenas que vivem dentro do seu corpo, beleza por você. Isso não muda nada.

Nós não temos espaço no cérebro para manter o controle de como tudo no mundo funciona – por isso, não estamos interessados em explicações científicas complexas sobre por que aqueles conselhos dão certo. Você pode se sentir superior a um cristão que não acredita em evolução, por exemplo, mas em algum lugar há um engenheiro que se sente superior a você por você não saber como funciona o seu iPhone. No fim das contas, a realidade é que você não sabe como o seu iPhone funciona porque saber isso não iria mudar o seu uso desse objeto no dia-a-dia. Da mesma forma, pensar que a Terra tem apenas 6.000 anos de idade não muda muita coisa no seu dia-a-dia, mas outros conselhos, como ter autodisciplina e paciência, podem de fato ajudá-lo, então você aceita o pacote inteiro e pronto acabou.

E SIM, todo mundo FAZ ISSO.


O outro lado é sempre pior

Você está assistindo O Senhor dos Anéis. De um lado da batalha, tem essas pessoas:



Do outro lado, tem isso:



Para quem você torce? Fácil. Se amanhã você topasse com um grupo de caras em um beco lutando contra orcs, você iria se juntar aos caras, sem sequer perguntar sobre a natureza da briga. Não importa – você iria lutar ao lado dos humanos, mesmo que eles fossem neonazistas.

É isso que acontece com a maioria das pessoas que você vê lutando por uma causa realmente terrível ao lado de pessoas terríveis: elas estão fazendo isso porque pensam que estão lutando contra um inimigo que é pior ainda.

As pessoas definem-se principalmente pelo que odeiam. É mais comum ouvir alguém falando mal de Bieber do que defendendo sua banda preferida, ou xingando um candidato político do que exaltando outro.

A verdade é que um grupo de pessoas de fato alimenta a adesão a outro grupo de pessoas com ideias opostas e há uma relação simbiótica estranha entre esses dois “lados”, que é o que garante a sobrevivência de ambos.

Esse também é o motivo pelo qual as pessoas sempre atribuem características negativas a seus “inimigos” que não são de fato relacionadas com quem elas discordam. Por exemplo, não é o suficiente dizer que os antifeministas estão errados ou equivocados; temos que dizer que eles são gordos frustrados assexuados (então a resposta desses gordos frustrados assexuados é que feministas são mulheres irritadiças e fracas ou homens efeminados). Os conservadores são caipiras ignorantes, os liberais são hippies sonhadores, e assim por diante – essa é a chave para manter o foco sempre em quão desumano o outro lado é, de modo que nunca temos de olhar para nossos próprios umbigos.

Nós vamos desculpar qualquer coisa dentro do nosso próprio movimento, porque não importa o quão errado, bisonho ou ilegal ele seja, pelo menos nós não somos orcs.


Pertencer a um grupo importa mais do que ter uma opinião sensata



Se você chegar em casa e ver um estranho batendo em sua mãe, você não vai perguntar: “Senhor, qual é a natureza de sua disputa? O que ela fez para você?”. Não, você vai pegar uma faca e mergulhá-la nas costas desse filho da p***. Naquele momento, a lealdade a sua mãe supera qualquer outra coisa.

Da mesma forma, se você conversar com alguém que esteve em uma guerra e perguntar-lhe como ele conseguiu fazer tudo o que fez, a pessoa provavelmente não vai dizer que foi o seu amor pelo país ou sua crença na causa (muitos soldados nem sequer podem articular a razão que levou às batalhas nas quais lutaram). Não. O soldado certamente vai responder que aguentou firme pelo cara que estava do lado dele. Ele precisava ajudá-lo, do mesmo modo que o colega o estava protegendo também. É assim que as pessoas em guerras sobrevivem e não pensam no que estão fazendo – porque precisam cuidar umas das outras.

É também a razão pela qual nós gostamos de torcer por equipes esportivas, é a razão pela qual adolescentes formam panelinhas e é a razão pela qual as pessoas se unem a gangues.

Queremos pertencer a um grupo, uma “tribo”. Desde que essa tribo não tenha qualquer crença que seja absolutamente repulsiva para você, qual é a crença em si não importa. Por exemplo, um ex-neonazista já contou que se juntou a um grupo de skinheads antes mesmo de saber que eles eram skinheads. Antes apenas um grupo de pessoas que saíam juntos, foi como se eles tivessem decidido um dia que agora odiavam judeus. E esta é a chave: se alguém aparecesse e falasse para esse ex-neonazista que seus amigos eram idiotas vendedores de ódio, ele teria ouvido isso como uma crítica às pessoas mais próximas a eles. “Vendedores do ódio?!? Eu confio nos meus manos com a minha vida!”.

“Mas”, você insiste, “eu nunca odiaria todo um grupo étnico de pessoas só para agradar meus amigos!”. Talvez não, mas há maneiras mais sutis de ser arrastado para dentro de um grupo sem concordar totalmente ou sequer entender suas ideias e crenças. Seja honesto: você provavelmente nem conhece todas as propostas que seu candidato político fez, e votou nele mesmo assim. Pior: o defendeu mesmo sem poder dizer o que ele defendia.

Muitas vezes, quando uma nova controvérsia de qualquer natureza surge – biscoito ou bolacha? -, a maioria das pessoas não estuda cuidadosamente a questão para descobrir como se sente e o que pensa dela. Não. Elas apenas seguem sua tribo. Frequentemente, adotam opiniões alheias como suas (porque foi meu pai que falou, ou aquele amigo que eu acho que é inteligente!). Além disso, acham que entendem de algo porque viram uma única informação vinda de uma fonte conhecida (mas não necessariamente com credibilidade), quando a realidade é que provavelmente têm chocantemente pouco conhecimento sobre o assunto o qual estão opinando.

Meu ponto não é que todo mundo seja idiota e hipócrita. Meu ponto é que nós não temos espaço em nossos cérebros para manter controle de tanta informação, e nossa primeira prioridade é pertencer a um grupo – isso garante companhia, apoio, sobrevivência. Não é culpa de ninguém, mas significa que você não vai mudar a cabeça das pessoas apenas bombardeando-as com informações.


Geralmente, todo mundo tem o mesmo código moral, só que o usam de forma diferente


Você se considera moralmente superior às pessoas que costumavam queimar bruxas? Eu espero que sim – essas pessoas sequestravam homens e mulheres inocentes e os executavam com base em uma superstição ridícula.

Mas e se, em uma surpreendente reviravolta, nós descobríssemos que as bruxas não apenas são reais, mas que tudo dito sobre elas é verdade? Que elas de fato têm poderes mágicos obscuros que usam para torturar e assassinar pessoas em massa? E, uma vez que são mágicas, que a única maneira de pará-las é matando-as? Quero dizer, você aplaudiu quando Voldemort morreu, não?

Tá-dá! Fica claro que você não é, necessariamente, mais tolerante do que os caçadores de bruxas – você apenas não compartilha de sua crença em bruxas. Seu código moral pode de fato ser exatamente o mesmo do deles – você só discorda sobre esse fato em particular. E fatos podem estar certos ou errados, mas não podem ser morais ou imorais.

É isso que acontece em praticamente todo debate político. Ambos os lados concordam com o princípio moral de que a tirania do governo é ruim. Eles simplesmente discordam sobre se os ideais de um ou de outro são um exemplo de tirania do governo.

Mas não conseguimos ver claramente essa questão moral. A fim de preservar a narrativa “bem contra o mal”, muitas vezes as pessoas decidem que o outro lado do debate está simplesmente mentindo sobre o que acreditam. “Os caçadores de bruxas nem sequer pensavam que bruxas existiam, eles só queriam uma desculpa para mutilar mulheres!”.

Isso é sem dúvida verdade em alguns casos, mas não na maioria. Isso não impede ambos os lados de desejarem acreditar que o seu inimigo é realmente pior. Só não é o caso. As pessoas de lados opostos de certas questões na verdade geralmente possuem os mesmos valores morais, embora possam priorizá-los de forma diferente.

Se você quer um exemplo cotidiano disso, basta pensar naquele amigo chato que é excessivamente franco com suas opiniões, arruinando o bom humor alheio por onde passa. Não é que ele seja imoral; é que ele está priorizando um valor moral (honestidade) em detrimento de outro (minimizar danos emocionais). E torna-se ainda mais difícil odiá-lo quando você percebe que ele está realmente fazendo escolhas morais corajosas todos os dias – ele pode ter tomado uma decisão angustiante de dizer que sua camisa parece algo que um urso cagaria depois de comer um palhaço porque viu isso como a coisa “certa” a fazer, de acordo com sua moral interna. Provavelmente, é o que ele gostaria que você fizesse por ele, caso um dia ele usasse uma camisa que parece algo que um urso cagaria depois de comer um palhaço.


A maioria das pessoas caem em sua “tribo” por acidente



Se você procurar livros que explicam por que as pessoas brancas são a raça superior do mundo, você vai encontrar uma coincidência surpreendente quando olhar para os seus autores: eles são todos brancos.

Louco, não? Qual a probabilidade???

Ano passado, a revista TIME fez um experimento onde antecipou com precisão as convicções políticas de americanos apenas pedindo-lhes que respondessem uma série de perguntas completamente não políticas, como “Você prefere gatos ou cães?” e “Seu espaço de trabalho é organizado ou bagunçado?”. Outro estudo descobriu que você pode antever a posição política de alguém estudando como seu cérebro processa riscos.

É. Não é difícil prever o grupo no qual uma pessoa pensa que se encaixa. Geralmente, elas acreditam que a pior característica que uma pessoa pode ter é justamente algo que para elas é fácil não ter. Por exemplo, muitas pessoas em forma acham que os gordos são “lesmas preguiçosas” – para elas, as pessoas não estão no mesmo nível que elas por culpa própria. Muitos ricos também pensam que pobres são inferiores por serem vagabundos que não querem trabalhar ou estudar. E daí por diante.

Tudo isso pode parecer preconceito – e provavelmente é -, mas assim que é a vida: você apoia os grupos dos quais você por um acaso faz parte. Você pode pensar nisso como sua “Configuração de Padrão Moral”, e ela é em grande parte determinada por onde você nasceu, como você foi criado e em qual grupo de amigos você caiu.

Se você quiser ver sua Configuração de Padrão Moral em ação, imagine que você e sua mãe foram visitar um país estrangeiro. Na entrada, eles exigem que todas as mulheres removam suas camisas e sutiãs para que possam ser fotografadas para fins de identificação. Você acha isso nojento e misógino – secretamente, eles só querem ver tetas e são uma cultura estranha e machista.

E, no entanto, quando mulheres muçulmanas levantam essa mesma objeção quando precisam remover suas coberturas de cabeça para fotos de identificação em países estrangeiros, nós dizemos que SUA cultura é primitiva e misógina – porque as suas regras arbitrárias sobre quanto do corpo de uma mulher deve ser coberto em público são lógicas e respondem ao bom senso, enquanto as dos outros são o resultado de superstição e loucura.

Na realidade, ambos estão apenas reagindo ao seu “Ambiente Moral Padrão”, como se fosse uma verdade absoluta proferida na criação do universo. Que outras pessoas têm diferentes padrões – e acreditam neles tão fortemente quanto você – é um fato quase impossível de compreender.


Admita: você secretamente tem certeza de que se tivesse vivido no Brasil escravo como um homem branco, teria sido um dos menos racistas. Você também teria sido um dos jovens alemães que não foram sugados por Hitler. Ao imaginar-nos transportados para outro tempo e lugar, nós sempre assumimos que nosso Ambiente Moral Padrão de alguma forma viaja com a gente, porque não podemos conceber uma vida sem ele.

E esse ambiente é o que faz com que seja praticamente impossível realmente entendermos e respeitarmos uns aos outros. Quando você tenta fazer com que alguém desvie de seu próprio padrão, meu amigo, é quando todos os outros itens nesta lista reúnem-se em um único Power Ranger para se opor a você. Você está pedindo a ele para A) abandonar o que funcionou para ele até agora, B) deixar os bastardos maléficos do lado oposto ganharem, C) trair seus amigos e D) abraçar o que ele vê como imoralidade.

Muitas pessoas preferem, literalmente, morrer do que desviar de sua Configuração de Padrão Moral, também conhecido como mudar de opinião.

VIA: Cracked
fonte: http://pensadoranonimo.com.br/

13 de janeiro de 2016

Estamos formando uma geração de egoístas, egocêntricos, alienados e inconsequentes

Por: Isabel Gonçalves

Acabaram as festas, janeiro começou e em breve o ano letivo ganhará vida. Novos calouros ávidos por uma “nova” vida de descobertas desembarcarão em Adamantina. Nem faz um ano uma garota, em sua primeira semana de aula na faculdade, teve suas pernas queimadas em um dia de acolhimento de calouros. Jovem, em seus 17 anos e feliz por realizar o sonho de ingressar em uma faculdade. Mas em um dia que deveria ser de festa foi interceptada por “colegas” veteranos. Foi pintada com tintas e esmalte até que sentiu que jogaram um líquido em suas pernas. Nada notou até que a água da chuva, por ironia, em lugar de lavar e limpá-la provocou uma reação química que resultou em queimaduras de terceiro grau em suas duas pernas. O mesmo aconteceu com uma colega de turma que teve as pernas queimadas e outro rapaz que correu o risco de perder a visão. O líquido? Uma provável mistura de creolina e ácido!

Casos amplamente noticiados pela imprensa local, regional e nacional. Mas relatos contam mais sobre este dia trágico, como inúmeros casos registrados de coma alcoólico, além de meninas que tiveram suas roubas rasgadas e sofreram toda uma série de constrangimentos.

Fatos como estes contribuem para nos trazer de volta a realidade e, guardadas as devidas proporções, ilustra que vivemos sim em um país onde a “barbárie” ganha força e impera em diversos núcleos de nossa sociedade e se alastra com uma rapidez de rastilho de pólvora. Casos se repetem em diversos estados e cidades, o caso dos calouros da FAI de Adamantina não é e nem será o último, quantas tristes histórias já foram relatadas, como a do o jovem morto atirado em uma piscina da USP, amanhã mais um gay ou um negro, ou mais uma mulher que não se “deu o valor” e andou por aí exibindo seu corpo.

Vivemos em uma sociedade de alienados, sujeitos que não conseguem sequer interpretar um texto, nossas crianças são “condicionados nas escolas” jamais educados. Infelizmente não há cultura neste país da desigualdade. Parece que perdemos a capacidade de raciocinar, de entender o contexto e complexidade de tudo os que nos cerca. Ninguém discute com seriedade o que está levando a nossa sociedade a viver na idade das trevas.

O apresentador Chico Pinheiro do Bom dia Brasil, revoltado com os trotes violentos, afirmou que estes alunos deveriam voltar para o ensino fundamental. Discordo radicalmente dele, estes alunos deveriam voltar para o seio de suas famílias e lá, sim, receber educação básica, educação para a vida.

Os pais estão terceirizando a educação de seus filhos e, em um mundo sem tempo e repleto de culpa delegam a educação de seus filhos a professores que não podem ser responsabilizados e muito menos tem competência e formação para isso. Professores são facilitadores da inteligência coletiva, pais são os educadores na/da/para a vida!


Nos dias de hoje o tempo passa rápido demais. Muito rápido, tão rápido que nem dá tempo de tentar entender e processar o que foi vivido nas poucas horas atrás.

A molecada acorda cedo, vai pra escola. Chega em casa, almoça ao mesmo tempo que assiste TV, atualiza a conversa no WhatsApp, checa sua ‘TimeLine’ no Facebook, curte páginas dos amigos, coloca em dia as curtidas do Instagram e comenta de forma superficial – pois não compreende o contexto e complexidade – as reportagens da TV. Se perguntar quem dividiu a mesa com eles (os pais também estão brincando com o celular) é possível que nem tenham se dado conta, pois estão mais próximos dos amigos “virtuais” do que daqueles que compartilham o mesmo espaço, a mesma mesa e a mesma comida com eles. Mas o mais trágico nisso tudo é que os pais, também, estão sentados à mesa assistindo TV, atualizando a conversa no WhatsApp, checando sua ‘TimeLine’ no Facebook, colocando em dia as curtidas do Instagram e comentando de forma superficial as reportagens da TV.

Depois do almoço os pais irão para o trabalho e os filhos para a aula de computação, inglês, academia…

À noite ficarão no quarto em frente ao note navegando por sites que jamais se lembrarão, conversando pelo skype, jogando on line, até a hora de dormir.

No final de semana estes jovens dormirão a maior parte do tempo para se preparar para a noite, para a balada, onde pegarão todos e todas e beberão até cair.

Estes jovens entram muito cedo em sua vida pretensamente “adulta”. Já “brincam” de papai e mamãe antes mesmo de brincar de casinha. Estes jovens são lançados da infância, cada vez mais curta, direto para a vida “adulta”, passando sem piscar pela adolescência.

Qual estrutura e base estes jovens terão para superar conflitos pessoais? Comportam-se como adultos aos 13, 14, 15 anos e, em muitos casos são tratados como adultos, mão não são adultos, são crianças e adolescentes que não sabem absolutamente nada da vida, mas são cobrados como se soubessem de tudo e pior, acreditam que sabem sobre tudo. Eles querem ser aceitos, infelizmente querem ser aceitos em um mundo irreal de aparências!

Nesse “nosso” mundo do “parecer”, do “fake”, do consumo do corpo perfeito, da mentira perfeita, do dinheiro a qualquer custo, do consumir e exibir, da exposição sem limites, da falsa propaganda que vende vidas “perfeitas” somos “forçados” a fazer parte dessa sociedade de “mentirinha”.

Na sociedade do consumo do corpo perfeito, da vida perfeita, do ser perfeito, não existe espaço pra “ser humano”, não existe lugar “para sermos quem somos”, aqueles que exibem suas imperfeições, pois o imperfeito não cabe na aparência perfeita do mundo da mentira.

Todos nós queremos fazer parte de algo, ser parte de algo. Principalmente quando somos jovens. Nossa turma é nossa razão de ser e estar no mundo. Comportamo-nos como tribos, somos territorialistas e, fazer parte deste “algo” nos confere identidade. E aí para fazer parte desse mundo, o jovem segue a turma, mesmo em muitos casos, sem saber por que está fazendo isso, mesmo sabendo que muitas coisas que fazem são erradas, vale a pena correr o risco para “ser” parte da turma!

E neste mundo, empoeirado, intenta-se forçar o sujeito a aderir sem contestação ao padrão de ser e estar neste “mundo”, reduzindo sublimes e maravilhosas peculiaridades e particularidades, ou seja, nossas magníficas diferenças, em uma uniformidade que se encaixa na perfeita adequação a uma sociedade tamponada, uniforme, opaca, moralista, hipócrita. É a construção de um mundo baseado em mentiras e sem alicerce.

As inquietudes de nossa alma deveriam ser tratadas em nossas relações cotidianas, primeiro no seio carinhoso da família, depois nas escolas, nos relacionando com os professores e com os colegas de aula, com os amigos e também com os inimigos, com os namorados, patrões… Vivendo nossas experiências boas e más, aprendendo a entendê-las. Passamos por frustrações a aprendemos a superá-las. Este é o ciclo natural das coisas, é preciso viver para compreender a vida, viver todas as emoções, boas e más, sorrir, chorar, vencer, perder, amar, rejeitar, ser rejeitado, ter amigos, inimigos, construir alianças, quebrá-las… Cabe a família dar o suporte, fornecer o alicerce para que este ser, mesmo em épocas de tempestade, não desmorone. E na convivência cotidiana, construirá seu edifício interno, com janelas, portas, divisórias, que poderá balançar em muitos casos, mas jamais desabar se bem estruturado.

Mas como educar se os pais não têm “tempo” para ajudar estes jovens a construir sua estrutura?

Os filhos não têm “tempo” para escutar o que os pais têm pra dizer, talvez uma conferência familiar pelo Whats ou Skype, quem sabe…

Os amigos não têm todas as respostas

E talvez o mais triste para esta geração

O Google não tem todas as respostas.

Nossos jovens produzem eventos para postar, ser curtido e comentado. Situações são criadas para movimentar e dar liquidez ao “mercado” da popularidade, as “ações pessoais na bolsa virtual” crescem conforme o número de “posts, comments e likes”. Uma sociedade baseada no consumismo, que valora cada ser humano por seus bens de consumo e potencial de exibição do produto, passou a consumir avidamente “vidas”. Vidas são colocadas em exposição, para o deleite do consumidor e regozijo daquele que se expõe, pois quanto mais visto, mais é consumido, assim, ganha popularidade, consequentemente “poder”. Uma sociedade sem amor, sem paz e sem alma.

A alma não está sendo vendida para o diabo, mas sim, depositada em sites de relacionamento e eventos que precisam ser constantemente alimentados para nutrir o mercado. Se não existe um evento, tudo bem, faz-se imagem de si mesmo, pois a imagem é tudo neste mundo baseado no TER, SER não importa, o que vale é PARECER e, para parecer e aparecer é preciso exibir.

É imperativo que estes jovens compreendam que eles NÃO têm o valor do que é “consumido” ou do que consomem em imagens, exposição, “likes”, compartilhamentos e “comments”. O seu valor não é “subjetivo e líquido”, pois este “valor” está na forma como ele se constitui enquanto ser humano real. SER REAL não é nada fácil no mundo “líquido”, mas precisamos tentar, não apenas com os jovens, mas também em relação a nossas vidas, pois creio que se hoje estas moças e moços vivem dessa forma, não são nada diferente de quem os criou, pois nossa sociedade vive de ter e exibir, nossa juventude nada mais é do que reflexo de uma sociedade “adoentada”.


Pois nossas crianças já nascem sem tempo, extremamente competitivas, presas em escolas integrais que garantirão seu “futuro”. E dessa forma continuarão a lubrificar as engrenagens de nossa sociedade doente e “medicada” que confunde saúde com remédios, consumo com qualidade de vida, amor com bens de consumo. Estamos formando uma geração de egoístas, alienados e inconsequentes, que se preocupam mais com sua imagem do que em “ser” humano.

Quando somos jovens, acreditamos que sabemos tudo, que estamos prontos para a vida, mas viver nos ensina que a gente não sabe NADA sobre a vida. Compreender e aceitar que não somos e nunca seremos perfeitos, que simplesmente não sabemos de quase nada e nem temos certeza de tudo, nos torna mais abertos, mais humanos, mais doces, mais amorosos e tolerantes, com nós mesmos e com os outros. Mas para que nossos jovens possam compreender tudo isso, precisamos cria-los para que sejam mais humanos, colaborativos, criativos, transgressores, mas para isso, precisarão ser ensinados que serão alguém, não pela quantidade de bens que possuírem e exibirem, mas sim, por “ser” humano, “ser” como verbo de ação!

via: http://pensadoranonimo.com.br