3 de agosto de 2009

O Assassinato de Cristóvão

Animais de estimação são bastante importantes em muitas famílias. Mas na minha família isso nunca foi levado em consideração, talvez por não termos muitos recursos.
Mas certo dia de minha adolescência chega meu pai com um leitão. Ele o havia ganhado como presente de alguém que, provavelmente, visasse um favor seu. Meu pai era policial (PM) de um posto de fiscalização da receita estadual.
Esse leitão já tinha seu destino certo, quando chegasse a uma certa idade e peso, seria abatido e aproveitado como alimento. Parte consumida por nós e outra parte vendida pra vizinhança. Isso ficou ciente pra todos da casa. Nessa época, éramos seis, eu, papai, mamãe, duas irmãs e um irmão.
No entanto, aquilo que só parecia importante para as outras famílias, veio a se manifestar, logo que algum de nós designou o nome de Cristóvão para o leitão. E assim o chamávamos, e achávamos que ele (o leitão) até atendia e compreendia ordens como um animal comum de estimação.
Para que o animal engordasse e desse bom peso, conseqüentemente bastante carne e gordura pra se vender e consumir, havia um ritual ridículo que éramos obrigados a cumprir: obedecendo a um revezamento diário, cada um de nós (filhos) teria que coçar a papada do animal, não sei o porquê, mas ao que parecia para papai essa manha faria com que o porco engordasse. O Cristóvão parecia adorar, ficava deitado gemendo enquanto algum de nós lhe coçava a papada.
Mas apesar dessa situação, isso não era tão constrangedor se comparado ao dia em que o danado do porco desapareceu de casa. O afago na papado do Cristóvão ainda podia se engolir já que era no quintal de casa e os colegas e vizinhos não estavam vendo. Mas sair gritando pela rua o nome do porco, não era pra qualquer um; eu olhava pra um lado e pra outro e só chamava o porco pelo nome quando não via ninguém por perto ou quando via minha mãe ou meu pai, neste caso só pra fazer o “h”.
Caçada de lá, caçada de cá e o porco chegou ao tamanho e peso certo pra o abate. Marcou-se a esperada data, avisou-se aos parentes e vizinhos sobre o acontecimento. O dia marcado, se não me falha a memória, foi um sábado. Nós em casa aguardávamos com certa ansiedade, até mesmo um pouco de euforia. Sabe como é, menino não pode ver uma novidade que fica todo ouriçado!
Pra quem não sabe, o abate de um porco é quase um ritual, a começar pelo horário. As pessoas envolvidas nas atividades devem levantar muito cedo, bem antes do sol, pois isto garante que às oito horas, quando os compradores estiverem chegando, o porco já estará todo retalhado e preparado para a venda. Geralmente os homens é que tem o encargo do abate propriamente dito e mulheres tratam do miúdo, ou seja, o serviço sujo.
Meus pais já tinham todo esse esquema na cabeça, eles já haviam presenciado outros abates, no entanto para nós (filhos) esse seria o primeiro. Para abater um porco ou bode bastam dois homens: um segura as patas traseiras hasteadas enquanto o segundo dana um machado no meio da testa do bicho. Eu como era o mais velho dos filhos fiquei com a maldita missão de segurar as patas do bicho e meu pai manusearia o machado.
Seria o acontecimento do momento e ninguém queria se furtar à presença. Logo cedo todos estavam de pé, mesmo sem haver necessidade, pois bastavam eu, meus pais e uma tia para fazer os trabalhos iniciais que demorariam até o amanhecer. Porém, minhas duas irmãs e meu irmão, mais novos, estavam de pé pra ver.
Até aquele momento, parecia que todos estavam cientes que aquele ali era só um animal e que desde o início já teria aquele fim certo sabido. Porém, tudo mudou quando meu pai deu a primeira machadada na testa do Cristóvão. Todo mundo, inclusive minha mãe correu pra dentro de casa, uns foram pra suas camas de onde se ouvia os soluços do choro. Eu, pobre de mim, não podia sair; tive que ver o assassinato; eu era o segundo homem da casa e tinha a missão de segurar o porco, além do que já era adolescente e não pegava bem sair correndo pro quarto chorar a morte do porco.
Cristóvão foi resistente. A cada machadada que levava, soltava um som que parecia o granido de um animal pedindo socorro e a cada granido o povo escondido chorava mais. Foi triste!
Dizem que se um animal estiver sendo abatido e houver uma pessoa chorando por ele, ele demora mais a morrer. Não sei se é verdade; só sei que essa foi a primeira e ultima vez que um abate de um porco, lá em casa, teve platéia.
Carlos Heliy

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