1 de setembro de 2010

Dez

Eu crio a noite:
O céu sem estrelas coberto pela poluição.
Faz frio e a lua é como uma mancha por trás do tecido de nuvens.

Eu crio a cidade:
O trânsito segue lento pelos tentáculos de ruas.
O barulho se confunde com as conversas e as distâncias nunca são maiores do que a saudade.

Eu crio os sons:
Trechos de músicas, trechos de buzinas, trechos de vozes formam um mosaico sem imagem nenhuma.
A paz só pertence aos peixes e aos pássaros.

Eu crio o cenário:
A escuridão faz a rua parecer mais limpa do que realmente é.
A pressa se vê na cara de cada um.
Entre tudo o que existe, o sopro de uma brisa artificial é capaz de acalmar o que respira.

Eu crio as pessoas:
Elas andam em todas as direções.
Quase nenhuma sabe exatamente onde quer chegar.

Eu crio os amantes:
No caminho, um beijo apaixonado se confunde com um último adeus.
As lágrimas podem ser tanto de alegria quanto de tristeza.
Todas secam depois de algum tempo.

Eu crio a vida e a morte:
Pela porta do hospital entra uma mulher em trabalho de parto.
Uma ambulância carrega o peso do corpo de um acidentado.

Eu crio o tempo:
As horas machucam enquanto te transfiro pra minha imaginação.

Eu crio você:
Sentado na última mesa de um bar.
Imagino você entrando de todas as cores.

Eu crio o final:
O desespero de saber que tudo que acaba é o combustível para qualquer começo.

Texto: Alê Duarte - Fonte: //hajasaco.zip.net/

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