1 de dezembro de 2010

O Último Reino

(...) Então ele gritou de novo, mas desta vez sua voz estava frenética, aterrorizada, e eu me virei e vi dinamarqueses jorrando pelo campo por onde nosso exército tinha avançado. Era uma horda de dinamarqueses que deviam ter saído pelo portão norte da cidade para impedir nossa retirada, e deviam saber que iríamos recuar, porque afinal de contas parecia que eram capazes de construir muralhas e tinham-nas construído atravessando as ruas dentro da cidade, depois fingiram fugir da paliçada para nos atrair para seu terreno de matança, e agora fecharam a armadilha. Alguns dinamarqueses que vieram da cidade estavam montados, a maioria se encontrava a pé, e Beocca entrou em pânico. Não o culpo. Os dinamarqueses gostam de matar sacerdotes cristãos, e Beocca deve ter visto a morte, não desejava o martírio, por isso galopou para longe, junto ao rio.

E os dinamarqueses, não se importando com o destino de um homem quando tantos estavam presos na armadilha, deixaram-no ir.

É verdade que na maioria dos exércitos os homens tímidos e os que têm as armas mais débeis ficam atrás. Os corajosos vão na frente, os fracos procuram a retaguarda, portanto, se você conseguir chegar à parte de trás de um exército inimigo conseguirá um massacre.

Agora sou velho e tem sido meu destino ver o pânico tomar conta de muitos exércitos. Esse pânico é pior do que o terror de ovelhas presas numa fenda e sendo atacadas por lobos, mais frenético do que as sacudidas de um salmão apanhado numa rede e arrastado para o ar. O som do pânico deve rasgar os céus, mas para os dinamarqueses, naquele dia, foi o mais doce som da vitória.

E para nós foi a morte.

Tentei escapar. Deus sabe que também entrei em pânico. Tinha visto Beocca fugir para longe, ao lado dos salgueiros do rio, e consegui virar a égua, mas então um dos nossos homens tentou me agarrar, presumivelmente querendo minha montaria, e tive o espírito de desembainhar a espada curta e brandi-la contra ele às cegas. Cravei os calcanhares no animal, mas só consegui sair da massa em pânico e ir para o caminho dos dinamarqueses, e a toda volta homens gritavam e os machados e espadas dos dinamarqueses cortavam e giravam. O trabalho sinistro, o festim de sangue, a canção da espada, é como podem chamar, e talvez eu tenha sido salvo por um momento porque era o único em nosso exército que estava a cavalo, e uns vinte dinamarqueses também estavam, e talvez tenham me confundido com um deles, mas então um daqueles dinamarqueses gritou comigo numa língua que eu não falava. Olhei-o e vi seu cabelo comprido, sem elmo, o cabelo comprido e claro, a malha cor de prata e o riso largo no rosto selvagem, e o reconheci como o homem que tinha matado meu irmão. E, como o idiota que era, gritei contra ele. Um porta-estandarte vinha logo atrás do dinamarquês cabeludo, trazendo uma asa de águia num mastro comprido. Lágrimas borravam minha visão, e talvez a loucura da batalha tenha baixado sobre mim, porque, apesar do pânico, fui na direção do dinamarquês cabeludo e o golpeei com minha espada pequena, e sua espada aparou o meu golpe. A minha lâmina frágil se dobrou como a espinha de um arenque. Ela simplesmente se dobrou, e ele recuou sua espada para o golpe mortal, viu minha patética lâmina dobrada e começou a rir. Eu estava me mijando, ele estava rindo.

Bati nele de novo com a espada inútil e ele continuou rindo, então se inclinou, arrancou a arma da minha mão e a jogou longe. Em seguida me pegou. Eu estava gritando e batendo nele, mas ele achou tudo aquilo muito divertido, deitou-me de barriga para baixo sobre a sela, diante dele, e em seguida esporeou, entrando no caos para continuar a matança.

E foi assim que conheci Ragnar. Ragnar, o Intrépido, assassino do meu irmão e o homem cuja cabeça deveria enfeitar um mastro nas paliçadas de Bebbanburg, o earl Ragnar.

Trecho do Livro:
O ÚLTIMO REINO
PRIMEIRA PARTE DA SÉRIE AS CRÔNICAS SAXÔNICAS
BERNARD CORNWELL
Título original: The Last Kingdom
Editora Record

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