O Silo e o poder da memória seletiva
Na série da Apple TV “O Silo”, cerca de 10 mil sobreviventes vivem confinados em um silo subterrâneo gigante com 144 andares, acreditando que a superfície da Terra é tóxica e mortal.
Com certeza você já viu esse filme... e ai? O que diferencia essa série? Vem comigo...
Imaginem uma sociedade moldada e controlada ao longo de gerações, que não repete os conflitos do passado porque sequer conhece esse passado e não tem permissão para questionar quem decide o que ela pode saber. Só tem um “probleminha” ... esquecer os erros do passado significa NÃO aprender com eles. Se ninguém sabe o que aconteceu antes, ninguém entende ou questiona se algo der errado. Questionar o porquê das coisas é da natureza humana. O sistema tenta reprimir as pessoas que questionam e, quando perde o controle, apaga (deleta) a sociedade inteira!
Alguns anos (ou gerações, no caso da série) depois alguém encontra outra relíquia, outro registro, outra porta e começa tudo de novo. Então, você até pode apagar memórias, proibir relíquias, queimar livros, trancar portas e passar séculos dizendo para 50 sociedades que não existe nada além daquelas paredes. Mas é impossível apagar absolutamente tudo.
Sempre sobra um objeto, um registro, um comportamento, alguém disposto a fazer justamente a pergunta que o sistema não quer responder. A gente entra em guerra, disputa poder, se destrói, aprende alguma coisa e algumas gerações depois esquece e faz tudo de novo.
O “projeto Silo” trata a memória e a informação como se fosse uma doença que precisa ser contida antes que passe de uma pessoa para outra, de uma geração para outra ou de um silo (ou uma sociedade) para o outro.
Talvez a grande mensagem dessa série é que eles construíram 50 sociedades tentando descobrir como criar uma humanidade que não repetisse o passado, mas passaram séculos apagando justamente aquilo que poderia ajudá-los a não repetir esse passado.
Então, a humanidade talvez não precise esquecer para começar de novo. Talvez ela precise justamente lembrar. Lembrar de como chegou até ali, de quem tomou as decisões, de quais direitos foram sendo tirados pelo caminho e de quantas vezes o medo foi usado para convencer as pessoas a abrir mão da própria liberdade.
E uma das coisas mais assustadoras em Silo é justamente o poder que o medo tem sobre as pessoas. Ele pode nascer de um perigo real, ele pode ser exagerado ou até cuidadosamente fabricado por quem tem interesse em controlar o que as pessoas fazem.
E quando você controla aquilo que uma população teme, fica muito mais fácil controlar também aquilo que ela aceita.
Conhecer a história não garante que a gente nunca vai repetir os mesmos erros, mas ajuda a reconhecer padrões, principalmente quando velhas ideias aparecem de novo com uma justificativa nova. em Silo, poucas coisas são mais perigosas do que uma pergunta extremamente simples.
Por quê?
No fim das contas, uma sociedade saudável não necessariamente é aquela em que todo mundo pensa igual ou em que ninguém questiona nada, mas sim uma sociedade em que as pessoas continuam tendo o direito de discordar, de perguntar e de escolher.
Alguma coisa nisso lhe soa familiar?
Reflita.
"Um povo que não conhece a sua história está fadado a repeti-la" - Edmund Burke

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