7 de janeiro de 2010

A História que o Gênesis não contou

- Ai, meu Deus. Eu não acredito, Noé.
- O que foi agora, Eva?
- Essa chuva está acabando com minha escova. Vou parecer um espantalho.
- Estamos no meio de um dilúvio. O que esperava?
- Você entalhou tanta madeira e foi incapaz de improvisar um toldo.
- Por favor, entre na arca. Seu marido está ao lado das zebras.
- Que se dane meu marido. Ele fica largado em qualquer lugar.
- Ele entrou sem reclamar...
- Ah, sim. Agora ele virou anjo. Não é por causa dele que estamos aqui?
- De certa forma.
- Ele que tivesse controlado seus desejos carnais. E acho que aqui só vai piorar.
- Como assim?
- Eu sempre suspeitei que ele também é adepto à zoofilia.
- Que absurdo!
- Na dúvida, fique de olho nas pobres ovelhas.
- Ficarei. Agora a senhora poderia colaborar?
- Mas me fala uma coisa. Deus tinha que resolver destruir a terra justamente hoje?
- Qual a objeção quanto à data?
- Hoje tem o último capítulo da novela, além de ser o dia oficial da manicure.
- Acredito que Deus esteja preocupado com coisas maiores.
- Acho que Deus é um menino mimado que, quando contrariado, pega sua bola e acaba com o jogo.
- Como servo do Senhor, devo discordar de sua afirmação.
- Sim, sim. Servo. Não deve te pagar nem o 13o.
- Não entremos em detalhes, senhora.
- Eu até entro nessa arca, mas com uma condição.
- Qual?
- Preciso de um canto com tomada.
- Mas a eletricidade ainda não existe.
- Se vira, Noé. Sem meu secador de cabelos eu não sou ninguém.
- Ok, vamos tentar improvisar.
- E mais uma coisa...
- Ai, meu Deus...
- A sua mulher e as amigas delas também estão aí?
- Sim. Estão sob minha proteção.
- E elas sabem jogar tranca?
- Tranca?
- A dinheiro. É o único jogo que vale a pena.
- Vou checar.
- E já me arranja troco para 50.
- Sim, senhora.
- Acho que é isso. Estou pronta.
- Vamos, a chuva está apertando.
- Já estou sentindo o cheiro de bolor que vai ficar aqui dentro.
- Mas como reclama!
- Pensei que a paciência fosse uma de suas virtudes.
- Eu estou há 12 horas limpando bosta de elefante. Minha paciência já foi para o inferno.
- Imagina se Deus te ouve falando nesse tom.
- Ninguém vence com a senhora, não é?
- Desculpe, Noé. É que a menopausa me deixa um pouco alterada.
- Entendo. Mas tente controlar seus hormônios.
- Falando nisso. Acho que esqueci minha soja. Dá pra voltar?
- Não, Eva. Eu preciso que você entre agora.
- Não era nem para estarmos aqui. No meio destes porcos e leões.
- Deus resolveu estender o convite a vocês.
- Ah, sim. E aposto que nem comprou Coca Light.
- Temos a hóstia e o vinho.
- Prefiro o jejum. Aquele vinho sangue de boi é uma porcaria.
- Mais alguma dúvida?
- Quando você me libera?
- Só depois que a chuva parar, eu soltar a pomba e surgir no céu o arco-íris redentor.
- Nossa, muito cafona! Pior do que desfile de escola de samba de São Paulo.
- Eu sei. Mas é o que deu pra arranjar com a verba disponível.
- Que miséria. Talvez fosse melhor deixar a terra destruída.
- Seria o ideal. Quem sabe mexendo nas estruturas da arca, as sementes...
- Eu estava brincando, Noé.
- Perdão, perdão. Pensei alto.
- Você precisa de férias.
- Concordo. Mas, afinal, a senhora fica ou vem?
- Eu vou, eu vou. Cadê o baralho? Meninaaaaaaas...
- (sussurrando) Eu juro que mato essa mulher. Adão que se contente com as ovelhas...
fonte: http://hajasaco.zip.net

Nenhum comentário: