12 de agosto de 2010

Personagens Históricos IV: Austin Spare

AUSTIN SPARE caminhava entre os espaços místicos e as dimensões do subconsciente. Não raras vezes, ele demonstrava uma genialidade artística incomum, enquanto vivenciava as muitas faces ocultas da magia e do sobrenatural como se estivesse sobre o fio de uma navalha, sem jamais cair nas divisões maniqueístas e racionais. Ao contrário do que pode parecer, Spare não era indeciso. Muito pelo contrário. Ele seguiu por caminhos que muitos de seus conhecidos consideravam perigosas demais para o ser humano comum.

Filho de um policial londrino, o ocultista veio ao mundo na cidade Snowhill, em uma hora incerta, segundo ele próprio dizia. Não sabia para que lado estava olhando Janus, o deus romano de duas faces, no momento em que lhe deu à luz: se de frente ou de costas, pois nasceu na exata passagem de 1886 para 1887.

Curiosamente, Spare representa exatamente isso: uma grande genialidade aliada a um espírito intenso e forte, perturbado por visões que o levavam a seguir instintos e idéias pouco convencionais para sua época.
Durante toda a vida ele se empenhou em uma intensa busca espiritual, mas não através da espiritualidade que vemos nos meios místicos hoje em dia. Sua busca seguia na direção da magia pura e prática, dos prodígios e dos poderes ocultos.

Essa procura surgiu bem cedo, do contato que Spare teve com uma velha mulher, supostamente descendente de uma linhagem das bruxas de Salem que os inquisidores falharam em exterminar. Ele se dirigia a ela de forma carinhosa, como sua segunda mãe, muito embora a chamasse de sra. Peterson quando a mencionava em suas obras. O mago dizia que através de seus ensinamentos havia conseguido ultrapassar a compreensão que se tinha da verdadeira magia na época. Segundo seus relatos, a sra. Peterson possuía poderes que raríssimas pessoas desenvolvem durante a vida - poderes que a ioga tradicional chama de siddhis. Devido a sua pobre educação, ela possuía um vocabulário restrito, que geralmente se limitava ao básico. Porém, quando procurada para fazer previsões e não tinha palavras para descrever o que estava vendo, ela simplesmente materializava o objeto em um canto da sala. Isso aumentou ainda mais o interesse de Spare pelo oculto, motivando-o a buscar um sistema mágico que permitisse a realização de tais feitos.

Esse interesse já existia desde sua adolescência, quando ele usava um processo denominado "sigilos" - símbolos, grafismos ou mantras que o permitiam dominar forças mágicas, elementais e outras energias mais sutis.

Com isso, Spare podia influenciar fenômenos naturais e uma série de outros acontecimentos. Esse fato é lembrado pelo poeta Yeats em seu O Tremor do Véu, no qual descreve como o mago desenhava os eventos que desejava ver realizados. Na época, esse procedimento era chamado "magia instintiva".

Com 17 anos, Austin Spare demonstrou seu controle sobre esse tipo de magia usando "sigilos" para provocar uma intensa chuva em um dia ensolarado, a pedido do reverendo Robert Benson, escritor de textos e novelas de cunho místico. Outros eventos considerados estranhos ocorreram quando, a convite de Benson, Spare realizou um teste com Everard Fielding, secretário da Sociedade de Pesquisas Psíquicas. Nesse teste, o mago provocou, por meio dos seus "sigilos", a realização do desejo de Fielding, que ficou extremamente impressionado com os poderes demonstrados.

Austin Spare também tinha um talento incrível para a arte, num período de intensa criatividade artística em toda a Europa, destacando-se e sendo comparado aos grandes expoentes de sua época, inclusive aclamado como o mais jovem artista a expor na Royal Academy.

Chegou a trabalhar como artista de guerra, retratando a situação médica dos campos de batalha - algo de acordo com os parâmetros que nortearam seus quadros, repletos de imagens de morte, dor e prazer. As pinturas e desenhos sempre revelavam mais do que simples traços e representações, mostrando seu empenho em descobrir e praticar uma forma diferenciada de magia, na qual a sexualidade e o mundo dos espíritos se entrecruzavam.

Além disso, o feiticeiro também foi um precursor dos desenhos e escritas automáticos, mas de forma diferenciada ao que vemos hoje em diversos círculos místicos nos quais entidades são canalizadas: seu sistema antecipava o movimento surrealista como técnica literária e artística. Sua obra foi influenciada por pensadores como Nietzsche (1844-1900) e Hans Vaihinger (1852-1933).

Este último é o autor de Philosophie des Als Ob (Filosofia do Como Se); ele dizia que os humanos nunca poderiam conhecer a realidade fundamental do mundo e, assim, constroem sistemas de pensamento e depois supõem que eles correspondem à realidade. Em outras palavras, nos comportamos "como se" o mundo é compatível com o modelo que imaginamos. Essa visão seria o ponto central do entendimento de Spare sobre o mundo.

Em seu trabalho artístico, o mago também mantinha comunicação com forças espirituais, afirmando ver de relance os seres que entravam em contato com ele. Por diversas vezes, Spare colocou no papel as suas impressões depois de ter contatos com essas energias, e muitas ilustrações mostravam claramente atos sexuais e outras manifestações de cunho erótico, que acabaram por estigmatizá-lo como um maníaco.

A arte de Austin Spare sempre retratou o mundo místico e o mundo do prazer. Em vida, ele publicou O Livro do Prazer (1913), em que descrevia o uso das energias sexuais na magia e na obtenção dos desejos. Essa obra é extensamente ilustrada com desenhos que mostram várias vezes o que parecem ser espíritos de mulheres e homens em atividades sexuais.

Em 1956, data de sua morte, o mago deixou uma obra inacabada da qual restou tão somente um manuscrito conhecido como Grimório Zoético de Zos, no qual estariam todas as receitas e idéias que a sra. Peterson lhe teria legado, além de fórmulas e sistemas criados por ele no seu caminho mágico.

Apesar de toda a sua genialidade artística, Spare angariou um grande número de inimizades devido à temática de morte, horror e erotismo nos quadros que produzia, além de sua fama de libertino. No fim da vida, ele estava tentando vender seus desenhos nos ba- res de Londres.

A marca deixada por Spare não está em sua personalidade controvertida ou nas obras artísticas, mas em sua doutrina mágica, que nasceu e floresceu no ambiente mais propício da história mágica moderna.

Suas idéias, influenciadas pela intensa atividade literária e cultural da época, abriram novos caminhos para os estudiosos do oculto. Ele se juntou a Aleister Crowley na sociedade secreta Austrum Argentum (A. A.), mas a união dos dois não durou muito - um dos principais pontos de discordância entre ambos relacionava-se à estruturação do saber mágico. Para Spare, tudo o que era complicado demais para se entender ocultava a verdade mágica, e os objetivos da magia deveriam ser práticos. Já Crowley era um aristocrata versado em várias línguas e possuía profundos conhecimentos de cabala hebraica e dos complexos rituais de outras ordens das quais fazia parte. O embate natural levou-os a caminhos separados, mas Crowley considerou Spare seu aluno até a morte, especialmente porque o sistema criado por Spare ba-seava-se em outros trabalhos de Crowley, como o Líber al Vegis, o Livro das Mentiras e Equinox.

Spare desenvolveu várias ferramentas para atingir seus fins mágicos, criando um alfabeto que denominou de "alfabeto do desejo", ou "alfabeto sagrado", feito a partir de uma série de desenhos com características claramente sexuais, usado para atingir estados alterados de consciência e realizar seus "sigilos".

Ele sentia que o universo de deuses e espíritos que permeia nossa realidade é, em muitos casos, criação de nossos desejos mais primevos, nascidos de uma sexualidade contida no inconsciente. Ele vislumbrou a forma de ativar essas forças, que chamou de atávicas. Seu sistema de magia recebeu o nome de zos-kia (zos é o próprio corpo; kia é a crença primordial no deus interior). Em outras palavras, Spare dizia que nós somos deus e que todos os deuses externos só existem no momento em que nós os criamos, podendo, portanto, serem mortos. É uma magia baseada em dois princípios: a vontade e a imaginação.

Certa vez, dois amigos seus insistiram para que ele demonstrasse a existência dos seres atávicos, pedindo que invocasse um deles naquele instante. Spare tentou demovê-los da idéia, explicando que essas formas vêm do inconsciente e que podem ser nada amistosas, além de possuírem um poder ainda desconhecido. Mas eles insistiram e Spare preparou um "sigilo", que posicionou em sua fronte. Em seguida, caiu num torpor. Alguns minutos depois, segundo as testemunhas, a sala se encheu de uma fumaça esverdeada e nauseante. Dois olhos e uma face não-humana se formaram num canto da sala. As pessoas começaram a gritar e a pedir que Spare mandasse aquilo embora. De repente, tudo sumiu e ele voltou a si, reafirmando que o que haviam visto era algo que vinha das profundezas do inconsciente.

Sem dúvida, Austin Spare foi um gênio, tanto nas artes quanto na magia. Seus trabalhos eram requisitados por todas as grandes personalidades do mundo mágico da época, como Gerald Gard ner (1884-1964), o criador da Wicca, Kenneth Grant, o grande expoente da Thelema de Crowley, e muitos outros.

Seu sistema mágico sobreviveu e hoje é conhecido como "magia do kaos", pois suas bases estão alinhadas com os trabalhos mais avançados da física e da matemática atuais, como a matemática do caos e a teoria dos fractais.

Seguindo sua própria filosofia, e ao contrário de Crowley, Spare nunca almejou ser adorado pelos que o seguiriam com o sistema zoskia, algo que o diferencia da grande maioria dos grandes magos do século 20.

Para Saber Mais: Renascer da Magia, Kenneth Grant, Madras Editora
fonte: espiritualismo.hostmach.com.br

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