17 de março de 2011

Eu, Homem Digital

Por: Ricardo Murer

A Revolução Industrial causou brutais transformações sociais, expandiu as cidades, aumentou o consumo de bens e criou a classe operária fazendo surgir o homem-máquina. Conectados às unidades de produção por horas a fio, sem conforto, longe de suas terras e famílias, homens e mulheres eram (e em alguns países ainda são) parte dos motores, das engrenagens, do óleo e da fumaça das indústrias.

Faz algumas décadas, vivemos agora a Revolução Tecnológica, o microchip, a Internet, a robótica, a ubiquidade computacional e a crescente relação intrínseca e inseparável do digital dos aparatos e ferramentas sobre as quais passamos nosso dia-a-dia. A “sociedade da informação”, dos bancos de dados, fluxos de bits e imagens artificiais está cada vez mais próxima de nós.

Ora porque nos lançamos dentro do ciberespaço como abelhas no mel, ora porque ela projeta estrutura binária sobre nossa realidade (Kinect, Realidade Aumentada, Wii, cinema 3D…).

O fato é que a fronteira entre o real e o virtual está desaparecendo e eu, você, a natureza e tudo mais está se desmaterializando, estamos nos tornando “ativos digitais”. Se no passado era fácil saber onde começavam as máquinas e onde estavam os homens-máquinas, o mesmo não se pode observar na sociedade virtualizada, onde tudo está reduzido a bits.

O homem-digital é indestrutível, transmutável e reprodutível.

Indestrutível porque o digital desconhece o desgaste do tempo. Livros digitais estão sempre novos, páginas sempre brancas, textos sempre legíveis. Assim como o livro virtualizado, nosso corpo digital não experimenta o envelhecimento, a morte.

Transmutável porque posso mudar meu perfil, minha identidade, a cor dos meus olhos, o que bem entender. Não existe limite para minha forma, meu aspecto físico.

Reprodutível porque não estou limitado ao espaço único do meu corpo, posso copiá-lo com total perfeição, sou um e muitos, clones navegando por mares digitais sob o meu comando, com uma biomecânica de movimento livre das leis da gravidade. Este “eu digital” é repleto de potencialidades que nunca tive. Fascinante, perpétuo, livre das limitações da dura realidade que vivemos.

Estaria neste grande fluxo migratório do real para o virtual o futuro de nossa sociedade? Mais: seríamos capazes, uma vez transformados em entidades binárias, avatares, de construir uma nova civilização, uma história sem guerras, drogas, violência ou abuso de poder?

Esta reflexão irá nos levar para ainda mais longe do que nosso corpo virtualizado, chegando a nossa mente, nossos sentimentos, nossa essência. Mais do que desmaterializar o corpo, será preciso mudar nossa forma de pensar e agir, algo que até agora, até mesmo a revolução tecnológica ainda não conseguir realizar.
[Webinsider]

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