6 de maio de 2009

A Era de Kali Krishna

No hinduísmo o tempo se desdobra em um padrão cíclico, indo de uma era dourada até uma era de trevas e ressurgindo em uma nova era dourada. Essas eras são chamadas Yugas e tem um caráter de ligação, atrelando os seres à Roda do Tempo (Kalachackra).
As quatro eras são:
1. Satya-Yuga: Era da Verdade. Também conhecida Krita-Yuga, pois nela tudo é bem feito.
2. Treta-Yuga: Onde a Verdade e a virtude são reduzidas.
3. Dvapara-Yuga: Onde a Verdade e a virtude são ainda mais reduzidas.
4. Kali-Yuga: Onde a Verdade e a Lei (dharma) foram perdidas por completo.
Assim como o ano é dividido em quatro estações, sendo cada uma delas portadoras de características próprias, as yugas ou eras também possuem características particulares. O conjunto de 4 yugas é conhecido como Chaturyuga e compreende um período de quatro milhões e trezentos e vinte mil anos (4.320.000). Essas características próprias de cada yuga são chamadas em sânscrito de Yugadharma onde yuga é ‘era’ e dharma é ‘lei’, ‘ação correta’. Segundo a tradição hindu, cada yuga apresenta 5 yugacharyas, que são seres de altíssima elevação, destinados a manter a prática do Dharma ou Lei Divina na humanidade. Cada yugacharya por sua vez envia à humanidade outros seres (santos, profetas, sábios e gurus) para verterem a Luz da Consciência sobre a humanidade e dar continuidade na manutenção do Dharma. De forma sucinta, descrevo abaixo as características de cada uma das eras:
• Satya Yuga
Toda Chaturyuga ou período de quatro eras tem seu início na Satya Yuga. Na Satya Yuga a Luz da Consciência é auto-manifesta. Assim, todos os seres podem ver a presença divina sem esforço, todos vivem em paz nessa época de pouco ou nenhum sofrimento. Porém, nessa época os níveis de conquistas espirituais eram quase nulos, pois todos já possuíam um grau semelhante de desenvolvimento. Não havia intermediários entre Deus e os homens e as práticas eram basicamente constituídas de mediações ou Dhyana. Apenas por uma afirmação mental, clara e lúcida (chamada sankalpa em sânscrito) entravamos em contato com a Luz da Consciência e, através dessa Luz, tudo se revelada. Num ambiente como esse, a iluminação e sabedoria eram o estado natural de todos e é por isso que havia pouco ou quase nenhum desnível espiritual.
• Treta e Dwapara Yuga
Podemos colocar essas duas eras em patamares similares, pois em ambas temos como características a eminência de intermediários na nossa relação com a Luz da Consciência, como santos, anjos, deuses, etc. Nessas eras, a Luz da Consciência ainda está presente de forma intensa, mas já há o desenvolvimento de outros métodos de interação com o divino, como os mantras, mandalas, rituais e sacrifícios. Na Treta Yuga essas ferramentas eram simples e sua execução também. Na Dwapara Yuga os rituais ficam mais complexos e a estruturação do conhecimento ganha mais força. Na Treta Yuga a visão da Luz da Consciência estava intimamente relacionada à visão ou darshan de sua deidade pessoal, do guru ou de um santo ou sábio. Assim, o enfoque para a realização divina estava começando a se direcionar para o aspecto pessoal, ou seja, o mais almejado era se tornar sábio, santo ou profeta, visto que o ideal da integração divina estava cada vez mais difícil.
• Kali Yuga
Apesar de muitos dizerem que a Kali Yuga é a idade negra, onde o sofrimento é brutal e a ignorância é a base, é nela que a possibilidade da liberação se estabelece. Nas eras precedentes, as experiências eram números menores, pois as variações emocionais também eram. Tudo era mais ordenado, portanto não havia tanta necessidade de “movimento”. Já na Kali Yuga, a Luz da Consciência se tornou difusa. Apesar de ela ainda estar presente de forma intensa, ela se apresenta a nós de forma “nublada”. Na era de Kali o nosso relacionamento com a Luz da Consciência se tornou tão confuso, tão irregular que a presença de um guru ou mestre espiritual se fez essencial. No entanto, até mesmo essa presença se tornou rara, visto que muitos dos pretensos mestres também estavam confusos em suas percepções divinas. Pela diversidade de experiências, surgiu também a diversidade de abordagens na percepção do divino. Isso de fato é algo positivo, pois foi por conseqüência deste fato que os grandes mestres passaram a pregar a realização direta, o contato direto com o divino. Assim, paradoxalmente, a era de maior confusão é aquela onde a realização direta é mais pregada e difundida, pois na Satya Yuga esse contato direto era natural, não havendo uma sistematização ou busca para esse contato. Do ponto de vista evolutivo, é na Kali Yuga que estão as melhores chances, as melhores oportunidades de crescimento. Krishna é considerado um dos Yugacharyas da era de Dwapara. No entanto, ele foi o responsável pela transição entre Dwapara e Kali Yuga. Krishna veio para manter a prática do Dharma na era de Kali, dando um novo ânimo para a espiritualidade.
Segundo a tradição, Krishna viveu cerca de 4.300 anos atrás. Sua morte é tida como o início da Kali Yuga. Rama é um dos Yugacharyas da Treta Yuga. Enquanto Rama pregava a ordem e o cumprimento irrestrito do dever, Krishna veio nos mostrar a necessidade da ponderação, pois no início da Kali Yuga as coisas não eram tão claras e certas como em Treta Yuga.
Rama jamais fez uma mulher chorar, Krishna fez várias chorarem. Rama nunca ia para a guerra sem motivo. Krishna provocava a guerra. Enquanto Rama é o veículo da virtude, Krishna é a expressão da ação. Rama era sereno. Krishna por várias vezes mostrava um temperamento explosivo e às vezes sagaz.
Com esses exemplos fica fácil perceber a fluidez do dharma em cada era. Enquanto que em Tetra Yuga o Dharma estava claro, límpido, na era de Kali Krishna precisava “movimentar” as energias espirituais nas pessoas, para que cada uma pudesse ver o Dharma por si só.


por Eiki - Instituto de Pesquisas Psíquicas Imagick

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