5 de outubro de 2010

Os Avestas

“Aquele que ficar do lado justo, dele será a glória futura”.
Zoroastro (628-521 a.C.)

A mais antiga civilização conhecida na região do antigo Irã, ao norte da Mesopotâmia, data do século XX a.C. Apesar de sucessivas ocupações pelos povos medas e persas, uma certa homogeneidade cultural é preservada até a invasão muçulmana, no século VII da era cristã. Sua religião, o zoroastrismo ou masdeísmo, teria influenciado a religião judaica à época da sua diáspora, no exílio da Babilônia, principalmente com sua doutrina dos anjos e demônios, e convertido Histaspes (ouVishtaspa), pai do imperador arquemênida Dario I, conquistando grande influência no povo. A religião dos antigos iranianos foi registrada nos Avestas, conjunto de textos sagrados escritos por discípulos de Zoroastro, após sua oficialização no reinado de Dario I (522-486 a.C.).

Os Avestas mencionam a existência de um homem que foi legislador e conquistador, tendo dado a seu povo uma religião e uma lei. Ele tinha o nome de Yima (Ram) e Zoroastro disse que ele foi o primeiro homem a quem Ormuz, o Deus vivo, falou. No Ramayana, epopéia hindu, o encontramos com o nome de Rama (cerca de 16.000 anos atrás). Nas tradições egípcias sua época corresponderia ao reino de Osíris, o senhor da luz, que antecede ao reino de Ísis a rainha dos mistérios. Na Grécia chama-se ao mesmo antigo herói com o nome de Dionísio (Baco).

Conta que Ram rebelou-se contra as sacerdotisas que praticavam magia negra à época, com sacrifícios humanos e rituais sangrentos. Salvou todo o seu povo delas e de uma epidemia que o estava dizimando, dando origem a um novo culto e a uma festa da “nova salvação”, o “Navidad” que coincidia com o início do ano. Sua religião consistia de um culto a inúmeros deuses e espíritos da natureza. Fez prodígios (segundo os Avestas) como surgir mantimentos no deserto, utilizando uma espécie de maná, cujo aproveitamento fez cessar à epidemia do povo – semelhante a Moisés. Conquistou toda a Pérsia, na área ocidental da Ásia (entre o Cáucaso e o mar Cáspio ao Norte, as montanhas da Índia a Leste, o golfo Pérsico e a Arábia ao Sul, e o Mediterrâneo e o deserto da Líbia até o Egito a Oeste), e depois marchou contra a Índia dominando-a. Criou um sistema de castas não rivais (sacerdotes, guerreiros, camponeses, trabalhadores e artesãos), que se converteram posteriormente em fonte de ódios.

O reino persa cresceu e foi governado por Reis que eram também os seus sacerdotes e magos (os Reis magos dos Evangelhos), até que surgiu Zoroastro. Nascido da união entre um sacerdote, que tinha ingerido uma bebida sagrada, o haoma, a qual continha a energia de um anjo que tinha nela se inserido, e uma virgem. Concebido assim, quando nasceu sorriu em vez de chorar. Segundo os Avestas, nascido numa família nobre e sacerdotal, foi tirado de sua mãe e abandonado.

De acordo com escritores gregos como Exodus, Aristóteles (384-322 a.C.) e Hermudorius, Zoroastro teria vivido em cerca de 6.000 a.C.. Outras fontes como o alemão Haug e o francês Edouard Schuré (1.841-1.929) falam em 2.000 a.C.. Mas o mais aceito é que tenha vivido no século VI (628-521 a.C.). Reza a lenda que Zoroastro desde pequeno demonstrava grande sabedoria e queria saber Quem criara o mundo e porque ele era repleto de polaridades. As respostas dos sacerdotes não o convenciam e por isso questionou o poder deles, a tradição eligiosa de barganha com os “deuses” e decidiu procurar as respostas por si mesmo. Retirou-se às montanhas conhecendo grandes sábios até que teve a visão do próprio Criador.

Zoroastro viu o próprio Ahura-Mazdâ envolto em luz e ao som de trovões, na montanha sagrada de Albordj, entre os seus trinta e quarenta anos, e tornou-se o profeta de uma nova religião, anunciada pelo próprio Deus. Reformou a religião persa declarando-se inimigo dos falsos deuses. Realiza uma reforma religiosa: conservando os gênios ou espíritos bons, procurou espiritualizar, transformando todos os antigos deuses em maus espíritos. As divindades secundárias são excluídas e Ahura-Mazdâ é elevado a Deus único, passando a ser incentivada a prática da virtude através da capacidade humana de livre-arbitrar.
O Zoroastrismo ensina a existência de um Ser ou Princípio do bem – Ormuz (ou Ahura-Mazdâ) e um princípio do mal – Ahrimán (ou Angra Mainyu). Ambos emanações do Eterno, o Ser Supremo. Ormuz, o rei da luz (ou do fogo), criou o mundo puro, mediante a palavra, do qual era conservador e juiz. Começou criando sete espíritos chamados Amshapands (Imortais Sagrados), que rodeavam o seu trono e eram seus mensageiros para os espíritos inferiores e homens, modelos e exemplos de perfeição: Vohu-Mano (Espírito do Bem, entidade que cuida dos animais), Asa-Vahista (Retidão Suprema, divindade do fogo), Khsathra Varya (Governo Ideal, divindade do céu e dos metais), Spenta Armaiti (Piedade Sagrada, divindade da terra), Spenta Mainyu (Espírito Criador, divindade que cuida dos homens), Haurvatat (Perfeição, divindade da água) e Ameretat (Imortalidade, divindade das plantas).

Depois criou sucessivas hostes de espíritos puros, com missões diferentes para criar o mundo. Ahrimán (ou Angra Mainyu), a segunda emanação do Eterno, também foi criado puro mas sua ambição e soberba fez o Ser Supremo condená-lo a permanecer 12 mil anos nas trevas, tempo suficiente para que a batalha do bem contra o mal terminasse, com a vitória daquele. Ahrimán, conseguiu criar inúmeros maus espíritos que encheram a Terra de miséria, mal estar e pecado. Eram os espíritos maus da impureza, da violência, da crueldade, os demônios do frio, da doença, da pobreza, da esterilidade, da ignorância, da morte e o mais perverso de todos, Petash, o demônio da calúnia. Spenta Mainyu seria o Espírito Santo de Ahura-Mazdâ, em oposição direta a Angra Mainyu, dualismo que se tornou o conflito entre asha (a Verdade, a energia vital) e druj (a Mentira) de onde provém toda a criação.

Ormuz criou o mundo em seis etapas: primeiro a luz terrena e depois, sucessivamente, a água, a terra, o reino vegetal, os animais e finalmente o homem, tudo através de um simples ato de sua vontade e sua palavra. Criou o homem e a mulher (Meshia e Meshiana) e Ahrimán seduziu a mulher e depois o homem levando-os ao mal, pervertendo a natureza do homem, assim como também a dos animais que eram inócuos e se transformaram em ferozes ou nocivos. Ahrimán e seus perversos espíritos foram vencidos e expulsos em todas as partes, mas iniciou-se uma guerra entre o bem e o mal.

Transcorridos os doze mil anos, quando a Terra se vir livre de todos os espíritos maus, surgirão três profetas que estarão ao lado dos homens ajudando-lhes com seus poderes e ciência, e devolvendo à Terra sua beleza original. Os bons espíritos e os homens de bem voltarão à região dos bens eternos e imutáveis, menos Ahrimán com todos os seus demônios e seguidores humanos, que afundarão num mar de metal derretido e em estado de liquefação. A lei de Ormuz imperará triunfante. Ormuz comanda as divindades luminosas e benévolas, como Mithra, deus-pastor e deus da luz, protetor das chuvas, mais tarde associado ao Sol, e Anahita, deusa das fontes e da fecundidade.

Zoroastro, ou Zaratustra, é o Verbo encarnado dos caldeus, medas e persas, profeta e reformador religioso e social do século VI a.C.. Segundo alguns escritores, ele teria sido discípulo de Elias e haveria predito a ida de três Reis magos a Jerusalém, para adorar ao Cristo recém-nascido, guiados por uma estrela (como visto no apócrifo “Evangelho árabe da Infância”). Religião centrada na pureza de coração e na prática das virtudes, diz que as boas palavras, os bons pensamentos e as boas ações abririam o caminho para o paraíso, onde o bem suplantaria definitivamente o mal. Defendia a existência do divino em cada ser humano.

Zoroastro combateu a aristocracia, questionou os sacerdotes e propôs a separação entre o governo e o líder espiritual. Esse, escolhido por eleição, deveria ter como obrigação a tarefa de salvar os oprimidos. Perseguido pelos nobres e sacerdotes, Zoroastro e seus seguidores migraram para o reino de Vishtaspa, príncipe dos medos, onde pôde pregar e converteu o príncipe, que decidiu apoiar e divulgar a doutrina de Zoroastro. Ciro, o Grande, no século VI a.C. tornou o zoroastrismo a religião oficial da Pérsia, sem impô-la ao povo, o que fez com que, ao passar dos anos, a doutrina se mesclasse com elementos do velho politeísmo. A deturpação foi tanta que a religião ganhou um outro nome: zurvanismo. Conta a lenda que após uma vida longa, Zoroastro foi consumido por um raio e ascendeu aos céus.

Viam o fogo, como símbolo da força da vontade humana, mas também a terra e as águas eram sagradas. Para não poluí-las, não enterravam seus mortos, considerados impuros. Os cadáveres eram deixados em torres para serem devorados por aves de rapina. Adotavam preces e invocações, e penitências e purificações. Ofereciam sacrifícios animais a Ormuz, mas também pastos, flores, frutos, perfumes e vestidos. O Zend-Avesta, escrito em “avéstico” (iraniano arcaico), língua semelhante ao sânscrito dos Vedas hindus, compõe-se de cinco livros sagrados: o Vispered (textos litúrgicos), o Yasna (livro litúrgico com os gathas, 17 hinos arcaicos com as palavras de Zoroastro), o Vendidad (leis rituais e civis), os Yasht (hinos a heróis e espíritos benignos) e os Jeshts (coletânea de textos diversos). O mais interessante é o segundo que constitui a parte principal dos Avestas. Muitos documentos registram a estadia de Jesus (Hazrat Isa) na Pérsia, com suas curas e pregações. O volume I do Farhang-Asafia, cita que ele era conhecido como Yuz Asaf, que quer dizer “líder dos purificados”, nome derivado de suas curas a leprosos. Outros livros, como o Ahwali Ahaliau-i-Paras, escrito por Agha Mustafai, confirmam Yuz Asaf e Jesus como sendo a mesma pessoa.

O zoroastrismo sobrevive, de uma maneira deturpada, até hoje em populações do interior do Irã e na religião dos parsis, grupo que fugiu da antiga Pérsia para a Índia após a invasão muçulmana. A comunidade parsis, instalada na região de Bombaim, reúne cerca de 100 mil pessoas. Veneram o fogo, praticam longas abluções (lavagens) e purificações à beira-mar e preservam o ritual de deixar os mortos sobre os lugares altos, chamados de torres do silêncio.

fonte: www.orion.med.br

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