30 de dezembro de 2008

Admirável Mundo Novo

“Ó maravilha!
Que adoráveis criaturas aqui estão!
Como é belo o gênero humano!
Ó Admirável Mundo Novo
Que possui gente assim!”
Shakespeare – Tempest

Vendo bem, parece que a Utopia está mais próxima de nós do que se poderia imaginar (...). Hoje parece praticamente possível que esse horror se abata sobre nós dentro de um século. Isto se nos abstivermos, até lá, de nos fazermos explodir em bocadinhos. Na verdade, a menos que nos decidamos a descentralizar e a utilizar a ciência aplicada não com o fim de reduzir os seres humanos a simples instrumentos, mas como meio de produzir uma raça de indivíduos livres, apenas podemos escolher entre duas soluções: ou um certo número de totalitarismos nacionais, militarizados, tendo como base o terror da bomba atômica e como conseqüência a destruição da civilização (ou, se a guerra for limitada, a perpetuação do militarismo), ou um único totalitarismo internacional, suscitado pelo caos social resultante do rápido progresso técnico em geral e da revolução atômica em particular, desenvolvendo-se, sob a pressão da eficiência e da estabilidade, no sentido da tirania-providência da Utopia. É pagar e escolher.

“Os mais fortes juramentos são como palha para o sangue em fogo: seja mais abstêmio, senão dê boa noite a seu voto.”
Shakespeare – Tempest

O homem envelhece; tem o sentimento radical da fraqueza, da languidez, do desconforto, devido à idade avançada; assim se sentindo, pensa estar doente e acalenta seus temores com a idéia de que sua situação angustiosa se deve a alguma causa particular, da qual espera se recuperar, como de qualquer doença. Vã imaginação! Essa doença é a velhice; e é uma moléstia horrível. Diz-se que é o medo da morte e do que vem depois dela que leva os homens a se dirigirem à religião quando avançam nos anos. Mas minha experiência me deu a convicção de que, inteiramente à parte de quaisquer desses temores imaginários, o sentimento religioso tende a desenvolver-se à medida que envelhecemos; desenvolver-se porque, tendo-se acalmado as paixões, estando a imaginação e a sensibilidade menos excitadas e menos excitáveis, a razão é menos perturbadora em seu trabalho, menos ofuscada pelas imagens, desejos e distrações que a absorviam; então Deus emerge como que detrás das nuvens; a alma sente, vê, volta-se para a fonte de toda a luz; volta-se natural e inevitavelmente; porque quando começa a desaparecer tudo o que dava vida e encanto ao mundo das sensações, quando a existência material já não é mais sustentada pelas impressões exteriores e interiores, sente a necessidade de um apoio em alguma coisa que permaneça e não logre – numa realidade e, numa verdade absoluta e eterna. Sim volta-se par Deus; porque seu sentimento religioso é tão puro, tão delicioso para a alma que o experimenta, que compensa todas as outras perdas.

“Aterrado o senso de propriedade,
Pois que já não era o mesmo indivíduo,
Duplo nome de uma só natureza,
Que não se chamava dois nem um.
E depois ficou confusa a razão,
Vendo aumentar em si a divisão.”
Shakespeare – The Phoenix and the Turtle

- “Meu caro amigo - disse Mustafá Mond -, a civilização não tem a menor necessidade de nobreza ou de heroísmo. Essas coisas são sintomas de incapacidade política. Numa sociedade convenientemente organizada como a nossa, ninguém tem oportunidade de ser nobre ou heróico. É necessário que as coisas se tornem essencialmente instáveis para que semelhante ocasião se possa apresentar. Onde houver guerras, onde houver juramentos de fidelidade múltiplos e divididos, onde houver tentações às quais é necessário resistir, objetos de amor pelos quais é preciso lutar ou que é preciso defender, aí, manifestamente, a nobreza e o heroísmo têm um sentido. Mas hoje já não há guerra. Toma-se o maior cuidado para evitar amar exageradamente seja quem for. Não há nada que se assemelhe a um juramento de fidelidade múltipla, está-se de tal modo condicionado, que ninguém pode deixar de fazer o que tem a fazer. E se aquilo que há a fazer é, no conjunto, tão agradável, deixa-se uma tão grande margem a um tão grande número de impulsos naturais que não há verdadeiramente tentações a que seja necessário resistir. E se alguma vez, por qualquer infelicidade, acontece, por esta ou aquela razão, algo de desagradável, pois bem, há sempre o soma para permitir uma fuga da realidade, há sempre o soma para acalmar a cólera, para fazer a reconciliação com os inimigos, para dar paciência e para ajudar a suportar os dissabores. Outrora não se podiam conseguir todas estas coisas senão com grande esforço e depois de anos de penoso treino moral. Agora tomam-se dois ou três comprimidos de meio grama, e é tudo. Pode-se trazer conosco, num frasco, pelo menos metade da própria moralidade. O cristianismo sem lágrimas, eis o que é o soma”.

“Dormir, nada mais.
Dormir, sonhar, talvez.
E nesse sono da morte,
Que sonhos?...”
Shakespeare – Hamlet

Trechos do livro Admirável Mundo Novo
Aldous Huxley

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