30 de dezembro de 2008

V de Vingança

“Vi veri veniversum vivus vici”
(Pelo poder da verdade, eu, enquanto vivo, vencerei)

...O pano de fundo se rasga, os cenários desaparecem e o elenco é devorado pela peça. Há um assassino na matinê. Há cadáveres na platéia. Os produtores e atores também não estão certos se o show terminou. Com olhares oblíquos, esperam suas deixas... mas a máscara apenas sorri.
Não se deve contar com a maioria silenciosa, pois o silêncio é algo frágil, um ruído alto... e está tudo acabado. O povo está amedrontado e desorganizado demais. Alguns podem ter tido a oportunidade de protestar, mas foram como vozes gritando no deserto. O barulho é relativo ao silêncio que o precede. Quanto mais absoluta a quietude, mais devastadoras as palmas. Nossos mestres não ouvem a voz do povo há gerações... e ela é muito mais alta do que eles se recordam.

A ordem involuntária gera insatisfação, mãe da desordem, prima da guilhotina. Sociedades autoritárias são como a formação de crostas de gelo intricadas, mecanicamente precisas e, acima de tudo, precárias. Sob a frágil superfície da civilidade, o caos se convulsiona... e há locais onde o gelo é traiçoeiramente fino. A autoridade, quando detecta o caos pela primeira vez em seus calcanhares, fará coisas mais vis para preservar a fachada da ordem... mas, como sempre, ordem sem justiça, sem amor ou liberdade, que não pode deter a queda de seu mundo para o holocausto. A autoridade permite dois papéis: o torturador e o torturado. Ela transforma as pessoas em manequins amorosos que temem e odeiam, enquanto a cultura mergulha no abismo. A autoridade deforma completamente a educação das crianças, zomba de seu amor... O colapso da autoridade permeia o leito, as diretorias, a igreja e a escola. Tudo é mal gerido. A igualdade e a liberdade não são luxos a serem levianamente desprezados. Sem elas, a ordem não pode persistir antes de alcançar grandes profundezas.

...Ele se arrependerá de sua promiscuidade, o vilão que roubou meu único amor, quando souber que há muitos anos... eu me deito com o seu.

Eu te amo, mas por que amas a lei? Todos sabem que ela é uma prostituta que pessoas não necessitam cortejar; que vilões a distorcem e depois ignoram.

Compreendendo a melodia, podemos ouvir a música que há na vida, desde os primeiros trinados... até seus acordes de encerramento.
Com a ciência as idéias podem germinar num leito de teorias que auxiliam seu crescimento, mas nós, como jardineiros, devemos estar atentos... porque algumas sementes são de ruínas... e os botões mais iridescentes são geralmente os mais perigosos.

A anarquia ostenta duas faces, a de criadora e de destruidora. Destruidores derrubam impérios e, com os destroços, os criadores erguem mundos melhores.

Trechos da HQ V de Vingança de Alan Moore e David Lloyd

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