24 de dezembro de 2008

Contos do Cargueiro Negro

Trechos da HQ Watchmen
de Alan Moore e Dave Gibbons
“Em delírio, eu vi o navio do demônio, com suas negras velas se agitando contra o céu ensolarado das Antilhas, e senti de novo um forte odor de pólvora, cadáveres e guerra.
Cabeças se inclinavam sobre a proa e gritavam: ‘é inútil! Está tudo perdido!’
Ondas escarlates espumavam ao meu redor, horrivelmente quentes... no entanto, a tripulação do cargueiro ainda gritava: ‘mais sangue! mais sangue!’
O casco da embarcação ameaçava me atingir. Em desespero, eu mergulhei nas sórdidas vagas púrpuras, oferecendo minha alma desgraçada ao julgamento do Deus todo-poderoso.
Acordando do pesadelo, me encontrei numa lúgubre praia entulhada de cadáveres.
(...) Fiquei de pé e chorei, incapaz de suportar meu destino. As lágrimas cessaram. Apesar de tudo eu ainda estava vivo... e sabia que não podia acontecer nada pior”.
“(...) Louco por companhia, eu falava com meus companheiros mortos. Ouvi suas vozes propagando-se sob a embarcação... abafadas...
O murmúrio dos mortos... melancólico, amargo, de uma tristeza sem fim... Más notícias intermináveis saem das bocas para onde os peixinhos correm.
Conversamos... meus amigos putrefatos e eu... sobre a vida e seu termo. Sobre a terrível sentença que paira acima de todos nós.
Nossa maldição atormentava os mortos encharcados, dominando seus diálogos borbulhantes. Eles falaram e um paraíso, onde todos nós vivemos e perecemos, condenados por nossos pecados a este pandemônio que chamamos de mundo.
Se a vida é um inferno, então a morte é nossa única libertação. Eu não suportava mais... e, mesmo temendo um fim tão negro e sufocante, saltei em direção ao horror... Mergulhando numa fria e úmida mortalidade”.

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